Setembro 21 2011

O papa Bento XVI inicia na quinta-feira (22 de Setembro) a sua primeira visita de Estado à Alemanha, com passagens por Berlim, a capital, Erfurt, bastião do catolicismo no leste do país, e Freiburgo, sede da conferência episcopal germânica.

Os pontos altos da visita deverão ser o discurso no parlamento federal, em Berlim, e uma Festa da Eucaristia no Estádio Olímpico da capital alemã, perante 70 mil crentes, no dia da sua chegada.

Em mensagem difundida na televisão pública ARD, no sábado à noite, Bento XVI manifestou a sua satisfação por ter sido convidado a falar no Bundestag, e garantiu que a visita "não será turismo religioso, nem um mero espetáculo".

 

O líder da igreja católica destacou ainda a importância do seu encontro, na pátria do reformismo luterano, com representantes da igreja protestante, que tem sensivelmente o mesmo número de crentes que a igreja católica na Alemanha, perto de 25 milhões de pessoas.

 

Esta visita de Bento XVI é considerada a mais difícil de três passagens pelo seu país natal desde que foi eleito papa, em abril de 2005.

 

Como papa, Bento XVI esteve em Colónia para presidir às jornadas mundiais da juventude católica, no verão do mesmo ano, e em visita privada à sua terra natal, Marktl am Inn, na Baviera, em finais de 2006.

 

O semanário Der Spiegel dedica a capa desta semana à visita do papa, e é contundente, afirmando que a euforia à volta da eleição de Bento XVI na Alemanha, há seis anos, se transformou entretanto, em desilusão.

 

“A esperada mudança não teve lugar, os círculos conservadores ganharam mais influência na igreja, que não tem respostas para importantes questões do mundo moderno”, afirma-se no artigo de fundo.

 

A influente publicação alemã sublinha que, logo após a sua chegada a Berlim, o papa será recebido pelo Presidente da Alemanha, Christian Wulff, que é divorciado.

 

Encontrar-se-á mais tarde com a chanceler Ângela Merkel, casada em segundas núpcias, com o burgomestre de Berlim, Klaus Wowereit, homossexual assumido, e com o ministro dos negócios estrangeiros Guido Westerwelle, também homossexual.

 

“Nenhum deles se considera um pecador, todos se consideram representantes de uma sociedade moderna”, acrescenta o Der Spiegel.

 

As críticas à doutrina sexual da igreja assumirão particular expressão numa manifestação marcada para quinta-feira à tarde, no centro de Berlim, que deverá reunir cerca de 20 mil pessoas, à hora a que Bento XVI estará a discursar no parlamento.

 

Cerca de 100 deputados dos partidos da oposição anunciaram que não estarão no hemiciclo para ouvir a intervenção de Joseph Ratzinger, preferindo juntar-se aos protestos de rua contra o papa.

 

Apoiantes de Bento XVI promovem, por sua vez, uma “Marcha pela Vida”, pouco antes, também no centro de Berlim.

 

A polícia tomou medidas para separar os dois grupos, e para evitar confrontos, a pensar no que sucedeu no mês passado, durante a visita do papa à Espanha.

 

As outras etapas da viagem de Bento XVI, em Erfurt e em Freiburgo, entre sexta-feira e domingo, deverão ser menos agitadas, e incluem, nomeadamente, uma audiência com o ex-chanceler Helmut Kohl.

 

Segundo a imprensa alemã, Bento XVI receberá também durante a visita vítimas dos abusos sexuais em instituições católicas alemãs, notícia que, no entanto, o Vaticano se recusou a confirmar.

 

 

notícia original: Jornal «i»

publicado por: Rumos Novos - GHC às 21:28

Setembro 05 2011

Um novo estudo sobre a violência contra lésbicas, gays, bissexuais e transexuais (LGBT) está previsto para ser lançado em Dezembro deste ano. O objectivo é ampliar o uso do direito internacional no combate à discriminação. Mais de 70 países ainda possuem leis que expõem milhões de pessoas ao risco de serem presas ou condenadas à pena de morte em função da sua condição sexual ou identidade de género.

 

Há mais de 17 anos, a ONU conseguiu a primeira vitória no combate a essas leis. Após receber uma denúncia do activista dos direitos humanos Nicholas Toonen sobre a legislação em vigor no Estado Australiano da Tasmânia que criminalizava a homossexualidade, o então Comité de Direitos Humanos da ONU (hoje Conselho) estudou argumentos prós e contras, tendo, por fim, decidido que o país estava violando as suas obrigações internacionais e os direitos humanos de Toonen.

 

De acordo com a Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay, a decisão foi um separar de águas e permitiu uma revolução silenciosa. “Desde 1994, mais de 30 países avançaram no sentido de abolir a ofensa à homossexualidade. Alguns criaram novas leis dando grande protecção contra a discriminação baseada na orientação sexual ou identidade de género”.

 

A pesquisa foi aprovada por 23 países em Junho deste ano no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. O órgão determinou que fossem detalhadas as “leis e práticas discriminatórias e actos de violência contra indivíduos com base em sua orientação sexual e identidade de género, em todas as regiões do mundo.”

 

O texto diz ainda que o Conselho realizará um painel de discussão com base nos fatos contidos na pesquisa e promoverá um “diálogo construtivo e transparente sobre a questão das leis e das práticas discriminatórias”.

publicado por: Rumos Novos - GHC às 18:21

Agosto 31 2011

O irmão brasileiro, Rafael, do movimento irmão da Diversidade Católica, presente nas recentes Jornadas Mundiais da Juventude, teve a «ousadia» de colocar ao Bispo brasileiro D. Orani, a seguinte questão:

 

«… meu nome é Rafael, sou brasileiro, nascido e criado no Rio de Janeiro. Sou católico há 8 anos e gay há 24... gostaria de saber… como a nossa Igreja (Católica), a casa que me proporcionou a fé e experiência com o Ressuscitado pode… negar que existem gays na Igreja... Faço parte desta casa, desta grande família que é o cristianismo promovido e edificado pela Igreja Católica, por isso não posso me calar perante discursos homofóbicos que vêm do alto atingindo a base que é o alicerce desta Igreja (se ela ruir, todo o resto cai juntamente) por isso, assumindo-me perante estes jovens aqui presentes no seu silêncio peço uma postura da Igreja… quanto a isso. Obrigado, paz e bem, Rafael.»

 


E, em plenas Jornadas Mundiais da Juventude, perante padres do Rio, Portugal, Espanha e de milhares de jovens, D. Orani, respondeu:

 

«… não podemos negar que há homoafectivos na nossa Igreja, até porque a nossa Igreja é um grande corpo e Cristo como autor da fé chama todos a viver essa sua diversidade e pluralidade. Eu como bispo não posso negar a vivência de Igreja, a comunhão de fé a ninguém. Todos aqueles que proclamam o Credo e têm as suas experiências com o Cristo, e O reconhecem como Senhor têm espaço e lugar na nossa Igreja. Essa é uma pequena expressão do que é o Reino de Deus, a Nova Jerusalém.  Cristo convida todos.  Aqueles que se sentem cativados respondem a esse chamamento, sejam homossexuais ou heterossexuais. A Igreja está aqui para todos… não me atrevo a fechar as portas da Igreja àqueles que querem viver a Igreja independentemente da sua orientação sexual…»

 

Que o Espírito Santo continue a sua missão salvífica de mostrar à hierarquia um verdadeiro Cristo, como O Caminho, A Verdade e A Vida.

 

Artigo original: aqui

publicado por: Rumos Novos - GHC às 02:17

Agosto 22 2011

Que espaço têm os homossexuais dentro da Igreja Católica? Passados que estão dez anos após a introdução na Alemanha, a 1 de Agosto de 2001, da lei sobre as uniões civis entre pessoas do mesmo sexo, a questão divide os bispos alemães.

 

De um lado, estão aqueles que, como o arcebispo de Munique e Freising, Reinhard Marx, está convencido de que os homossexuais "fazem parte" da comunidade eclesiástica e também são bem-vindos ao trabalho paroquial. Do outro lado, estão aqueles que, como Franz-Josef Overbeck, que, além de ser o bispo de Essen, também é o bispo militar da Bundeswehr, está convencido de que a homossexualidade representa "um pecado".

 

 

"Todos aqueles que querem participar, abrir-se ao Evangelho e unir-se à comunidade da Igreja são bem-vindos", disse Marx (foto à direita) em entrevista ao jornal Süddeutsche Zeitung. "Não posso abençoar uma relação homossexual, mas posso rezar pelas pessoas que o peçam. Já seria um grande passo se todos fossem integrados, o que ainda não foi alcançado em todos os locais", explicou, admitindo erros na forma como a Igreja, até agora, se dirigiu aos homossexuais.

 

"Nem sempre a Igreja encontrou o tom certo". Uma frase que também pode ser vista como uma autocrítica: há poucas semanas, por ocasião do primeiro encontro do chamado "Processo de diálogo" sobre o futuro da Igreja em Mannheim, Marx havia falado, referindo-se aos homossexuais, sobre "pessoas fracassadas". Uma frase que havia levantado críticas e que o arcebispo depois corrigiu. Na sua entrevista ao Süddeutsche, Marx reafirmou, no entanto, a posição da Igreja, segundo a qual a sexualidade deve ser pensada dentro de uma relação matrimonial entre homem e mulher.

 

É diferente a abordagem de Overbeck (foto à esquerda), que, com os seus 47 anos, é o mais jovem bispo da IgrejaCatólica na Alemanha. "A homossexualidade é um pecado", dissera ele em Abril de 2010, num talk-show na televisão pública alemã, apresentado pela conhecida jornalista Anne Will (homossexual declarada). Desde então, a sua posição não mudou.

 

Nessa ocasião, lembrou Overbeck numa entrevista ao jornal Süddeutsche Zeitung publicado dois dias depois da entrevista com Marx, "manifestei aquela que é a convicção da Igreja Católica: a homossexualidade praticada é objectivamente pecaminosa, embora as pessoas homossexuais devam ser tratadas com respeito". Overbeck lembrou ainda ter debatido na residência episcopal com alguns representantes das associações de gays e lésbicas. No final, lembrou, "não chegamos a acordo".

 

 

 

 

Artigo original aqui

publicado por: Rumos Novos - GHC às 21:31

Agosto 09 2011

A maior organização mundial de psicólogos tomou a sua posição mais firme até à data em apoio da total igualdade no casamento...

 

O órgão de formulação de políticas da Associação Americana de Psicologia (APA) aprovou por unanimidade, 157 votos a favor e nenhum contra, esta resolução.

A Associação, com mais de 154000 mil membros, de há muito que apoio os direitos iguais para as pessoas homossexuais, baseada na pesquisa das ciências sociais sobre a orientação sexual. Agora os psicólogos da APA – citando o aumento sempre crescente de estudos sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, bem como ao aumento da discussão sobre o tema – levam este apoio para um outro patamar.

A resolução aponta para numerosos estudos recentes, incluindo descobertas de que «muitos homossexuais, tal como acontece com os seus pares heterossexuais, desejam formar relações de compromisso íntimas e duradouras e têm sucesso em realizá-las».

Acrescentou ainda o porta-voz da APA que «evidências emergentes sugerem que as campanhas… para negar aos casais do mesmo sexo o acesso ao casamento são uma fonte importante de stress para os homossexuais e têm um efeito negativo no seu bem-estar psicológico».

A última vez que a APA se tinha pronunciado sobre orientação sexual e casamento foi em 2004.

 

Depois de já se ter pronunciado contra as terapias reparadoras

O pronunciamento a favor do casamento igualitário dá-se precisamente dois anos após a APA ter reclamado o abandono das «terapias reparadoras» da homossexualidade, depois de ter passado em revista todas as evidências acumuladas e determinar que não é possível apoiar que um paciente possa mudar a sua orientação sexual através da terapia, enquanto que os danos potenciais de tais intervenções podem ser graves, incluindo depressão e tendências suicidas.


 

publicado por: Rumos Novos - GHC às 20:32

Agosto 09 2011

Como assumir ao mesmo tempo a sua orientação sexual e a sua crença em Deus? Como é que a Igreja acolhe e acompanha estas pessoas que, diariamente, ou através da sua caminhada de vida, descobrem uma atracção, um amor por uma pessoa do mesmo sexo? Mesmo que o assunto permaneça tabu, nascem iniciativas, desenham-se aberturas…

 

Xavier e Benoît, um casal e uma comunidade de Vida Cristã (espiritualidade inaciana)

«Como casal desde há sete anos, permanecemos profundamente ligados à Igreja. Estamos activos no seio da CVX [1], ou na nossa paróquia. De facto, respeitamos infinitamente a posição da Igreja sobre este assunto, até quase que a compreendemos, se considerarmos que ela não pode ter outro discurso. Vivemos simplesmente, acolhemos aquilo que a vida nos «reservou» sem que o tivéssemos escolhido, a não ser a escolha de assumir, como a parábola dos talentos: a nós de fazer frutificar o que nós somos, de dar amor onde estamos e de testemunhar essa fé que nos foi passada. Essa fé, tentamos transmiti-la aos três filhos de Xavier, quando eles estão em casa, de férias, tentamos partilhá-la o mais simplesmente na CVX, o mais profundamente possível, sem provocações e sem chocar… essa fé, exprimimo-la aquando da cerimónia do nosso Compromisso: nesse dia, em 2010, fizemos a escolha de exprimir o nosso amor mútuo, que voltamos resolutamente para todos aqueles que partilham o nosso caminho (crianças, famílias, amigos, etc.). Esta cerimónia, que criámos em torno daqueles que nos são mais próximos, não a quisemos como uma simulação de casamento, isso não faria qualquer sentido e, fiéis à Igreja, não desejamos colocarmo-nos contra Ela. Confiámos, simplesmente, o nosso projecto, o nosso futuro, a Deus, confiando-lhes as orações dos nossos entes queridos» Xavier e Benoît.

 

"Fiel à minha fé, apesar da minha consternação"

«Sim, sou homossexual e católico. E praticante em ambos os casos… porque não teríamos o direito, também nós, de amar e ser amados em plenitude de sentimentos? Não pedimos compaixão mas a assunção de uma realidade biológica. Um dia, em confissão, um padre recusou-me a absolvição devido ao único de lhe ter confessado que era homossexual… Que humilhação para mim! Se acrescentarmos a isso o facto de a minha situação nunca ter sido verdadeiramente aceite pela minha família, o facto de levar uma vida pública bastante intensa e o facto de habitar na província, facilmente se compreenderá que nem sempre é fácil ser homossexual em 2011. Os costumes evoluem, mas não as mentalidades, pelo menos ao mesmo ritmo. Apesar dos períodos de turbulência e de dúvida, permaneci fiel à minha fé e encontro-me igualmente envolvido na minha paróquia. Eu acomodo-me, mas luto pela minha condição, pensando que o amor de Deus é mais forte que a maldade dos homens.» Olivier.

 

"É preciso intervir junto dos pais e dos alunos "

«A 4 de Agosto de 1990, o nosso quarto filho, Jean-Baptiste, morreu aos 26 anos, no nosso apartamento, devido a uma doença, diagnosticada em 1981 nos Estados Unidos e tida então como o «cancro gay»: a SIDA. Três anos antes, em vez do Serviço militar, ele era professor na Universidade de S. José, em Beirute, em plena guerra civil. Não foi uma bala perdida que o atingiu, mas o VIH. Ele dizia que tanto se sentia atraído por raparigas como por rapazes… A doença de Jen-Baptiste deu-me a conhecer que as pessoas homossexuais têm comportamentos tão variados como aqueles que se dizem heterossexuais, ainda que nós, concidadãos, não vejamos frequentemente senão a ponta do iceberg. Por exemplo a entreajuda e a fidelidade ao longo dos anos, podem ser vividas entre dois homens de forma tão intensa, senão mais intensa, que entre casais heterossexuais. Isto não deveria continuar a ser ignorado pela minha Igreja Católica, reservando a palavra «matrimónio» para os casais formados por um homem e uma mulher. Realço um documento notável do ensino católico (Maio de 2010) sobre a «educação afectiva relacional e sexual nos estabelecimentos católicos de ensino». «Um número significativo de homens e mulheres têm tendências homossexuais profundas. Eles não escolhem a sua condição homossexual. A educação aborda, pois, aqui, uma questão extremamente sensível. Formas diversas de homofobia podem ferir gravemente as pessoas… O educador deve, portanto, velar particularmente na articulação entre o que pode dizer sobre a diferença sexual no respeito incondicional pelas pessoas». Para fazer isso seria desejável que existissem mais pessoas que se formem, de modo a intervirem junto dos pais e dos alunos. Um pai de família.

 

"Os Bispos devem ter a questão em consideração "

«Escutei o apelo de Deus aos 12 anos, numa idade em que descobri igualmente qual era a minha sexualidade. Nunca a vivi de forma errada, pois fui criado num meio muito ecuménico. Vi que a reflexão antropológica levada a cabo pela outras Igrejas permitia ver o problema de outro modo. À minha volta, no entanto, depressa me apercebi dos danos que o silêncio fazia junto de muitos padres, seminaristas, que se torturam sobre esta questão. Os bispos devem ter a questão em consideração para os membros interessados do clero e propor-lhes um lugar de partilha. Depoiis, é necessário familiarizar as comunidades com esta questão e permitir aos que o desejem de se encontrarem para melhor viverem a sua presença em comunidade. Membro de uma grande ordem religiosa durante vários anos, decidi abandoná-la quando me apaixonei, tendo explicado a razão da minha partida. Uma verdadeira renuncia, pois era um religioso feliz. Este «sair do armário» institucional deu origem a uma verdadeira tempestade na minha ordem. Há um medo terrível da verdade. Sugeriram-me, antes, que ficasse, mas que me calasse, preocupando-se sobretudo com o que as pessoas iriam pensar. Acontece que os fiéis apoiaram-me e compreenderam-me. Por outro lado, nunca coloquei em causa a minha vocação sacerdotal; a minha orientação sexual não me impede de viver e servir. Actualmente, encontrei um ministério pois fui acolhido numa paróquia. O bispo conhece a minha história. Tenho um amigo que escolhi e perante o qual estou comprometido, mas renunciei a uma vida sexualmente activa no casal. É um caminho que enche e completa a minha vida. Nunca me senti tão equilibrado.» François, 42 anos, pároco.

 

"Para uma abordagem de aceitação da minha encarnação"

«Desde os meus doze anos que penso que sou mau. Aos vinte anos mandei a religião passear. Deus não poderia querer nada comigo, pois eu era homossexual. Alguns anos mais tarde fui agarrado pela sua mensagem de amor. Ele amava-me como eu era. Então, preparei-me para uma vocação religiosa, que era muito forte, sem voltar a colocar-me a questão da minha homossexualidade. Encontrava-me, provavelmente, numa forma de rejeição. Depois tive uma relação com um seminarista e tomei consciência que, de facto, o problema ultrapassava-me largamente. Com todas estas questões, cheguei a um retiro de escolha de vida. Aí, Deus colocou-me, de forma esmagadora, frente às minhas contradições. Foi na experiência espiritual que compreendi que deveria ter plenamente em consideração quem eu era… não tinha avançada nada durante todos estes anos! Hoje, coloquei de parte o meu projecto religioso – que, por um lado me permitia regular o meu problema – para encetar o que considero ser uma abordagem razoável para aceitar a minha encarnação. A Igreja deve retirar a homossexualidade da marginalização. Se continua a caricaturá-la como uma vida de perdição, ela empurra-nos para o silêncio e a uma vida instintiva oculta que não queremos!»  Luís, 28 anos.

 

"Uma bomba na nossa família"

«Quando o nosso filho nos anuncia que é homossexual, é uma bomba que cai na nossa família! Pensamos que estamos abertos a muitas situações, descobrimos que, precisamente, essa não pode ser verdadeiramente abordada com os restantes membros da família pois é tabu. Os outros filhos não percebem o nosso bloqueio e sentimo-nos tão infelizes que nem encontramos a coragem, nem as palavras para falar com o cônjuge (a nós foram precisos seis meses para verdadeiramente discutir e constatar que nada podíamos fazer em relação à nossa filha de 23 anos). Quando falo com ela, ela diz-me que nunca foi tão feliz na vida, mesmo que tenha ficado apaixonada sem nunca ter antes nenhuma tendência. Se eu lhe digo que ela talvez não seja homossexual e que ele deveria procurar viver outras situações, ela responde que é assim mesmo e que eu deveria discutir o assunto com os meus amigos, a minha família. Sou incapaz de falar com quem quer que seja, pois não sinto nenhum orgulho na nossa situação familiar, no momento em que todos os nossos amigos estão casados e com filhos!»  MB.

 

"Finalmente associei o meu espírito ao meu corpo "

«Sou cristã, homossexual e feliz: a minha orientação amorosa é diferente, mas não inferior. Portanto, interiorizei desde muito nova que «os homossexuais não fazem parte do plano de Deus». Para fazer parte do plano de Deus, realizei uma clivagem mental: amava Deus, os outros, era uma católica apaixonada pelo Evangelho, era uma enfermeira apaixonada pelos doentes e a tratá-los mas não era uma mulher. Casei-me com um cristão muito meigo. Mas na aliança perfeita homem-mulher-Deus, vivi uma espécie de desolação. Foi um casamento de morte, uma relação contra a minha natureza, que me deixou gravemente doente. Prefiro morrer de amor na eternidade, pois era incapaz de amar, dizia. De facto, era o meu amor que não estava no sítio certo. Encontrei uma mulher. Foi essa a minha verdade. Deste modo, a descoberta e a aceitação da minha homossexualidade foram espectaculares. Associei, enfim, a minha fé, a minha sexualidade, o meu espírito e o meu corpo. É a separação que nos torna doentes. Perante Deus, o meu primeiro amor, pude juntar as peças espartilhadas, tornar-me naquela que sou, desculpabilizada, acalmada e abençoada. Cada baptizado é chamado ao amor e à dádiva.» Sophie.

 

O centro Tiberíade, uma família para os doente de SIDA

«Tendo acompanhado toda a minha vida, no quadro das minhas actividades profissionais, pessoas homossexuais maioritariamente marcadas pela infecção pelo VIH, encontrei-me com naturalidade como administrador e acompanhante dum centro de acolhimento de dia para essas mesmas pessoas, quando chegou a minha idade de reforma. O Centro Tiberíade, organizado pela Diocese no coração do 7.º bairro de Paris e criado pelo Monsenhor Jean Marie Lustiger a pedido da Madre Teresa. Uma equipa de voluntários e de elementos permanentes que acolhe, durante cinco dias por semana, pessoas para quem a vida foi madrasta, muitas vezes isoladas e doentes. Perto de 7000 refeições, preparadas por uma equipa discreta de voluntários, são servidas todos os anos. As pessoas acolhidas romperam frequentemente todos os laços com as suas famílias. Encontram no Tiberíade um ambiente caloroso e atencioso onde podem, com naturalidade, partilhar o seu dia-a-dia, expor as suas angústias e encontrar uma escuta e ajuda psicológica e terapêutica. Há à disposição uma biblioteca, jogos, actividades artísticas, visitas, estadias «no verde», sem esquecer uma iniciação à fé cristã e a presença regular dum capelão com uma possível participação na missa de sexta-feira à tarde. Vive-se em Tiberíade uma fraternidade real, ao ponto de numerosos acolhidos afirmarem diariamente «a minha família está aqui».  Michel.

 

Ser católico e transgénero

«Embora a Igreja comece timidamente a ter em consideração a homossexualidade, parece ignorar completamente ou mesmo rejeitar as pessoas transgéneras ou transexuais. Foi desta forma que não tendo encontrado, até há quatro anos, nenhum lugar na Igreja para me acolher com a minha especificidade, caminhei durante mais de 15 anos com um grupo de homossexuais cristãos: «Devenir Un En Christ (DUEC)», que me ajudou, mas não respondia plenamente à minha «diferença». Descobri a Comunidade Betânia. O único lugar da Igreja, que eu saiba, que se preocupa com o CCI (Cruzamento dos Cristãos Inclusivos) das pessoas transidentitárias que, de momento, me acompanha no plano espiritual e me ajuda a conciliar Fé e Transidentidade. Isabelle.

 

Pais de homossexuais

«É indispensável e urgent dar liberdade de expressão aos pais de homossexuais que se encontram frequentemente em grande sofrimento e aos jovens que não sabem para quem se voltar quando se apercebem que são homossexuais.

 

De facto a Igreja (de facto a Igreja é o quê?) trata o tema de forma expedita, como já o fez em relação à contracepção, mesmo quando tem o cuidado de não condenar as pessoas.

 

O Magistério denuncia frequentemente este estado (pois não é uma escolha, é um estado de facto) como uma desordem (no melhor), uma perversão (no pior) e somente tem como proposta «a vida na castidade».

 

O grupo «Reflexão e Partilha» no qual participamos reúne pais preocupados com este problema e jovens, frequentemente em casal, elaborou um folheto informativo sobre o tema «A Orientação sexual e a vida cristã» e deseja que sejam formados outros grupos e que estes proponham às autoridades eclesiásticas uma palavra apaziguadora e construtiva. Claude e Jacques.

 

Texto orignal: Elisabeth Marshall e Joséphine Bataille

Órgão: La Vie

Tradução: José Leote



[1] Comunidade de Vida Cristã. A CVX é uma comunidade mundial de leigos, com Estatutos aprovados pela Igreja, e uma Espiritualidade própria: a Espiritualidade Inaciana; isto é, a sua fonte de inspiração característica, para além das Sagradas Escrituras e do Sentido de Igreja, são os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola. As linhas orientadoras da CVX estão consignadas nos Princípios Gerais, que ajudam a unir a Fé e a Vida numa opção apostólica.

publicado por: Rumos Novos - GHC às 18:22

Julho 07 2011

O novo arcebispo católico de Berlim encontrou-se na passada terça-feira com os media para enfrentar acusações de que era homofóbico e demasiado conservador para um cargo tão proeminente na tão aberta capital alemão. Rainer Maria Woelki, uma escolha surpresa para o cargo de alto nível, declarou respeito pelos homossexuais, negou ser membro do grupo conservador Opus Dei e afirmou que não veio para Berlim para apontar um dedo de censura aos não-católicos.

 

A comunidade homossexual de Berlim e os media liberais reagiram com consternação a esta nomeação, afirmando que o prelado de Colónia tinha «uma mentalidade ultrapassada» e era o homem errado para a função. Porém, o interesse pelo novo prelado foi tão forte que a Igreja Católica, uma minoria de cerca de 390 mil fiéis numa população de 3,5 milhões, na sua maioria indiferentes ou hostis para com a religião, teve de mudar, à última da hora, a conferência de imprensa para uma sala mais ampla de modo a acomodar mais de 100 jornalistas.

 

«Encontrar-nos-emos com todos», afirmou Woelki, de 54 anos, quando questionado acerca de comunidade homossexual muito activa na cidade. «Tenho respeito e estima por todas as pessoas independentemente da sua linhagem, cor da pele e natureza individual. Estou aberto a todos sem reservas». Descrevendo-se simplesmente como católico, negou ser membro da Opus Dei , apesar de ter realizado o seu doutoramento na Universidade Pontifícia da Cruz Sagrada, em Roma, pertencente ao grupo. Essa parte da sua biografia levou os relatos dos media a chamarem-no de «reaccionário».

 

«A Igreja não é uma instituição moral que anda por aí a apontar o dedo às pessoa», afirmou Woelki. «A Igreja é, para mim, uma comunidade dos que buscam e dos que crêem e a Igreja gostaria de ajudar as pessoas a encontrarem a sua felicidade na vida».

 

Fonte: Agência Reuters

publicado por: Rumos Novos - GHC às 10:23

Julho 01 2011

O psicanalista Jacques Arènes (ao lado, à esquerda) e o teólogo Dominique Foyer (ao lado, à direita) deixam-nos a sua reflexão comum sobre a evolução da Igreja em relação à questão da homossexualidade.

 

Actualmente a questão das homossexualidades é como um iceberg: o facto social da visibilidade, frequentemente reivindicativa, não diz tudo. Interrogações fundamentais, há muito escondidas, vão aparecendo pouco a pouco: no plano antropológico, o reconhecimento do facto homossexual leva à reconsideração do lugar da sexualidade na existência humana; no plano social e político, é preciso articular a aspiração legítima dos indivíduos de decidirem, de forma soberana, as suas vidas, portanto da sua sexualidade, através de uma regulação social necessária das relações humanas, incluídas as afectivas e sexuais; no plano teológico e espiritual, devemos questionar-nos como a boa nova da Salvação, realizada pela Igreja de Cristo, pode juntar as pessoas homossexuais na diversidade das suas situações.

 

 

A doutrina da Igreja e a sua antropologia implícita

Constatamos, em todas as religiões, um enquadramento estrito e frequentemente uma reprovação dos actos homossexuais. Porém, as relações «homoafectivas» são geralmente valorizadas: amizades viris entre guerreiros, ternura entre mulheres… O judaísmo e o cristianismo primitivo não são nisso excepção.

 

A Igreja católica afirma, quanto a si, que existe um valor moral universal dos actos humanos, independente das circunstâncias desses actos. Ela considera os actos homossexuais «objectivos» como pecaminosos. Contudo, ela distingue a moralidade dos actos da responsabilidade das pessoas que os vivem. Nas situações «homoafectivas», a Igreja católica não aprova a passagem ao acto sexual, reconhecendo embora que a avaliação da liberdade real e, portanto, da responsabilidade moral das pessoas é sempre difícil de fazer. Uma pessoa homossexual não é responsável pela sua orientação psicoafectiva e não controla necessariamente a sua expressão. Na teologia contemporânea, o argumento central assenta numa antropologia onde a diferença dos sexos, com o seu significado teológico – a união entre homem e mulher à imagem da relação com Deus – seja um elemento essencial de identidade e do devir humano, na sua dimensão sexual, conjugal e procriativa: a humanidade é criada na complementaridade do homem e da mulher (Gn 2, 20-24), «à imagem de Deus» (Gn 1, 27).

 

 

Com variações históricas

Desde os primórdios do cristianismo, na linha do judaísmo, as práticas homossexuais são consideradas quer como idólatras, indignas e antinaturais: idólatras, porque demasiado ligadas a formas de prostituição sagrada ou como consequência social originada por um conhecimento natural deficiente de Deus (Rm 1, 18-32); indignas de homens e de mulheres tornados, pela graça baptismal, «filhos adoptivos de Deus», «irmãos de Jesus Cristo» (Rm 8, 2.21): finalmente antinaturais, porque contrárias à ordem natural criada por Deus. De acordo com as perspectivas já presentes nas filosofias antigas (estoicismo, aristotelismo), o cristianismo medieval desenvolveu a apresentação dos actos homossexuais como sendo pecados «contra-natura», ligando fortemente o acto sexual à sua finalidade procriadora. Contudo, as dimensões psicológicas e relacionais da sexualidade humana permanecem sub-estimadas.

 

Actualmente, o argumento fundado sobre o respeito pela lei natural em matéria de sexualidade e de reprodução perdeu um pouco da sua pertinência, nomeadamente devido ao desenvolvimento do controlo reprodutivo humano. Prefere-se uma argumentação antropológica baseada na noção de «verdade do acto sexual». Na medida em que este não leva à procriação, uma relação homossexual é antropologicamente «menos verdadeira» que uma relação heterossexual. Contudo, esta pode ser portadora de qualidades éticas: sinceridade, doação, pesquisa do desenvolvimento de outros, etc. Por outro lado, na doutrina do casamento cristão desde o Vaticano II, o reconhecimento do valor positivo da sexualidade humana e a tomada em consideração da «entrega mútua dos esposos» abre a porta a um levar em consideração do prazer sexual independentemente da sua finalidade procriativa. Mas podemos, no entanto, dissociar totalmente estas duas dimensões constitutivas da sexualidade humana

Questões colocadas à Igreja de hoje

Actualmente a Igreja está confrontada, tal como o conjunto da sociedade, com um dado novo. A «identidade homossexual», pessoal e colectiva, emerge enquanto tal. Michel Foucault sublinhava-o, não existia nos séculos passados, pessoas que se consideravam como «homossexuais», mas «práticas homoeróticas». A abordagem psicomédica das sexualidades e da homossexualidade desenvolvida no século XIX, colocou progressivamente em destaque a sexualidade e a orientação sexual, como «verdade» do sujeito. Na sua realidade e na sua expressão, a orientação sexual é considerada actualmente como a marca da autenticidade da pessoa e das suas aspirações mais profundas. A emergência das reivindicações de legitimação social das relações homossexuais (casamento «gay») é, então, o sinal de um desejo fundamental de reconhecimento, que diz respeito aos grupos e às pessoas.

 

 A Igreja deve ouvir essas expectativas, procurando promover a sua visão antropológica, dificilmente audível nos dias de hoje. Numa sociedade fortemente erotizada, na qual a actividade genital é considerada como um lugar incontornável de entrega, a abstinência sexual, proposta pela Igreja às pessoas homossexuais, torna-se difícil de pôr em prática. Portanto, o autocontrole, neste domínio essencial, é igualmente um caminho de liberdade. As pessoas homossexuais são assim chamadas a viver um amor casto, sem actos sexuais, mesmo quando vivem sob o mesmo tecto que o seu cônjuge. Num mundo fragmentado onde a solidão é difícil de suportar, isso exige virtudes heróicas e graças particulares. A Igreja sabe-o bem (cf. Catecismo da Igreja Católica, n.º 2359).

 

A questão chave no que às pessoas homossexuais diz respeito, mais ou menos próximas da Igreja, é aquela do realismo e do acompanhamento. Na diversidade das situações de facto (vida em casal ou sozinho) e dos tipos de sexualidades, eventualmente em contradição com as suas prescrições, a Igreja deve, no entanto, reflectir sobre a maneira de acompanhar as pessoas homossexuais, como o faz com os heterossexuais, em direcção a uma maior fidelidade, respeito e amor ao próximo, numa caminhada humana e espiritual.

 

 

Conclusão

Estas questões difíceis dizem-nos respeito a todos: algumas vezes pessoalmente, frequentemente nos familiares ou amigos, sempre como cidadãos e, ainda mais, como cristãos. Fazemos nossas as palavras do concílio do Vaticano II: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do tempo actual, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo e não há nada de verdadeiramente humano que não encontre eco no seu coração» (constituição Gaudium et Spes, sobre a Igreja no mundo actual, n.º 1).

 

Artigo original: Ce que dit l'Eglise sur l'homosexualité (Revista: La Vie) 

 

Tradução: José Leote

publicado por: Rumos Novos - GHC às 21:43

Julho 01 2011

Autor de um livro onde conta a sua caminhada espiritual e afectiva, este católico convida os cristãos a deitar um outro olhar à homossexualidade.

Católico e homossexual. A dualidade impossível de viver. Para sair dela e viver finalmente o grande dia, Jean-Michel Dunand escreveu o seu itinerário, na verdade um testemunho, algumas vezes cru, para explicar a sua escolha em assumir, por inteiro, a sua homossexualidade e o seu catolicismo. Após anos em busca de identidade e de reconhecimento, ele passou, de acordo com as suas palavras e o título do seu livro «da vergonha à luz». Animador de pastoral num grande liceu católico de Montpellier, ele fala-nos, com pudor e emoção, a partir do seu pequeno escritório aberto sobre um amplo recreio arborizado.


Desde muito jovem, que sentiu que não era «semelhante aos outros». Como é que descobriu a sua homossexualidade?
Desde muito cedo que fui sensível aos corpos de homens. Tinha seis anos quando, indo com os meus pais à feira de diversões, descobri que a beleza dos corpos masculinos fascinava-me. Não o compreendida e pensava estar sozinho no mundo a experimentar isso. Na minha pequena cidade natal de Albertville, na Sabóia, não tinha nenhum modelo homossexual com o qual me identificar.

Não se escolhe, escreve, ser homossexual, tal como não se escolhe ser heterossexual. Não é, portanto, do domínio da liberdade?
Precisei de tempo para compreender que não tinha escolhido, que não podia mudar. A minha homossexualidade impôs-se-me do mesmo modo que o meu físico. Nunca fui efeminado, apenas refinado no trato, mas quando brincava era normal disfarçar-me de rapariga. Atraído pela vida religiosa, imaginava-me carmelita no seguimento de Teresa [N.T.: alusão a Sta. Teresa d’Ávila, fundadora das carmelitas descalças (1515-1582)]. Pensava: «Se fosses uma mulher, entrarias na ordem». Não afirmo que a homossexualidade é inata, mas que ela se inscreve na singularidade de uma história. Portanto, nos espíritos e nas igrejas, arrasta-se ainda a ideia que se pode mudar, que é uma questão de vontade… Porém, quem desejaria expor-se voluntariamente à diferença?

 

É com a escola, adolescente, que o olhar dos outros começou a pesar-lhe.

Eu não dizia nada, mas os outros rapazes percebiam-no. Eu não gostava de desporto, dos jogos violentos. Dissimulava permanentemente, com o medo de um dia ser descoberto. Mais tarde, pensei frequentemente que, se nos reconhecemos entre homossexuais, é porque sabemos ler no olhar do outro essa fadiga de ter de perpetuamente esconder quem somos. Depois, houve aquele dia, no quinto ano, no qual, tendo chegado atrasado, tive de passar por todos e aguentar os insultos: «panasca», «maricas»… Vivi a experiência da vergonha, que nos atira vivos para um túmulo.

 

E depois, esse outro apelo, aquele de uma vida religiosa…

Sim, aos 8 ou 9 anos, fui como que tomado por Cristo. Chorei perante a Paixão de Jesus, lendo uma vida de santo oferecida por um catequista. Mais tarde, aos 14 anos, sozinho na abadia de Tamié, experimentei uma presença de amor, uma paz profunda. Guardei esse encontro secretamente dentro de mim e, ao mesmo tempo, construí uma personagem: aquela do pequeno cristão perfeito, futuro padre que servia a missa, tinha a confiança do pároco e ostentava, bem visível, uma grande cruz de madeira. Era mais fácil ser o aprendiz de santo do que o pequeno homo. Preferia que gozassem comigo pela minha fé em vez de pela minha homossexualidade. Com a religião, construí um muro à minha volta para me proteger do olhar dos outros e, sobretudo, de mim mesmo, dos meus próprios devaneios.

 

São as páginas mais duras do seu livro. Conta como, aos 14 anos, em Lourdes, aceitou as carícias de um desconhecido. A sexualidade sem amor, diz…

Nesse dia, o chão abriu-se sob os meus pés. Sentia-me sujo, mas descobria também que era atraído. Entre os 18 e os 25 anos, vivi um verdadeiro pesadelo, uma vida dupla. Era o Dr. Jekyll e Mr. Hyde. De um lado, o convento dos carmelitas, nos grupos de oração e evangelização e depois no seminário durante alguns anos, onde me apresentava como um modelo da fé, vestido de branco com uma enorme capa negra, de sandálias nos pés… Do outro, encontrava-me, às escondidas, com homens. Recusava instalar-me numa relação. Dizia-me que era menos grave, que era a minha fragilidade, e que com o auxílio da oração, da confissão… eu iria sair disso. Das raras vezes em que me confessei, falaram-me de «derrapagem». Que me iriam curar através da oração de renúncia. Neste período, somente Cristo não me deixou.

 

Que gostaria de ouvir neste momento?

Olhando para trás, aos 46 anos, creio que gostaria de ter sido entendido em profundidade. Que me enviem à realidade para não mais fugir, mas descobrir a minha humanidade profunda, a minha afectividade, a minha sexualidade, em vez de enterrar tudo isso sob uma pseudo-espiritualidade. Depois de ter muito escutado, constato que não é raro que os homossexuais comecem as suas relações em locais sombrios. Talvez porque nos interditamos de viver o amor e a ternura à luz do dia

 

O que é que o ajudou?

Tentaram curar-me, mesmo exorcizar-me, e iam internar-me para fazer uma cura de sono. Estava cada vez pior, pensava no suicídio. Então disse a mim próprio: «Chega!». Foi, então, a amizade que me ajudou, aquela de Patrick, que me abriu um outro caminho. Comecei um trabalho de auxiliar de serviço hospitalar, o que me permitiu retomar uma vida normal, uma visão razoável de mim mesmo e viver a minha homossexualidade de forma mais autêntica. Também encontrei o amor e vivo numa relação estável desde há 20 anos. Enfim, fui acolhido tal como era. Tornei-me animador em pastoral, numa escola católica. Intervenho nela desde há 16 anos graças à confiança que em mim depositou, com pleno conhecimento de causa, um director do estabelecimento.

 

Que pede hoje à Igreja?

Não reivindico nada, sem ser o direito de viver sem ser amputado duma parte de mim-mesmo. Enquanto católico, quero poder viver a minha fé e o meu caminho de descoberta da sexualidade e a ternura partilhada com uma pessoa do mesmo sexo. Não sou um activista que agita a bandeira da causa gay. Mas também não posso aderir às atitudes segundo as quais a homossexualidade é contra-natura e à margem do plano de Deus. Isso conduz a um impasse. Se reivindico alguma coisa, então é uma mudança e uma humildade de olhar. Com as pessoas «homosensíveis» - prefiro falar assim, pois isso não nos reduz à sexualidade -, encontramo-nos frequentemente perante percursos fracturados. Perante a mulher adúltera no Evangelho, que faz Jesus? Não a questiona, mas desvia os olhares, ao se agachar para escrever no chão; desloca igualmente os acusadores, pois todos se vão quando Ele os remete para o seu próprio pecado. Não encerremos as pessoas nas nossas normas e nos nossos olhares intransigentes.

 

Criou em 2000, uma ligação com os mosteiros, a Comunidade Betânia, ao serviços das pessoas homosensíveis e transgéneros.

Sim, é uma comunhão contemplativa. Encontramo-nos duas vezes por ano, em retiro num mosteiro. Porém, encontramo-nos diariamente em união de oração através de um pequeno ofício composto por salmos, beatitudes e de uma oração de intercessão. Para além do circulo dos comprometidos, há amigos que oram todas as quintas-feiras em nossa intenção, pais com filhos homossexuais, contemplativos como no carmelo de Mazille, mesmo bispos que se juntam a nós nesta fraternidade espiritual. Creio que a evolução do olhar dos cristãos para com os homossexuais será feita através da oração. A militância mete medo, os monges não! Convidando à oração, apelamos pacificamente ao acolhimento desse olhar de Cristo, que desloca. Não peço à Igreja que reconheça a homossexualidade como faz com a heterossexualidade, mas para olhar para as pessoas e de favorecer locais de encontro e de escuta.

 

Que mensagem gostaria de deixar aos cristãos?

Antes de arriscar uma palavra, ter tempo para ouvir as pessoas homossexuais. Antes de discutir sobre ideias, conhecer vidas. Foi o poder falar e ser ouvido que, pessoalmente, me salvou. No meu trabalho sou discreto sobre a minha vida pessoal, mas sei que tenho a confiança do meu bispo, do meu director diocesano, do meu director da escola. Sou franco com eles. Foi Freud quem disse: «Quando alguém fala, é dia!». É talvez justamente para que se faça dia que eu escrevi e publiquei este livro («Da Vergonha à Luz»).

 

 

Jornalista: Élisabeth Marshall

Tradução: José Leote

Órgão: «La Vie»

publicado por: Rumos Novos - GHC às 02:06

Junho 02 2011

 

Os Direitos Conquistam-se, Desfrutam-se

No próximo dia 5 de Junho, defende-os com o teu voto.

 

ÉVORA/LISBOA, 2 de Junho de 2011 – Antes de mais, apelamos a que todos os cidadãos e cidadãs com direito a voto, em particular os homossexuais, o exerçam no próximo dia 5 de Junho.

 

Este acto eleitoral é de extrema importância para o país, mas também para os homossexuais.

 

O voto do dia 5 de Junho tem de ser exercido com plena consciência da importância das políticas que vão de encontro à defesa dos justos direitos dos cidadãos e cidadãs homossexuais para que uma igualdade de cidadania plena seja alcançada.

 

Rumos Novos – Movimento Homossexual Católico trabalha diariamente com o intuito de alcançar essa igualdade, na sociedade e na igreja católica, pelo que, também no dia 5 de Junho, devemos defender nas urnas esta premissa fundamental como forma de consolidação dos progressos já alcançados e para prosseguimento futuro do caminho já iniciado e nunca para o seu retrocesso.

 

Por isso, a 5 de Junho, os homossexuais deverão reflectir bem sobre o seu sentido de voto, analisando cuidadosamente os partidos que formalmente defendem os seus direitos daqueles que não o fazem de todo.

publicado por: Rumos Novos - GHC às 17:06

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