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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

NOTA DE IMPRENSA 03/20010: Homossexuais Católicos Portugueses respondem ao cardeal Tarcisio Bertone: A Pedofilia é uma relação de domínio e disso sabe muito, alguma da hierarquia.

Afirmou hoje o secretário de estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, na sua visita ao Chile, que não era o celibato dos padres que estava na origem dos casos de pedofilia que por todo o mundo irrompem no seio da Igreja, mas sim a homossexualidade.

 

Ainda que esta posição não seja nova, pois já em 2002, a primeira resposta às revelações de abusos sexuais por parte de clérigos e ao seu encobrimento por parte da hierarquia católica foi a declaração que os homossexuais não podiam ser ordenados sacerdotes, não pode o RUMOS NOVOS – GRUPO HOMOSSEXUAL CATÓLICO, na defesa dos fiéis homossexuais católicos portugueses deixar de repudiar estas palavras impróprias de um membro da hierarquia, impróprias de um católico e falsas do ponto de vista científico, tanto mais que não foi este nem o caminho, nem a verdade, nem a vida que Cristo nos legou.

 

O dedo acusatório do cardeal Bertone, pretende lançar sobre os homossexuais, em geral, e sobre aqueles que são católicos, em particular, um anátema que julgávamos arredado do século XXI e que, novamente, continua a cavar o fosso entre a Igreja, enquanto comunidade de fiéis, e alguma hierarquia que, não entendendo o Vaticano II, não sabe ler os sinais dos tempos (perdendo de vista que uma instituição que não mude, ou leve muito tempo a fazê-lo, acabará por desaparecer) e se afasta cada vez mais ma mensagem de Cristo, da realidade e do mundo, esquecendo que a sua verdadeira missão é evangelizar e acolher, pois «aquilo que não fizerdes ao mais pequenino de entre estes, é a Mim que o não fazeis», interpela-nos a todos Jesus Cristo.

 

A afirmação feita pelo cardeal Bertone, choca igualmente (e o cardeal Bertone sabe-o muito bem!) com os mais elementares dados das investigações científicas existentes que demonstram que as pessoas com tendências pedófilas são indivíduos de ambos os sexos, que se sentem atraídos por crianças e jovens na fase de pré-puberdade e que são incapazes de manter relações adultas, com homens ou com mulheres. Um estudo conduzido pelos psiquiatras Groth e Gary, em 1982 e outras posteriores, concluiem, sem margens para dúvidas, que «as pesquisas efectuadas apontam para a não existência de uma relação significativa entre a homossexualidade e o abuso de crianças… e o adulto, homem, que molesta sexualmente crianças do sexo masculino não é provável que seja homossexual».

 

Por outro lado, acreditamos, tal como acontece com o cardeal Bertone, que o celibato dos sacerdotes não está na origem dos casos de pedofilia. Porém, o celibato é o cenário ideal para um abusador de crianças ou um homossexual atormentado pelos seus próprios demónios (muitos dos quais incutidos por uma fé castrante e ela própria contrária aos ensinamentos de Cristo), pois assegura a impunidade e a adulação de familiares e amigos que deixam de questionar sobre relacionamentos. Talvez pondo fim ao celibato, a Igreja deixasse de ser o santuário para todos aqueles que se escondem dos seus demónios interiores ou mentes doentias, pois a questão dos relacionamentos voltaria a aparecer e seria mais fácil percepcionar as vocações das omissões.

 

Ao pretender criar nos homossexuais o bode expiatório para os sucessivos escândalos sexuais que assolam a igreja e que a todos nos mortificam, o cardeal Bertone aviva também em nós, homossexuais católicos, as palavras do evangelista João: «Expulsar-vos-ão… virá mesmo a hora em que qualquer que vos matar cuidará fazer um serviço a Deus. Isto vos farão porque não conhecem o Pai nem a Mim».

Mas, sobretudo, recordamos ao cardeal Bertone, certos de que um dia a hierarquia católica apelará publicamente ao perdão dos homossexuais, as palavras do Cardeal Patriarca de Lisboa, na Páscoa que acabámos de viver: «Estamos aos pés da Cruz, quando os pecados da Igreja, ofuscam o Evangelho e a mensagem de Cristo».

Por tudo isto, lembramos ao cardeal Bertone, que a pedofilia é sempre uma relação de poder e nada mais que isso e instamos a hierarquia católica a permanecer atenta aos casos existentes e aos que surjam, bem como a colaborar com a justiça, denunciando os abusadores e não a dar-lhes cobertura, de modo a que estes paguem pelo seu delito, que tão graves sequelas deixou em tantas crianças e jovens, ao longo de todos estes anos.

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