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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos Homossexuais Portugueses

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

James Martin, S.J.: Precisamos construir uma ponte entre a comunidade LGBT e a Igreja Católica. (PARTE III)

[N.T.: Partilhamos este artigo – a última parte, de três - do Pe. Martin pela importância que assume em termos globais e que vai muito para além da realidade norte-americana. A este propósito aconselhamos a leitura «Construindo Pontes» da Rumos Novos que, desde 1 de maio de 2008, é um dos pilares da comunidade]

 

JUNTOS NA PONTE

 

No geral, o convite para pisar a ponte do «respeito, compaixão e delicadeza» mútuos é dirigido tanto à igreja institucional como à comunidade LGBT.

 

Algumas destas coisas podem ser difíceis de ouvir por parte da comunidade LGBT. É difícil pisar essa ponte. E algumas destas coisas podem ser difíceis para os bispos ouvirem. Porque nenhuma das faixas da ponte é suave. Nesta ponte, tal como na vida, há portagens. Custa quando vivemos uma vida de respeito, compaixão e delicadeza. Porém, acreditar nesta ponte é acreditar que eventualmente as pessoas a serão capazes de ir e vir nela facilmente e que a hierarquia e a comunidade LGBT serão capazes de se encontrar uns com os outros. É confiar que Deus deseja a unidade.

 

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Estamos todos juntos na ponte. Porque, é claro, a ponte é a igreja. E, em última análise, no outro lado da ponte, para cada um dos grupos, encontra-se o acolhimento, a comunidade e o amor.

 

Estamos todos juntos na ponte. Porque, é claro, a ponte é a igreja.

 

À laia de conclusão, gostaria de dizer algo especificamente à comunidade LGBT. Em tempos difíceis podem perguntar: O que é que mantém a ponte de pé? O que é que evita que ela colapse nas rochas afiadas? O que é que nos impede de mergulhar nas águas perigosas por baixo? O Espírito Santo. O Espírito Santo apoia a igreja e apoia-vos a vós.

 

Pois vós sois filhos amados de Deus que, por virtude do vosso batismo, tendes tanto direito em estar na igreja como o Papa, os bispos locais, ou eu. É certo que essa ponte tem algumas pedras soltas, grandes lombas e buracos enormes, porque as pessoas na igreja não são perfeitas. Nunca o fomos – perguntem simplesmente a S. Pedro. E nunca o seremos. Somos todos pessoas imperfeitas, lutando para dar o nosso melhor à luz das nossas vocações individuais. Somos todos peregrinos a caminho, pecadores amados que seguem o chamamento que, pela primeira vez ouvimos, no nosso batismo e que continuamos a ouvir diariamente nas nossas vidas.

 

Resumindo, vocês não estão sozinhos. Milhões dos nossos irmãos e irmãs católicos acompanham-vos, como o fazem os vossos bispos, à medida em que juntos caminhamos imperfeitamente nesta ponte. Mais importante, somos acompanhados por Deus, o reconciliador de todos os homens e mulheres de boa vontade, bem como o arquiteto, o construtor e a fundação dessa ponte.

 

Autor: James Martin, SJ

Tradução: José Leote (Rumos Novos)

James Martin, S.J.: Precisamos construir uma ponte entre a comunidade LGBT e a Igreja Católica. (PARTE II)

[N.T.: Partilhamos este artigo – a segunda parte, de três - do Pe. Martin pela importância que assume em termos globais e que vai muito para além da realidade norte-americana. A este propósito aconselhamos a leitura «Construindo Pontes» da Rumos Novos que, desde 1 de maio de 2008, é um dos pilares da comunidade]

 

 A SEGUNDA FAIXA

 

Vamos agora dar uma volta na outra via da ponte: aquela que conduz desde a comunidade LGBT à igreja institucional. O que significaria para a comunidade LGBT tratar a igreja institucional com «respeito, compaixão e delicadeza»?

 

Neste momento, na igreja é a hierarquia que possui o poder institucional. Tem o poder de autorizar alguém a receber os sacramentos; autorizar ou proibir os padres de celebrarem os sacramentos; abrir ou encerrar ministérios diocesanos ou paroquiais; permitir que as pessoas mantenham os seus cargos nas instituições católicas e por aí em diante. Porém, a comunidade LGBT também tem poder. Cada vez mais, por exemplo, os media ocidentais são cada vez mais favoráveis à comunidade LGBT do que à hierarquia. Este é um tipo de poder. Mesmo assim, na igreja institucional, a hierarquia detém a posição de poder.

 

Os católicos LGBT são chamados a tratar os que se encontram no poder com «respeito, delicadeza e compaixão.» Porquê? Porque, como referido, é uma ponte de duas vias. Mais do que isso, porque os católicos LGBT são cristãos e essas virtudes expressam o amor cristão. Essas virtudes também constroem toda a comunidade.

 

Respeito. O que é que significaria para a comunidade LGBT mostrar «respeito» pela igreja? Também aqui, falo especificamente em relação ao Papa e aos bispos, ou seja, a hierarquia e, de forma mais abrangente, o magistério, a autoridade de ensino da igreja.

 

Os católicos acreditam que os bispos, padres e os diáconos recebem nas respetivas ordenações a graça de um ministério especial de liderança dentro da igreja. Acreditamos igualmente que os bispos em particular têm uma autoridade que lhes advém dos apóstolos. É isto que queremos dizer, em parte, quando professamos a nossa crença aos domingos na Missa: a igreja é «apostólica». Acreditamos igualmente que o Espírito Santo inspira e guia a igreja. Certo está que isso acontece através do povo de Deus que, conforme o Concílio do Vaticano II afirma, estão embuídos com o Espírito; mas isso também acontece através do papa, dos bispos e do clero em virtude da sua ordenação e das suas funções.

 

Portanto a igreja institucional – papas e conselhos, arcebispos e bispos – fala com autoridade no seu papel de professores. Nem todos falam com o mesmo nível de autoridade (já falamos disso depois), mas todos os católicos devem em oração considerar aquilo que eles ensinam. Para fazer isso, somos chamados a escutar. O seu ensinamento merece o nosso respeito.

 

Portanto, antes de mais escutar. Em todos os assuntos, não somente sobre os assuntos LGBT. O episcopado fala com autoridade, que lhe advém de uma longa caminhada da tradição. Quando os bispos falam sobre assuntos como, mas não exclusivamente; amor, perdão, misericórdia e cuidado dos pobres e marginalizados, os nascituros, os sem-abrigo, os prisioneiros, os refugiados e por aí adiante, eles estão inspirados não somente nos Evangelhos, mas também no tesouro espiritual da tradição da igreja. Frequentemente, particularmente em questões de justiça social, podemos facilmente concluir que eles nos desafiarão com uma sabedoria que não ouviremos em mais parte nenhuma do mundo.

 

E quando eles falam sobre temáticas LGBT de uma forma com a qual não estamos de acordo, ou que nos irrita ou ofende, mesmo assim devemos escutar. Pergunta: «O que é que eles estão a dizer? Porquê é que o dizem? O que é que está por detrás das suas palavras?» Escuta, considera mesmo orar e, claro, usa a tua consciência.

 

Para além daquilo que podemos chamar de respeito eclesial, a hierarquia merece um mero respeito humano. Frequentemente fico destroçado pelas coisas que oiço alguns católicos LGBT e seus aliados dizerem sobre alguns bispos. Oiço estas coisas em privado e em público. Recentemente um grupo LGBT, em resposta a uma declaração dos bispos referente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, disse que os bispos deviam parar de estar «trancados nas suas torres de marfim.» Eu pensei: «Francamente?! Também dizem isso sobre os bispos das dioceses pobres? Que eles vivem em «torres de marfim»? A bispos que pessoalmente ministram aos pobres e que supervisionam paróquias em bairros degradados, apoiam escolam que educam os pobres desses bairros e gerem serviços da Caritas?» Pode não se estar de acordo com os bispos, mas esse tipo de linguagem é, não só desrespeituosa, é imprecisa.

 

Agora mais seriamente, os católicos LGBT e os seus aliados, algumas vezes com falta de misericórdia, gozam com os bispos devido às suas promesses de celibato, os locais onde vivem e, particularmente, as vestes que usam. A implicação mal disfarçada de colocar online fotografias de bispos vestindo indumentárias litúrgicas elaboradas é a de que eles são efeminados, hipócritas ou que são gays reprimidos. Será que a comunidade LGBT quer verdadeiramente continuar por esse caminho? Querem os homossexuais gozar com os bispos porque são efeminados, quando muitos homossexuais foram provavelmente provocados precisamente sobre essas coisas quando eram jovens? Isso não é simplesmente perpetuar o ódio? Como é que pode alguém castigar um bispo por não respeitar a comunidade LGBT ao mesmo tempo em que não o respeita também? Querem criticar as pessoas pelas suas supostas atitudes não-cristãs, sendo eles mesmos não-cristãos?

 

Isto pode ser difícil de ouvir por parte de pessoas que se sentem vergastadas pela igreja. Porém, ser respeitador das pessoas com as quais discordamos não é somente a maneira de ser cristão. Mesmo do ponto de vista humano é uma boa estratégia. Se pretendemos influenciar a perspetiva da igreja sobre assuntos LGBT ajuda ganhar a confiança da hierarquia. E um modo de o conseguir é respeitando-os. Portanto quer a abordagem cristã quer a sabedoria simples dizem: respeitem-nos.

 

Ser respeitador das pessoas com as quais discordamos não é somente a maneira de ser cristão. Mesmo do ponto de vista humano é uma boa estratégia.

 

Compaixão. O que é que significaria ter compaixão pela hierarquia?

 

Primeiro, recordemo-nos da definição de compaixão: «experimentar com, ou sofrer com.» Parte disso, como mencionei, é conhecer com é a vida dessa pessoa. Então, parte da compaixão em relação à igreja institucional é uma compreensão real, sentida da vida daqueles no poder.

 

Durante a minha vida de padre jesuíta, conheci muitos cardeais, arcebispos e bispos. Alguns considero mesmo meus amigos. Todos os que conheci são bondosos, trabalhadores e homens de oração, muitos dos quais foram muito gentis para mim pessoalmente e são filhos leais da igreja tentando levar a bom porto os ministérios para os quais foram ordenados. 

 

Nos tempos que correm, para além do normal «triplo ministério» de «ensinar, governar e santificar» (ou seja, ensinar o Evangelho, gerir a diocese e celebrar sacramentos), os bispos têm ainda de fazer o seguinte: (a) lidar com os efeitos colaterais – financeiros, legais e emocionais – dos casos de abuso sexual por parte do clero, normalmente casos com os quais nada têm que ver; (b) arranjar pessoal para as paróquias perante o rápido declínio das vocações para o sacerdócio e para as ordens religiosas; (c) decidir que paróquias e escolas encerrar ou consolidar face a apelos emocionais e protestos irados, piquetes e manifestações de paroquianos, vizinhos, estudantes e alumni; (d) ajudar a angariar dinheiro para quase todas as instituições na diocese, incluindo escolas, hospitais, comunidades para retiro de padres e agências de serviços sociais; e (e) responder a queixas por parte de católicos enfurecidos que chovem nas suas chancelarias, acerca de tudo e mais alguma coisa, incluindo supostos abusos litúrgicos durante a missa, comentários inapropriados que um padre proferiu durante uma homilia, um artigo de que não gostaram no jornal de diocese, ou mesmo um católico que recebeu um prémio de um grupo do qual não gostam.

 

A compaixão conduz-nos igualmente a uma certa igualdade de coração. Isso significa conseguir ver que, pelo menos, alguns em posições de liderança na nossa igreja podem eles mesmos estar a lutar. Podem ser homens homossexuais, que numa idade mais jovem foram torturados pelas mesmas atitudes de ódio que a maioria das pessoas LGBT sentiram na pele enquanto cresciam, e que entraram no mundo religioso que parecia dar-lhes alguma segurança e privacidade. Este não foi de longe a única razão que levou alguns destes homens a entrarem nos seminários diocesanos e nas casas religiosas de formação, mas pode ter sido um fator de apelo para essa vida: uma certa privacidade, um modo de servir, com sinceridade, Deus sem ter de admitir a própria sexualidade. Alguns podem ter ficado com essa visão do mundo, mesmo se, ao longo das últimas décadas, a verdade sobre ser-se gay tenha gradualmente se tornado mais fácil de compreender e menos aterradora de viver. Isto é o que é ter-se sido queimado pelos efeitos dos gays e lésbicas que odeiam, particularmente o ódio que existia há décadas, e não ser capaz de admitir uma parte tão profunda de nós próprios. Portanto, os católicos LGBT são convidados a condoer-se com e orar por estes nossos irmãos, mesmo quando os seus passados algumas vezes os levam a comportar-se como se eles fossem nossos inimigos.

 

O convite é conseguirmos ver estes bispos na sua humanidade, na sua complexidade e entre o grande fardo dos seus ministérios. Há compaixão em tentar fazer isto.

 

Hoje, muitas pessoas LGBT sentem que a igreja institucional e alguns padres e bispos as têm perseguido. Veem estes homens como seus inimigos ou, no mínimo, como pessoas que não as compreendem. Infelizmente, alguns bispos, padres e diáconos disseram e fizeram, de facto, coisas ignorantes, dolorosas e mesmo odiosas. Porém, acredito que estas ações representam uma minoria ao nível da hierarquia, embora uma que até recentemente parecia ter alguma influência na igreja e que a maré está lentamente a mudar, pois o papado de Francisco e as ações atuais de alguns dos líderes da igreja estão a ajudar a sarar alguma dessa mágoa.

 

Qual é a resposta cristã quando se sente hostilidade por parte de determinados líderes católicos? Através de uma sugestão, deixem-me contar-lhes uma história. Quando tinha 27 anos, disse aos meus pais que ia entrar para os jesuítas. Atirei-lhes com a novidade sem aviso prévio; nem sequer lhes disse que estava a considerar essa possibilidade. Sem surpresa, ficaram confusos e aborrecidos. Encararam a decisão como imprudente. E isso confundiu-me e aborreceu-me. Questionei-me: como é possível que eles não vissem o que eu estava a fazer? Como é que era possível que eles não me compreendessem? Em resposta o meu diretor espiritual disse: «tu tiveste 27 anos para te habituares a isto, Jim e acabaste de lhe atirar com a notícia. Dá-lhes o dom do tempo.»

 

Por muito desafiador que isto possa ser ao ouvir e sem pôr de lado o sofrimento que muitas pessoas LGBT experimentaram na igreja, questiono-me se a comunidade LGBT não poderia dar à igreja institucional o dom do tempo. Tempo para vos conhecer: De um modo palpável, uma comunidade LGBT aberta e pública é algo de novo, mesmo no meu tempo de vida. De uma forma muito verdadeira o mundo só agora vos está a conhecer. Também a igreja o faz. Eu sei que é um fardo, mas talvez não seja assim tão surpreendente. É preciso tempo para se chegar a conhecer uma pessoa. Portanto, talvez a comunidade LGBT possa dar à igreja institucional o dom da paciência.

 

A outra resposta cristã se, mesmo depois de tudo isto, ainda encarares alguns líderes da igreja como inimigos, resta orar por eles. E não sou eu que o digo. É Jesus.

 

Delicadeza. Regressemos a esta palavra maravilhosa. Podemos voltar a utilizá-la em termos de não denegrir os bispos ou a hierarquia. De novo, isso não é simplesmente cortesia humana. É caridade cristã.

 

Porém, eu gostaria de usar delicadeza de outra forma. Aqui gostaria de convidar a comunidade LGBT a considerar de forma mais profunda quem fala e o modo como o faz. Como católicos acreditamos em vários níveis de autoridade para ensinar na nossa igreja. Nem todos os representantes da igreja falam com o mesmo nível de autoridade. A forma mais simples de explicar isto é a de que o que um Papa diz numa encíclica não possui o mesmo nível de autoridade que aquilo que o teu pastor local diz numa homilia. Há níveis diferentes de ensino com autoridade, que começa com os Evangelhos, depois com os conselhos da igreja e depois com os pronunciamentos papais. Mesmo os vários pronunciamentos papais têm vários níveis de autoridade. Entre os mais elevados estarão as constituições ou encíclicas dirigidas a toda a igreja, depois as cartas apostólicas e os motu proprios, depois as homilias diárias e os discursos do Papa e por aí afora. É importante ser delicado em relação a isso. Há igualmente documentos dos Sínodos e de cada uma das congregações do vaticano. Depois, ao nível local, os documentos provenientes das conferências dos bispos e dos bispos. Cada um tem um nível diferente de autoridade. Todos eles necessitam de ser lidos com espírito de oração, mas é importante saber que nem todos têm o mesmo grau de autoridade.

 

Claro que a hierarquia não é o único grupo que fala com autoridade. A autoridade reside igualmente na santidade. Homens e mulheres santos que não fazem parte da hierarquia, como Sta. Teresa de Calcutá, e pessoas leigas santas como Dorothy Day ou Jean Vanier, falam com autoridade.

 

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Do mesmo modo, é preciso ter cuidado em levar à letra aquilo a que os media chamam de «ensinamento da igreja». Há algumas semanas li a parangona «Mantenham as Homilias em Oito Minutos, Ordena o Vaticano ao Clero.» E pensei «o Vaticano?» É quase certo que, quando lemos o artigo com cuidado, descobrimos outra coisa. Foio um bispo, a título individual, que deu esta sugestão. A parangona era falsa. O «Vaticano» não fez tal coisa. Portanto, novamente, deve ser-se delicado.

 

Para além de tudo isto, há um convite a ser-se delicado no facto de que quando alguém fala no Vaticano – seja o Papa ou uma Congregação do Vaticano – eles falam para todo o mundo, não somente para o Ocidente e certamente não somente para os Estados Unidos. Algo que possa parecer tépido nos Estados Unidos pode ser chocante na América Latina ou em África. Neste sentido, fiquei desapontado com a reação de alguns católicos LGBT, neste país, à exortação apostólica do Papa sobre a família, «Amoris Laetitia» («A Alegria do Amor»). Nesse documento ele afirma: «Gostaríamos, antes de mais, de reafirmar que cada pessoa, independentemente da sua orientação sexual, deve ser respeitada na sua dignidade e tratada com consideração, ao mesmo tempo «em que cada sinal de discriminação injusta» deve ser cuidadosamente evitado, particularmente toda a forma de agressão e violência. Tais famílias devem ser objeto de uma orientação pastoral respeitosa, de modo a que aqueles e aquelas que manifestam uma orientação homossexual possam receber a assistência que necessitam de modo a compreenderem e realizarem plenamente a vontade de Deus nas suas vidas» (N.º 250).

 

«Antes de mais,» afirma o Papa, as pessoas LGBT devem ser tratadas com dignidade. É uma afirmação imensa e, já agora, em parte nenhuma ele menciona o que quer que seja acerca «desordem objetiva». Apesar disso, no seio de alguns católicos LGBT [neste país] essas linhas foram postas de lado com gritos de «Não chega!»

 

Bom, talvez no Ocidente essas palavras pareçam insuficientes. Porém, o Papa não escreve apenas para o Ocidente, ainda muito menos para os Estados Unidos. Imaginem o que é ler isso num país onde a violência contra as pessoas LGBT é desenfreada e a igreja tem permanecido em silêncio. Aquilo que é brando nos Estados Unidos é incendiário noutras partes do mundo. Aquilo que pode ser óbvio para um bispo num país, constitui um desafio contundente, mesmo ameaçador, para outro bispo. Aquilo que parece árido para as pessoas LGBT num determinado país, pode ser, num outro, água num deserto estéril.

 

Portanto, de muitos modos, somos chamados a usar de delicadeza.

 

Autor: James Martin, SJ

Tradução: José Leote (Rumos Novos)

James Martin, S.J.: Precisamos construir uma ponte entre a comunidade LGBT e a Igreja Católica. (PARTE I)

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[N.T.: Partilhamos este artigo – a primeira parte, de três - do Pe. Martin pela importância que assume em termos globais e que vai muito para além da realidade norte-americana. A este propósito aconselhamos a leitura «Construindo Pontes» da Rumos Novos que, desde 1 de maio de 2008, é um dos pilares da comunidade].

 

O relacionamento entre a comunidade LGBT católica e a Igreja Católica nos Estados Unidos tem sido, algumas vezes, contencioso e combativo e, noutros momentos, aconchegante e acolhedor. A maior parte da tensão que caracteriza este relacionamento complicado resulta de uma falta de comunicação e, infelizmente, de uma grande dose de desconfiança entre os católicos LGBT e a hierarquia. O que é preciso é uma ponte entre essa comunidade e a igreja.

 

Convido-vos a caminharem comigo ao longo dessa importante ponte. Com essa finalidade, gostaria de refletir sobre o modo como a igreja tenta alcançar a comunidade LGBT e o modo como esta tenta alcançar a igreja. Isto porque boas pontes levam as pessoas em ambos os sentidos.

 

Como sabem, o Catecismo da Igreja Católica afirma que os católicos são chamados a tratar a pessoa homossexual com «respeito, compaixão e delicadeza» (2358).

 

O que é que isto pode significar? Vamos meditar nisso e também numa segunda pergunta: O que é que pode significar para a comunidade LGBT tratar a igreja com «respeito, compaixão e delicadeza»? Claro está que os católicos LGBT fazem parte da igreja, pelo que, num determinado sentido, estas perguntas implicam uma falsa dicotomia. A igreja é todo o povo de Deus e é estranho discutir a forma como o povo de Deus se pode relacionar com uma parte do povo de Deus. Portanto, é boa moda jesuíta, deixem-me refinar os nossos termos. Quando, nesta discussão, me refiro à igreja, quero significar a igreja institucional, ou seja, o Vaticano, a hierarquia, os funcionários de igreja e o clero.

 

 

A PRIMEIRA FAIXA

Vamos dar uma volta na primeira faixa da ponte, aquela que conduz da igreja institucional à comunidade LGBT e que reflete sobre o «respeito, compaixão e delicadeza».

 

Respeito. O que é que pode significar para a igreja ter «respeito» pela comunidade LGBT?

 

Primeiro, respeito significa, no mínimo, reconhecer que a comunidade LGBT existe e que, como qualquer outra comunidade, deseja ver a sua existência reconhecida. Significa igualmente reconhecer que a comunidade LGBT traz dons únicos à igreja, tal como acontece com qualquer outra comunidade.

 

Reconhecer que os católicos LGBT existem tem implicações pastorais importantes. Significa pôr em prática ministérios que algumas dioceses e paróquias já fazem e muito bem. Exemplos incluem celebrar Missas com grupos LGBT, patrocinar programas diocesanos e paroquiais de acolhimento e, em geral, fazer com que os católicos LGBT se sintam parte da igreja e se sintam amados.

 

Alguns católicos levantam objeções a esta abordagem, dizendo que tal acolhimento pode ser um sinal de acordo tácito com tudo o que cada um na comunidade LGBT diz ou faz. Esta parece ser uma objeção injusta, porque não é colocada em relação a nenhum outro grupo. Se uma diocese patrocina, por exemplo, um grupo de acolhimento para homens de negócios católicos, isso não significa que a diocese esteja de acordo com todos os valores personificados pela América corporativa. Nem tão pouco significa que a igreja santificou tudo aquilo que cada homem ou mulher de negócios faz. Ninguém está a sugerir isso. Por que não? Porque as pessoas compreendem que a diocese está a tentar ajudar uma comunidade particular a se sentir mais ligada à sua igreja, a igreja à qual pertencem em virtude do seu batismo.

 

Em segundo lugar, o respeito significa chamar a um grupo aquilo que ele pede que lhe chamem. Num nível pessoal, se uma pessoa diz: «Prefiro ser chamado Jim em vez de James», costumamos ter isso em consideração. É cortesia comum. O mesmo se passa ao nível grupal. Já não dizemos «Pretos». Porquê? Porque esse grupo se sente mais confortável com outros nomes: «Afroamericanos» ou «negros». Recentemente, foi-me referido que «pessoas deficientes» não é tão aceitável como «pessoas portadoras de deficiência». Portanto, a última expressão é aquela que passarei a utilizar. Porquê? Porque é respeitoso chamar as pessoas pelo nome que elas escolhem. Toda a gente tem o direito de nos dizer o seu nome.

 

Esta não é uma preocupação menor. Nas tradições judaica e cristã os nomes são importantes. No Antigo Testamento, Deus dá a Adão e a Eva a autoridade para darem nome às criaturas (Gn 2, 18-23). Deus também renomeia Abrão como Abraão (Gn 17, 4-6). Os nomes no Antigo Testamento representam a identidade de uma pessoa. Saber o nome de uma pessoa significa que a conhecemos. Essa é uma razão pela qual, quando Moisés pergunta o nome de Deus, Deus diz-lhe: «Eu sou aquele que sou.» Por outras palavras, não tens nada com isso (Ex 3, 14). Mais tarde, no Novo Testamento, Jesus renomeia Simão como Pedro (Mt 16, 18; Jo 1, 42). O perseguidor Saul renimeia-se como Paulo. Os nomes são também importantes atualmente na nossa igreja. A primeira pergunta que um padre ou diácono faz aos pais no batismo de uma criança é: «Que nome dais a esta criança?»

 

Os nomes são importantes. Deste modo, os líderes da igreja são convidados a estarem atentos à forma como chamam a comunidade LGBT e deixar descansar frases do tipo «afligidos por atrações do mesmo sexo» que nenhuma pessoa LGBT que conheço utiliza e, eventualmente, «pessoa homossexual», que parece excessivamente clínica para muitas pessoas. Não estou a prescrever que nomes utilizar, embora «gay e lésbica», «LGBT» e «LGBTQ» sejam as mais comuns. Estou a afirmar que as pessoas têm o direito de se atribuírem os nomes que entenderem. Utilizar esses nomes é parte do respeito. E se o Papa Francisco pode utilizar a palavra gay, também o resto da igreja o pode fazer.

Finalmente, respeitar as pessoas LGBT significa aceitá-las enquanto filhos amados e filhas amadas de Deus. A igreja tem uma responsabilidade especial na proclamação do amor de Deus por pessoas que são frequentemente feitas sentir como mercadoria estragada, não merecedores do ministério e mesmo sub-humanos, seja por parte das suas famílias, vizinhos ou líderes religiosos. A igreja é convidada a simultaneamente proclamar e demonstrar que as pessoas LGBT são filhos amados e filhas amadas de Deus.

 

Respeitar as pessoas L.G.B.T. significa aceitá-las como filhos amados e filhas amadas de Deus e deixá-los aperceber-se de que são filhos amados e filhas amadas de Deus

 

Ainda mais, as pessoas LGBT são filhos amados e filhas amadas de Deus com dons – quer individuais quer como comunidade. Estes dons constroem a igreja em formas únicas conforme S. Paulo nos disse quando comparou as pessoas de Deus a um corpo humano (1 Cor 12, 14-27). Cada parte desse corpo é importante: a mão, o olho, o pé. Consideremos somente os dons trazidos por católicos LGBT que trabalham em paróquias, escolas, chancelarias, centros de retiros, hospitais e agências de serviço social. Aqui está um exemplo pessoal: alguns dos mais dotados ministros de música que conheci ao longo dos meus quase 30 anos como jesuíta eram homens gay, que trouxeram uma tremenda alegria às suas paróquias. Pois também eles se encontram entre as pessoas mais alegres que conheço ao nível da igreja.

 

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A igreja no seu todo é convidada a meditar sobre a forma como os católicos LGBT constroem a igreja através da sua presença, do mesmo modo que os idosos, adolescentes, mulheres, possoas portadoras de deficiência, grupos étnicos variados ou qualquer outro grupo constrói uma paróquia ou diocese. Embora seja errado generalizar, podemos ainda colocar a questão: Quais podem ser esses dons?

 

Muitas, se não a maioria, pessoas LGBT sofreram, desde muito cedo, incompreensões, preconceito, ódio, perseguição e mesmo violência e, com frequência, sentem compaixão pelos marginalizados. A compaixão é um dom. Muitas vezes as fizeram sentir não bem-vindas nas suas paróquias e na sua igreja, mas elas perseveraram devido à sua fé vigorosa. A perseverança é um dom. As pessoas LGBT frequentemente perdoam ao clero e outros colaboradores da igreja que as trataram como mercadoria danificada. O perdão é um dom. Compaixão, perseverança, perdão são todos dons.

 

O perdão é um dom. A compaixão é um dom. Compaixão, perseverança, perdão são todos dons.

 

Deixem-me acrescentar outro dom: aquele dos padres celibatários e irmãos que são homossexuais e dos membros castos das ordens religiosas masculinas e femininas e que são gays ou lésbicas. Há várias razões que explicam porque praticamente nenhum clérigo e religioso/a gay ou lésbica saem do armário em relação à sua sexualidade. Entre eles encontram-se os seguintes: são meramente pessoas reservadas; os seus bispos ou superiores religiosos pediram-lhes para não falar nisso; eles próprios sentem-se desconfortáveis em relação à sua sexualidade; ou temem represálias dos paroquianos. Porém, existem muitos clérigos santos e trabalhadores e membros das orden religiosas que são gays ou lésbicas e que vivem as suas promessas de celibato e votos de castidade e que ajudam a igreja. Eles e elas dão-se livre e integralmente à igreja. Eles e elas próprios são o dom.

 

Ver e nomear todos estes dons é parte do respeitar os nossos irmãos e irmãs LGBT.

 

Compaixão. O que significaria para a igreja mostrar compaixão para com os homens e mulheres LGBT? A palavra compaixão significa «experimentar com, ou sofrer com.» Portanto, o que é que significa para a igreja institucional, para a hierarquia, não somente respeitar osas católicos/as LGBT, mas estar com eles/as, experienciar a vida com eles/as e mesmo sofrer com eles/as?

 

A primeira coisa e o requesito mais essencial é o escutar. É praticamente impossível experimentar a vida de uma pessoa, ou ser compassivo, se não escutarmos essa pessoa, ou se não fazemos perhuntas. As perguntas que os líderes católicos podem colocar aos seus irmãos e irmãs LGBT são: como é a vossa vida? Como foi crescer como rapaz gay ou rapariga lésbica ou pessoa transgénero? Como foi o sofrimento? Quais são as alegrias? E: qual é a sua experiência de Deus? Qual é a sua experiência da igreja? Quais são as suas esperanças, desejos e orações? Para a igreja exercer compaixão, precisamos de escutar.

 

Os líderes da igreja também precisam de defender os seus irmãos e irmãs LGBT sempre que estes/as são perseguidos/as. Em muitas partes do mundo, as pessoas LGBT sofrem, novamente nas palavras do Catecismo, incidentes terríveis de «discriminação injusta»: preconceito, violência e mesmo homicídio. Nalguns países, pode ser-se preso por ser-se gay ou ter relações com pessoas do mesmo sexo e ser-se assassinado por se ser um líder gay. Nesses países a igreja institucional tem o dever moral de se levantar publicamente em prol dos seus irmãos e irmãs. Lembremo-nos que o catecismo afirma: «qualquer sinal de discriminação injusta» deve ser evitado. Ajudar alguém, defender alguém quando este/a está a ser agredido/a é parte da compaixão. É parte do ser-se discípulo de Jesus Cristo. Se duvidarmos disso, devemos ler a parábola do bom Samaritano (Lc 10, 25-37).

 

Mais perto de nós, o que é que significaria para a nos Estados Unidos [N.T.: e também em Portugal] dizer, sempre que necessário: «É errado tratar a comunidade LGBT desta forma»? Os líderes católicos publicam regularmente declarações defendendo – como é seu dever – os refugiados e os migrantes, os pobres, os sem-abrigo, os nascituros. Esta é uma forma de estar ao lado das pessoas: colocarmo-nos a caminho, mesmo apanhar por elas.

 

Os líderes da igreja precisam igualmente de estar ao lado dos irmãos e irmãs LGBT sempre que estes são perseguidos.

 

Porém, onde estão as declarações de apoio aos nossos irmãos e irmãs LGBT? Quando faço esta pergunta, algumas pessoas dizem: «Não se pode comparar aquilo que os refugiados enfrentam com aquilo que as pessoas LGBT enfrentam.» E, enquanto pessoa que trabalhou com refugiados no leste de África, eu sei que isso é verdade. Contudo, é importante não ignorar as taxas altamente desproporcionais de suicídio entre os jovens LGBT e o facto de as pessoas LGBT são as vítimas de proporcionalmente mais crimes de ódio do que outros grupos minoritários no país. No rescaldo do massacre de Orlando, quando a comunidade LGBT por todo o país fazia luto, senti-me entristecido não sentir que mais bispos não tivessem imediatamente manifestado o seu apoio. Claro que alguns o fizeram. Agora, imaginem se os ataques fossem contra, Deus não o permita, uma paróquia metodista. Provavelmente os bispos teriam dito: «Estamos com os nossos irmãos e irmãs metodistas.» Por que isso não aconteceu em Orlando? Pareceu uma espécie de falta de compaixão, uma falha de estar ao lado de e uma falha de sofrer com. Orlando convida-nos todos e todas a refletir sobre isto.

 

Não precisamos de procurar muito longe um modelo de como fazer isto. Deus fez isto por todos e todas nós – em Jesus. As linhas de abertura do Evangelho de João dizem-nos que «E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco» (Jo 1, 14). O original em grego é mais vívido: O Verbo fez-se carne e «colocou a sua tenda no meio de nós» (eskēnōsen en hēmin). Não é maravilhoso? Deus entrou no nosso mundo para viver entre nós. Foi isto que Jesus fez. Ele viveu connosco. Tomou o nosso partido. Morreu mesmo como nós. Isto é o que a igreja é chamada a fazer com todos os grupos marginalizados, conforme nos lembrou o Papa Francisco, incluindo com os/as católicos/as LGBT: experimentar as suas vidas e sofrer com eles/ elas.

 

E também alegrar-se com eles e elas! Porque Jesus veio para experimentar todas as nossas vidas, não somente as partes dolorosas. As pessoas LGBT, embora possam sofrer perseguição, partilham as alegrias da condição humana. Também nós poderemos alegrarmo-nos com os nossos irmãos e irmãs LGBT?

 

Delicadeza: Como é que a igreja institucional pode ser «delicada» para com as pessoas LGBT? Essa é uma palavra maravilhosa utilizada pelo catecismo. No dicionário ela é definida como «uma tomada de consciência ou compreensão dos sentimentos da outra pessoa.» Encontra-se relacionada com a interpelação do Papa Francisco de que a igreja seja uma igreja do «encontro» e do «acompanhamento».

 

Para começar, é quase impossível saber à distância os sentimentos de outra pessoa. Não podemos compreender os sentimentos de uma comunidade, se não conhecemos essa comunidade. Não se pode ser delicado com a comunidade LGBT se somente se publicam documentos sobre ela, se prega sobre ela, ou se tweeta sobre ela, sem a conhecer. Uma das razões pelas quais a igreja lutou com a delicadeza é, na minha opinião, porque muitos líderes da igreja ainda não conhecem muitas pessoas gays ou lésbicas. A tentação é sorrir e dizer que os líderes da igreja conhecem de facto pessoas que são gays: padres e bispos que não saíram do armário em relação à sua homossexualidade. Porém, o meu sublinhado é mais vasto. Muitos líderes da igreja conhecem pessoas LGBT cuja sexualidade é conhecida. Essa falta de familiaridade e amizade significa que é mais difícil ser delicado. Como é que podemos ser delicados com a situação de uma pessoa se não a conhecemos? Portanto, um convite é que a hierarquia os possa conhecer como amigos/as.

 

O cardeal Christof Schönborn, arcebispo de Viena, lembrou-nos do encontro do Sínodos dos Bispos sobre a família, quando ele falou sobre um casal gay que conhecia e que tinha transformado a sua compreensão em relação às pessoas LGBT. Ele louvou mesmo as uniões entre pessoas do mesmo sexo. O cardeal disse: «Partilham a vida um do outro; partilham as alegrias e os sofrimentos; ajudam-se mutuamente. Temos de reconhecer que estas pessoas fizeram uma caminhada importante para o seu próprio bem e para o bem de outros, ainda que, claro está, esta seja uma situação que a igreja não pode considerar regular.» Ele também anulou a determinação de um padre na sua diocese que proibiu um homem, que vivia numa união do mesmo sexo, de servir num conselho paroquial, ou seja, o cardeal Schönborn esteve ao seu lado. Muito disto veio da sua experiência, conhecimento e amizade em relação às pessoas LGBT. O cardeal Schönborn disse simplesmente: «Temos de acompanhar.»

 

Nisto, como em todas as coisas, Jesus é o nosso modelo. Sempre que Jesus encontrou pessoas nas margens, ele via não uma categoria, mas uma pessoa. Para que fique claro, não estou a dizer que a comunidade LGBT deva ser, ou deva sentir-se, marginalizada. Em vez disso, eutou a dizer que dentro da igreja muitos deles e delas se sentem marginalizados. São vistos como «outro». Porém, para Jesus não havia «outro».

 

Jesus via para além das categorias; ele ía de encontro às pessoas onde estas se encontravam e acompanhava-as. No Evangelho de Lucas, quando ele encontra o centurião romano que pede a cura do seu servo, Jesus não disse «Pagão!» Em vez disso, viu um homem em estado de necessidade (Lc 7, 1-10). Mais à frente no Evangelho de Lucas, quando Jesus encontra Zaqueu, o cobrador de impostos chefe de Jericó, que teria igualmente sido considerado o chefe pecador da zona, ele não disse «Pecador!» Em vez disso, ele viu uma pessoa que procurava encontrá-lo (Lc 19, 1-10). Jesus tinha vontade de estar com, estar ao lado de e ser amigo dessas pessoas.

 

Sempre que Jesus encontrou pessoas nas margens, ele via não uma categoria, mas uma pessoa.

 

Uma objeção comum neste assunto é dizer-se: «Não, Jesus sempre lhes disse, antes de tudo, para não pecarem!» Portanto, não podemos conhecer pessoas gays porque eles pecam e quando os conhecermos, a primeira coisa que devemos dizer é «Parem de pecar!»

 

Mas este não é o caminho de Jesus. Na história de Zaqueu, como se lembrarão, Jesus vê primeiramente o cobrador de impostos empoleirado num sicómoro, tentando ver Jesus. Jesus disse que jantaria na casa de Zaqueu, um sinal de acolhimento no séc. I, na Palestina, antes que Zaqueu tenha dito ou feito o que quer que fosse. Depois de Jesus lhe ter oferecido acolhimento é que Zaqueu começa a conversar, prometendo pagar as pessoas a quem tinha defraudado. Do mesmo modo, na história do centurião romano, Jesus não repreende o homem por ser um pagão. Em vez disso, louva a fé do homem e, depois, cura-lhe o servo. Para Jesus, frequentemente, é a comunidade em primeiro lugar e a conversão em segundo.

 

O Papa fez-se eco disto numa conferência de imprensa recente: «As pessoas devem ser acompanhadas,» disse. «Quando uma pessoa que vive esta situação chega em frente a Jesus, Jesus certamente não dirá: «Vai-te embora porque és homossexual.»

 

A delicadeza baseia-se no encontro, acompanhamento e amizade. E onde é que isso nos leva? Ao segundo significado da palavra, que é, em linguajar comum, uma maior consciencialização sobre o que pode ofender. Somos «delicados» para com as situações das pessoas e, logo, somos «delicados» em relação a tudo o que possa ofender.

 

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Uma forma de sermos delicados é termos cuidado com a linguagem que utilizamos. Alguns bispos já pediram que se rejeite a frase «objetivamente deseordenado» quando se trata de descrever a inclinação homossexual (tal como se encontra no catecismo, N.º 2358). A frase refere-se à orientação, não à pessoa, mas mesmo assim é danosa. Dizer que uma das partes mais profundas de uma pessoa – a parte que recebe e dá amor – é «desordenada» em si é desnecessariamente cruel. Colocar de parte tal linguagem foi discutido no recente Sínodo sobre a família, de acordo com várias notícias publicadas. Mais recentemente, um bispo australiano, Vicent Long Van Nguyen, aformou: «Não podemos falar acerca da integridade da criação, do amor universal e inclusivo de Deus, enquanto ao mesmo tempo fazemos conluio com as forças de opressão no tratamento errado das minorias raciais, das mulheres e das pessoas homossexuais… Isso não resulta em relação aos jovens, particularmente quando sugerimos tratar as pessoas gays com amor e compaixão, mas definimos a sua sexualidade como «intrinsecamente desordenada.»

 

Parte da delicadeza é compreender isso.

 

Autor: James Martin, SJ

Tradução: José Leote (Rumos Novos)

Orgulho e silêncio

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Sim, sou gay, sou cristão, participo numa comunidade de jovens e pretendo viver uma vida evangélica. Seguramente tu, jovem – ou não tanto – que lês isto estarás a pensar que não há nada de extraordinário nisto. De facto, durante estes dias estarás mesmo a questionar-te se é anualmente necessária tanta celebração-manifestação nesta data. Para mim, que nasci numa geração onde a homossexualidade é bem aceite, às vezes, também se me esquecem esses motivos, contudo, aqui estão… muitos são pessoais e dizem muito da minha vida:

 

- Martin é efeminado, então de vez em quando há quem lhe grite na rua: “maricas”.

 

- Vicente fica sempre calado no trabalho quando falam de casais, pois teme não subir na carreira se souberem que é gay.

 

- Rosa e Ana são as catequistas mais jovens da sua paróquia, muitos questionam-se que fariam sem a sua vitalidade. “Nada têm de especial”, contudo… continuam sem dar as mãos uma à outra.

 

- Juan queria ser religioso consagrado, mas disseram-lhe que na sua vida havia demasiado compromisso visível com a comunidade LGBT.

 

- Os meus motivos: quando me disseram que constituir uma família é demasiado contracultura, que é melhor pensar em ser leigo comprometido na Igreja. Quando julgam a tua afetividade como se fosse aquela de um adolescente, equilibrada mas instável ou sem possibilidade de crescer e amadurecer. Quando olham somente ao sofrimento que pode transportar o ser-se homossexual… etc. Enquanto houver motivos de discriminação em qualquer parte do planeta, haverá que manifestar-se. O colorido, os disfarces e as plumas mais não são do que parte de uma linguagem de alegria de quem quer amar sem rodeios; de quem quer crescer sem limites; de quem quer viver uma profunda liberdade.

 

Continuarão as manifestações de alegria e o orgulho para que, algum dia, eu possa assinar este artigo, sem qualquer medo.

 

 

Mais um cristão homossexual

Tradução: José Leote (Rumos Novos)

É cristão ser gay?

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Há uns dias, um aluno do primeiro ciclo perguntou-me: «Richi, por que não é cristão ser-se gay?». Perguntava-o, disse-me, porque em sua casa tinham comentado o facto de que um pároco não havia deixo um rapaz gay ser padrinho de batismo e o bispo tinha apoiado o pároco, fazendo referência ao mau exemplo que «um pervertido» daria ao menino.

 

Quando o meu aluno me colocou a questão, a primeira coisa que recordei, foi uma pergunta semelhante que se colocava Emilio Estébanez, dominicano, aí por finais de 1992, no seu livro «É cristão ser mulher?». Das mulheres também se suspeitou e suspeita que possam realmente ser cristãs, pelo menos ao mesmo nível que os homens, com a mesma dignidade e com as mesmas possibilidades.

 

Que um adolescente ou jovem (não são a maioria?) suspeite que não se pode ser gay e cristão, não deixa de ser significativo de como chega às pessoas a Boa Nova anunciada pela Igreja. Por outro lado, nunca nenhum aluno me perguntou se é cristão ser-se heterossexual.

 

Perante a pregunta, que hei de dizer aos meus alunos e alunas? E, particularmente, que hei de dizer aos meus alunos homossexuais, lésbicas, transexuais, que tive e tenho? Devo dizer-lhes que a Boa Nova de Cristo é para todos, mas para eles e elas, nem tanto? Devo dizer-lhes que podem ser o que são, mas que é melhor que não sintam, que não pensem, que não o digam, não o insinuem, não o pratiquem, que é melhor não sair do armário?

 

Para mim a questão chave é: que diria e faria Jesus de Nazaré hoje?

 

Tendo presente o rosto amoroso do Deus, no qual acredito, revelado em Jesus de Nazaré, continuarei a dizer-lhes o que sempre lhes digo: a diversidade é mais uma mostra do amor de Deus. Deus ama-os infinitamente e têm todo o direito de ser, sentir, amar e viver de acordo com o que são.

 

Estou de acordo com o teólogo dominicano holandês Edward Schillebeeckx, segundo o qual não existe uma ética cristã sobre a homossexualidade. Trata-se de uma realidade humana que deve assumir-se com tal sem apelar a valorações morais excludentes. A incompatibilidade no cristianismo não ocorre entre ser-se cristão e ser-se homossexual, mas em ser cristão e não ter solidariedade; entre ser cristão e ser homofóbico; entre ser cristão e ser racista; entre ser cristão e ser corrupto, ou, como diz o Evangelho: entre servir a Deus e ao dinheiro.

 

 

Fr. Ricardo Aguadé, OP

Um outro “Orgulho” é possível!

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Desde 1 de maio de 2008 que temos trabalhado no sentido de que as denominadas manifestações de “Orgulho LGBT” possam ser momentos de verdadeira afirmação, que possam contribuir não somente para a urgente integração social (e também religiosa!) de todos e todas nós, mas igualmente como sinal positivo para tantos e tantas que ainda se debatem diariamente com a assunção da sua sexualidade e com a conciliação entre esta e a sua fé.

 

É por isso, que registamos com imenso agrado que comecem a surgir outras manifestações, que mostrem outras formas de celebrar a nossa experiência peculiar, no seio da sociedade em que vivemos, tal como experiências peculiares têm muitos e muitas outros.

 

Assim, a Câmara Municipal de Arona (Tenerife, Canárias, Espanha) decidiu patrocinar um evento que vá mais além dos que os carros alegóricos e as lantejoulas e realizou entre 5 e 11 de junho passado a primeira edição do ARN Culture & Business Pride, uma espécie de torre de Babel de profissionais (mais ou menos proeminentes) do coletivo: cientistas, artistas, desenhadores, jornalistas, atores, empresários, empreendedores, opinion makers, etc.

 

Sob o lema “Uma Outra Forma de Amar”, “Uma Outra Forma de Pride”, foram sete dias de intelectualidade “homo”, pretendeu-se realizar uma manifestação de Orgulho diferente do das outras cidades um pouco por todo o mundo.

 

Davide Pérez, responsável pela organização do evento define-o assim: “Não queremos competir com o Orgulho Gay de Madrid. A imagem dos carros alegóricos está muito bem, eu próprio já participei em muitos, mas julgamos necessário criar um evento mais cultural, que destacasse outros méritos do coletivo e que estão muito para além da festa”.

 

Do evento fez ainda parte a distribuição de prémios relacionados com a visibilidade, a inovação ou a cultura LGBT.

 

Para completar esta primeira edição do ARN Culture & Businees Pride, os organizadores colocaram sobre a mesa alguns assuntos que aquecem a atualidade do coletivo que ainda hoje, em alguns países, vive sob o estigma de governos e sociedades homofóbicos.

 

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Neste 17 de maio, OREMOS JUNTOS por um mundo sem homofobia

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Continuemos a ser obreiros/as da cultura do encontro!



Caros amigos e amigas, irmãos e irmãs em Jesus Cristo,

 

Circunstâncias várias, entre elas o atraso na preparação de uma celebração condigna, levam-nos (como infelizmente já aconteceu em 2016) a alterar a forma como iremos assinalar o próximo dia 17 de maio, Dia Internacional Por Um Mundo Sem Homofobia.

 

Iremos lembrar os irmãos e irmãs vítimas da violência, da exclusão e do preconceito. É justo fazê-lo, porque nenhum ser humano deve ser humilhado. Nenhum ser humano deve sentir-se diferente ou inferior aos outros.

 

O próprio Papa Francisco, respondendo aos jornalistas no regresso da Jornada Mundial da Juventude no Brasil, disse: “Se uma pessoa é gay e busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?”.

 

São palavras muito bonitas e profundas, que no Rumos Novos podemos confirmar pela experiência de partilha e oração que temos presente nos nossos vários momentos em conjunto. São testemunhos ‘muito humanos’ e com grande sensibilidade, de tantos e tantas que procuram verdadeiramente Deus.

 

Por isso, o Santo Padre convidou-nos a não julgar. Quem somos nós para subir num pedestal e apontar o dedo? Quem somos nós para condenar e atirar pedras? Quem somos nós para sentir desprezo? Quem somos nós para excluir e rejeitar?

 

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No entanto, também neste importante dia, todos e todas nós, católicos e católicas homossexuais, não nos podemos esquecer dos irmãos e irmãs que têm outra visão sobre algumas questões da nossa vivência. Com eles e elas sejamos igualmente tolerantes e saibamos escutar, como gostamos que nos escutem a nós. Não criemos um “complexo de homofobia”, mas uma “cultura do entendimento”, pois para muitos desses irmãos e irmãs é possível, de facto, respeitar plenamente os católicos e as católicas homossexuais, como qualquer outra pessoa no mundo, sem, no entanto, compartilhar algumas das nossas aspirações. É já um caminho…

 

Na noite de 17 de maio, vamos unir-nos espiritualmente na oração, com todo o nosso coração, aos nossos irmãos e irmãs homossexuais que ainda vivem no armário; que são perseguidos, ultrajados e abusados; que são presos e torturados em função da sua orientação sexual; que são mortos em função dessa mesma orientação. A todos e todas vamos apertá-los num grande abraço espiritual e dizer-lhes que somos todos filhos de Deus.

 

De igual modo, busquemos, com todos e todas os irmãos e irmãs, sem exceção, as coisas que nos unem e rezemos juntos ao Senhor, em nome desses valores que estão escritos no coração de cada ser humano.

 

Por isso, apelamos a todos e todas que pelas 22h00, do próximo dia 17 de maio, onde quer que nos encontremos, que acendamos uma vela e oremos, pedindo ao Senhor por todos aqueles e aquelas que diariamente sentem na pele o que é ser diferente.
 
 
Para quem quiser, partilhamos aqui um esquema para orarmos, em conjunto, espiritualmente neste dia, ainda que afastados uns dos outros.
 
 
Gostaríamos de vos pedir que partilhassem connosco as velas e os espaços de oração que criarem neste dia 17 de maio.

 
Poderão fazê-lo diretamente na nossa página no facebook, ou enviando-as por e-mail.

 

NOTA À IMPRENSA: Em Fátima, Francisco irá rezar por todos «SEM EXCLUIR NINGUÉM»

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É com o coração cheio de júbilo que as católicas e os católicos homossexuais portugueses acolhem o Papa Francisco. Júbilo também revestido de esperança de que esta visita de Sua Santidade possa ser um momento único de um Papa que se encontra com o seu povo «sem excluir ninguém» como tão bem sublinhou na sua mensagem antes de iniciar esta visita, e que continue a apostar numa conversão dos corações.

 

Mais uma vez, queremos saudar a abertura de Francisco à realidade das católicas e dos católicos homossexuais demonstrada em vários momentos do seu pontificado, numa transformação de corações que permita uma igreja mais inclusiva e mais próxima de Cristo, que não existe para ser servida, antes para servir, mas que tantas razões tem, infelizmente, dado para as e os católicos homossexuais se irem embora.

 

Rumos Novos – Católicas e Católicos Homossexuais continuará a prosseguir um trabalho que conduza a uma melhor compreensão não somente das pessoas de orientação homossexual, mas igualmente das suas relações afetivas, na esperança de uma construção de pontes firmes, numa cultura do encontro, com os irmãos da hierarquia e na certeza de que só a paz e o entendimento possibilita essa construção, para que se pare de carregar «às costas dos fiéis pesos que não podem levar» e nos possamos tornar completamente comprometidos connosco, católicos e católicas homossexuais que pretendemos viver uma vida católica e que amamos a igreja católica.

 

Com o Papa queremos, pois, construir pontes contra a intolerância e uma igreja que fale com as pessoas católicas homossexuais e que não se limite a falar para elas. Uma igreja que seja espaço de acolhimento, paz, misericórdia e tolerância para que possamos ter uma outra igreja: uma igreja que saiba ir às periferias e escutá-las e mais próxima de Cristo, numa clara conversão de atitudes tanto para a igreja institucional como para nós todos seus membros.

O Bispo John Stowe presente num encontro de católicos LGBT nos Estados Unidos

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No encontro Stowe afirmou sentir-se pequenino perante aqueles e aquelas que continuaram «uma vida de fé numa igreja que nem sempre os/as acolheu ou valorizou» ou ao seu esforço. Enquanto pastor, é preciso escutar as suas vozes e levar a sério a sua experiência, afirmou, tendo acrescentado que quer a presença quer a persistência dos católicos LGBT o inspiraram.

 

Eles têm mostrado «uma expressão valiosa de misericórdia» ao interpelarem a igreja «a ser mais inclusiva e mais próxima de Cristo, apesar de se lhes darem muitas razões para irem embora», afirmou.

 

O Bispo John Stowe tem esperança e reza «por uma cultura do encontro» que permita assegurar «que possamos tornar-nos copletamente comprometidos com aqueles e aquelas que pretendem viver uma vida católica e que amam a igreja católica... Por que razão quereríamos voltar-lhes as costas?», perguntou.

 

Stowe recuou ao encontro de S. Francisco com o pedinte há 800 anos. No início, o leproso com as suas chagas abertas repeliu-o, mas depois S. Francisco foi capaz de beijar o leproso. «Ele foi transformado por este encontro», disse o bispo.

 

«O nosso modo habitual de pensar é aquele de que justiça e misericórdia são incompatíveis.» disse Stowe. Porém, o Papa Francisco pediu aos católicos para encontrarem novos caminhos para trabalharem em conjunto, para abrirem novas possibilidades e tentarem não fazer juízos uns dos outros, acrescentou. «Todos nós ainda necessitamos de misericórdia. Trata-se da necessidade de conversão de atitudes tanto para a igreja institucional como para os seus membros», disse Stowe.

 

Sobre os funcionários da igreja e outros leigos comprometidos que tem sido afastados devido à sua orientação sexual, Stowe afirmou: «Temos de preservar a nossa tradição e a nossa integridade enquanto igreja. Arriscamo-nos a entrar em contradição sempre que pretendemos que os funcionários da igreja [e outros leigos comprometidos] vivam de acordo com os ensinamentos da igreja e quando nós, enquanto instituição, não vivemos de acordo com o nosso ensinamento, que sempre se opôs a qualquer tipo de discriminação.»

 

Stowe pensa que a igreja pode encontrar um caminho que permita «defender a nossa liberdade religiosa sem violar os direitos humanos de ninguém.» «Temos de ser consistentes, mesmo que isso algumas vezes possa ser difícil.»

 

O desafio é «articular os princípios do Evangelho de forma consistente e implementá-los com compaixão», disse. Algo que a doutrina social da igreja sempre defendeu foi a dignidade de cada ser humano. «Pregamos que o desabrochar do ser humano é um objetivo primordial,» afirmou, «mais importante do que a proteção das nossas instituições.»

 

Stowe afirmou ainda que nas suas muitas visitas a encontros de Crisma, os adolescentes da sua diocese perguntam: «Por que motivo os católicos e as católicas homossexuais não podem ser eles mesmos? Bispo Stowe,por que razão eles não podem amar quem querem?»

 

Ele disse que admira a forma como cada jovem sabe que a igeja acredita no valor intrínseco de cada pessoa. Porém, também sabem que as pessoas LGBT nem sempre são bem acolhidas ou tratadas com justiça na igreja, disse.

 

Ele tenta familiarizá-los com a doutrina da igreja sobre a dignidade de cada ser humano, citando palavras do documento do Concílio do Vaticano II, Gaudium et Spes (a Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Moderno) e outros exemplos. Ele refere como a discriminação conduz à desumanização, frequentemente exteriorizada em bullying, abuso, alguma vezes violência e mesmo morte.

 

«Temos de escutar os nossos jovens e prestar atenção a coisas como estas,» insistiu o bispo.

 

Refletindo sobre Mateus 12, 1-14, o bispo disse aos presentes que nesta leitura da moralidade cristã, ele encontra o valor infinito da pessoa humana para ser «a pedra angular e a fundação que permita determinar a moralidade de um determinado ato ou questão. A moalidade cristã está mais preocupada com o bem-estar da pessoa do que com regras, normas ou ordens. Jesus parece ensinar isto em inúmeras ocasiões», afirmou Stowe.

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