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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos Homossexuais Portugueses

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Novo Arcebispo de Berlim Encontra-se com Grupos Hostis e com os Media

O novo arcebispo católico de Berlim encontrou-se na passada terça-feira com os media para enfrentar acusações de que era homofóbico e demasiado conservador para um cargo tão proeminente na tão aberta capital alemão. Rainer Maria Woelki, uma escolha surpresa para o cargo de alto nível, declarou respeito pelos homossexuais, negou ser membro do grupo conservador Opus Dei e afirmou que não veio para Berlim para apontar um dedo de censura aos não-católicos.

 

A comunidade homossexual de Berlim e os media liberais reagiram com consternação a esta nomeação, afirmando que o prelado de Colónia tinha «uma mentalidade ultrapassada» e era o homem errado para a função. Porém, o interesse pelo novo prelado foi tão forte que a Igreja Católica, uma minoria de cerca de 390 mil fiéis numa população de 3,5 milhões, na sua maioria indiferentes ou hostis para com a religião, teve de mudar, à última da hora, a conferência de imprensa para uma sala mais ampla de modo a acomodar mais de 100 jornalistas.

 

«Encontrar-nos-emos com todos», afirmou Woelki, de 54 anos, quando questionado acerca de comunidade homossexual muito activa na cidade. «Tenho respeito e estima por todas as pessoas independentemente da sua linhagem, cor da pele e natureza individual. Estou aberto a todos sem reservas». Descrevendo-se simplesmente como católico, negou ser membro da Opus Dei , apesar de ter realizado o seu doutoramento na Universidade Pontifícia da Cruz Sagrada, em Roma, pertencente ao grupo. Essa parte da sua biografia levou os relatos dos media a chamarem-no de «reaccionário».

 

«A Igreja não é uma instituição moral que anda por aí a apontar o dedo às pessoa», afirmou Woelki. «A Igreja é, para mim, uma comunidade dos que buscam e dos que crêem e a Igreja gostaria de ajudar as pessoas a encontrarem a sua felicidade na vida».

 

Fonte: Agência Reuters

O que a Igreja diz sobre a homossexualidade

O psicanalista Jacques Arènes (ao lado, à esquerda) e o teólogo Dominique Foyer (ao lado, à direita) deixam-nos a sua reflexão comum sobre a evolução da Igreja em relação à questão da homossexualidade.

 

Actualmente a questão das homossexualidades é como um iceberg: o facto social da visibilidade, frequentemente reivindicativa, não diz tudo. Interrogações fundamentais, há muito escondidas, vão aparecendo pouco a pouco: no plano antropológico, o reconhecimento do facto homossexual leva à reconsideração do lugar da sexualidade na existência humana; no plano social e político, é preciso articular a aspiração legítima dos indivíduos de decidirem, de forma soberana, as suas vidas, portanto da sua sexualidade, através de uma regulação social necessária das relações humanas, incluídas as afectivas e sexuais; no plano teológico e espiritual, devemos questionar-nos como a boa nova da Salvação, realizada pela Igreja de Cristo, pode juntar as pessoas homossexuais na diversidade das suas situações.

 

 

A doutrina da Igreja e a sua antropologia implícita

Constatamos, em todas as religiões, um enquadramento estrito e frequentemente uma reprovação dos actos homossexuais. Porém, as relações «homoafectivas» são geralmente valorizadas: amizades viris entre guerreiros, ternura entre mulheres… O judaísmo e o cristianismo primitivo não são nisso excepção.

 

A Igreja católica afirma, quanto a si, que existe um valor moral universal dos actos humanos, independente das circunstâncias desses actos. Ela considera os actos homossexuais «objectivos» como pecaminosos. Contudo, ela distingue a moralidade dos actos da responsabilidade das pessoas que os vivem. Nas situações «homoafectivas», a Igreja católica não aprova a passagem ao acto sexual, reconhecendo embora que a avaliação da liberdade real e, portanto, da responsabilidade moral das pessoas é sempre difícil de fazer. Uma pessoa homossexual não é responsável pela sua orientação psicoafectiva e não controla necessariamente a sua expressão. Na teologia contemporânea, o argumento central assenta numa antropologia onde a diferença dos sexos, com o seu significado teológico – a união entre homem e mulher à imagem da relação com Deus – seja um elemento essencial de identidade e do devir humano, na sua dimensão sexual, conjugal e procriativa: a humanidade é criada na complementaridade do homem e da mulher (Gn 2, 20-24), «à imagem de Deus» (Gn 1, 27).

 

 

Com variações históricas

Desde os primórdios do cristianismo, na linha do judaísmo, as práticas homossexuais são consideradas quer como idólatras, indignas e antinaturais: idólatras, porque demasiado ligadas a formas de prostituição sagrada ou como consequência social originada por um conhecimento natural deficiente de Deus (Rm 1, 18-32); indignas de homens e de mulheres tornados, pela graça baptismal, «filhos adoptivos de Deus», «irmãos de Jesus Cristo» (Rm 8, 2.21): finalmente antinaturais, porque contrárias à ordem natural criada por Deus. De acordo com as perspectivas já presentes nas filosofias antigas (estoicismo, aristotelismo), o cristianismo medieval desenvolveu a apresentação dos actos homossexuais como sendo pecados «contra-natura», ligando fortemente o acto sexual à sua finalidade procriadora. Contudo, as dimensões psicológicas e relacionais da sexualidade humana permanecem sub-estimadas.

 

Actualmente, o argumento fundado sobre o respeito pela lei natural em matéria de sexualidade e de reprodução perdeu um pouco da sua pertinência, nomeadamente devido ao desenvolvimento do controlo reprodutivo humano. Prefere-se uma argumentação antropológica baseada na noção de «verdade do acto sexual». Na medida em que este não leva à procriação, uma relação homossexual é antropologicamente «menos verdadeira» que uma relação heterossexual. Contudo, esta pode ser portadora de qualidades éticas: sinceridade, doação, pesquisa do desenvolvimento de outros, etc. Por outro lado, na doutrina do casamento cristão desde o Vaticano II, o reconhecimento do valor positivo da sexualidade humana e a tomada em consideração da «entrega mútua dos esposos» abre a porta a um levar em consideração do prazer sexual independentemente da sua finalidade procriativa. Mas podemos, no entanto, dissociar totalmente estas duas dimensões constitutivas da sexualidade humana

Questões colocadas à Igreja de hoje

Actualmente a Igreja está confrontada, tal como o conjunto da sociedade, com um dado novo. A «identidade homossexual», pessoal e colectiva, emerge enquanto tal. Michel Foucault sublinhava-o, não existia nos séculos passados, pessoas que se consideravam como «homossexuais», mas «práticas homoeróticas». A abordagem psicomédica das sexualidades e da homossexualidade desenvolvida no século XIX, colocou progressivamente em destaque a sexualidade e a orientação sexual, como «verdade» do sujeito. Na sua realidade e na sua expressão, a orientação sexual é considerada actualmente como a marca da autenticidade da pessoa e das suas aspirações mais profundas. A emergência das reivindicações de legitimação social das relações homossexuais (casamento «gay») é, então, o sinal de um desejo fundamental de reconhecimento, que diz respeito aos grupos e às pessoas.

 

 A Igreja deve ouvir essas expectativas, procurando promover a sua visão antropológica, dificilmente audível nos dias de hoje. Numa sociedade fortemente erotizada, na qual a actividade genital é considerada como um lugar incontornável de entrega, a abstinência sexual, proposta pela Igreja às pessoas homossexuais, torna-se difícil de pôr em prática. Portanto, o autocontrole, neste domínio essencial, é igualmente um caminho de liberdade. As pessoas homossexuais são assim chamadas a viver um amor casto, sem actos sexuais, mesmo quando vivem sob o mesmo tecto que o seu cônjuge. Num mundo fragmentado onde a solidão é difícil de suportar, isso exige virtudes heróicas e graças particulares. A Igreja sabe-o bem (cf. Catecismo da Igreja Católica, n.º 2359).

 

A questão chave no que às pessoas homossexuais diz respeito, mais ou menos próximas da Igreja, é aquela do realismo e do acompanhamento. Na diversidade das situações de facto (vida em casal ou sozinho) e dos tipos de sexualidades, eventualmente em contradição com as suas prescrições, a Igreja deve, no entanto, reflectir sobre a maneira de acompanhar as pessoas homossexuais, como o faz com os heterossexuais, em direcção a uma maior fidelidade, respeito e amor ao próximo, numa caminhada humana e espiritual.

 

 

Conclusão

Estas questões difíceis dizem-nos respeito a todos: algumas vezes pessoalmente, frequentemente nos familiares ou amigos, sempre como cidadãos e, ainda mais, como cristãos. Fazemos nossas as palavras do concílio do Vaticano II: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do tempo actual, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo e não há nada de verdadeiramente humano que não encontre eco no seu coração» (constituição Gaudium et Spes, sobre a Igreja no mundo actual, n.º 1).

 

Artigo original: Ce que dit l'Eglise sur l'homosexualité (Revista: La Vie) 

 

Tradução: José Leote

Jean-Michel Dunand : «Quero viver a minha fé e a minha diferença»

Autor de um livro onde conta a sua caminhada espiritual e afectiva, este católico convida os cristãos a deitar um outro olhar à homossexualidade.

Católico e homossexual. A dualidade impossível de viver. Para sair dela e viver finalmente o grande dia, Jean-Michel Dunand escreveu o seu itinerário, na verdade um testemunho, algumas vezes cru, para explicar a sua escolha em assumir, por inteiro, a sua homossexualidade e o seu catolicismo. Após anos em busca de identidade e de reconhecimento, ele passou, de acordo com as suas palavras e o título do seu livro «da vergonha à luz». Animador de pastoral num grande liceu católico de Montpellier, ele fala-nos, com pudor e emoção, a partir do seu pequeno escritório aberto sobre um amplo recreio arborizado.


Desde muito jovem, que sentiu que não era «semelhante aos outros». Como é que descobriu a sua homossexualidade?
Desde muito cedo que fui sensível aos corpos de homens. Tinha seis anos quando, indo com os meus pais à feira de diversões, descobri que a beleza dos corpos masculinos fascinava-me. Não o compreendida e pensava estar sozinho no mundo a experimentar isso. Na minha pequena cidade natal de Albertville, na Sabóia, não tinha nenhum modelo homossexual com o qual me identificar.

Não se escolhe, escreve, ser homossexual, tal como não se escolhe ser heterossexual. Não é, portanto, do domínio da liberdade?
Precisei de tempo para compreender que não tinha escolhido, que não podia mudar. A minha homossexualidade impôs-se-me do mesmo modo que o meu físico. Nunca fui efeminado, apenas refinado no trato, mas quando brincava era normal disfarçar-me de rapariga. Atraído pela vida religiosa, imaginava-me carmelita no seguimento de Teresa [N.T.: alusão a Sta. Teresa d’Ávila, fundadora das carmelitas descalças (1515-1582)]. Pensava: «Se fosses uma mulher, entrarias na ordem». Não afirmo que a homossexualidade é inata, mas que ela se inscreve na singularidade de uma história. Portanto, nos espíritos e nas igrejas, arrasta-se ainda a ideia que se pode mudar, que é uma questão de vontade… Porém, quem desejaria expor-se voluntariamente à diferença?

 

É com a escola, adolescente, que o olhar dos outros começou a pesar-lhe.

Eu não dizia nada, mas os outros rapazes percebiam-no. Eu não gostava de desporto, dos jogos violentos. Dissimulava permanentemente, com o medo de um dia ser descoberto. Mais tarde, pensei frequentemente que, se nos reconhecemos entre homossexuais, é porque sabemos ler no olhar do outro essa fadiga de ter de perpetuamente esconder quem somos. Depois, houve aquele dia, no quinto ano, no qual, tendo chegado atrasado, tive de passar por todos e aguentar os insultos: «panasca», «maricas»… Vivi a experiência da vergonha, que nos atira vivos para um túmulo.

 

E depois, esse outro apelo, aquele de uma vida religiosa…

Sim, aos 8 ou 9 anos, fui como que tomado por Cristo. Chorei perante a Paixão de Jesus, lendo uma vida de santo oferecida por um catequista. Mais tarde, aos 14 anos, sozinho na abadia de Tamié, experimentei uma presença de amor, uma paz profunda. Guardei esse encontro secretamente dentro de mim e, ao mesmo tempo, construí uma personagem: aquela do pequeno cristão perfeito, futuro padre que servia a missa, tinha a confiança do pároco e ostentava, bem visível, uma grande cruz de madeira. Era mais fácil ser o aprendiz de santo do que o pequeno homo. Preferia que gozassem comigo pela minha fé em vez de pela minha homossexualidade. Com a religião, construí um muro à minha volta para me proteger do olhar dos outros e, sobretudo, de mim mesmo, dos meus próprios devaneios.

 

São as páginas mais duras do seu livro. Conta como, aos 14 anos, em Lourdes, aceitou as carícias de um desconhecido. A sexualidade sem amor, diz…

Nesse dia, o chão abriu-se sob os meus pés. Sentia-me sujo, mas descobria também que era atraído. Entre os 18 e os 25 anos, vivi um verdadeiro pesadelo, uma vida dupla. Era o Dr. Jekyll e Mr. Hyde. De um lado, o convento dos carmelitas, nos grupos de oração e evangelização e depois no seminário durante alguns anos, onde me apresentava como um modelo da fé, vestido de branco com uma enorme capa negra, de sandálias nos pés… Do outro, encontrava-me, às escondidas, com homens. Recusava instalar-me numa relação. Dizia-me que era menos grave, que era a minha fragilidade, e que com o auxílio da oração, da confissão… eu iria sair disso. Das raras vezes em que me confessei, falaram-me de «derrapagem». Que me iriam curar através da oração de renúncia. Neste período, somente Cristo não me deixou.

 

Que gostaria de ouvir neste momento?

Olhando para trás, aos 46 anos, creio que gostaria de ter sido entendido em profundidade. Que me enviem à realidade para não mais fugir, mas descobrir a minha humanidade profunda, a minha afectividade, a minha sexualidade, em vez de enterrar tudo isso sob uma pseudo-espiritualidade. Depois de ter muito escutado, constato que não é raro que os homossexuais comecem as suas relações em locais sombrios. Talvez porque nos interditamos de viver o amor e a ternura à luz do dia

 

O que é que o ajudou?

Tentaram curar-me, mesmo exorcizar-me, e iam internar-me para fazer uma cura de sono. Estava cada vez pior, pensava no suicídio. Então disse a mim próprio: «Chega!». Foi, então, a amizade que me ajudou, aquela de Patrick, que me abriu um outro caminho. Comecei um trabalho de auxiliar de serviço hospitalar, o que me permitiu retomar uma vida normal, uma visão razoável de mim mesmo e viver a minha homossexualidade de forma mais autêntica. Também encontrei o amor e vivo numa relação estável desde há 20 anos. Enfim, fui acolhido tal como era. Tornei-me animador em pastoral, numa escola católica. Intervenho nela desde há 16 anos graças à confiança que em mim depositou, com pleno conhecimento de causa, um director do estabelecimento.

 

Que pede hoje à Igreja?

Não reivindico nada, sem ser o direito de viver sem ser amputado duma parte de mim-mesmo. Enquanto católico, quero poder viver a minha fé e o meu caminho de descoberta da sexualidade e a ternura partilhada com uma pessoa do mesmo sexo. Não sou um activista que agita a bandeira da causa gay. Mas também não posso aderir às atitudes segundo as quais a homossexualidade é contra-natura e à margem do plano de Deus. Isso conduz a um impasse. Se reivindico alguma coisa, então é uma mudança e uma humildade de olhar. Com as pessoas «homosensíveis» - prefiro falar assim, pois isso não nos reduz à sexualidade -, encontramo-nos frequentemente perante percursos fracturados. Perante a mulher adúltera no Evangelho, que faz Jesus? Não a questiona, mas desvia os olhares, ao se agachar para escrever no chão; desloca igualmente os acusadores, pois todos se vão quando Ele os remete para o seu próprio pecado. Não encerremos as pessoas nas nossas normas e nos nossos olhares intransigentes.

 

Criou em 2000, uma ligação com os mosteiros, a Comunidade Betânia, ao serviços das pessoas homosensíveis e transgéneros.

Sim, é uma comunhão contemplativa. Encontramo-nos duas vezes por ano, em retiro num mosteiro. Porém, encontramo-nos diariamente em união de oração através de um pequeno ofício composto por salmos, beatitudes e de uma oração de intercessão. Para além do circulo dos comprometidos, há amigos que oram todas as quintas-feiras em nossa intenção, pais com filhos homossexuais, contemplativos como no carmelo de Mazille, mesmo bispos que se juntam a nós nesta fraternidade espiritual. Creio que a evolução do olhar dos cristãos para com os homossexuais será feita através da oração. A militância mete medo, os monges não! Convidando à oração, apelamos pacificamente ao acolhimento desse olhar de Cristo, que desloca. Não peço à Igreja que reconheça a homossexualidade como faz com a heterossexualidade, mas para olhar para as pessoas e de favorecer locais de encontro e de escuta.

 

Que mensagem gostaria de deixar aos cristãos?

Antes de arriscar uma palavra, ter tempo para ouvir as pessoas homossexuais. Antes de discutir sobre ideias, conhecer vidas. Foi o poder falar e ser ouvido que, pessoalmente, me salvou. No meu trabalho sou discreto sobre a minha vida pessoal, mas sei que tenho a confiança do meu bispo, do meu director diocesano, do meu director da escola. Sou franco com eles. Foi Freud quem disse: «Quando alguém fala, é dia!». É talvez justamente para que se faça dia que eu escrevi e publiquei este livro («Da Vergonha à Luz»).

 

 

Jornalista: Élisabeth Marshall

Tradução: José Leote

Órgão: «La Vie»