Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Belém garante que Cavaco não tomou qualquer decisão

Após notícias veiculadas na imprensa acerca da alegada intenção de Cavaco Silva vetar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a Presidência da República veio já hoje garantir que o Presidente da República ainda não tomou qualquer decisão sobre este assunto.

 

O comunicado de Belém refere que, "tendo sido veiculada por alguns órgãos de comunicação social a notícia de que o Presidente da República deverá exercer o direito de veto relativamente à lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a Presidência da República vem esclarecer que tal notícia possui um carácter totalmente especulativo e infundado relativamente a qualquer decisão que o Presidente da República venha a tomar neste domínio, a qual só terá lugar após a publicação, no Diário da República, do acórdão do Tribunal Constitucional que se pronunciou sobre a matéria, o que ainda não ocorreu".

 

A Rádio Renascença avançou esta sexta-feira que o Presidente Cavaco Silva preparava o veto ao casamento homossexual para depois da visita do Papa a Portugal.

 

 

Louçã defende votação da lei mesmo com veto de Belém


O líder do BE defendeu que caso o Presidente da República venha a vetar a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo, ainda assim o Parlamento deve votá-la para que esta entre em vigor.

 

Questionado pelos jornalistas acerca das notícias veiculadas na imprensa indicando que Cavaco Silva estaria a preparar um veto a esta lei, Francisco Louçã apontou que "as notícias não são com base em fontes de Belém".

 

"Seria revelador de uma visão muito conservadora", considerou o bloquista, para acrescentar que "esta lei (que não foi aprovada apenas com os votos da esquerda) melhora o respeito pela dignidade de todas as pessoas".

 

A proposta de lei foi aprovada pela Assembleia da República em votação final global a 11 de Fevereiro com votos favoráveis do PS, BE, PCP e Verdes. Seis deputados do PSD abstiveram-se, enquanto que CDS-PP e a maioria da bancada social-democrata votaram contra o diploma, bem como as duas deputadas independentes eleitas pelo PS.

 

 

Casamento entre pessoas do mesmo sexo teve luz verde do TC


 

O diploma que retira do Código Civil a expressão "de sexo diferente" na definição de casamento teve luz verde do Tribunal Constitucional no passado dia 8 de Abril, com o TC a considerar que as normas enviadas em Março pelo Presidente da República para fiscalização preventiva são constitucionais.

 

No requerimento Cavaco Silva solicitava a fiscalização preventiva da constitucionalidade de quatro dos cinco artigos (1, 2, 4 e 5) do diploma. O único artigo a permitir o casamento homossexual que Belém não enviou para o TC refere-se à proibição da adopção por pessoas casadas com cônjuge do mesmo sexo.

 

O juiz conselheiro Victor Gomes foi o relator do acórdão, que teve nove votos favoráveis, dos quais cinco apresentaram declaração de voto, e dois votos vencidos.

 

 

(in: RTP on-line)

 

 

Perda histórica de confiança

Uma carta aberta de Hans Küng



Venerados bispos,

 

Igrejas vazias – e agora ainda por cima um escândalo: Cinco anos após Bento XVI ter sido eleito Papa, a Igreja Católica vê-se a braços com a maior crise de confiança desde a Reforma.

 

Joseph Ratzinger, agora Bento XVI, e eu éramos em 1962-1965 os teólogos mais jovens do Concílio. Agora somos os mais velhos e os únicos ainda em actividade. Entendi sempre o meu trabalho teológico como sendo também um serviço para a igreja. Assim, no quinto aniversário do pontificado do papa Bento XVI, escrevo-vos uma carta aberta, pois estou preocupado com a nossa igreja, que se debate com a crise de confiança mais profunda desde a Reforma. Não tenho outra maneira de chegar a vós.

Prezei muito o facto de Bento XVI me ter convidado para uma conversa de quatro horas, pouco depois da sua eleição, apesar de eu ser um crítico seu. A conversa foi amigável e deu-me esperança de que o meu antigo colega da Universidade de Tubinga encontrasse o caminho para o prosseguimento da renovação da igreja e do entendimento ecuménico, no espírito do Concílio Vaticano II.

Oportunidades perdidas

Infelizmente, as minhas esperanças, assim como as de tantos católicos e católicas empenhados, foram vãs e eu comuniquei isso ao papa Bento XVI em diversas cartas. Ele cumpriu sem dúvida conscienciosamente os seus deveres papais e até já nos deu três proveitosas encíclicas sobre a fé, a esperança e o amor.

Mas no que respeita aos grandes desafios do nosso tempo, o seu pontificado é cada vez mais caracterizado pelas oportunidades perdidas e não pelas ocasiões aproveitadas:

— Perdeu-se a oportunidade de aproximação com as igrejas evangélicas: não são entendidas como igrejas em toda a acepção da palavra, pelo que não é possível reconhecer os seus ministros e realizar celebrações conjuntas da eucaristia.

— Perdeu-se a oportunidade de diálogo com os judeus: o papa reintroduziu uma oração pré-conciliar pela iluminação dos judeus e abre as portas da igreja a bispos cismáticos notoriamente anti-semitas, beatificou Pio XII e entende o judaísmo somente como raiz histórica do cristianismo, e não como comunidade de fé existente com um caminho próprio de salvação. Irritação dos judeus em todo o mundo por causa da homília de Sexta-Feira Santa do pregador da Casa Pontifícia, que comparou as críticas ao papa com ódio anti-semita.

— Perdeu-se a oportunidade de diálogo confiante com os muçulmanos: sintomático foi o discurso de Bento em Regensburgo, no qual, mal aconselhado, falou do Islão como uma religião da violência e da desumanidade, tendo provocado uma desconfiança duradoura entre os muçulmanos.

— Perdeu-se a oportunidade de reconciliação com os povos nativos colonizados da América Latina: o papa tem afirmado seriamente que eles “ansiavam” pela religião dos seus conquistadores.

Luta contra a SIDA

— Perdeu-se a oportunidade de ajudar os povos africanos: na luta contra a sobrepopulação através da aprovação de medidas de contracepção e na luta contra a SIDA através da autorização do uso do preservativo.

— Perdeu-se a oportunidade de selar a paz com a ciência moderna: através de um reconhecimento sem reservas da teoria da evolução e da aprovação diferenciada de novos campos da investigação, como a investigação sobre células estaminais.

— Perdeu-se a oportunidade de transformar finalmente o espírito do Concílio Vaticano II na bússola da Igreja Católica dentro do próprio Vaticano e de levar por diante as reformas nele preconizadas.

O último ponto, venerados bispos, é especialmente importante. Este papa tem vindo sempre a relativizar os textos do Concílio e a interpretá-los contra o espírito dos pais do Concílio, recuando em vez de avançar. Toma até uma posição expressa contra o Concílio Ecuménico que, segundo o direito canónico católico, constitui a autoridade máxima da Igreja Católica:

— Admitiu incondicionalmente na igreja bispos da tradicionalista Fraternidade Pio X, ilegalmente ordenados, à margem da Igreja Católica, que rejeitam o Concílio nos seus pontos centrais.

— Promove com todos os meios a missa medieval segundo o rito tridentino e celebra ocasionalmente a eucaristia em latim de costas voltadas para o povo.

— Não cumpre o acordo delineado em documentos ecuménicos oficiais com a Igreja Anglicana (ARCIC), mas tenta atrair para a Igreja Católica Apostólica Romana religiosos anglicanos casados, libertando-os da obrigação do celibato.

— Fortaleceu globalmente as forças anticonciliares no interior da Igreja, através da nomeação para cargos de chefia (secretários de estado, congregação da liturgia, etc.) de pessoas com posições anticonciliares e bispos reaccionários.

Política de restauração falhada

O papa Bento XVI parece distanciar-se cada vez mais da grande maioria do povo católico, que se preocupa cada vez menos com Roma e, na melhor das hipóteses, se identifica apenas com a comunidade e o bispo local. Sei que muitos de vós também sofrem com isso: a política anticonciliar d o papa é inteiramente apoiada pela cúria romana. Esta procura sufocar as críticas no episcopado e na igreja, e desacreditar os críticos por todos os meios.

Através de uma renovada sumptuosidade barroca e de manifestações com impacto nos meios de comunicação social, Roma procura apresentar uma Igreja forte, com um “Vigário de Cristo” absolutista, que reúne nas suas mãos todo o poder legislativo, executivo e judicial.

No entanto, a política de restauração de Bento XVI fracassou. Todas as suas aparições, viagens e documentos não conseguiram alterar, no sentido da doutrina romana, as opiniões da maioria dos católicos acerca de questões controversas, principalmente em termos de moral sexual. E mesmo os encontros de juventude, frequentados sobretudo por agrupamentos carismáticos conservadores, não conseguiram travar o abandono da Igreja por parte de fiéis, nem despertar mais vocações para o sacerdócio.

Abandonados

Serão justamente os bispos quem mais profundamente lamentará este facto: desde o Concílio, dezenas de milhares de sacerdotes abandonaram o sacerdócio, sobretudo devido à lei do celibato obrigatório. A renovação não só de sacerdotes, mas também de congregações religiosas, freiras e irmãos laicos decaiu, tanto em quantidade como em qualidade. A resignação e a frustração alastram no seio do clero e entre os membros mais activos da igreja.

Muitos sentem-se abandonados nas suas necessidades e sofrem na Igreja. Em muitas das vossas dioceses deve acontecer isto: cada vez mais igrejas vazias, seminários vazios, residências paroquiais vazias. Nalguns países as comunidades católicas são fundidas, por falta de padres e frequentemente contra a sua vontade, em “unidades de assistência espiritual” gigantescas, nas quais os poucos padres disponíveis estão completamente sobrecarregados e que apenas servem para simular uma reforma da Igreja.

E eis que aos muitos factores de crise vêm ainda juntar-se escândalos que bradam aos céus: acima de tudo, o abuso de milhares de crianças e jovens por clérigos, nos Estados Unidos, na Irlanda, na Alemanha e noutros países — tudo isto ligado a uma crise de liderança e confiança sem precedentes.

Não ao silêncio

Não se pode calar o facto de que o sistema de encobrimento global de delitos sexuais de clérigos foi dirigido pela Congregação para a Doutrina da Fé do Cardeal Ratzinger (1981-2005), na qual, ainda no pontificado de João Paulo II, os casos foram compilados sob o mais estrito sigilo.

Ainda em Maio de 2001, Ratzinger enviou uma carta solene acerca dos delitos graves (“Epistula de delictis gravioribus”) a todos os bispos. Nesse documento os casos de abuso eram colocados “sob Secretum Pontificium”, cuja violação pode implicar severas penas canónicas. É, pois, com justiça que muitos exigem do então prefeito e agora papa um ”Mea culpa” pessoal. Contudo, infelizmente este deixou passar a oportunidade de o fazer na Semana Santa. Em vez disso, fez atestar “urbi et orbi” a sua inocência através do cardeal decano, no Domingo de Páscoa.

As consequências de todos estes escândalos para o prestígio da Igreja Católica são devastadoras. Isto é confirmado também por titulares de altos cargos da Igreja. Inúmeros pastores e educadores irrepreensíveis e altamente empenhados são agora vítimas de uma suspeita generalizada.

É a vós, venerados bispos, que cabe perguntar como deve ser o futuro na nossa Igreja e nas vossas dioceses. Contudo, gostaria de vos esboçar um programa de reformas; é algo que fiz por várias vezes, antes e depois do Concílio.

Dêem uma perspectiva à nossa Igreja

Gostaria de fazer apenas seis sugestões, que é minha convicção serem comuns a milhões de católicos que não têm voz:

1. Não calar: O silêncio torna-vos cúmplices de tantos males graves. Muito pelo contrário, nos casos onde considerem determinadas leis, disposições e medidas como contraproducentes, devem dizê-lo publicamente. Não enviem declarações de submissão a Roma, mas sim reivindicações de reforma!

2. Ajudar as reformas: São muitos os que se queixam de Roma, na Igreja e no Episcopado, mas nada fazem. No entanto, quando, numa diocese ou paróquia, os serviços religiosos não são frequentados, a assistência espiritual é pobre, a abertura às necessidades do mundo é limitada, a colaboração ecuménica é mínima, então a culpa não pode ser assacada simplesmente a Roma. Bispo, sacerdote ou leigo – cada um faça algo pela renovação da Igreja no âmbito maior ou menor da sua vida. Muitas coisas extraordinárias, tanto a nível paroquial como na totalidade da Igreja, começaram por iniciativas solitárias ou de pequenos grupos. Na vossa qualidade de bispos, há que apoiar e estimular essas iniciativas, e ir ao encontro das queixas fundamentadas dos fiéis, sobretudo agora.

3. Agir em colegialidade: O Concílio decretou, após um debate intenso e contra a oposição persistente da cúria, a colegialidade do papa e dos bispos, no sentido da história dos apóstolos, na qual Pedro não agia sem o colégio dos apóstolos. Mas, no período pós-conciliar, os papas e a cúria têm vindo a ignorar esta decisão conciliar central. Desde que o papa Paulo VI, apenas dois anos depois do Concílio, publicou uma encíclica em defesa da controversa lei do celibato, sem ter consultado o episcopado, o magistério e a política papais regressaram ao velho estilo não colegial. Até na liturgia o papa se apresenta como autocrata, perante o qual os bispos, de que ele gosta de se rodear, surgem como meros comparsas, sem direitos nem voz. Por isso, venerados bispos, há que agir não apenas individualmente, mas em comunidade com os outros bispos, os sacerdotes e o povo da Igreja, homens e mulheres.

A obediência é devida apenas a Deus

4. A obediência incondicional é devida apenas a Deus: Na sagração solene como bispos, todos fizeram um voto de obediência incondicional ao papa. Mas também todos sabem que a obediência incondicional nunca é devida a uma autoridade humana, mas apenas a Deus. Assim, o vosso voto não deve impedir-vos de dizer a verdade acerca da actual crise da Igreja, da vossa diocese ou do vosso país. Em absoluta conformidade com o exemplo do apóstolo Paulo, que resistiu [a Pedro] frente a frente, porque merecia censura“ (Gal 2, 11)! Pressionar as autoridades romanas no espírito da fraternidade cristã pode ser legítimo, quando estas não correspondem ao espírito do Evagelho e à sua missão. A utilização das línguas nacionais na liturgia, a alteração das disposições relativas aos casamentos mistos, a aceitação da tolerância, da democracia, dos direitos humanos, do entendimento ecuménico e tantas outras coisas, apenas foram conseguidas graças a uma perseverante pressão vinda de baixo.

5. Procurar soluções regionais: O Vaticano mostra-se frequentemente surdo às reivindicações do episcopado, dos sacerdotes e dos leigos. Tanto mais necessária é, pois, a procura inteligente de soluções regionais. Um problema particularmente delicado, bem o sabeis, é a lei do celibato, oriunda da Idade Média, que está a ser justificadamente posta em causa no contexto dos escândalos de abusos sexuais. Uma alteração contra a vontade de roma parece quase impossível. No entanto, isso não significa que se esteja condenado à passividade: um sacerdote, que após madura reflexão pensa em casar, não teria de renunciar automaticamente ao seu cargo, se o bispo e a comunidade o apoiassem. As várias conferências episcopais poderiam avançar com soluções regionais. Mas o melhor seria procurar uma solução para toda a Igreja. Portanto:

6. Exigir um Concílio: Tal como foi necessário um Concílio Ecuménico para alcançar a reforma litúrgica, a liberdade religiosa, o diálogo ecuménico e interreligioso, o mesmo acontece para a resolução dos problemas que agora eclodem de modo tão dramático. O Concílio de Constança, no século anterior à Reforma, determinou a convocação de um Concílio a cada cinco anos, mas essa decisão tem sido ignorada pela cúria romana. Sem dúvida que esta também agora fará tudo para evitar um Concílio do qual tem a recear uma limitação do seu poder. É responsabilidade de todos vós levar a cabo a realização de um Concílio ou, pelo menos, de uma assembleia representativa do episcopado.

Enfrentar os problemas com sinceridade

É este, venerados bispos, o apelo que vos faço perante uma igreja em crise, pôr na balança o peso da vossa autoridade episcopal, revalorizada pelo Concílio. Nesta difícil situação, os olhos do mundo estão postos em vós. Inúmeras pessoas perderam a confiança na Igreja Católica. Só uma abordagem aberta e séria dos problemas e a adopção das reformas indispensáveis pode ajudar a recuperar essa confiança. Peço-vos com todo o respeito, que cumpram a vossa parte, sempre que possível em colaboração com os outros bispos, mas em caso de necessidade também sozinhos, com “desassombro” apostólico (Act 4, 29.31). Dêem sinais de esperança e coragem aos vossos fiéis e uma perspectiva à nossa Igreja.

Saúdo-vos na comunhão da fé cristã
Vosso
Hans Küng

 

Cavaco deverá vetar diploma do casamento homossexual

O Presidente da República deverá vetar o diploma do casamento homossexual, avança esta sexta-feira da Rádio Renascença. O veto está guardado para o final da visita do Papa Bento XVI a Portugal.

 

De acordo com a Renascença, Cavaco Silva deverá tomar a sua decisão após a visita de Bento XVI a Portugal. Nos termos da Constituição, a decisão do Presidente tem de ser tomada 20 dias após a publicação em Diário da República do acórdão do TC, período de tempo que ainda não foi cumprido.

 

Recorde-se que o Tribunal Constitucional decidiu-se pela validade do diploma aprovado na Assembleia da República.»

Homossexuais querem mudar Igreja e comungar sem reservas

São praticantes e reúnem-se num hotel porque nenhuma paróquia lhes abriu as portas. E só um padre lhes disse sim.

 

O trabalho de casa era ler um texto do Envagelho de São Lucas, capítulo 4, versículos de 14 a 30. Relata o início da vida pública de Jesus, onde fala da sua vida e missão e, diz o texto bíblico, apesar da Boa Nova, nem todos acolhem Jesus do mesmo modo. "O que é que este texto tem que ver connosco, com a nossa vida, homossexuais como somos? Acrescento que, por algumas declarações que ouvimos de irmãos nossos na hierarquia da Igreja, poder-se-á pensar que o Senhor não está sobre nós!"

 

A pergunta é de José Leote, coordenador nacional do Rumos Novos, grupo homossexual católico, e que lança o desafio para o debate do encontro mensal de sábado, no Ibis Saldanha, em Lisboa. Nenhuma paróquia lhes abriu as portas e, no final da sessão, colocam um donativo num envelope para suportar as despesas. Funcionam à semelhança de outros grupos católicos, em que existe uma primeira parte de discussão bíblica, uma segunda de oração e uma terceira de convívio. Têm um padre a presidir, um assistente de que não revelam o nome e que encontraram depois de percorrerem uma lista extensa. Desta vez, o padre está ausente, bem como as duas mulheres do grupo.

 

Estão nove homens na sala, entre os quais três casais, sendo que não ultrapassam os 15 nos dias de maior participação. Isto apesar dos muitos contactos através da Internet, o que os leva a concluir que serão 300 no País. São católicos praticantes, confessam-se, comungam e são padrinhos, tudo o que a hierarquia da Igreja lhes proíbe. Dizem que o fazem conscientemente.

 

A sala tem as mesas dispostas em quadrado, que fecha com um altar. Iniciam a sessão com o lema: "Hoje, cumpriu-se a escritura."

Partem do texto bíblico, mas a discussão logo deriva para os temas quentes da actualidade: os casos de pedofilia na Igreja; a forma como a hierarquia "escondeu o assunto" e as recentes declarações de Tarcisio Bertone, vinculando a homossexualidade à pedofilia", e que, mais tarde, o Vaticano veio dizer que se referia aos padres. "Pior a emenda que o soneto!", ouve-se na sala. E outra voz acrescenta: "Cada vez são mais conservadores. E os mais novos são piores..."

 

O DN reformula a pergunta inicial já no final do encontro. "Sentem que o Senhor está sobre vós?" "Claro!", é a resposta. "O que retiramos é o papel que a palavra de Deus representa na vida de cada um de nós e na forma como vivemos o dia-a-dia", explica António Filipe. "Participamos da eucaristia, somos baptizados e professamos a fé católica", justifica José Leote, 39 anos, professor .

 

Já José Ribeiro, 59 anos, professor de Matemática, com três filhos de um casamento, diz não se sentir "especialmente ligado à Igreja", estando mais interessado na discussão teológica do que na prática, embora vá à missa. "É uma questão de tradição familiar e de percurso de vida."

 

O que têm de comum, bem como a todos os elementos e simpatizantes do Rumos Novos, é a certeza de que não faria sentido mudar de religião. "Acreditamos nos valores católicos, na família, num casal estável, fiel. E acreditamos que é possível mudar a Igreja por dentro", justifica José Leote. Mas não acreditam que a mudança surja com Bento XVI. É sem entusiasmo que vêem a visita ao País.

 

 

(Por: Céu Neves, In: Diário de Notícias)

 

Activista sem rótulos e contra a discriminação

António Filipe, 47 anos, bancário, não gosta de ser rotulado. Nem do ponto de vista sexual nem do ponto de vista religioso. Teve conhecimento do grupo Rumos Novos através da Internet, movimento a que se juntou para discutir as questões de espiritualidade e lutar contra a discriminação de pessoas. Frequenta pontualmente outros ritos religiosos, como o budismo, mas é no catolicismo que se encontra com maior frequência, até porque é a religião onde foi educado e que pratica.

 

"O que me interessa é a essência das coisas, a espiritualidade do ser humano. A evolução da humanidade, e também dos dogmas da Igreja, faz-se mais a nível dos pensadores do que propriamente com medidas pontuais", justifica. E tanto admite ter relações com uma mulher como com um homem, porque entende que é o conteúdo e não a forma que lhe interessa. "Tomei consciência da discriminação que havia em relação às pessoas que vivem a sexualidade de forma diferente daquela que hierarquia da Igreja defende, o que me impressionou. Não se trata de homossexuais, bissexuais, mas de pessoas", explica.

 

É o António que leva os objectos religiosos e ornamenta o altar, que mais reflecte e partilha os textos religiosos com os elementos do grupo. Este sábado levou um livro com três textos de Timothy Radcliffe, um dominicano que questiona: "Como podemos ensinar sem nos tornarmos intransigentes e fundamentalistas?"

 

É António quem inicia a oração no final: "Pai-nosso, cujo amor e compaixão se estende a toda a humanidade, sem distinção de sexo ou de orientação sexual, oferecemo-te as nossas vidas e experiências como homossexuais."

Homossexualidade é "pecado grave" como o "homicídio"

As paróquias da Baixa-Chiado estão a distribuir um panfleto de preparação à confissão, "sacramento de penitência e da reconciliação", lê-se na capa. E um dos "pecados graves" que os crentes se devem penitenciar diz respeito à vida sexual. "Guardei a castidade? Consenti em maus pensamentos? Participei em conversas indecentes. Pratiquei alguma acção grave contra a castidade (masturbação, relações sexuais fora do casamento, leitura, audição ou visionamento do material pornográfico, práticas homossexuais)?

 

Aquelas são algumas questões que as pessoas devem colocar se querem "obter a reconciliação com Deus e com a Igreja". Tal como as perguntas sobre se cometeram "alguma falta contra os direitos sagrados da vida: homicídio, aborto, eutanásia, violência contra os outros, suicídio tentado ou planeado, uso de drogas, abuso de álcool, condução imprudente e sistemática, riscos desnecessários e excessos tomados por aventureirismo ou bravata, ou qualquer acção que represente violação do 5.º mandamento da lei de Deus".

 

José Ribeiro e o companheiro ficaram indignados quando encontraram o folheto na Igreja de S. Nicolau. Sentem-se tratados como criminosos e é contra isso que lutam. O DN não conseguiu falar com o padre daquela paróquia.

 

António Sezerdelo, presidente da Opus Gay, tem nome de santo e educação religiosa. Vai todos os anos a Pádua, Itália, diz ter grandes debates no confessionário, mas nunca deixou a religião: "Não ando à procura de uma religião cómoda. E já tem havido padres que me disseram, quando refiro a minha homossexualidade: "Só isso, mas quais são os pecados?"

Os homossexuais católicos congratulam-se pela aprovação da lei sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo, algo que o cardeal- -patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, classificou como uma "ousadia". "Estamos a viver um momento de ousadia quando se quer decidir que, afinal, o casamento já não é, necessariamente, a união de um homem e de uma mulher", afirmou o prelado há uma semana, no congresso dos Centros de Preparação para o Matrimónio, em Fátima. E apelou: "Ajudem os cristãos a escolherem noivos ou noivas que possam fazer com eles esta caminhada. Expressões como 'ele (a) não se importa, respeita, não se opõe', não chegam", realçou o prelado, que acrescentou: "As núpcias cristãs supõem sempre uma intimidade e uma cumplicidade com Jesus Cristo, que só é plena se for do casal."

 

 

(in: Diário de Notícias)

NOTA DE IMPRENSA 03/20010: Homossexuais Católicos Portugueses respondem ao cardeal Tarcisio Bertone: A Pedofilia é uma relação de domínio e disso sabe muito, alguma da hierarquia.

Afirmou hoje o secretário de estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, na sua visita ao Chile, que não era o celibato dos padres que estava na origem dos casos de pedofilia que por todo o mundo irrompem no seio da Igreja, mas sim a homossexualidade.

 

Ainda que esta posição não seja nova, pois já em 2002, a primeira resposta às revelações de abusos sexuais por parte de clérigos e ao seu encobrimento por parte da hierarquia católica foi a declaração que os homossexuais não podiam ser ordenados sacerdotes, não pode o RUMOS NOVOS – GRUPO HOMOSSEXUAL CATÓLICO, na defesa dos fiéis homossexuais católicos portugueses deixar de repudiar estas palavras impróprias de um membro da hierarquia, impróprias de um católico e falsas do ponto de vista científico, tanto mais que não foi este nem o caminho, nem a verdade, nem a vida que Cristo nos legou.

 

O dedo acusatório do cardeal Bertone, pretende lançar sobre os homossexuais, em geral, e sobre aqueles que são católicos, em particular, um anátema que julgávamos arredado do século XXI e que, novamente, continua a cavar o fosso entre a Igreja, enquanto comunidade de fiéis, e alguma hierarquia que, não entendendo o Vaticano II, não sabe ler os sinais dos tempos (perdendo de vista que uma instituição que não mude, ou leve muito tempo a fazê-lo, acabará por desaparecer) e se afasta cada vez mais ma mensagem de Cristo, da realidade e do mundo, esquecendo que a sua verdadeira missão é evangelizar e acolher, pois «aquilo que não fizerdes ao mais pequenino de entre estes, é a Mim que o não fazeis», interpela-nos a todos Jesus Cristo.

 

A afirmação feita pelo cardeal Bertone, choca igualmente (e o cardeal Bertone sabe-o muito bem!) com os mais elementares dados das investigações científicas existentes que demonstram que as pessoas com tendências pedófilas são indivíduos de ambos os sexos, que se sentem atraídos por crianças e jovens na fase de pré-puberdade e que são incapazes de manter relações adultas, com homens ou com mulheres. Um estudo conduzido pelos psiquiatras Groth e Gary, em 1982 e outras posteriores, concluiem, sem margens para dúvidas, que «as pesquisas efectuadas apontam para a não existência de uma relação significativa entre a homossexualidade e o abuso de crianças… e o adulto, homem, que molesta sexualmente crianças do sexo masculino não é provável que seja homossexual».

 

Por outro lado, acreditamos, tal como acontece com o cardeal Bertone, que o celibato dos sacerdotes não está na origem dos casos de pedofilia. Porém, o celibato é o cenário ideal para um abusador de crianças ou um homossexual atormentado pelos seus próprios demónios (muitos dos quais incutidos por uma fé castrante e ela própria contrária aos ensinamentos de Cristo), pois assegura a impunidade e a adulação de familiares e amigos que deixam de questionar sobre relacionamentos. Talvez pondo fim ao celibato, a Igreja deixasse de ser o santuário para todos aqueles que se escondem dos seus demónios interiores ou mentes doentias, pois a questão dos relacionamentos voltaria a aparecer e seria mais fácil percepcionar as vocações das omissões.

 

Ao pretender criar nos homossexuais o bode expiatório para os sucessivos escândalos sexuais que assolam a igreja e que a todos nos mortificam, o cardeal Bertone aviva também em nós, homossexuais católicos, as palavras do evangelista João: «Expulsar-vos-ão… virá mesmo a hora em que qualquer que vos matar cuidará fazer um serviço a Deus. Isto vos farão porque não conhecem o Pai nem a Mim».

Mas, sobretudo, recordamos ao cardeal Bertone, certos de que um dia a hierarquia católica apelará publicamente ao perdão dos homossexuais, as palavras do Cardeal Patriarca de Lisboa, na Páscoa que acabámos de viver: «Estamos aos pés da Cruz, quando os pecados da Igreja, ofuscam o Evangelho e a mensagem de Cristo».

Por tudo isto, lembramos ao cardeal Bertone, que a pedofilia é sempre uma relação de poder e nada mais que isso e instamos a hierarquia católica a permanecer atenta aos casos existentes e aos que surjam, bem como a colaborar com a justiça, denunciando os abusadores e não a dar-lhes cobertura, de modo a que estes paguem pelo seu delito, que tão graves sequelas deixou em tantas crianças e jovens, ao longo de todos estes anos.

Cavaco Silva tem até final do mês para promulgar ou vetar diploma de casamento homossexual

Cavaco Silva (por: Filipe Casaca)

O Presidente da República terá de decidir até ao final do mês se promulga ou veta politicamente o diploma que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, depois do Tribunal Constitucional se ter pronunciado pela sua constitucionalidade.

 

De acordo com o artigo 136º da Constituição, “no prazo de vinte dias contados da receção de qualquer decreto da Assembleia da República para ser promulgado como lei, ou da publicação da decisão do Tribunal Constitucional que não se pronuncie pela inconstitucionalidade de norma dele constante, deve o Presidente da República promulgá-lo ou exercer o direito de veto, solicitando nova apreciação do diploma em mensagem fundamentada”.

 

Caso opte pelo veto político, será a primeira vez que Cavaco Silva ‘chumba’ de imediato um diploma considerando constitucional.

Em 2008, no caso do Estatuto Político Administrativo dos Açores, o chefe de Estado utilizou o ‘duplo’ veto, mas o primeiro ‘chumbo’ aconteceu porque o TC declarou a inconstitucionalidade de oito normas do diploma.

 

Nessa altura, o diploma foi devolvido ao Parlamento que expurgou as inconstitucionalidades e o voltou a enviar para Belém.

 

O Presidente da República utilizou, então, o veto político, argumentando que o diploma “ainda que expurgado das inconstitucionalidades” continuava a possuir duas normas que colocavam “em sério risco os equilíbrios político-administrativos”.

 

O Estatuto Político Administrativo dos Açores acabaria por ser só promulgado a 29 de dezembro, depois de confirmado na Assembleia da República, apenas com a abstenção do PSD.

 

Desde o início do seu mandato, o chefe de Estado remeteu oito leis para o TC, que deu razão às dúvidas presidenciais em seis dos casos.

 

 

*** Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico ***

 

 

(in: «I» online)

Sou gay, católico e acredito que Jesus estaria do meu lado.

José Ribeiro recebeu-nos no seu gabinete na Universidade em Évora, deixou--se fotografar e conversou abertamente. José L. marcou encontro na Praça do Giraldo, mas acabamos a conversar num jardim sem ninguém. Preferiu não revelar o nome completo nem ser fotografado. Sempre que se ouviam passos, olhava para o lado. José Ribeiro e José L. são ambos professores e membros da Associação Rumos Novos, que congrega homossexuais católicos. Concordam com a aprovação do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. E não vêem incompatibilidade entre a sua orientação sexual e a Igreja Católica - melhor, e os ensinamentos de Cristo.

José Ribeiro

59 anos, professor Universitário

"Sou cristão e homossexual. Tornei-me cristão quando já tinha a minha identidade sexual mais que aceite. Não tive problema nenhum quanto a isso. Tive a sorte de ter uma educação absolutamente solta. Nunca passei pelas agruras de muitos amigos, que tiveram uma educação tradicional católica. Fiz tatuagens com os peixinhos cristãos há seis anos, quando me tornei cristão. Vim para o cristianismo porque procurava um sentido para a vida. Ser homossexual e católico faz muita confusão às pessoas. As pessoas têm uma concepção da Igreja como de um partido, com um comité central que estabelece uma doutrina. Mas não é isso. A Igreja é um conjunto de pessoas ligadas a Jesus. O que o conselho de administração reflecte são apenas as convicções desse conselho. Os católicos socorrem-se dos escritos de Paulo, que estão muito ligados à sociedade em que ele viveu. À luz da época em que viveu, a homossexualidade era uma prática desviante, mas hoje já sabemos que não é assim. A actividade principal da Igreja parece ser determinar as condições em que é lícito que duas pessoas dêem uma queca. No site do Vaticano, 80% dos documentos da Congregação para a Doutrina da Fé ocupam-se disso. Em Jesus não encontra nada assim. No fundo, a Igreja olha os seres humanos como um engenheiro zootécnico olha, em termos de reprodução, o gado - vacas parideiras e bois de cobrição. Ora os homossexuais não podem ter filhos, logo não fazem parte dos planos de Deus. Assim, a única maneira de sermos agradáveis a Deus é não exercermos a nossa sexualidade. Não conheço nenhum homossexual católico que não seja praticante. E olhe que conheço muitos. Não faz sentido essa distinção. Mas como Igreja arranjou uma tabela de pecados, uma espécie de "jogo da salvação", tipo Monopólio, e as pessoas sentem-se culpadas. Tu fazes uma boa acção e andas não sei quantas casinhas, fazes uma má acção e andas para trás. Depois há absolvições... O católico tem tendência a fazer as suas relações com Deus na base no jogo da salvação. Depois as pessoas dão uma queca porque não resistem e vão-se confessar. Depois volta a acontecer. É jogo muito destrutivo psicologicamente. Quem tem culpa é facilmente controlável. Fui para a Rumos Novos para ajudar estas pessoas. Vamos à missa juntos, fazemos encontros onde lemos a Bíblia e apoiamos quem mais precisa."

José L.

40 anos, professor do secundário

"Vou à missa todos os domingos, mas nunca disse que era homossexual na minha paróquia. Estou naquela situação de 'todos sabem e todos calam'. Nunca me senti discriminado. Sempre fui católico e sou baptizado. Mas quando tive uma relação mais estável, que durou dez anos, estava afastado da Igreja. Não sei bem porquê... Depois senti necessidade de voltar. Estou noutra relação e agora não me imagino a não ir à Igreja. A comunhão em fé é uma parte importante da nossa personalidade. Confesso-me, mas só nas épocas litúrgicas. Sou mais favorável a falar directamente com Deus. Em Maio de 2008 arrancámos formalmente com a Associação Rumos Novos porque acreditamos na Igreja criada por todos os fiéis e na palavra que Cristo nos deixou: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei." Ele não disse "se fores amarelo podes vir a mim, se fores verde também, mas se fores encarnado não podes". Somos católicos, estamos relacionados com a Igreja Católica e uma parte importante dos padres não segue as noções da hierarquia nesta área. Temos irmãos no grupo que são catequistas, os párocos sabem que eles são homossexuais e eles continuam a ser catequistas. Muitas pessoas não se sentem à vontade, porque estão a ir contra o que lhes diz a fé, a mentir e esconder. Há jovens de 16 e 17 anos a viver verdadeiros dramas porque na Igreja dizem que são pecadores, que vão para o Inferno e andam a autoflagelar-se para se redimir. A hierarquia da Igreja diz que acolhe os homossexuais, mas devia completar a frase. Acolhe-os, mas exige-lhes uma vida de castidade e exige-lhes que "juntem o seu sofrimento às chagas do Cristo sofredor na cruz" - uma imagem um bocado tétrica. A nossa filosofia não é, em muitos pontos, diferente da da Igreja Católica. Defendemos casais homossexuais estáveis, duradouros, castos (no sentido da fidelidade). É o mesmo princípio, só o tornamos mais abrangente. Dizemos que, se estas duas pessoas vivem um amor puro, se se amam, se são fiéis, onde está o pecado?"

 

(in «I» online)

Casamento é um "conceito aberto", explica Tribunal Constitucional

 

O Tribunal Constitucional considera que “a extensão do casamento a pessoas do mesmo sexo” não colide com o reconhecimento e proteção da família como “elemento fundamental da sociedade”, sublinhando que o casamento é “conceito aberto”, que admite diversas conceções políticas.

 

Numa nota distribuída à comunicação social após a leitura pública do acórdão sobre o pedido de fiscalização preventiva de quatro normas do diploma que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo requerido pelo Presidente da República lê-se que o TC conclui que a iniciativa legislativa “não viola a garantia constitucional de casamento”.

 

Pois, é referido, “a mesma não tem por efeito denegar a qualquer pessoa ou restringir o direito fundamental a contrair (ou a não contrair) casamento”.

Por outro lado, o Tribunal conclui que “o núcleo essencial da garantia constitucional do casamento não é franqueado pelo abandono da regra da diversidade de sexos entre os cônjuges e que a extensão do casamento a pessoas do mesmo sexo não contende com o reconhecimento e proteção da família como ‘elemento fundamental da sociedade’”.

 

Na nota é ainda referido que, para chegar a este entendimento, o Tribunal não deixou de ponderar que se pode considerar que foi o casamento entre duas pessoas de sexo diferente que a Constituição quis representar.

 

Contudo, lê-se na nota, “pode também seguramente concluir-se que não teve qualquer opção no sentido de proibir a evolução da instituição”.

Por outro lado, da consagração do casamento como direito fundamental resulta que o legislador não pode suprimir do ordenamento jurídico o casamento enquanto instituto jurídico destinado a regular as situações de comunhão de vida entre as pessoas, num reconhecimento da importância dessa forma básica de organização social.

 

Além disso, é ainda referido, a Constituição não define o perfil dos elementos constitutivos do instituto e o conceito constitucional de casamento é "um conceito aberto, que admite não só diversas conformações legislativas, mas também diversas conceções políticas, éticas ou sociais, cabendo ao legislador ordinário a tarefa de, em cada momento histórico, apreender e verter no ordenamento aquilo que nesse momento corresponda às conceções dominantes”.

 

Votaram favoravelmente a decisão do Tribunal Constitucional os juízes conselheiros Vítor Gomes (relator), Carlos Cadilha, Pamplona de Oliveira e Joaquim Sousa Ribeiro.

 

Votaram ainda favoravelmente os juízes Ana Maria Guerra Martins, Gil Galvão, Maria Lúcia Amaral, Catarina Sarmento e Castro, Maria João Antunes, João Cura Mariano e Rui Moura Santos, mas todos estes com declaração de voto.

Votaram vencidos os juízes conselheiros José Borges Soeiro e Benjamim Rodrigues.

 

 

*** Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico ***

 

(in «I» online)

Pág. 1/2