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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Padres argentinos saem em defesa do casamento entre pessoas do mesmo sexo

Um grupo de padres católicos da Argentina publicou um documento defendendo o casamento entre pessoas do mesmo sexo… Os doze sacerdotes de Córdoba que integram o Grupo Sacerdotal Enrique Angelelli contrariaram os posicionamentos oficiais da Santa Sé e mostraram-se muito mais tolerantes acerca do projecto de reforma do Código Civil argentino, que vem sendo discutido pelo parlamento do país e que inclui o reconhecimento legal de uniões entre pessoas do mesmo sexo.

 
No texto, os padres usam passagens bíblicas para afirmar que Jesus Cristo nunca condenou a homossexualidade.



Eis o texto do documento:


Contribuição para o debate sobre as alterações à lei do casamento civil


"Deus é amor, quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele." São João.

"Deus é espírito, onde está o Espírito está a liberdade." São Paulo aos Coríntios.

"Não há diferença entre judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher, porque todos vós sois um só em Cristo Jesus." São Paulo aos Gálatas.


Diante da possibilidade de uma lei permitindo que pessoas do mesmo sexo se unam em casamento e vivam uma experiência profunda do amor e da sexualidade, entendemos que a sua aprovação, acompanhamento e aprofundamento nos coloca no caminho do Evangelho de Jesus. Um Jesus que revelou o rosto amoroso de Deus. A Igreja oficial e seus pontos de vista nem sempre ou necessariamente coincidem com o Evangelho. Este assunto é um exemplo.


Vejamos:
- Jesus nunca estabeleceu uma doutrina fechada sobre o casamento, simplesmente seguiu os costumes do seu tempo e avançou ao reconhecer e defender de maneira especial as mulheres, num contexto social machista e patriarcal...


- Jesus jamais condenou ou mencionou a homossexualidade, mas sim enfrentou os soberbos, os que acreditavam ser puros, os que tinham o poder opressor, os que escravizavam, os que humilhavam...


- Jesus sempre colocou a lei ao serviço de uma humanização maior, onde o centro seja a pessoa, sobretudo os excluídos, os esquecidos, os últimos...

 
- O termo "homossexual" não aparece na literatura até o final do século XIX. Nos tempos bíblicos não havia uma compreensão do que actualmente entendemos por orientação sexual... mal se poderia condenar a homossexualidade...

- Toda a Revelação bíblica aponta para a prioridade do amor, sem qualquer exclusão, e com predilecção pelos marginalizados, pelos proscritos, pelos párias, pelos negligenciados, pelos acusados...

- Se alguns textos do Antigo Testamento parecem condenar a homossexualidade, na verdade o que rejeitam é a idolatria a que tal prática se ligava, ou, como no caso de Sodoma, a falta de hospitalidade. Em Ezequiel 16,49-50, por exemplo, os pecados de "Sodoma" são a soberba, a gula e não socorrer o pobre e o indigente; ou seja, não tem nada a ver com um "pecado sexual". Além disso, os textos do Antigo Testamento nunca se referem às lésbicas, só falam de varões.


- Se alguns textos das cartas apostólicas incluem a homossexualidade nas suas listas de "pecado", é apenas para se adaptarem aos códigos morais greco-romanos e, neste sentido, recordar o pecado da idolatria que tais costumes significavam, ou condenar as práticas de abuso, prepotência, exploração sexual, sejam estas hetero ou homossexuais, mas de maneira nenhuma expressar uma condenação à homossexualidade enquanto tal...


- Toda a Revelação bíblica, e com mais razão o Novo Testamento, não é um código de moral. Citar textos isoladamente para condenar a homossexualidade é um fundamentalismo anacrónico, incapaz de compreender os textos no seu ambiente histórico específico. É utilizar alguns textos para justificar os seus próprios preconceitos. Fazer da Bíblia um manual de moral sexual seria cair num legalismo judaico criticado por Jesus. A Bíblia é a Revelação de um Deus que nos quer ver livres, alegres e felizes, e por isso nos convida a enfrentar tudo o que oprime, discrimina, rejeitada, expulsa, odeia, segrega e separa.


Entendemos a homossexualidade como uma maneira distinta, diferente e diversa de se viver a sexualidade e o amor; e não como uma raridade e menos ainda como uma doença. Há 37 anos que a homossexualidade já não é considerada um transtorno psiquiátrico e a Organização das Nações Unidas (ONU), através da OMS (Organização Mundial de Saúde),    excluiu-a da classificação de transtorno mental em 17 de Maio de 1990, por considerar, com critérios científicos, que não correspondia a uma patologia, mas que é parte da diversidade do ser humano.


Quem pode negar que pessoas do mesmo sexo não possam viver de maneira adulta, livre e responsável a sua própria sexualidade? Ninguém pode, e menos ainda em nome de Deus, afirmar que só haja uma maneira de se viver a sexualidade e o amor. A natureza, rica em multiplicidade, também nos ensina que a diversidade não lhe faz oposição, mas a embeleza. Citar a “lei natural” para colocar-se contra esta legislação é apenas uma posição fixista, dura e congelada da realidade pretendida como "natural", sem entender os complexos processos culturais.


Entendemos que um legislador pode professar profundamente a sua fé cristã e católica e, ao mesmo tempo, com total liberdade de consciência, pensar, definir e agir diferentemente do que propõe a hierarquia eclesiástica. Na Igreja Católica não há um "pensamento único", há lugar para a diversidade e para a pluralidade. Além do mais, um legislador não legisla para a comunidade católica, legisla para todos os cidadãos. Ninguém deveria ofender-se ou incomodar-se, pelo contrário, deveria ser motivo de alegria que pessoas do mesmo sexo - tradicionalmente ridicularizadas, discriminadas, condenadas, estigmatizadas, amaldiçoadas, vítimas de preconceitos e obrigadas a viver na clandestinidade, ocultando seus sentimentos mais profundos – hoje possam sentir-se livres e amparadas por uma lei da Nação que reconhece o seu direito ao amor e à família, não como uma concessão relutante, mas como um direito inalienável.

 

Grupo Sacerdotal Enrique Angelelli

Pe. Nicolás Alessio

Província de Córdoba

Argentina