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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos Homossexuais Portugueses

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Casamento homossexual: 131 uniões desde que lei entrou em vigor

 

A lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo entrou em vigor a 31 de Maio último, tendo-se realizado o primeiro casamento a 7 de Junho.

De acordo com o Ministério da Justiça, desde essa data realizaram-se 131 casamentos homossexuais.

O primeiro casamento homossexual foi entre Teresa Pires e Helena Paixão. As duas mulheres viviam juntas há oito anos e em Fevereiro de 2006 deram entrada com um processo de casamento na conservatória, mas viram o processo recusado, primeiro pelo conservador e depois pelos tribunais.

O polémico diploma só foi promulgado pelo Presidente da República a 17 de Maio, no penúltimo dia do prazo e após o fim da visita do Papa a Portugal.

Depois de ter submetido o diploma à fiscalização preventiva do Tribunal Constitucional - que o considerou constitucional -, Cavaco Silva acabaria por promulgar o diploma no Dia Mundial contra a Homofobia.

Este diploma teve origem numa proposta do Governo e foi aprovado pelo Parlamento, contando com os votos favoráveis do PS, BE, PCP e PEV e contra do CDS-PP e PSD, tendo seis deputados social-democratas abstiveram-se.

 

 

Fonte: Público

D. Pedro I, D. Sebastião, Infante D. Henrique e Afonso de Albuquerque eram homossexuais

 

Ricardo Coração de Leão

"Confesso que dormi com um homem." Ricardo Coração de Leão, o rei inglês mais corajoso das Cruzadas, subiu muitas vezes ao púlpito da igreja para confessar os seus pecados. Depois de ter mantido um romance com o rei de França, Filipe II, e de não resistir aos encantos do trovador da corte, Ricardo pediu ajuda à Igreja. As confissões públicas (peccatum illud) eram a resposta no século XII.

"Ricardo Coração de Leão era muito religioso e os clérigos defendiam que a única maneira de se libertar da ''doença'' era o sacramento da confissão. Subia ao púlpito e confessava os pecados: sexo com outros homens", explica ao i o autor do livro "Reis que Amaram como Rainhas", Fernando Bruquetas de Castro. "Transforma-se num ícone gay, quando o filósofo Michel Foucault revelou estas confissões públicas. Ricardo Coração de Leão era um exemplo de coragem e homossexual."

O monarca inglês é uma das 45 personalidades históricas, deuses e santos, que Fernando Bruquetas de Castro, professor na Universidade de Las Palmas de Grã Canária, incluiu no livro (editado agora em português). Durante dois anos e meio, o historiador investigou o tema, consultou documentos originais e falou com outros historiadores. De Júlio César, imperador romano de quem se dizia ser "marido de todas as mulheres e mulher de todos os maridos", ao duque de Windsor, o monarca inglês que em 1936 abdicou do trono para casar com uma mulher divorciada, traça-se um percurso histórico da homossexualidade. Ficaram de fora outros exemplos, como as suspeitas que recaem sobre Alberto do Mónaco.

Na edição portuguesa, Fernando Bruquetas de Castro dá mais destaque às figuras lusas. Entre elas estão o rei D. Pedro, o rei D. Sebastião, o Infante D. Henrique, Afonso de Albuquerque, o conde de Vila Franca, o marquês da Valada e outros aristocratas. O historiador, que esteve em Lisboa a promover o livro, escolheu dois exemplos para nos explicar como fundamentou as suas teorias.

D. Pedro

 

 

Ficou na história como um romântico. O rei D. Pedro I era o Justiceiro, porque vingou a morte de D. Inês de Castro, a mulher que amou e coroou já morta. Segundo o livro de Fernando Bruquetas de Castro, o monarca português que viveu no século XIV era bissexual. "Pedro amava Inês, mas também tinha outro tipo de amores e paixões. Na crónica de Fernão Lopes há uma frase que o explica ''e como o rei muito o amasse, mais do que se deve aqui dizer...'' Um cronista não escreve isto ao acaso quando se refere às intimidades entre um rei e o seu escudeiro."

Mas o historiador espanhol dá mais pormenores sobre este episódio. O escudeiro em questão era Afonso Madeira, mais tarde é mandado castrar pelo rei quando é apanhado com uma mulher. O argumento oficial era que D. Pedro não queria adultérios na sua corte. "Eram claramente ciúmes", diz Bruquetas de Castro.

 



Infante D. Henrique

 

Infante D. Henrique

O herói dos Descobrimentos era homossexual, garante Fernando Bruquetas de Castro. "Foi o que mais me surpreendeu, mas quando comecei a investigar, não há dúvidas", diz ao i. Quando perdeu um companheiro na campanha em Ceuta, em 1414, o Infante D. Henrique, o Navegador, fez um luto de três meses e chorou muito. Tanto que o seu pai, o rei D. João I, chegou a pedir-lhe que se contivesse. Os comportamentos fora do normal levaram até ao irmão, o futuro rei D. Duarte, a dizer-lhe para que "não desse mais prazer aos homens para lá do que se deve fazer de forma virtuosa".

O Infante D. Henrique ficou na história como casto, já que nunca se casou nem lhe foi referida alguma ligação a mulheres. "Três investigadores apontam a sua homossexualidade como algo claríssimo. Em Sagres, Henrique estava sempre rodeado de adolescentes que iam para os Descobrimentos e lhe traziam como prenda escravos negros. Mas o mais estranho é o desaparecimento do seu cronista, seu contemporâneo, que escreveu a sua história. Por que desapareceu? Porque estava lá tudo e não queriam que a Igreja soubesse."

 

 

 

 

 

Fonte: Jornal i onlline

Padre Luís Corrêa Lima: Deus criou os homossexuais

 

A relação da Igreja Católica com os novos modelos de famílias, onde impera a homoafectividade, é apenas um dos seus temas de estudo. Docente da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Luís Corrêa Lima viaja pelo mundo propalando a mensagem de aceitação da comunidade católica LGBT (lésbica, gay, bissexual e transgénero) e de que nenhum ser humano é mero hetero ou homossexual, mas antes uma criatura divina.

 

Ou não fosse este padre da Companhia de Jesus fundador do grupo Diversidade Católica, que no Brasil desenvolve um trabalho com católicos homossexuais. Numa breve ponte por Portugal não deixou de admitir, ao JN, que tal postura já lhe trouxe alguns dissabores.

 

 

Se a Igreja Católica surgiu há 2000 anos com um pensamento vanguardista à época, não é menos verdade que teve tantos outros até corrigir com o Concílio Vaticano II graves discriminações. Quanto anos levará então, na sua perspectiva, a adaptar-se à diversidade sexual?

 

Sinto e vejo a mudança. Mas é difícil saber quanto tempo vai levar. Porque na história as coisas são imprevisíveis. E a mudança é irreversível. Devo de admitir que não esperava que o líder de uma grande Conferência Episcopal, como a alemã, se manifestasse a favor da União Civil homossexual. Não esperava que a Santa Sé se posicionasse a favor da discriminalização da homossexualidade em todo o mundo. Isso aconteceu, agora, por isso outras mudanças podem acontecer. Só que são desiguais, porque a Igreja é heterogénea.

 

 

Mas na Alemanha discute-se entre o casamento e a União Civil, existente desde 2002, e aí a Igreja opta pela segunda. Em Portugal, discutia-se o nada e o casamento. E a Igreja defendeu o nada. Isto é, a postura é ou não sempre a do arrastamento e a que causa menos transtornos?

 

(Silêncio) Temos um exemplo de um grupo de sacerdotes da Argentina que se manifestou a favor do casamento gay. A Igreja é tudo isso.

 

 

O 'tudo isso' inclui o Cardeal Bertone (secretário de Estado do Vaticano) comparar a homossexualidade com a pedofilia?

 

Em 2008, o Papa deu uma entrevista na imprensa e sobre pedofilia vincou que não se trata de homossexualidade. É outra coisa. Após essa entrevista, o padre Federico Lombardi (porta-voz do Vaticano) salientou que não cabe à autoridade religiosa se pronunciar sobre psicologia.

 

 

E quando a Igreja considera um homossexual menos apto para o sacerdócio?

 

Na senda do debate da pedofilia havia esse debate acolorado. Um documento de 2005, sobre candidatos com tendências homossexuais, dizia que não são desejáveis no sacerdócio pessoas que apresentam tendências homossexuais enraizadas. E que cabe ao bispo local aprovar o candidato. A intenção é que o sacerdote tenha uma relação sadia com os fiéis. Onde possa surgir uma paternidade espiritual. E, assim, há coisas que atrapalham. Ou seja, as tendências homossexuais. É claro que alguns dizem o seguinte: o sujeito pode ter as tendências e não prejudicar a relação com os seus fiéis, desde que tenha maturidade. Então, o documento tem essa dualidade de quem interpreta. O padre Timothy Radcliffe considera que é menos importante saber se o candidato ama ou não. Importante é saber se ele odeia alguém. Isso é que deveria ser um preceito. Se o sujeito é homofóbico, se é machista, se é racista, então isso é que deveria ser empecilho. Mas há um documento mais recente, de 2008, sobre esse candidato, que refere que se enfrentarem de maneira realista as suas tendências homossexuais profundamente enraizadas, então não deve ser vetado.

 

 

Defende o baptismo das crianças de casais homossexuais?

 

Esse tema se colocou nos Estados Unidos. Em 2006, um documento dos bispos americanos, sobre a Pastoral para os homossexuais, se coloca contra a adopção de crianças por homossexuais. Mas diz que é permitido o baptismo dessas crianças, se houver uma promessa de que elas venham a ser baptizadas na fé cristã. Lá (nos Estados Unidos) muitas dessas crianças estudam em escolas católicas. Têm uma conduta igual às outras crianças. São aceites pelos colegas e outras famílias. São poucas as reclamações. Recentemente, a Diocese de Boston posicionou-se a favor do acolhimento de crianças de casais homossexuais em escolas católicas.

 

 

Sim. Mas qual é a sua opinião sobre o assunto?

 

Não vejo que haja evidência de que essas crianças sejam diferentes. Porque se fala muito do risco dos casais homossexuais e do que isso pode originar para elas. Mas uma universidade alemã já fez uma pesquisa com 2400 crianças e não notou qualquer diferença. Enquanto não houver uma evidencia que há um dano...

 

 

Já teve problemas devido à sua posição?

 

Na universidade tive longos meses de negociação, para que as barreiras fossem diluídas. As coisas tiveram uma evolução positiva. Tenho o apoio da Companhia de Jesus e superiores, graças a Deus. Tomo o cuidado de não ser hostil e ter uma posição apaziguadora. E avançar por onde só posso avançar. Mas é caminhar no fio da navalha.

 

 

Ajuda, enquanto padre, pertencer à Companhia de Jesus?

 

Muito. Até pela sua génese e pela missão que os Papas têm confiando à Companhia. Paulo VI disse que, sempre que na Igreja há conflito entre as legítimas aspirações humanas e a verdade evangélica, aí estão os jesuítas, nos campos mais difíceis e nas trincheiras sociais. A função da Companhia é o trabalho apostólico de fronteira. O Papa Bento XVI confirmou isso e desenvolveu esse trabalho de fronteira. Ver os jesuítas estarem onde os outros não estão, de estabelecerem pontes de compressão e dialogo.

 

 

Deus criou o homem e a mulher, heterossexuais. E os homossexuais, foram criados por quem? Por Deus?

 

Claro. Não tenho dúvidas disso. Deus criou todo mundo. Se Deus criou todo o mundo, Deus criou os homossexuais. A sociedade é diversa, na cultura, nas raças e diversidade sexual. Temos inclusive diversidade sexual no mundo animal. Fala-se de 400 espécies de animais que têm indivíduos homossexuais. E a Humana também tem. É importante que a Igreja aprenda a viver com a diversidade sexual.

 

 

Jornalista: Nuno Ropio (JN)

Fotógrafo: António Cotrim (LUSA)

Notícia original: JN

Por que persiste a Igreja-poder?

 

Vou abordar um tema incómodo, mas incontornável: como pode a instituição-Igreja, como a descrevi num artigo anterior, com características autoritárias, absolutistas e excludentes se perpetuar na história? A ideologia dominante responde: "só porque é divina". Na verdade, este exercício de poder não tem nada de divino. Era o que Jesus exactamente não queria. Ele queria a hierodulia (sagrado serviço) e não a hierarquia (sagrado poder). Mas esta se impôs através dos tempos. Instituições autoritárias possuem uma mesma lógica de auto-reprodução. Não é diferente com a Igreja-instituição. Em primeiro lugar, ela se julga a única verdadeira e tira o título de "igreja" a todas as demais. Em seguida cria-se um rigoroso enquadramento: um pensamento único, uma única dogmática, um único catecismo, um único direito canónico, uma única forma de liturgia. Não se tolera a crítica nem a criatividade, vistas como negação ou denunciadas como criadoras de uma Igreja paralela ou de um outro magistério.

Em segundo lugar, se usa a violência simbólica do controle, da repressão e da punição, não raro à custa dos direitos humanos. Facilmente o questionador é marginalizado, nega-se-lhe o direito de pregar, de escrever e de atuar na comunidade. O então Card. Joseph Ratzinger, Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, em seu mandato, puniu mais de cem teólogos. Nesta mesma lógica, pecados e crimes dos sacerdotes pedófilos ou outros delitos, como os financeiros, são mantidos ocultos para não prejudicar o bom nome da Igreja, sem o menor sentido de justiça para com as vítimas inocentes.


Em terceiro lugar, mitificam-se e quase idolatram-se as autoridades eclesiásticas principalmente o Papa que é o "doce Cristo na Terra". Penso eu lá com meus botões: que doce Cristo representava o Papa Sérgio (904), assassino de seus dois predecessores ou o Papa João XII (955), eleito com a idade de 20 anos, adúltero e morto pelo marido traído ou, pior, o Papa Bento IX (1033), eleito com 15 anos de idade, um dos mais criminosos e indignos da história do papado, chegando a vender a dignidade papal por 1000 liras de prata?
Em quarto lugar, canonizam-se figuras cujas virtudes se enquadram no sistema, como a obediência cega, a contínua exaltação das autoridades e o "sentir com a Igreja (hierarquia)", bem no estilo fascista segundo o qual "o chefe (o ducce, o Führer) sempre tem razão".


Em quinto lugar, há pessoas e cristãos com natureza autoritária, que acima de tudo apreciam a ordem, a lei e o princípio de autoridade em detrimento da lógica complexa da vida que tem surpresas e exige tolerância e adaptações. Estes secundam esse tipo de Igreja bem como regimes políticos autoritários e ditatoriais. Aliás, há uma estreita afinidade entre os regimes ditatoriais e a Igreja-poder como se viu com os ditadores Franco, Salazar, Mussolini, Pinochet e outros. Padres conservadores são facilmente feitos bispos e bispos fidelíssimos a Roma são promovidos, fomentando a subserviência. Esse bloco histórico-social-religioso se cristalizou e garantiu a continuidade a este tipo de Igreja.


Em sexto lugar, a Igreja-poder sabe do valor dos ritos e símbolos pois reforçam identidades conservadoras, pouco zelando por seus conteúdos, contanto que sejam mantidos inalteráveis e estritamente observados.


Em razão desta rigidez dogmática e canónica, a Igreja-instituição não é vivida como lar espiritual. Muitos emigram. Dizem sim ao cristianismo e não à Igreja-poder com a qual não se identificam. Dão-se conta das distorções feitas à herança de Jesus que pregou a liberdade e exaltou o amor incondicional.


Não obstante estas patologias, possuímos figuras como o Papa João XXIII, Dom Helder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Luiz Flávio Cappio e outros que não reproduzem o estilo autoritário, nem apresentam-se como autoridades eclesiásticas mas como pastores no meio do Povo de Deus. Apesar destas contradições, há um mérito que importa reconhecer: esse tipo autoritário de Igreja nunca deixou de nos legar os evangelhos, mesmo negando-os na prática, e assim permitindo-nos o acesso à mensagem revolucionária do Nazareno. Ela prega a libertação mas geralmente são outros que libertam.

 

Leonardo Boff (teólogo, filósofo e escritor)

Onde está a verdadeira crise da Igreja

 

A crise da pedofilia na Igreja romano-católica não é nada em comparação à verdadeira crise, essa sim, estrutural, crise que concerne à sua institucionalidade histórico-social.  Não me refiro à Igreja como  comunidade de fiéis. Esta continua viva apesar da crise, se organizando de forma comunitária e não piramidal como a Igreja da Tradição. A questão é: que tipo de instituição  representa esta comunidade de fé? Como se organiza? Actualmente, ela comparece como desfasada da cultura contemporânea e em forte contradição com o sonho de Jesus, percebida pelas comunidades que se acostumaram a ler os evangelhos em grupos e então a fazer a suas analises.

Dito de forma breve mas não caricata: a instituição-Igreja se sustenta sobre duas formas de poder: um secular, organizativo, jurídico e hierárquico, herdado do Império Romano e outro espiritual, assentado sobre a teologia política de Santo Agostinho acerca da Cidade de Deus que ele identifica com a instituição-Igreja. Em sua montagem concreta não  é tanto o Evangelho ou a fé cristã que contam, mas estes poderes, considerados como um único "poder sagrado" (potestas sacra) também na forma de sua plenitude (plenitudo potestatis) no estilo imperial romano da monarquia absolutista. César detinha todo o poder: político, militar, jurídico e religioso. O Papa, semelhantemente detém igual poder: "ordinário, supremo, pleno, imediato e universal" (canon 331), atributos só cabíveis a Deus. O Papa  institucionalmente é um César baptizado.

Esse poder que estrutura a instituição-Igreja foi se constituindo a partir do ano 325 com Imperador Constantino e  oficialmente instaurado em 392 quando Teodósio, o Grande (+395) impôs o cristianismo como a única religião de Estado. A instituição-Igreja assumiu esse poder com todos os títulos, honrarias e hábitos palacianos que perduram até  os dias de hoje no estilo de vida dos bispos, cardeais e papas.

Esse poder ganhou, com o tempo, formas cada vez mais totalitárias e até tirânicas, especialmente a partir do Papa Gregório VII que em 1075 se auto-proclamou senhor absoluto da Igreja e do mundo. Radicalizando, Inocêncio III (+1216) se apresentou não apenas como sucessor de Pedro mas como representante de Cristo. Seu sucessor, Inocêncio IV(+1254), deu o último passo e se anunciou como representante de Deus e por isso senhor universal da Terra que podia distribuir porções dela a quem quisesse, como depois foi feito aos reis de Espanha e Portugal no século XVI.  Só faltava proclamar  Papa infalível, o que ocorreu sob Pio IX em 1870. O circulo se fechou.

Ora, este tipo de instituição encontra-se hoje num profundo processo de erosão. Depois de mais de 40 anos de continuado estudo e meditação sobre a Igreja (meu campo de especialização) suspeito que chegou o momento crucial para ela: ou corajosamente muda e assim encontra seu lugar no mundo moderno e metaboliza o processo acelerado de globalização e ai terá muito a dizer, ou se condena a ser uma seita ocidental, cada vez mais irrelevante e esvaziada de fiéis. O projeto atual de Bento XVI de “reconquista” da visibilidade da Igreja contra o mundo secular é fadado ao fracasso se não proceder a uma mudança institucional. As pessoas de hoje não aceitam mais uma Igreja autoritária e triste, como se fosse ao próprio enterro. Mas estão abertas à saga de Jesus, ao seu sonho e aos valores evangélicos.

Esse crescendo na vontade de poder, imaginado ilusoriamente vindo directamente de Cristo, impede qualquer reforma da instituição-Igreja pois tudo nela seria divino e intocável. Realiza-se plenamente a lógica do poder, descrita  por Hobbes em seu Levitã: "o poder quer sempre mais poder, porque não se pode garantir o poder senão buscando mais e mais poder". Uma instituição-Igreja que busca assim um poder absoluto fecha as portas ao amor e se distancia dos sem-poder, dos pobres.  A instituição perde o rosto humano e se faz insensível aos problemas existenciais,  como da família e da sexualidade.

O Concílio Vaticano II (1965) procurou curar este desvio pelos conceitos de Povo de Deus, de comunhão e de governo colegial. Mas o intento foi abortado por João Paulo II e Bento XVI que voltaram a insistir no centralismo romano, agravando a crise.

O que um dia foi construído pode ser num outro, desconstruído. A fé cristã possui força intrínseca de nesta fase planetária encontrar uma forma institucional mais adequada ao sonho de seu Fundador e mais consentânea ao nosso tempo.

 

Leonardo Boff (teólogo, filósofo e escritor)

Outro modo de ser Igreja

 

Quem leu o meu último artigo - Onde está a verdadeira crise da Igreja - poderá ter ficado desesperançado. Ali analisei a estrutura de poder da Igreja, centralizada, piramidal, absolutista e monárquica. Este tipo de poder não favorece o ideal evangélico de igualdade, de fraternidade e a participação dos fiéis. Antes fecha as portas à participação e ao amor. É que esse tipo de poder, por sua natureza, precisa ser forte e frio. O modelo de Igreja-poder se apresenta como a Igreja tout court, pior ainda, como querida por Cristo, quando, como mostrei, surgiu historicamente e é apenas sua instância de animação e direcção, perfazendo menos de 0,1% de todos os fiéis. Portanto, não é toda a Igreja, apenas uma parte mínima dela.


Mas a Igreja-comunidade como fenómeno religioso e movimento de Jesus é muito mais que a instituição. Ela encontra outras formas de organização, bem mais próximas ao sonho do Fundador e de seus primeiros seguidores. Inteligentemente, os bispos brasileiros em sua reunião anual em Brasília de 4-13 de Janeiro do corrente ano confessaram: "só uma Igreja com diferentes jeitos de viver a mesma fé será capaz de dialogar relevantemente com a sociedade contemporânea". Com isso eles quebraram a pretensão de um único modo de ser, aquele da Tradição do poder. Sem negar este, há muitos outros jeitos: o jeito da Igreja da libertação, dos carismáticos, dos religiosos e religiosas, da Acção Católica, até da Opus Dei, da Comunhão e Libertação e da Canção Nova, só para dizer as mais conhecidas.


Mas há um jeito que é todo especial e altamente promissor, nascido nos anos 50 do século passado no Brasil e que ganhou relevância mundial, pois foi assimilado em muitos países: as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Os bispos lhe dedicaram uma animadora "Mensagem ao Povo de Deus sobre as CEBs". Curiosamente, elas surgiram no momento em que eclodiu no Brasil uma nova consciência histórica. Na sociedade: o sujeito popular ansiando por mais participação política; e, na Igreja: o sujeito eclesial, ansiando também por mais participação e co-responsabilidade eclesial. As CEBs constituem um outro modo de ser Igreja, cujo sujeito principal, mas não exclusivo, são os pobres. Seu estilo é comunitário, participativo e inserido na cultura local. Os serviços são rotativos e a escolha, democrática. Articulam continuamente fé e vida, activos no campo religioso, criando novos serviços e ritos, e activos no campo social ou político, nos sindicatos, nos movimentos sociais, como no MST ou nos partidos populares.


Não sabemos exactamente quantas são, mas calcula-se que cheguem a cem mil comunidades de base, envolvendo alguns milhões de cristãos. Os bispos constatam seu alto valor inovador e anti-sistémico. O mercado expulsou as relações de cooperação e solidariedade, enquanto nas CEBs se vive as relações fundadas na gratuidade, na lógica do oferecer-receber-retribuir. Elas assumiram a causa ecológica, por isso, se entendem também como CEBs = comunidades ecológicas de base. Desenvolveram uma forte espiritualidade do cuidado para com a vida e para com a Mãe Terra. Daí resultou mais respeito, veneração e cooperação com tudo o que existe e vive.


As CEBs mostram como a memória sagrada de Jesus pode receber outra configuração social, centrada na comunhão, no amor fraterno e na alegria de testemunhar a vitória da vida contra as opressões. É o significado existencial da ressurreição de Jesus como insurreição contra o tipo de mundo vigente. Humildemente os bispos testemunham que elas ajudam a Igreja a estar mais comprometida com a vida e com o sofrimento dos pobres. Mais ainda: interpelam a Igreja inteira chamando-a à conversão, ao compromisso para a transformação do mundo no mundo de irmãos e irmãs.


Esse modo de ser Igreja pode servir de modelo para a inserção na cultura contemporânea, urbana e globalizada. Se fosse assumido como inspiração para o projecto do Papa Bento XVI de "reconquistar" a Europa, seguramente teria algum sucesso. Ver-se-iam comunidades de cristãos, intelectuais, operários, mulheres, jovens, vivendo a sua fé em articulação com os desafios de suas situações. Não pretenderiam ter o monopólio da verdade e do caminho certo. Mas se associariam a todos os que buscam seriamente uma nova linguagem religiosa e um novo horizonte de esperança para a Humanidade.

 

Leonardo Boff (teólogo, filósofo, escritor)

Igreja: uma leitura teológica

 

Notoriamente a intenção primeira de Jesus não foi a Igreja, mas o Reino de Deus, aquela utopia radical de completa libertação. Tanto assim que os evangelistas Lucas, Marcos e João sequer conhecem a palavra Igreja. É somente Mateus que fala três vezes de Igreja. Mas não se realizando o Reino devido à execução judicial de Jesus, foi a Igreja que entrou em seu lugar. O Novo Testamento transmite três formas diferentes de organizar a Igreja: a sinagogal de São Mateus, a carismática de São Paulo e a hierárquica dos discípulos de Paulo, Timóteo e Tito. Esta prevaleceu.

 

Antes de mais nada, a Igreja se define como comunidade de fiéis. Enquanto comunidade, ela se sente ancorada no Deus cristão que também é comunidade de Pai, Filho e Espírito Santo. Isto significa que a comunidade é anterior às instâncias de poder cujo lugar é no meio dela, como serviço de animação e de coesão. O amor e a comunhão, essência da Trindade, são também a essência teológica da Igreja.

 

Esta comunidade se sustenta sobre duas colunas: Jesus Cristo e o Espírito Santo. Jesus aparece sob duas figuras: a do homem de Nazaré, pobre, profeta ambulante que pregou o Reino de Deus (em oposição ao Reino de César) e que acabou na cruz; e sob a figura do ressuscitado que ganhou dimensão cósmica estando presente na matéria, na evolução e na comunidade, como antecipação do homem novo e do fim bom do universo.

 

A segunda coluna é o Espírito Santo. Ele estava presente no ato da criação do cosmos, sempre acompanha a humanidade e cada pessoa, e chega antes do missionário. É ele que suscita a espiritualidade: a vivência do amor, do perdão, da solidariedade, da compaixão e da abertura a Deus. Na Igreja ele mantém vivo o legado de Jesus e é responsável por sua contínua actualização com carismas, pensamentos criativos, ritos e linguagens inovadoras. Santo Irineu (+200) disse bem: Cristo e o Espírito são as duas mãos do Pai com as quais nos alcança e nos salva.

 

Cristo, por ser a encarnação do Filho, representa o lado mais permanente da Igreja, seu carácter institucional. O Espírito representa o lado mais criativo, o seu carácter dinâmico. A Igreja viva é simultaneamente algo estruturado, mas também algo mutante como as inovações que fogem ao controle da instituição.

 

Diz-se também que a Igreja concreta, como comunidade e como movimento de Jesus, possui duas dimensões: a petrina e a paulina. A petrina (de São Pedro = Papa) é o princípio da Tradição e da continuidade. A dimensão paulina (de São Paulo) representa o momento de ruptura, a criatividade. Paulo deixou o solo judaico e partiu para a inculturação no mundo helénico. Pedro é a organização, Paulo a criação.

 

Pedro e Paulo encontram-se unidos na figura do Papa, herdeiro e guardião das duas vertentes, simbolizadas pelos túmulos dos dois apóstolos em Roma. Ambas se pertencem mutuamente. Mas nos últimos séculos predominou a dimensão petrina, quase afogando a paulina. Tal desequilíbrio deu origem a uma organização eclesiástica centralista, com o poder em poucas mãos, conservadora e resistente a novo, seja vindo do interior da Igreja mesma, seja da sociedade. O actual Papa é quase exclusivamente petrino, avesso a toda modernidade.

 

Hoje se impõe recuperar o equilíbrio eclesiológico perdido. A Igreja deve manter a herança intacta de Jesus (Pedro) e ao mesmo tempo renovar as formas de sua realização no mundo (Paulo). Só assim supera seu conservadorismo e mostra sua criatividade na comunicação com os contemporâneos. Ela não pode ser fonte de águas mortas, mas de águas vivas.

 

Leonardo Boff (teólogo e escritor)

Igreja Católica encomenda sondagem para ouvir sociedade portuguesa

 

A Igreja vai encomendar uma sondagem para recolher as expectativas, críticas e questionamentos da sociedade portuguesa em relação à sua actuação, incluindo neste estudo a população com outras perspectivas religiosas.

 

A pesquisa, que vai decorrer em 2011 e será confiada à Universidade Católica, decorre da vontade da Igreja em querer “ver o mundo onde se situa, para às suas perguntas responder o melhor que pode e sabe”, afirmou esta Terça-feira o porta-voz da Conferência Episcopal (CEP), padre Manuel Morujão.

 

Depois de salientar que “a Igreja é para o serviço de toda a sociedade”, o sacerdote defendeu que as suas portas “inclusivas” devem estar sempre “bem abertas”.

 

“Há muita gente de boa vontade que, não partilhando os valores da religião, partilha os valores da humanidade, que são muito importantes para a Igreja”, salientou o responsável durante a conferência de imprensa que se seguiu à reunião do Conselho Permanente da Conferência Episcopal, realizada em Fátima.

 

Confrontado com a eventualidade de os resultados da sondagem sugerirem a necessidade de alterações na orgânica e na doutrina, o padre Manuel Morujão frisou que “a Igreja deve considerar-se sempre em estado de conversão”, pelo que “não tem medo das mudanças”.

 

 

Repensar prioridades

 

O estudo de opinião é um dos eixos do projecto “Repensar a Pastoral da Igreja em Portugal”, que visa, entre outros objectivos, inverter o decréscimo de participação nos sacramentos e celebrações litúrgicas e travar a diluição dos critérios evangélicos.

 

“É fácil constatar que há menos prática religiosa”, referiu o sacerdote, realçando que a cultura cristã ainda subsistente deverá ultrapassar a superficialidade e transformar-se em atitudes que se apliquem “à vida concreta das famílias e da educação que se transmite aos filhos”.

 

A análise da realidade portuguesa em que a Igreja está envolvida passa também pela auscultação dos seus organismos internos, processo que ganhou novo impulso esta Terça-feira, dia em que o presidente da CEP, D. Jorge Ortiga, assinou um documento programático do projecto.

 

O texto, a enviar às principais estruturas da Igreja, estabelece um calendário, apresenta sugestões práticas e enuncia os organismos diocesanos que devem ser consultados durante o processo, nomeadamente o conselho pastoral e o conselho presbiteral, que representam os leigos e sacerdotes.

 

A evolução desta sondagem interna depende agora de cada bispo, explicou o porta-voz: cada prelado deverá “consultar os organismos e paróquias”, além das estruturas antes referidas, para que o resultado exprima uma reflexão “que nasce da base”.

 

 

Incluir e unir

 

Com esta iniciativa, a Igreja visa reunir os contributos das suas diversas instâncias, definir opções para os próximos anos e combater a dispersão de recursos causada pelas prioridades diferenciadas definidas pelas várias estruturas eclesiais.

 

De acordo com o padre Manuel Morujão, a Conferência Episcopal deseja que as conclusões desta auscultação apontem o “caminho para o futuro”, marquem “algumas prioridades para toda a Igreja” e atenuem “as fronteiras entre dioceses, congregações religiosas e obras de apostolado”.

 

O objectivo é, “na medida do possível”, “uniformizar práticas a nível de planos pastorais, critérios, usos e costumes”, adiantou o sacerdote jesuíta, salientando que os organismos eclesiais devem criar sinergias.

 

“Espera-se uma Igreja que se apresente como corpo, e não tanto como partes desse corpo, como são as dioceses, paróquias, movimentos, congregações religiosas e outras associações”, ao mesmo tempo que se procura assegurar o “respeito da individualidade” de cada um desses órgãos.

 

“Todos temos a aprender de todos. Acho que desta forma serviremos melhor as pessoas que procuram os serviços da Igreja”, tornando-a mais “ágil”, declarou o responsável, acrescentando um desejo: “Que vivamos mais um ritmo comum”, “em vez de estarmos divididos”.

As dioceses e organismos da Igreja Católica consultados neste processo devem enviar os seus pareceres para o secretariado da Conferência Episcopal até ao fim de Março de 2011.

 

As reflexões serão discutidas na assembleia plenária dos bispos de Portugal marcada para Maio do próximo ano, seguindo-se a formulação de “concretizações”, que ficarão prontas até Novembro, mês em que os prelados se voltam a encontrar.

Pais homessexuais garantem educação idêntica

Após a recente aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo começa agora a discussão para a adopção de crianças por estes casais. Um tema polémico e social para o qual os cientistas já têm respostas.

Será que os casais homossexuais podem ser bons pais? Será que as crianças, quer tenham sido adoptadas, concebidas com outro parceiro ou trazidas de relacionamentos anteriores, se adaptam e atingem o sucesso num mundo dominado pelas famílias tradicionais?


As respostas a estas questões dependem sempre de quem as dá e normalmente vêm revestidas de preconceitos. O sociólogo Michael Rosenfeld, da Universidade de Stanford, contra-argumenta com factos e números provenientes da maior base de dados norte-americana: o Censo.

No estudo, publicado este mês no Demography, Rosenfeld concluiu que as crianças criadas por casais do mesmo sexo têm o mesmo desenvolvimento educacional que os filhos de casais heterossexuais.

Sob a análise dos dados desde o Censo de 2000, o sociólogo conseguiu descobrir a taxa em que as crianças de qualquer tipo de família repetiam um ano durante o ensino elementar ou médio. De acordo com as conclusões, quase sete por cento das crianças educadas por casais heterossexuais ficaram retidas num ano escolar contra 9,5 por cento das crianças que vivem com adultos do mesmo sexo.

“Os dados do censo mostram que os pais homossexuais não são uma desvantagem para as crianças”, afirmou o autor. “Os rendimentos e a edução são maiores indicadores de sucesso para a criança. A estrutura familiar é um determinante menor”.

Menos repetentes nas famílias

O estudo demonstra ainda que os filhos de casais homo e heterossexuais apresentam menor taxa de repetição de ano do que os filhos de casais não casados e famílias monoparentais. Foi ainda comprovado que todas as crianças que vivem em algum tipo de ambiente familiar tinham melhor aproveitamento do que aquelas que viviam em grupo. Os que estavam à espera de adopção ou de colocação num lar foram retidos 34 por cento do tempo.

 

O estudo de Rosenfeld tem sido uma arma para os defensores da adopção por casais homossexuais nos Estados Unidos, onde a legislação difere de Estado para Estado. “A minha pesquisa deixa claro que há uma enorme vantagem para as crianças ficarem fora dos cuidados do Estado e serem educadas por uma família, mesmo que não seja a perfeitamente ideal”.

Os gays representam apenas um por cento da população americana, o que leva a uma grande dificuldade em estudar cientificamente esta perspectiva. “O tamanho da amostra é o poder”, refere o autor, “o censo é a maior amostra que temos disponível. O estudo é baseado milhares e milhares de crianças”.

Sociologia ajuda o debate


A maioria das opiniões sobre o casamento gay é baseada na intuição, crenças religiosas e experiências individuais. Rosenfeld sabe que o seu estudo não vai alterar a mentalidade da maioria das pessoas que se opõem às uniões de casais homossexuais. No entanto, o autor acrescentou novos dados ao debate e ajuda a contradizer afirmações de que as crianças criadas por casais gays não podem ter sucesso.

“Os cientistas sociais têm obrigação de esclarecer as questões polémicas. Às vezes temos de admitir que algo é desconhecido. Mas, neste caso, podemos trazer alguns dados reais numa área que de outro modo estaria realmente às escuras”, concluiu.