Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos Homossexuais Portugueses

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Sou o responsável pela perseguição aos homossexuais que houve em Cuba: Fidel Castro

 

O líder cubano Fidel Castro reconhece ser o principal responsável pela perseguição de homossexuais na ilha no início da Revolução Cubana, segundo entrevista exclusiva publicada nesta terça-feira pelo jornal mexicano "La Jornada".

Essas declarações estão na segunda parte, divulgada hoje, da entrevista de cinco horas de duração concedida à jornalista e directora do "La Jornada", Carmen Lira, a primeira de Fidel a um meio de comunicação escrito estrangeiro desde que reapareceu na vida pública há cerca de 40 dias.

 

Segundo o líder, a perseguição dos homossexuais ocorreu em momentos de "uma grande injustiça" e reconheceu não ter prestado "suficiente atenção" àquele facto.

 

"Se alguém é responsável, esse sou eu", admitiu Fidel, que neste momento está "tentando delimitar" a sua responsabilidade naqueles factos.

 

Fidel citou os atentados que sofreu nos primeiros compassos da Revolução para justificar factos que lhe alteraram "extremamente" e complicaram algumas de suas decisões. "A guerra contra os ianques, o assunto das armas e, quase simultaneamente a eles, os atentados contra minha pessoa", mencionou.

 

O "La Jornada" lembra que, desde os anos 1990, a homossexualidade está descriminalizada em Cuba e, desde 2008, é possível fazer cirurgias gratuitas no país para mudança de sexo.

Político britânico assume homossexualidade

Crispin Blunt, político conservador britânico e actual ministro responsável pelas prisões no Reino Unido, anunciou ter-se separado da mulher depois de ter assumido ser homossexual.

 

A informação foi revelada por meio de um comunicado, publicado pelo Ministério da Justiça, que refere “não haver uma terceira pessoa envolvida” no fim do seu casamento.

 

O comunicado explica que Blunt, de 50 anos, “decidiu reconhecer a sua homossexualidade e explicou a sua decisão à família. A consequência desta acção é a separação”.

 

O documento acrescenta que este é “momento difícil” para a família de Blunt e que “a família prefere não comentar publicamente este assunto e espera que seja respeitada a sua privacidade”.

 

 

  

in: «i» online

Ex-director de campanha de Bush assume-se como homossexual

"Foram precisos 43 anos para eu me sentir à vontade com este aspecto da minha personalidade", disse Ken Mehlman ao assumir ser homossexual. O homem que em 2004 dirigiu a campanha presidencial de George W. Bush escolheu tornar pública a sua homossexualidade em entrevista ao influente bloguista Marc Ambinder, na passada quarta-feira.

 

Mehlman, que se torna no mais poderoso republicano da história dos EUA a identificar-se como homossexual, não escondeu o quanto lamenta não se ter assumido mais cedo: "Quem me dera, há 20 anos, poder estar onde estou agora. Foi muito difícil não ser capaz de dizer publicamente quem sou. Ninguém, além de mim próprio, sabia o que se passava." Mas, sublinha este advogado e antigo líder do Comité Nacional do Partido Republicano: "Cada um tem o seu tempo e percurso próprios. Para mim, foram os últimos meses, quando comuniquei a minha escolha à minha família, aos meus amigos, aos meus antigos e actuais colegas de trabalho. E todos me apoiaram."

 

Oriundo de Baltimore, em Maryland, onde nasceu a 21 de Agosto de 1966, Mehlman garante que Bush - ligado aos grupos religiosos e conservadores e contrário à união entre pessoas do mesmo sexo - "não é homofóbico".

 

Mehlman foi responsável do Partido Republicano de 2005 a 2007, precisamente quando se radicalizavam as posições anti-gay da direita americana. Na Virgínia Ocidental, por exemplo, os republicanos não hesitam em ligar a homossexualidade ao ateísmo.

 

Vice-presidente de uma firma privada em Nova Iorque, Mehlman, solteiro, defende o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Daí participar na angariação de fundos para a Fundação Americana para os Direitos Iguais (AFER, no original), que apoia o recurso judicial contra a Proposta 8 da Califórnia - iniciativa contra o casamento dos homossexuais.

 

 

 

in: Diário de Notícias

A Igreja Católica está cheia de homossexuais

O sacerdote José de Jesús Aguilar, subdirector da Rádio e Televisão da Arquidiocese do México, pronunciou-se a favor da adopção de crianças por pessoas do mesmo sexo – contrário à posição dos cardeais Norberto Rivera e Juan Sandoval Íñiguez – e disse que a "Igreja Católica está cheia de homossexuais" que participam no trabalho pastoral.

"Há catequistas (homossexuais) que ajudam no apostolado e em grupos juvenis, porque, quando se trata do trabalho do apostolado, eles são reconhecidos e só pontualmente se volta à má imagem...".

 

O clérigo afirmou conhecer homossexuais que educaram crianças e que os menores estão bem.

 

A sociedade, argumentou, deve valorizar os homossexuais que trabalham. Além disso, "nem todos os homossexuais vão adoptar. Neles, há uma consciência, e Deus diz-lhes em que momento vão adoptar, estabelece capacidade afectiva e outros elementos que devem exigir".

 

No programa nocturno «Frente a Frente», de Lolita de la Vega, no Canal 13 – no qual analisou a questão das adopções entre casais do mesmo sexo, conjuntamente com especialistas e activistas do movimento homossexual –, o ex-sacristão da Catedral Metropolitana questionou as afirmações de membros da Igreja Católica que asseguram que é negado o direito de meninos e meninas a terem um pai e uma mãe. E ironizou: "Onde estão esses pais?".

O padre indicou que existe muito desconhecimento: "Na realidade, o que é que as pessoas conhecem sobre os homossexuais? Às vezes, conhecem só o que se passa nos programas, onde eles são ridicularizados, onde são apresentados como cabeleireiros, medrosos ou loucos".

"Esses programas apresentam um tipo de homossexual sobre o qual as pessoas dizem: esse modelo vai ser mãe ou pai? Essa pessoa frágil que não tem carácter, que não tem uma vida respeitável, que anda com este e com aquele? Grande parte desses programas e a pouca informação fizeram com que existam preconceitos", comentou.

 

Aguilar acrescentou que "não marcaria as pessoas como homossexuais ou heterossexuais, mas falaria de pessoas que são capazes de amar, porque o amor implica respeito, continuidade, acompanhamento... e não a imposição. Conheço pessoas heterossexuais e homossexuais. De ambos os lados, vejo pessoas muito más e muito boas".

 

"Não posso dizer em nome pessoal ou da Igreja que uma pessoa, por ter uma atracção diferente, é má", precisou.

O padre referiu que um documento do Papa João Paulo II assinala que a homossexualidade "não tem uma origem clara, e isso vai contra aqueles que pensam que a homossexualidade é uma conduta e, portanto, uma aberração. Se uma pessoa nascesse assim, deveria estar dentro do plano de Deus, se a assumisse depois, seria outra coisa diferente".

 

Actualmente, defendeu, as leis não exigem que sejam casados para adoptar. Uma pessoa solteira pode fazê-lo e educar uma criança, e não se questiona se é homossexual ou lésbica.

 

"Conheço pessoas que são homossexuais e que educaram uma criança, e que os filhos, inclusive, não sabem que são homossexuais. Compreendo que a Igreja eleve o casamento como sacramento e leve em conta que ele ocorra entre um homem e uma mulher, porque, naturalmente, estão abertos à vida", disse.

Alguns personagens da Igreja, comentou, "dizem que não se deve tirar o direito do filho de um pai e de uma mãe. Então, pergunto, onde estão esses pais?". Como cidadãos, insistiu, os homossexuais têm direitos e não lhes podem ser negados.

Enquanto isso, a Arquidiocese do México, através de seu jornal Desde la Fe, felicitou os ministros da SCJN, Guillermo Ortiz Mayagoitia e Salvador Aguirre Anguiano, pela "firmeza heróica" e pela defesa jurídica que fizeram ao casamento heterossexual e ao direito das crianças de ter um pai e uma mãe.

 

Texto original: MILENIO.COM

Tradução: Rumos Novos - GHC

Reino Unido: Agência católica de adopção perde recurso contra homossexuais

 

 

A agência Catholic Care, uma agência católica de adopção, localizada na cidade de Leeds, perdeu um recurso, no Reino Unido, em que contestava a lei que proíbe a discriminação de homossexuais, anunciou hoje a entidade que fiscaliza o trabalho das instituições sociais.

 

A Catholic Care pretendia ficar isenta da lei britânica, de modo a poder acatar os ensinamentos da igreja católica, que se opõe à adopção por casais de pessoas do mesmo sexo.

 

Segundo a Charity Commission, regulador britânico das instituições sociais, os homossexuais podem ser pais e as opiniões baseadas na religião não justificam a sua discriminação.

James Alison: Carta a um jovem homossexual

Caríssimo,

 

Que grande privilégio que é, ter a oportunidade de te escrever! Tanto mais que gostaria de saborear a palavra «tu», durante alguns momentos e pedir-te que ponderes sobre a novidade que isso representa, quão aberta é esta forma de trato.

 

Quantas vezes já foste abordado pela palavra «tu», numa publicação católica? Não me refiro à palavra «tu» no sentido fraco, como quando um anúncio pergunta: «Já consideraste a vocação de seres padre ou freira?», porque estes anúncios não pretendem realmente significar o «tu». Querem, isso sim, significar «alguém que é como tu em todos os aspectos, mas que por acaso não é homossexual, ou que, pelo menos, é bom em escondê-lo». Normalmente, sempre que acontecem discussões acerca de temas envolvendo a homossexualidade, nas publicações católicas, o estilo passa rapidamente a ríspido e um misterioso «eles» aparece. Este «eles» parece habitar um planeta diferente do teu. Quem quer que fale acerca do «eles» está, de facto, noutro planeta, um onde uma estranha falta de oxigénio torna impossível usar pronomes como «eu», «tu», «nós». Se alguém começar a usar esses pronomes rapidamente ficas com a sensação que a única coisa que lhes dá a liberdade de procederem desse modo é o facto de serem heterossexuais e têm a honestidade suficiente de admitirem que não compreendem do que se trata.

Podes ter tentado falar informalmente acerca do facto de seres homossexual católico a um padre, ou mesmo a um Bispo, a quem o teu sexto sentido escolheu como provavelmente sendo da «família» e certamente que já reparaste que, com todo o seu desejo de serem amigáveis, uma necessidade escondida de verificação surge na sua voz. Uma espécie de auto-censura interna significa que quando eles dizem «tu», podes verificar que o «eu» que está a falar, se transformou numa espécie de dissimulação e tornou-se, de algum modo, oficial e o «tu» que fala não se encontra chamado a ser, mas de alguma forma designado como «manusear com extremo cuidado». Há um «mas» flutuando em segundo plano na voz e que fala tão alto como tudo o que dizem, porque o «mas» diz: «tu, mas não como tu és».

Portanto, aqui estamos, lendo uma publicação católica, parte daquela rede fantástica espalhada pelo mundo e que é uma das alegrias de ser um católico e, de algum modo, é permitido que algo de novo aconteça. Para ti, um católico que por acaso é homossexual (o que quer que isso signifique), se está dirigindo como «tu», por um católico que é capaz de dizer «eu sou um católico, que por acaso é homossexual, o que quer que isso signifique». É-me permitido falar-te, a ti que te encontras no começo de uma história de vida na qual ser homossexual desempenha um papel. E é-me dada a oportunidade de te falar não numa qualquer qualidade oficial, mas como irmão, um irmão com uma história de vida que inclui o facto de ser um homossexual assumido. É-me dada a oportunidade de me dirigir a ti a partir do nível em que te encontras, como alguém que não conhece melhor que tu quem tu és e que não sabe mesmo muito acerca de si próprio. Contudo, algo de novo aconteceu. Tornou-se possível numa publicação católica de referência, que a palavra «tu» seja pronunciado de um modo completamente aberto, um que espero possa ressoar de forma criativa no teu ser, através de um «eu», cujo tom tenha sido insuflado e dilatado através de uma vida como homem homossexual assumido dentro da Igreja Católica.

Tal como acontece com todos os cobardes, quando me foi oferecido o privilégio de tomar parte nesta comunicação, a minha primeira reacção foi fugir. Pois um privilégio é também uma responsabilidade. E existe algo de particularmente impressionante acerca deste privilégio, uma vez que somente há Um que se pode dirigir a ti como «tu», de tal modo a chamar o teu «eu» sem te deslocar ou importunar. E esse é Nosso Senhor. E ele ganhou essa capacidade, ao passar pela morte de modo a ser capaz de te falar a ti e a mim, fazendo-nos ser e dando-nos um «eu» que não seja governado pela morte e pelo medo dela. Não há nada de rude em ser capaz de tratar o outro por «tu», de tal modo que o chame a ser.

Quando as autoridades doutrinais oficiais da nossa Igreja se recordam – o que normalmente acontece quando estão na defensiva – realçam que o que chamam de «magistério» jamais pode ser um substituto para a consciência, mas somente pode ser uma voz ao lado da tua, ao mesmo nível que a tua, tão sujeito ao sopro de Nosso Senhor como a tua. Uma voz que te incita, te aconselha, que te ajuda a formares a tua consciência e nunca uma voz que te abafa de modo a que assumas a sua voz em vez de te dares ao trabalho árduo de te permitires ter a tua própria voz.

Eles têm absoluta razão nisto. E eu não tenho o direito de ser menos cuidadoso do que o magistério é, quando falo contigo. Repara que a diferença entre a minha tentativa de me dirigir a ti como «tu» e aquela do padre ou do Bispo com a «verificação», o «mas» carrancudo, no fundo da sua voz, não significa que ele seja um hipócrita e eu não, que ele esteja constrangido e eu não. Não, eu sou tão hipócrita quanto ele e eu sinto-me igualmente constrangido. Também existe um «mas» no fundo da minha voz, embora não se aplique a ti. Contudo, seria desonesto da minha parte se eu pretendesse que amar a Igreja, enquanto homossexual masculino não tivesse deixado algo de estranho no fundo da minha voz. As realidades que fazem com que o padre ou o Bispo te falem de um modo tenso e pouco natural, são as mesmas realidades que me obrigam a pensar longa e profundamente sobre o modo como devo falar contigo. E temo só de pensar o quanto inadequado me acharias se pudesses falar-me frente-a-frente, em vez de me encontrares através desta máscara que estou tecendo com palavras, palavras que posso corrigir, editar e alterar antes que cheguem até ti.

Se existe uma diferença entre o tom da minha voz e aquele que estás acostumado a ouvir, isso acontece por acidente, ou graça, dependendo da forma como o interpretas. E sim, terás de o interpretar, terás de decidir se eu que me dirijo a ti como «tu», sou capaz de o fazer somente por causa de algum deslize, alguma falha no sistema, ou, pelo contrário, se há alguma coisa do Pastor nesta voz não autorizada que se dirige a ti; alguma coisa do Pastor cuja voz conheces e o qual não temes. Não posso pretender em absoluto ser um canal dessa voz dentro de mim. Nenhum de nós pode. Podemos esperar somente ser usados, ou encontrarmo-nos em preparação para sermos usados. Contudo somente aqueles a quem cada um de nós se dirige, podem aperceber-se quem ela é, que mistura de vozes é a que chega cantando através do ar.

Se existe uma diferença, então deixa-me confessar que ela tem origem num acto de teimosia, de desafio da minha parte. Uma recusa em acreditar em algo. Esse é o «mas» no fundo da minha voz. «… mas o Deus que nos é revelado em Jesus não poderia de modo algum tratar aquela pequena porção da humanidade que é homossexual e lésbica a mensagens contraditórias conforme a Igreja o tem feito. Não poderia dizer «Amo-te, mas somente se te transformares noutra coisa qualquer», ou «ama o teu vizinho, mas no teu caso, não como a ti próprio, mas como se fosse outra coisa qualquer», ou «o teu amor é demasiado perigoso e destrutivo, arranja outra coisa para fazeres». E para um católico, um acto de teimosia ou de desafio não aparenta ser um bom ponto de partida. Soa algo de satânico. A menos, claro está, que esta recusa em acreditar algo seja reforçada por um forte sentido da bondade de alguém, a quem saberias de antemão estar seriamente a ofender se os julgasses capazes de agir da maneira que lhes é imputada.

Podes imaginar, como eu, uma esposa a recusar-se a acreditar na culpa imputada ao seu marido, por um tribunal legalmente constituído e um conjunto de jurados, respeitante a alguma desonestidade financeira. Toda a evidência parece apontar na mesma direcção, mas mesmo assim a esposa de forma teimosa e desafiadora recusa a acreditar que o marido pudesse ter feito isso, mesmo quando ele próprio algumas vezes vacila na sua própria defesa, talvez como forma de a aliviar do fardo de ter de o apoiar. Nalgumas histórias este caso terminará com novas provas, ou uma reviravolta nas circunstâncias, que isentarão o marido de qualquer responsabilidade e a esposa será vista em ter tido razão ao recusar que a sua fé na bondade do marido tenha sido contaminada pela calúnia pública. Noutras histórias, não haverá um final feliz e a geração dos mirones considerará a mulher como uma figura patética, desligada da realidade, num estado de negação tão profundo que é incapaz de aceitar que o marido era um sem-vergonha.

Bem, não te quero deitar areia para os olhos! Eu sou aquela esposa teimosa e desafiadora e a história ainda não acabou. Nem eu nem tu sabemos se a minha recusa em acreditar que Deus poderia alguma vez tratar as pessoas homossexuais e lésbicas do modo como os mais idosos da aldeia e o tribunal local dizem que ele o faz. É uma recusa nascida da fé no amor que se revelará verdadeira, ou é somente um sinal do meu voo ilusório para o irreal. Aqueles que te falam com uma necessidade de certificação nas suas vozes, sabem perfeitamente bem que é uma coisa ou outra e eles levam a tua segurança a sério ao não pretenderem embarcar-te numa viagem tão arriscada.

Não, não quero deitar-te areia para os olhos. Convidar-te para o lugar dessa esposa desafiadora e portanto para um lugar de vulnerabilidade e de incerteza até que a história seja levada ao seu fim, não é algo que eu faça de forma leviana. É um lugar assustador, pois não te posso oferecer uma solução. Eu não sei se é um acto de arrogância da minha parte que diz: «é melhor ousar passar pelo medo de que ser homossexual seja somente uma mentira, um modo de auto-engano que não leva a lado nenhum, acreditando que o Espírito de Deus dissipará o medo, revelará o medo como uma miragem, permitir-me-à crescer como uma criança à medida que enfrento o medo. É melhor isso, do que me agarrar à opinião de que o medo é para nossa segurança, protegendo-nos de um abismo de insignificância e, deste modo, permitirmo-nos ser guiados pelo prudente «não» da tradição da nossa Igreja».

Estás a ver, já não desprezo o prudente «não». Costumava fazê-lo. Costumava odiar a cobardia, as duas caras e as mentiras. Mas agora que me apercebo do custo de sair disso, também me dou conta do quanto cuidadoso tenho de ser quando me dirijo a ti. Pois qual de nós pode afirmar se algum desejo petulante de heroísmo não nos pode estar a «puxar os cordelinhos», em vez do espírito do Senhor dizendo “Duc in altum!” - «Faze-te ao largo!» (Lucas 5, 4)? Lá onde os prudentes pensam que não há peixes para serem pescados, nenhuns humanos que mereçam amar com igualdade de coração, mas somente um turbilhão de desejos confusos e irrecuperáveis. O custo de sair do «não» protector, de acreditar que alguém se pode estar a dirigir a mim como «tu» sem aquele horrível «mas», é encontrar-me a mim próprio nu perante o Espírito e mais vulnerável do que nunca ao meu próprio auto-engano. E a única resolução será quando a pescaria começar a chegar e isso pode não acontecer durante o meu tempo de vida, ou mesmo no teu.

 Não, não quero ter a pretensão de que ser um católico abertamente homossexual é algo fácil e óbvio. Não o é. Para começar, o simples facto de desejares ler uma carta como esta é um sinal dos muitos obstáculos que já tiveste de ultrapassar. Podes ter enfrentado o ódio e a discriminação no teu próprio país, de membros da família, na escola, às mãos de políticos ansiosos por um punhado de votos, através de títulos gritantes de jornais que dilaceram a tua alma e à luz dos quais ficas sem palavras em tua defesa. E provavelmente já reparaste que na melhor das hipóteses, a Igreja que se intitula, e é, a tua Mãe Santa manteve o silêncio acerca do ódio e do medo. Ainda que, com demasiada frequência, os seus porta-vozes desçam ao nível de políticos de segunda categoria, emprestando a sua voz ao ódio enquanto proclamam que se erguem em defesa do amor. O próprio facto de que, através e no meio de, e apesar, todas estas vozes carregadas de ódio, teres ouvido a voz do Pastor que te chama a fazeres parte do seu rebanho é já em si um milagre maior do que podes imaginar, que te prepara para um trabalho mais subtil e delicado do que essas vozes jamais poderiam conceber.

Partilharás todo o desprezo que o mundo moderno tem pela Igreja Católica ao te manteres firme na fé que te foi dada – serás visto como tendo pouco que valha a pena para oferecer. E, pela virtude de seres católico, estarás sempre em risco de seres considerado um traidor para qualquer projecto que os teus contemporâneos procurem construir. Não há, porém, nisto qualquer surpresa: as coisas são mesmo assim. Contudo, terás de enfrentar, por acréscimo, algo mais, pois serás visto como um traidor dentro da própria igreja. «Não és bem igual a nós». E certamente não serás alguém que possa representar publicamente a Igreja, que possa ser uma parte visível do sinal que conduz à salvação. E como poderia ser de outra forma? Pois se ser homossexual é um defeito da criação, como é afirmado, então o único sinal de graça associado ao facto de ser homossexual, seria a remoção do ser homossexual daquilo que te faz a ti ou a mim como pessoas.

Não te surpreendas, pois, que sejam considerados leais e dignos de confiança todos os que seguem todas as pistas psicológicas falsas e concebíveis, com o intuito de encontrar apoio científico para o argumento de que ser homossexual é uma patologia. Receberão aprovação como «sinal de contradição», por não terem sucumbido ao espírito da época. Ao mesmo tempo, serás considerado um mau católico, se é que serás considerado mesmo católico de todo. Pois, muito depois dos grupos evangélicos que estiveram na génese da «terapia reparadora» e do movimento dos «ex-homossexuais» terem deixado essas posições e os seus dirigentes terem pedido desculpa por enganar as pessoas, essas ideias encontraram eco e apoio em sectores católicos, pois adulam os actuais ensinamentos da igreja. Contudo, não tenhas medo de tais ideias e não odeies os seus propaladores. Eles são os nossos irmãos. O simples facto desses irmãos compreenderem que se o ensinamento da igreja é verdadeiro, então deve ter alguma base no reino empírico da natureza, significa que, em última instância, o que nos fará livres será a prova do que, nesse âmbito, é verdadeiro. Isso será maior do que tu, ou eu, ou eles podem imaginar, neste momento, e libertar-nos-á a todos.

Mas e quanto ao longo «entretanto»? Para ti, chamado pelo teu nome, tal como para mim, que estou a aprender a receber um «eu», ser católico implica uma vocação a alguma espécie de ministério; alguma espécie de agir criativo; alguma espécie de imitação pública da vida e morte de Nosso Senhor. Portanto não quero fingir: irás encontrar-te desenvolvendo um ministério, tal como eu me encontro a desenvolver um, sem qualquer apoio público da autoridade da igreja. Será como se não existisses. Terás de aprender a viver no silêncio de não seres nem aprovado, nem desaprovado. Cairás fora do campo de visão do homem e, se fores como eu, desesperado por um olhar de relance aprovador, experimentarás isto como uma forma de morte. Pois a cada um de nós é-nos dado sermos o que somos, através do olhar dos outros e respondemos a esse olhar, permitindo que este nos dê quem seremos e comportamo-nos em conformidade. Portanto, cair no chão num local onde não há olhar, não há aprovação, nem mesmo reprimenda, é algo de terrível e arriscado.

Pois naturalmente, eu posso ter caído no chão, no espaço onde não há olhar porque eu me tornei fechado no meu próprio orgulho e auto-engano. Em qualquer dos casos nunca encontrarei um olhar, mas dançarei ao ritmo desse engano, julgando-me muito santo e especial até que a morte chegue. Ou, se estou a ser conduzido pelo Espírito de Deus, o local onde não há olhar pode transformar-se no espaço onde sou encontrado à vista de Deus. E isto será experimentado por mim como um «nada», que me rodeia inteiramente e somente outros se podem aperceber de que existe um «eu» sendo chamado a ser por Um, cujos olhos não posso ver, mas que me podem ver a mim; um sopro que não posso sentir e, contudo, mas que me sustem. E, claro está, outros não entenderão necessariamente mais do que eu, o que está nascendo.

Em que poderias estar a embarcar? Deixa-me deixar-te uma analogia. Não sei se tens idade suficiente para te lembrares da Guerra Fria? Ou mesmo se a Guerra Fria teve incidência suficiente na tua parte do mundo, de modo a ter deixado marcas em ti à medida que cresceste. Um dos produtos da Guerra Fria foi um género literário e cinematográfico de histórias de espiões, contos de intriga e de vida clandestina protagonizados (no pior dos casos) pelos bons contra os maus e nos casos mais raros, e melhores, por pessoas moralmente ambíguas em ambos os lados da divisória NATO/ Bloco de Leste.

Tenta imaginar-te um agente de um ou do outro dos lados – da minha perspectiva é mais fácil imaginar-me com um agente do Ocidente profundamente embrenhado em terras comunistas. Agora imagina que há muito tempo atrás tinhas recebido as tuas ordens do chefe da tua agência e que te foram nomeados os «peritos» para a tua missão. Então, confiante de que eras apoiado por eles, mergulhaste no teu trabalho, dando início à construção de pequenos sinais do reino que serves, na comunidade, bem fundo em território inimigo. Depois imagina que algo de estranho acontece, há algo parecido com um golpe dentro da tua agência, uma mudança de política e todas as pessoas que tinham lidado contigo, que te tinham conhecido e preparado, retiram-se calmamente. Portanto, encontraste sem nenhuma linha directa com ninguém na agência. Estás profundamente infiltrado e subitamente sem cobertura, sem apoio, sem recursos, sem mesmo reconhecimento. Tanto mesmo, que até os novos agentes enviados pela agência, desconhecem a tua existência e provavelmente a desaprovariam de forma categórica uma vez que se és quem afirmas ser, então fazes parte de uma abordagem antiga e actualmente desacreditada ao «território inimigo», no qual estás infiltrado há muito tempo.

E, claro está, há pessoas na agência que podem conhecer a tua existência, mas já não se podem dar ao luxo de o afirmar. Pois ser visto a entrar em contacto contigo, poderia colocar em risco a sua própria posição na agência. Resumindo, encontras-te tendo-te tornado uma não-pessoa. «Não existe nos nossos livros, minha senhora”, é a resposta dada a qualquer pergunta efectuada no QG por alguém suficientemente tolo para afirmar que te tinha conhecido. A negação plausível é o óleo lubrificante através do qual a agência trabalha.

Que tens então que fazer? Ainda te manténs lealmente no trabalho, adorando o projecto para o qual foste originalmente enviado. Mas as comunicações tornaram-se seriamente problemáticas. Podes ouvir na rádio as declarações oficiais da agência. Consegues ler nas entrelinhas o «verdadeiro» significado do que está a ser dito, mas não existes, não possuis qualquer linha de comunicação com o QG, és um Zé-ninguém. Portanto, permites que a tua ira e ressentimento devido à forma como foste tratado pela agência façam com que desistas de trabalhar no projecto para o qual foste originalmente chamado e treinado? Ou amas tanto o projecto que estás preparado a amar a agência que agora te odeia confiante de que eventualmente as coisas se irão recompor? Amar a agência quando esta te ama é fácil, mas amá-la mesmo durante o tempo em que ela te renega? Agora surge o dedo de Deus!

É aqui que te instigo, como o faço a mim próprio, muitas vezes com espírito vacilante, a que vejas o privilégio do que temos. Sim, há uma suspensão da comunicação com um QG que somente pode falar acerca de um «eles» e nunca se dirige a «ti». Sim, eles ou não sabem da tua existência, ou necessitam de uma negação plausível para seu próprio bem, mas entretanto aqui, bem fundo no território do inimigo podemos continuar a construção não somente de um pequeno canto de algo defensivo, mas a própria Igreja Católica – a coisa completa, a porção total. E curiosamente, com menos interferências por parte de intrometidos do que aconteceria se as alinhas de comunicação funcionassem. Portanto, atrevemo-nos a estender o nosso amor, construindo sem aprovação, enquanto esperamos ansiosamente pelo dia em que algum Muro de Berlim caia e a comunicação seja restaurada? És capaz de assumir essa responsabilidade? És capaz de ser perseverante?

«Vai ser um grande esticão!» - foi o sábio conselho que me foi dado por um dos meus formadores, um dos meus treinadores, que, para além de ser homossexual, é historiador. Ele estava a contar-me, tal como o faço agora a ti, que o processo de ajustamento à verdade nesta esfera, vai levar muito, muito tempo. E somente acontecerá se pessoas como tu e eu estiverem preparadas a amar o projecto e não se incomodarem com a turbulência na agência; se formos generosos em darmos aos treinadores o tempo suficiente para reunirem a valentia de nos procurarem e falar-nos como colaboradores. Uma das coisas que nos manterá a avançar é a de que podemos continuar a regressar àqueles lugares estranhos de encontro da guerra fria, às caixas de comunicação de espião, onde calmamente, a partir de debaixo de textos antigos e através de pão e vinho, o nosso formador original e nosso primeiro treinador, o Único que primeiramente nos deu vida ao projecto, nos infundirá coragem e força e perseverança, enquanto que os actuais rapazes da agência se distraem, criando barulho sem nexo, mas falham em conseguir eliminar o antigo código.

Quem sabe, meu amigo, se esta oportunidade de comunicação se voltará a repetir? Quem sabe se isto é somente um eco no éter, se os bloqueadores das ondas de rádio católicas conseguirão impedir futuras trocas de impressões entre um «eu» católico e um «tu» católico, ambos dos quais acontece serem homossexuais? Ou se não haverá algum degelo no gelo eclesiástico permanente e a troca de impressões se tornará muito, mas muito mais fácil? De qualquer modo, deixa-me dizer-te aquilo que descobri nos meus anos de infiltrado em território inimigo: não estás sozinho e a Sua promessa é verdadeira.

Recebe um grande abraço

do teu irmão,

James

 

(c) Tradução: Rumos Novos - GHC

Carta de um padre aos pais que têm filhos com orientação homossexual.

Prezados pais,

Os vossos filhos são um presente de Deus criador a vós e à humanidade, assim como a vida de todo o ser humano. E vocês são para eles um instrumento da Providência divina, para que tenham vida, afecto, educação e valores.

Chamamos Deus de ‘Pai’, conforme a nossa tradição judaico-cristã. Usamos a nossa linguagem e experiência humanas para nos dirigirmos a alguém que ultrapassa os limites do mundo e da nossa vivência. Também reconhecemos nele os traços da ternura materna. A experiência do amor incondicional, que os pais proporcionam, é fundamental para o despertar da fé e para uma sadia relação com Deus.

Ter filhos homossexuais remete-vos para a complexa realidade da diversidade sexual. Ao longo da história e em diferentes culturas, esta questão foi tratada de vários modos.

A nossa tradição de séculos longínquos e recentes já considerou a relação entre pessoas do mesmo sexo uma abominação e uma séria doença, impondo um pesado fardo a gays e lésbicas. No entanto, há mudanças que não podem ser negligenciadas, como a evolução dos direitos humanos, a superação da leitura à letra da Bíblia e, nos anos 90 do século passado, a supressão da homossexualidade da lista de doenças da Organização Mundial de Saúde. Trata-se de uma condição, e não de uma opção, que alguns carregam por toda a vida.

A sociedade e as famílias necessitam aprender uma nova maneira de lidar com a homoafectividade; a Igreja Católica, que é parte da sociedade, também. Ao se falar da Igreja, frequentemente pensa-se em proibições e condenações. Este não é um ponto de partida adequado.

A Igreja ensina que ninguém é um mero homo ou heterossexual, mas antes de tudo um ser humano, criatura de Deus e, pela graça divina, filho Seu e destinado à vida eterna. E acrescenta que os homossexuais devem ser tratados com respeito e delicadeza. Deve-se evitar para com eles toda a forma de discriminação injusta.

No nível local, há mudanças importantes acontecendo na Igreja. Em 1997, os bispos católicos norte-americanos escreveram uma bela carta pastoral aos pais dos homossexuais. O título é: Always our children (Sempre Os Nossos Filhos). Segundo eles, Deus não ama menos uma pessoa por ela ser gay ou lésbica. A SIDA não é um castigo divino. Deus é muito mais poderoso, mais compassivo e, se for preciso, mais capaz de perdoar do que qualquer pessoa neste mundo. Os bispos exortam os pais a amarem-se a si mesmos e a não se culparem pela orientação sexual dos filhos, nem pelas suas escolhas. Os pais de homossexuais não são obrigados a encaminhar os seus filhos para terapias de reversão para torná-los heteros. Os pais são encorajados, sim, a demonstrar-lhes amor incondicional. E dependendo da situação dos filhos, observam os bispos, o apoio da família é ainda mais necessário.

Prezados pais, os vossos filhos serão sempre vossos filhos. Vocês não fracassaram e nem erraram por causa da sua orientação sexual. O estigma de infâmia e de doença ligado à homossexualidade precisa ser vencido. A aceitação da condição de vossos filhos torna a vida de ambos muito melhor e mais feliz. Esta tarefa não é fácil, mas também não é impossível. A prova disso é o depoimento de tantos pais que já o conseguiram, ainda que tenham levado alguns anos.


A confiança no bom Deus, fonte de todo o bem e do amor incondicional, há de tornar este caminho mais suave e com êxito.


Cordialmente,
Pe. Luís Corrêa Lima, S.J.

 

 

[Igrejas e homofobia] Proponho uma moratória

Apesar de ser evangélico, o texto é muito lúcido e recomendo a leitura!

 


Nossa igreja evangélica, igual que a católica, parece estar obsessiva pelos temas sexuais, como se esses fossem os únicos problemas críticos de nosso tempo e como se deles dependesse o futuro da igreja e da civilização. Temas sexuais, especialmente a homossexualidade, dominam, cansativamente, o discurso dos políticos protestantes; entre a grande maioria dos evangélicos, a mera menção de homossexuais e lesbianas lhes infunde pânico. Mais do que somente princípios bíblicos e teológicos, que, com certeza, são cruciais, parece funcionar aqui um profundo preconceito social.

 

Os evangélicos, juntamente com os católicos, saem em massa para unir-se às marchas contra os homossexuais. Manifestações multitudinárias realizaram-se na Costa Rica, na Argentina, no Brasil e em muitos outros países. É uma causa popular, apoiada pelo preconceito da própria sociedade.

 

Não estou minimizando a importância da ética sexual, nem de nossa fidelidade bíblica; porém, sim, quero questionar as prioridades erradas dessa obsessiva campanha contra os homossexuais.

 

Por que será que para uma marcha anti-homossexual saímos às ruas centenas de milhares; porém, quando se trata de um protesto contra a corrupção no governo (como o Manifesto da Vergonha, na Costa Rica), somos mudos e brilhamos por nossa ausência? Por que as igrejas protestantes e católicas não se uniram para organizar marchas contra as guerras do Iraque e do Afeganistão? Por que nossos líderes religiosos não pensaram em organizar um massivo protesto contra o golpe de Estado em Honduras e contra o regime repressivo de seu governo "democrático"?

 

Precisamente por isso, as igrejas evangélicas carecem de autoridade moral para que suas campanhas anti-homossexuais sejam convincentes. Os partidos protestantes quase sempre têm sido cúmplices do sistema, às vezes até são partícipes na corrupção. Líderes ambiciosos têm manipulado aos membros ingênuos para ser eleitos em postos políticos e, uma vez eleitos, não mostram uma mínima compreensão das reais necessidades do país, nem uma visão positiva do futuro nacional. Por isso, suas arengas contra a homossexualidade caem no ridículo ante os setores pensantes e críticos da população e, às vezes, cheiram a oportunismo e hipocrisia.

 

Em amplos setores de nossas sociedades latinoamericanas, nossas igrejas evangélicas são mais conhecidas por sua oposição à homossexualidade do que por qualquer outra coisa. Parece que a igreja protestante na América Latina sempre necessitou de algum grande inimigo com quem brigar. É a síndrome do "anti". Originalmente era anticatolicismo; depois, anticomunismo e antiecumenismo; e agora, mais do que qualquer outra coisa, anti-homossexual. Porém, o evangelho não vive de negações, mas das boas novas. O evangelho é o "SIM" e o "AMÉM" de Deus (2 Cor 1:19-20); quando o negativo domina na Igreja, ela está doente.

 

A questão homossexual não sempre tinha a importância que tem agora. Nos Estados Unidos, Ronald Reagan, com grande astúcia, forjou uma aliança entre católicos e protestantes em torno a dois temas: homossexualidade e aborto. Fez com que pensassem que esses eram os grandes problemas do país e os únicos critérios para o voto. Com essa tática, Reagan ganhou a presidência e o apoio para suas guerras na América Central e para suas fatais políticas econômicas, das que ainda hoje sofremos as consequências. Com a mesma tática, Nixon e os de Bush politizaram esses temas para cometer mais atrocidades. E hoje, se nos unimos à cruzada anti-homossexual, estaremos nos aliando com outras causas contrárias ao evangelho e negativas para o futuro de nossos países.

 

Por tudo isso, quero propor uma moratória, digamos de uns cinco anos, em que deixemos em paz aos homossexuais e que nos fixemos em outros temas mais importantes e mais evangélicos. Uma moratória às sátiras homofóbicas; nada de ataques e insultos; nada de marchas popularescas! Um descanso, para voltar a respirar ar fresco. E, de fato, a causa anti-homossexual não perderá nada, porque a hierarquia católica e as grandes maiorias homofóbicas de nossos países se encarregarão de proteger a pátria e a família.

 

Proponho que durante este período de moratória nos dediquemos a analisar com calma este tema, dispostos com humildade a julgar nossos próprios pecados, pois o julgamento deve começar na casa de Deus. Devemos analisar muito mais a fundo os aspectos bíblicos desse tema (exegéticos e hermenêuticos) que têm seus bemóis muito importantes. Nos faria muito bem recordar que as mesmas passagens bíblicas denunciam a avareza (os avarentos não entrarão no Reino de Deus; porém, sim, nas igrejas!); o Novo Testamento diz muito mais contra a avareza e a cobiça do que contra a homossexualidade. Outras perguntas que requerem uma análise imparcial são: a homossexualidade é congênita em alguns casos? Como isso afeta a questão? Como a homossexualidade afeta, positiva e negativamente, aos próprios homossexuais, comparado com o matrimônio heterossexual? Essas práticas ameaçam a família e a sociedade? De que maneira? Confesso que não tenho respostas a essas perguntas, pois até agora não me convencem os argumentos, nem de um lado e nem do outro.

 

Uma pergunta fundamental: Em relação a esse tema, qual o significado do mandamento de amar, o grande mandamento da lei? Muitas igrejas evangélicas agora são conhecidas mais por seu aparente ódio contra outros grupos do que por seu amor cristão. Com a moratória que proponho, a igreja evangélica poderia voltar a ser conhecida como a comunidade de amor em Cristo e não como um inimigo a mais de outro setor social. Que lindo seria!

 

Me parece que hoje a igreja está doente, com febre, e necessita repouso, para baixar a temperatura.

 

Essa guerra homofóbica está causando muito dano a nossas igrejas. É hora de uma trégua. Seria muito saudável e nos faria muitíssimo bem. Que Deus nos permita essa oportunidade!

 

Por: Juan Stam (Teólogo)

 

Do nosso correspondente no Brasil: Eduardo Gabriel

Ser gay é crime em mais de 70 países

Ser gay é crime em mais de 70 países

Pessoas estão sendo mortas por causa de sua orientação sexual, apesar dos progressos feitos em alguns países, incluindo a Grã-Bretanha, para eliminar o preconceito.

Um amplo estudo dos direitos mundiais de lésbicas, bissexuais e gays, divulgado pelo The Independent on Sunday [IoS, edição dominical do jornal The Independent], revela o preço brutal – e, em muitos casos, fatal – que as pessoas pagam em todo o mundo por causa de sua sexualidade. A pesquisa, realizada pela rede de caridade da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexo (ILGA), mostra que 76 países ainda perseguem pessoas com base em sua orientação sexual – sete dos quais punem os atos homossexuais com a morte.

Em uma escala global, as nações que estão fazendo algo positivo pelos direitos dos gays parecem pequenas diante daquelas que se comportam negativamente. Enquanto 75 países irão prendê-lo se você for gay, apenas 53 têm leis antidiscriminação que são aplicadas à sexualidade. Apenas 26 países reconhecem as uniões de mesmo sexo.

Nos 10 anos desde que o IoS publicou sua primeira "Pink List", a Grã-Bretanha fez progressos impressionantes em prol da igualdade sexual. Em uma única década de progresso, os gays têm o direito de adotar crianças, igual maioridade, legislação para protegê-los contra a discriminação e a possibilidade de se unir até em cerimônias civis.

Mas a homofobia continua sendo uma cicatriz na paisagem social da Grã-Bretanha. Em todo o mundo, centenas de pessoas são mortas a cada ano só por serem gays. Ben Summerskill, chefe-executivo da Stonewall, organização britânica pelos direitos de lésbicas, gays e bissexuais, disse: "Estamos conscientes de que, embora o progresso que possamos estar tendo na Grã-Bretanha seja notável, há vários países no mundo onde as pessoas ainda vivem com medo de suas vidas, só por causa da forma que nasceram. Ajudar a apoiá-las com sensibilidade é uma obrigação fundamental de qualquer pessoas que se preocupe com os direitos humanos no mundo em geral".

O quadro em muitas outras partes do mundo pode fazer com que a Grã-Bretanha pareça comparativamente acolhedora, especialmente em um dia em que comemoramos as 100 figuras influentes que são abertos com relação à sua sexualidade. Mas como o primeiro-ministro, David Cameron, escreveu no último domingo, a "Pink List" também lembra o Reino Unido a não se sentar sobre seus louros.

"Além de ser uma celebração, a 'Pink List' é um desafio e um lembrete de que devemos ir mais longe", disse. "Sim, o Reino Unido é um líder mundial em igualdade de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros, mas não podemos ser complacentes. Enquanto houver pessoas lá fora se sentindo marginalizadas e ameaçadas, temos que continuar combatendo o preconceito."

A apresentadora Clare Balding, que na semana passada foi repudiada pelo colunista do Sunday Times A. A. Gill como uma "lésbica de moto" [dyke on a bike], escreve no jornal deste domingo que ser gay na Grã-Bretanha "ainda não é fácil". Ela recebeu uma carta do The Sunday Times que dizia que o artigo homofóbico era equivalente à crítica que Jeremy Clarkson recebe sobre o seu jeito de se vestir.

Summerskill acrescentou que a chave é desafiar o preconceito. "Pessoas ainda estão sendo assassinadas por causa de sua sexualidade nas ruas de Londres, que é conhecida como a cidade mais progressista do país. Quando Jeremy Clarkson ou Chris Moyles dizem 'O que você está reclamando?', a resposta é 'Por que você não tenta andar na rua de mãos dadas com outro homem?'".

A pressão social para ser "hetero" na Grã-Bretanha ainda precisa ser eliminada. Quando o vencedor do X Factor, Joe McElderry, 19 anos, revelou ser gay neste domingo, isso aconteceu depois dele já estar se sentindo incapaz de admitir a sua sexualidade. Mesmo quando alguém invadiu sua conta no Twitter para revelar a sua sexualidade no mês passado, ele ainda insistiu que era heterossexual. De acordo com o Stonewall, quase dois terços das jovens lésbicas, gays e bissexuais experimentam bullying homofóbico nas escolas da Grã-Bretanha.

O estudo da ILGA dos direitos mundiais dos homossexuais mostra que, em outros lugares, admitir ser gay ainda é uma questão de vida ou morte. Em grande parte da África, na última década, viu-se as vidas de gays irem "de mal a pior", diz o relatório. Mais de 50% dos Estados africano tomaram medidas para criminalizar a homossexualidade, e a homofobia religiosa é abundante. O quadro não é muito melhor na Ásia, onde 23 países tornaram o fato de ser gay um crime.

A América Latina e o Caribe também são o lar de muitos governos com uma visão semelhante. Na Jamaica, o sexo com outro homem é descrito no livro estatutário como um "crime abominável".

Widney Brown, da Anistia Internacional, lista a África subsaariana, o Oriente Médio e a Europa oriental como as regiões que lhes dão as maiores preocupações com relação aos direitos dos homossexuais. Brown também alertou contra o fato de as nações ocidentais estarem se tornando complacentes. "Os EUA são o único país da Otan com uma proibição de se ser abertamente gay nas Forças Armadas".

Renato Sabbadini, co-secretário geral da ILGA, disse: "A indignidade recai inteiramente sobre esses Estados, porque deles é a vergonha de destituir um número significativo dos seus cidadãos de dignidade, respeito e gozo de direitos iguais".

Ilegalmente deportados

Um gay da Uganda que pedia asilo no Reino Unido foi ressarcido em 100 mi libras em uma compensação sem precedentes do Ministério do Interior, após o órgão admitir que havia violado a lei ao deportá-lo e colocar sua vida em perigo, enquanto seu caso ainda estava pendente.

John Bosco Nyombi, que agora tem licença para permanecer no Reino Unido, foi espancado e colocado em um avião de volta para Kampala pela equipe de segurança que trabalhava para o Ministério do Interior em 2008. O IoS noticiou no ano passado que os juízes da Suprema Corte decidiram que sua remoção foi "manifestamente ilegal, obrigando o Ministério do Interior a trazê-lo de volta à Grã-Bretanha. O homem de 39 anos fugiu para o Reino Unido em 2001, porque ser gay na Uganda pode resultar em prisão perpétua. Mais de um gay preso foi morto enquanto cumpria pena nas prisões da Uganda.

Nyombi tinha pendente um pedido de revisão judicial sobre seu caso quando foi enviado de volta. Quando ele tentou resistir à equipe enviada para deportá-lo e pediu um advogado, os oficiais de remoção britânicos arrastaram-no alegadamente pelas algemas e bateram em sua virilha e em seus ombros.

Poucos minutos antes de sua chegada em Kampala, Nyombi foi interrogado pela polícia de fronteira. Ele escapou de uma prisão inicial depois de pagar um suborno e passou seis meses na clandestinidade, tendo sido pego duas vezes e colocado na prisão, onde foi espancado por funcionários e detentos.

Nyombi, que agora vive em Portsmouth, onde ele é cuidador, disse: "É realmente uma boa notícia, mas às vezes não tem a ver com dinheiro. Nada pode compensar o que eu passei, e, apesar de tudo o que eles têm oferecido, ainda não vão se desculpar. Eles acham que um pedido de desculpas é dinheiro, mas não é". Ele planeja dar parte do dinheiro para instituições de caridade que fizeram campanha para trazê-lo de volta à Grã-Bretanha.

Seu advogado, Shamik Dutta, do escritório Fisher Meredith, disse: "John Bosco Nyombi é uma das muitas vítimas inocentes que sofreram agressões e prisões ilegais nas mãos do nosso sistema imigratório mal administrado. A conduta ilegal do Ministério do Interior nesse caso é uma mancha na nossa reputação nacional".

 

Autor: Emily Dugan
The Independent e Unisinos

 

Do nosso correspondente do Brasil: Eduardo Gabriel