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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Um hino à esperança

Como parte integrante da campanha no Minnesota (EUA) contra a emenda constitucional contra a igualdade no casamento que irá a votação em Novembro de 2012, os Católicos para a Igualdade no Minnesota lançaram um vídeo de pessoas de fé que cantam um hino, originalmente composto por David Lohman em 2007, com uma mensagem forte e poderosa mensagem de igualdade válida para todos nós.

 

Acolher a homossexualidade através do respeito pela alteridade.

Bernard Perret

Bernard Perret, engenheiro e economista, é há muito tempo membro do grupo «Paroles» que difunde tomadas de posição públicas de personalidades católicas, sobre questões de sociedade e de atualidade. É autor de «Pour une raison écologique» (Flammarion, 2011) e «Une société en mal d’utopie» (Desclée de Brouwer, 2009).

 

Sobre o assunto da Oração pela França do dia 15 de agosto, eu vou não dizer nada sobre o contexto político, para nos poupar longas e inúteis considerações, e irei direto ao ponto mais importante a meu ver. Parece-me que as advertências da Igreja sobre a homoparentalidade teriam uma maior chance de serem entendidas se fossem acompanhadas por um discurso positivo com relação ao que os casais homossexuais vivem.


Não é suficiente acolher as pessoas homossexuais (o que é o mínimo): é preciso também dar razão à sua exigência de serem reconhecidas na especificidade da sua vida afetiva e amorosa. Em vez de argumentar longamente, quero compartilhar com vocês uma experiência que me fez refletir muito.

 

Há alguns anos atrás, fui convidado para almoçar com um colega de escola que não via há muito tempo e com quem me cruzei por ocasião de uma reunião. Ao longo daquele almoço, ele falou-me longamente e com emoção sobre a sua descoberta do amor e da sua vida de casal com um amigo do mesmo sexo.

 

Não estando preparado para ouvir isso, tive que manifestar um mal-estar e uma frieza que pesaram sobre a continuidade do almoço e que contribuíram para pôr fim aos nossos encontros depois daquele promissor reencontro. Retrospetivamente, desagrada-me muito ter arruinado esse encontro por causa do que se deveria chamar de homofobia, ou seja, uma mistura de medo e de desprezo contra uma realidade humana percebida como estranha, incompreensível e maléfica. E eu culpo a Igreja Católica por ter, ao menos indiretamente, encorajado essa reação.

 

Queira-se ou não, é a questão do respeito pela alteridade que está posta através da reivindicação de instituir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Parece-me que a Igreja Católica não pode se isentar disso: estamos prontos para reconhecer a autenticidade e o valor do amor vivido pelos casais homossexuais?

 

Certamente, seria desejável que esse reconhecimento não passasse através do acesso ao casamento, mas é, sem dúvida, tarde demais para se opor a isso. Estaríamos em uma melhor posição para combater essa solução se não tivéssemos, nós mesmos, contribuído para encerrar os homossexuais numa lógica de guerra pelo reconhecimento.

 

Tradução: JLP (Rumos Novos)

Artigo original aqui.

Teólogos americanos propõem uma nova moralidade sexual

Miguel Ângelo

"Extraindo perceções da tradição católica, da Escritura, das disciplinas seculares do conhecimento moral e da experiência humana, há seis dimensões fundamentais da antropologia católica renovada no livro «A pessoa sexual», ("The sexual person", no original inglês), explicam os autores e teólogos Todd Salzman e Michael Lawler, professores do departamento de Teologia de Universidade Creighton, nos Estados Unidos.

 

Os teólogos descrevem as seis dimensões fundamentais da antropologia expostas no livro.

 

"A primeira e mais fundamental dimensão é a mudança de ênfase na própria tradição católica que passou da pessoa sexual considerada primordialmente como pessoa procriadora para a pessoa sexual considerada primordialmente como pessoa relacional.

 

A segunda dimensão, que extrai perceções das ciências biológicas e sociais, é uma mudança na perceção da orientação heterossexual como normativa e a orientação homossexual ou bissexual como “objetivamente desordenada” – como ensina o magistério –, que passou para a conceção da orientação sexual – heterossexual, homossexual ou bissexual – como dimensão intrínseca da pessoa sexual e, portanto, “objetivamente ordenada” para a pessoa heterossexual, homossexual ou bissexual, respetivamente.

 

A terceira dimensão é uma compreensão holística e integrada da pessoa sexual considerada em termos relacionais, físicos, emocionais, psicológicos e espirituais.

 

A quarta dimensão postula um desejo fundamental das pessoas de estarem em relacionamento, incluindo o relacionamento sexual, com outra pessoa. Esse desejo se realiza num complexo de relacionamentos que o magistério designa como complementaridade. Complementaridade quer dizer que certas realidades formam uma unidade e produzem um todo que nenhuma delas produz sozinha.

Na descrição do magistério, a complementaridade sexual aponta para o matrimônio heterossexual como o relacionamento sexual estável exclusivo entre um homem e uma mulher.


A quinta dimensão expande a descrição da complementaridade sexual por parte do magistério indo além do casamento heterossexual entre homem e mulher e postulando um desejo fundamental de complementaridade holística na pessoa sexual ao integrar a orientação sexual como uma dimensão intrínseca da antropologia sexual. A complementaridade holística inclui a orientação sexual, a complementaridade pessoal e biológica e a integração e manifestação de todas as três na pessoa sexual.

 

A sexta dimensão postula que “atos sexuais verdadeiramente humanos” realizam as pessoas sexuais. Um ato sexual verdadeiramente humano é um ato em concordância com a orientação sexual de uma pessoa que facilita uma valorização, integração e partilha mais profunda do si-mesmo (self) corporificado da pessoa com outro si-mesmo corporificado tanto em amor como em justiça (amor justo)".

 

Segundo os teólogos, "a conclusão normativa que se segue dessas seis dimensões antropológicas da pessoa sexual é a seguinte: alguns atos homossexuais e heterossexuais, aqueles que cumprem as exigências de complementaridade holística e amor justo, são verdadeiramente humanos e morais; e alguns atos homossexuais e heterossexuais, aqueles que não cumprem as exigências de complementaridade holística e amor justo, não são verdadeiramente humanos e são imorais".

 

Poder ler o artigo íntegral aqui.

Este artigo foi coligido a partir da versão online

existente no blog dos irmãos da Diversidade Católica, no Brasil.

Leitura para férias: Amor Que Se Faz Homem

 

Se o título Amor que se faz homem dá algumas pistas sobre o assunto a tratar, o subtítulo Ensaio sobre as relações de amor e compromisso entre homens esclarece qualquer dúvida que possa ter ficado. Vai falar-se de homossexualidade, do ponto de vista dos afetos. O sexo é importante, mas fica para segundas núpcias. 

 

Henrique Pereira dedicou os últimos 15 anos a estudar identidade sexual e psicologia Lésbicas Gays Bissexuais (LGB) o que lhe permitiu descobrir uma lacuna nas publicações nacionais: faltavam obras sobre amor entre homens. Psicólogo e professor universitário, viu na experiência profissional uma ajuda para tornar o livro o mais acessível e útil possível. “Não quis fazer um livro académico, esses vão para a estante e ninguém os lê. A minha intenção é chegar às pessoas, ajudar os homens a desenvolver mecanismo de expressão emocional que os ajudem a comunicar”, refere. O registo aproxima-se por vezes do da autoajuda, abordam-se os problemas comuns nas relações entre homens e são dadas dicas para os resolver. O autor chega mesmo a enumerar uma lista de 25 razões para que uma relação entre homens resulte, deixando uma linha em branco para que cada leitor a complete com o seu motivo.

 

Para o autor, uma obra deste género “era necessária especialmente tendo em conta as mudanças sociais e políticas a que temos vindo a assistir no nosso país, nomeadamente a legalização do casamento homossexual”. A 5 de Junho de 2010 entrou em vigor a lei que prevê o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Nesse ano celebrou-se, em média, mais de um casamento gay por dia (266 em 208 dias), contudo, em 2011, verificou-se uma ligeira quebra para os 0,8 casamentos por dia (324 casamentos em 365 dias). “A legalização foi muito importante do ponto de vista legal e dos direitos humanos. Existe o direito de optar e esse reconhecimento traz muitos benefícios práticos, como as visitas quando se está doente ou as questões de bens”, afirma o investigador. Ainda assim, acredita que esta medida é “especialmente importante para os jovens que estão a questionar a sua sexualidade, para que não se sintam cidadãos de segunda e entendam que têm os mesmos direitos [que qualquer pessoa]”.

 

Fora deste cenário fica a adoção de crianças por parte de casais homossexuais. Henrique Pereira chama a atenção para o facto de em diversos países ocidentais acontecer o contrário do que se passa em Portugal: é permitida a adoção mas não o casamento. “A questão da adoção é um dos exemplos mais flagrantes sobre a dimensão da discriminação em Portugal, uma vez que não existe nenhuma razão para pensar que as famílias homoparentais são menos competentes”. O psicólogo continua: “O bicho papão que está aqui presente é a ideia de que as crianças adotadas por um casal homossexual também o serão”. Henrique Pereira não podia discordar mais dessa ideia e alega que diversos estudos comprovam que não há diferenças no crescimento das crianças. A perseguição de que podem ser vítimas as crianças é uma falsa questão: “discriminadas na escola todas são, por serem gordas, magras, baixas, altas ou usarem óculos”.

 

Perante a evidência das mudanças políticas dos últimos anos, o autor de Amor que se faz Homem deixa a ressalva de que estas nem sempre são acompanhadas por mudanças de mentalidade, sobretudo devido à falta de informação e de modelos positivos: “Ainda se continuam a propagar os modelos negativos, do homem que quer ser mulher, com saltos altos, plumas e lantejoulas, que é promíscuo e tem Sida. Isto é aquilo com que a maioria das pessoas não se identifica”. A perpetuação deste tipo de estereótipos vai acabar por dissimular o que Henrique Pereira descreve como o “mundo real da homossexualidade”. Numa sociedade onde predominam os valores heterossexuais, é comum que, nalgum momento das suas vidas, os homossexuais cheguem a questionar a sua própria identidade e a possibilidade de serem felizes. De acordo com Henrique Pereira, o livro pretende “minimizar essa grande incongruência”.

 

 

“O sexo não tem história”

Em qualquer relação o sexo tem a função importante de proporcionar prazer e aproximar as pessoas. É um dos dispositivos para a intimidade, mas não o único. “Muitos homens, porque têm dificuldade em entender os sinais, confundem atração sexual com afetos, mas não é a mesma coisa. A intimidade não é só sexo”, afirma Henrique Pereira. O livro Amor que se faz Homem baseia-se nos afetos e no compromisso precisamente para se demarcar da ideia de que as conversas sobre homossexualidade passam sempre pelo sexo, pela promiscuidade e pelo fetichismo. Para o autor do livro “o sexo não tem história”, pelo menos não na mesma medida que os outros aspetos da intimidade. De qualquer maneira, Henrique Pereira tem na gaveta a ideia de escrever um livro sobre “os aspetos mais instrumentais das relações”. Mais urgente foi escrever este livro, lançado estrategicamente no início de Junho, altura das marchas e arraiais de orgulho gay, o muito internacional Gay Pride.

 

Foi precisamente no meio de uma dessas marchas que o sobrinho de Henrique Pereira lhe perguntou o que se estava a passar na rua. O psicólogo respondeu que aquelas pessoas lutavam pelo direito de amar alguém do mesmo sexo. Surpreendida pela resposta, a criança, do alto dos seus 11 anos não ficou esclarecida: “Se eles se amam, qual é o problema?”. Para os mais pequenos, são os preconceitos que rodeiam a homossexualidade que são difíceis de entender. “Eles conseguem ver a essência das coisas, porque ainda não têm filtros nem conhecem estereótipos. Depende tudo das ‘lentes’ com que se observa a realidade”, explica Henrique Pereira.

 

As ‘lentes’ variam de pessoa para pessoa alternando perspetivas e julgamentos. “Há uma homofobia institucionalizada que, ao não validar este tipo de relações, faz com que muitas vezes os homens tenham um ‘duplo armário’”, refere o psicólogo. Está preso num segundo armário quando não quer revelar que tem uma relação com outro homem. Isto pode fazer com que se evitem as festas do emprego para não levar o companheiro ou se esconda a relação por medo de rejeição por parte dos familiares. Daí até que o companheiro se sinta rejeitado é uma questão de tempo.

Em muitos casos, os principais obstáculos a ultrapassar são internos. “Desde muito cedo foi dito aos homens que é errado amar outro homem. Depois, ao longo do seu desenvolvimento, interiorizam estas mensagens negativas que causam danos na sua autoestima”, alerta Henrique Pereira. Esta é uma das principais dificuldades para estabelecer relações entre dois homens, pois é possível que um homem que ame outro acredite que esse amor é errado. Ainda a nível interno, o psicólogo destaca outro problema comum: “Dois homens poderão ter alguns desafios acrescidos na gestão do poder, porque ninguém os preparou para o equilíbrio de tarefas e papéis”.

 

Todas as relações enfrentam obstáculos, na maioria das vezes relacionados com a dinâmica de casal. Será que numa relação entre dois homens as coisas são muito diferentes? Um estudo sobre esses casais em Portugal pode ser um bom indicador. Uma equipa de investigação, da qual Henrique Pereira fez parte, inquiriu 93 homens que se encontravam numa relação significativa com alguém do mesmo sexo para reunir informações até então desconhecidas. No que diz respeito à qualidade do relacionamento, os inquiridos apontaram como principais fatores que afetam a relação os problemas de comunicação (19,8), os ciúmes (15,4), os problemas com amizades (11,1) e os problemas financeiros (9,52). Apoiado nestes e noutros valores, a conclusão a que Henrique Pereira chega é que as relações entre homens “são tão diferentes ou tão iguais, tão banais e prazerosas como quaisquer outras...e ainda bem!” 

 

Quando se trata de investigações de carácter social, sobretudo na área da sexualidade, há uma questão que divide opiniões: se o investigador se incluir no fenómeno que é o seu objeto de estudo perde objetividade ou, por outro lado, pode acrescentar-lhe conhecimento? Henrique Pereira resolve a questão: “Eu faço parte do fenómeno que estudo, mas contornei esse conflito porque tenho 15 anos de experiência e trabalho consolidado, portanto não senti dificuldade em ser objetivo”. O investigador não vê a sua homossexualidade como condicionante do trabalho e acrescenta que teve o cuidado de “manter uma linguagem neutra e de afastar a sua experiência pessoal”. Mesmo assim, se o livro tratasse de amor lésbico, Henrique Pereira tê-lo ia escrito em parceria com uma mulher. “Como sou homem, por vezes é delicado para mim compreender um mundo duplamente feminino”, confessa. Amor que se faz Homem é um livro para homens e mulheres que queiram saber mais sobre relações amorosas em geral e entre homens em particular. E porque nestes assuntos o importante é falar, em breve estará online um site para promover a comunicação entre leitores e autor.

 

Artigo original aqui.

Autor:  Inês Raposo.