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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos Homossexuais Portugueses

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Feliz Páscoa

Árvore em flor

Em João 1, 12 podemos ler: «Mas, a quantos o receberam, aos que nele creem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.»

 

Caríssimos,

 

Como acreditamos que Jesus Cristo morreu para nos salvar do pecado e que ele é o caminho certo para a salvação, então também nós fomos nomeados como filhos de Deus. Portanto, proclamemos a Sua palavra ao mundo e MOSTREMOS AMOR E RESPEITO UNS PELOS OUTROS.

 

Sobretudo, NÃO NOS ESQUEÇAMOS: Ele Ressuscitou! Cristo Ressuscitou! ELE ESTÁ VIVO! AVANCEMOS COM ELE EM DIREÇÃO À VITÓRIA!

 

As traições de ontem e a crucifixão já se foram. O Cristo ressuscitado tem todo o Poder e Autoridade. Acreditai nele. ACREDITAI EM QUEM SOIS, dizendo com ousadia PORQUE ELE ESTÁ VIVO!

 

PÁSCOA FELIZ A TODA A NOSSA FAMÍLIA DO RUMOS NOVOS.

 

Deus os abençoe.

Ao pés da Cruz...

Hoje relembramos a importância da cruz. A ida à cruz é um momento muito emocionante de intimidade com o PAI...

 

Aqui fica um dos cânticos que sugerimos para que, em silêncio, falemos com DEUS.... Oiçamos, no silêncio, o seu amor gratuito por nós...

 

 

Nada te turbe,
Nada te espante,
Quem a Deus tem
Nada lhe falta.

 

Nada te turbe,
Nada te espante,
Quem a Deus tem
Nada lhe falta:
Só Deus basta

 

Tudo passa,
Deus não muda,
A paciência tudo alcança;
Nada te turbe,
Nada te espante,
Quem a Deus tem
Nada lhe falta.

 

Só em Cristo a confiança,
Só nele o meu apego,
Nos seus cansaços o meu alento
Em imitá-lo a folgança

Aqui jaz a minha força,
aqui a minha segurança,
a prova da minha verdade,
a mostra da minha força.

 

Já não durmais, não durmais,
Pois não há paz na Terra.

 

Não haja nenhum cobarde,
aventuremo-nos na vida.
Não há que temer, não durmais,
aventuremo-nos na vida.

 

Nada te turbe,
Nada te espante,
Só Deus basta.

 

Feliz Páscoa

Páscoa

Amigos e Irmãos em Jesus Cristo,

 

Em João 3, 16-17 podemos ler: «Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna. De facto, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele».

 

A finalidade da vinda de Jesus a este mundo foi SALVAR TODAS AS PESSOAS. Ele nunca discriminou. Veio pelos POBRES, RICOS, HETERO e HOMOSSEXUAIS. Veio para todas as pessoas que nele crêem para que todos possamos ser SALVOS e ver o Reino de Deus.

 

Portanto nós católicos temos de mostrar AMOR UNS PELOS OUTROS e nunca ÓDIO ou DISCRIMINAÇÃO UNS PELOS OUTROS.

 

Em Lucas 19, 20 lemos: «pois, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido». Portanto, como católicos a nossa prioridade deve ser seguir a vida exemplar do nosso salvador, rezando pelas almas perdidas e ajudar todas as pessoas a terem um conhecimento profundo das palavras do Senhor em vez de DISCRIMINARMOS COM BASE NA SEXUALIDADE.

 

O senhor que servimos é o DEUS DO AMOR, PELO QUE DEVEMOS MOSTRAR AMOR E RESPEITO POR TODAS AS PESSOAS. ABENÇOADOS E BOA PÁSCOA PARA TODOS.

Uma Mudança Radical em menos de 50 Anos à medida que os Direitos dos Homossexuais Foram Ganhando Força

A luta pelos direitos dos afro-americanos, simbolizada pela sangrenta marcha de Selma em 1965, é tão antiga quanto a nação [N. T.: Estados Unidos]. O esforço pelos direitos das mulheres começou em Seneca Falls, Nova Iorque, há mais de 150 anos.

 

A luta moderna pelos direitos dos homossexuais, em comparação, mal chega a meio século de idade, datando dos distúrbios de Stonewall, em Nova Iorque. Mas, nesta semana, quando o Supremo Tribunal ouve dois casos importantes sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a velocidade e o alcance do movimento está surpreendendo os seus apoiantes.

 

"Nós, o povo, declaramos hoje que a mais evidente das verdades – a de que todos nós somos criados iguais – é a estrela que ainda nos guia, assim como guiou os nossos antepassados através de Seneca Falls, Selma e Stonewall", disse o presidente Barack Obama no seu discurso de posse em janeiro, num momento histórico para homossexuais e lésbicas, incluídos, pela primeira vez, num discurso deste tipo. "A nossa jornada não estará completa até que os nossos irmãos e irmãs homossexuais sejam tratados perante a lei como qualquer pessoa."

 

As mudanças foram tão rápidas que às vezes é surpreendente lembrar que homossexuais e lésbicas até recentemente tinham medo de se assumir e de quantos obstáculos têm existido ao longo do caminho. "Todos nós estávamos escondidos", disse o ex-deputado Barney Frank, democrata do Massachusetts, que em 1987 se tornou o primeiro membro do Congresso a revelar voluntariamente a sua homossexualidade. Na época, a reprovação pública à homossexualidade – tão poderosa que homossexuais e lésbicas hesitavam em se identificar, quanto mais procurar mudanças políticas – ajudava a conter a ascensão do movimento.

 

"Era uma população tímida e temerosa demais até mesmo para erguer a sua mão, um grupo de pessoas que teve que começar do zero para criar o seu lugar na cultura da nação", escreveram Dudley Clendinen e Adam Nagourney em "Out for Good", a sua história datada de 2001 sobre o movimento dos direitos dos homossexuais.

 

No último século na política americana as fontes dessas reticências não eram um mistério. Os ensinamentos judaico-cristãos, interpretados como condenando a homossexualidade, forneciam o pano de fundo para o debate político numa nação mais religiosa do que as outras no mundo industrializado. Nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, a Associação Psiquiátrica Americana deu a sua chancela médica e científica às visões que rotulavam a homossexualidade como uma desordem mental.

 

Mas as mudanças culturais ocorridas nos anos 60 começaram a minar essas barreiras. Em resposta aos primeiros movimentos em grandes cidades como Nova Iorque, Los Angeles e San Francisco, George McGovern tornou-se o primeiro candidato à presidência a se identificar com o movimento ao permitir oradores assumidamente homossexuais na Convenção Nacional Democrata de 1972.

 

Quatro anos depois, Jimmy Carter, um batista do sul da Geórgia, opôs-se à discriminação contra homossexuais e lésbicas ao mesmo tempo em que mobilizava o apoio dos cristãos evangélicos. Durante a sua presidência, a coordenadora de Carter, Midge Costanza, realizou a primeira reunião formal com ativistas homossexuais na Casa Branca.

 

Mas Carter perdeu as eleições em 1980 a favor de um Partido Republicano em ascensão que, sob o presidente Ronald Reagan, uniu conservadorismo económico e social.

 

Antes de chegar à Casa Branca, Reagan ajudou os ativistas homossexuais a derrotar uma iniciativa que seria votada na Califórnia proibindo homossexuais e lésbicas de lecionarem nas escolas públicas. Mas, durante a sua presidência, Reagan manteve distância. A legislação estendendo proteções de direitos civis a homossexuais e lésbicas, introduzida pelos democratas liberais em 1974, continuou parada no Congresso.

 

Entretanto, o aparecimento da SIDA nos anos 80 deu nova energia e urgência ao movimento. A epidemia levou muitos homossexuais e lésbicas a assumirem publicamente a sua orientação sexual e aumentou a pressão sobre as autoridades eleitas, que de repente se viram diante de votações sobre o uso do dinheiro do contribuinte em resposta à crise de saúde pública.

 

Os legisladores alinhados com os ativistas homossexuais começaram a formar alianças no Capitólio que antes eram impossíveis em temas abstratos como os direitos dos homossexuais.

 

"Quando era puramente simbólico, eu não conseguia encontrá-los", lembrou Frank sobre tentar reunir apoiantes aos direitos dos homossexuais. "Mas quando as vidas das pessoas estavam em risco, eu passei a ouvir: 'Certo, eu julgo que terei que votar com você'."

 

Bill Clinton, o primeiro presidente da geração pós-Segunda Guerra Mundial, colocou o movimento ainda mais em proeminência. Ele participou num evento para recolha de fundos patrocinado por homossexuais, destacou a SIDA na sua convenção em 1992 e prometeu uma ordem executiva proibindo a discriminação contra homossexuais e lésbicas nas forças armadas.

 

"Ele nos trouxe para dentro do Partido Democrata", disse David Mixner, um velho amigo de Clinton da oposição à Guerra do Vietname, que se tornou seu conselheiro e embaixador para o movimento dos direitos dos homossexuais.

 

Mas as vitórias permaneceram intermitentes. Os democratas sofreram uma dura derrota nas eleições de 1994, obrigando Clinton a adotar um tom mais conservador.

 

Em 1996, ele enfureceu os seus eleitores homossexuais ao sancionar a Lei de Defesa do Casamento, cuja constitucionalidade está a ser discutida nesta semana num dos casos de casamento de mesmo sexo que estão sendo ouvidos no Supremo Tribunal. A lei limitou a definição de casamento a uniões entre um homem e uma mulher.

 

A posição de Clinton acompanhava a opinião pública americana, que continuava distinguindo os direitos dos homossexuais de outras causas de direitos civis. Numa pesquisa Gallup de 1996, 68% dos entrevistados eram contrários ao reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

 

A resistência da população ofuscou avanços mais discretos noutras partes. Os sindicatos trabalhistas há muito eram os "aliados mais fortes" do movimento na busca por proteções aos trabalhadores homossexuais, disse Gregory King, um representante da Federação Americana dos Funcionários Estaduais e Municipais. E, à medida que um número cada vez maior de funcionários homossexuais assumia a sua sexualidade, as grandes empresas passaram a estender os programas de benefícios para cobrir os casais de mesmo sexo.

 

"O setor privado sempre esteve à frente dos políticos", disse Hillary Rosen, uma lobista de Washington ativa nas causas dos direitos dos homossexuais. Assim como a cultura popular, particularmente a TV, que nos últimos anos tem apresentado várias figuras homossexuais de modo positivo.

 

Esses desdobramentos – e a ascensão de uma geração de eleitores mais jovens, socialmente tolerantes, que não consideram o casamento de mesmo sexo controverso – provocaram uma mudança na opinião pública.

 

Em novembro de 2012, o Gallup apontou que 53% dos entrevistados apoiavam o reconhecimento legal do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Uma pesquisa na semana passada mostrou que 54% apoiam benefícios para funcionários públicos federais casados com parceiros do mesmo sexo.

 

Essas atitudes produziram um ajuste político que altera o debate, independentemente do que o Supremo Tribunal decida a respeito dos direitos do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

 

A ex-secretária de Estado Hillary Rodham Clinton fez recentemente – 17 anos após o seu marido ter apoiado a Lei de Defesa do Casamento – um vídeo apoiando o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nenhum outro candidato democrata potencial à presidência em 2016 apresentou uma posição contrária ou deverá fazê-lo. O senador Rob Portman de Ohio, potencial candidato presidencial republicano, anunciou que apoiaria o casamento entre pessoas do mesmo sexo, após descobrir que o seu filho mais velho é homossexual.

 

O ritmo das mudanças continua surpreendendo os defensores do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

 

Frank disse que, na sua juventude, percebeu que se sentia pessoalmente atraído por homens e profissionalmente pelo governo. Ele presumiu que o primeiro impediria o segundo. "Nesta altura", concluiu, "acho que minha atração sexual por homens é politicamente mais aceitável do que minha atração pelo governo".

 

Autor: JOHN HARWOOD

Tradução: José Leote

Artigo original [New York Times]: aqui.

Resposta de um homossexual católico à homilia do Papa Francisco: «Toda a gente» inclui os seres humanos homossexuais?

Na homilia da sua Missa inaugural, o Papa Francisco afirmou:


Entretanto a vocação de guardião não diz respeito apenas a nós, cristãos, mas tem uma dimensão antecedente, que é simplesmente humana e diz respeito a todos: é a de guardar a criação inteira, a beleza da criação, como se diz no livro de Génesis e nos mostrou São Francisco de Assis: é ter respeito por toda a criatura de Deus e pelo ambiente onde vivemos. É guardar as pessoas, cuidar carinhosamente de todas elas e cada uma, especialmente das crianças, dos idosos, daqueles que são mais frágeis e que muitas vezes estão na periferia do nosso coração.


Estas são palavras maravilhosas e comovem o coração. Para muitos de nós que somos católicos e homossexuais, ou que somos católicos e que temos pessoas homossexuais nas nossas vidas que amamos, aquilo que resta ser visto é se o novo Papa reconhecerá igualmente todas estas palavras aplicadas especificamente aos seres humanos homossexuais.


«Ser um protetor significa proteger os seres humanos homossexuais, que se encontram suscetíveis à violência, discriminação e exclusão em muitas sociedades em todo o mundo», seria uma frase que muitos de nós anseiam ouvir o Papa dizer.


A homilia do Papa Francisco realça ainda que S. José, cujo dia festivo se comemora hoje, é frequentemente tido como o protetor de Maria e de Jesus e, portanto, o protetor da igreja. José assumiu esse papel nos evangelhos, destaca o Papa Francisco, «Numa constante atenção a Deus, aberto aos seus sinais, disponível mais ao projeto d’Ele que ao seu.»


Fiquei impressionado com a ênfase na leitura de José dos sinais da presença de Deus no mundo à sua volta. Isto reflete a forte insistência do Vaticano II de que devemos estar atentos aos «sinais dos tempos» e ao Espírito Santo que nos fala não somente através da hierarquia católica e da igreja em si, mas também através dos movimentos seculares e no mundo à nossa volta.


O movimento inelutável em muitas culturas em todo o mundo no sentido do reconhecimento da igualdade no casamento para os cidadãos homossexuais é, para muitos de nós, um sinal importante do nosso tempo. Na semana passada nos E. U. A., um senador republican apoiou a igualdade no casamento porque soube que o seu próprio filho é homossexual e não quer que ele viva como um cidadão estigmatizado e de segunda categoria. A antiga secretária de estado norte-americana, Hilary Clinton, que afirmou em Dezembro de 2011 que «os direitos dos homossexuais são direitos humanos e os direitos humanos são direitos dos homossexuais», anunciou o seu apoio à igualdade no casamento. Mesmo os opositores empedernidos da igualdade no casamento estão já a admitir a derrota nesta temática, pois indicam que já não pretendem estar «em guerra… em assuntos de justiça, em assuntos de igualdade» e as eleições demonstram que os americanos estão rapidamente a mudar e a acolher como nunca antes a igualdade no casamento.


Para muitos católicos, a recusa contínua dos responsáveis da nossa igreja em apoiarem os direitos iguais (e a humanidade integral) das pessoas homossexuais é cada vez mais escandalosa e é uma recusa em ler os sinais dos tempos e a ouvir a voz do Espírito Santo no mundo atual que nos rodeia. Muitos de nós continuarão a escutar atentamente as palavras nobres e encorajadoras do nosso novo Papa sobre a proteção dos mais desfavorecidos entre nós e questionamo-nos quando virá o tempo em que essas palavras incluirão um reconhecimento específico de que os mais desfavorecidos entre nós incluem os seres humanos homossexuais, que são merecedores de uma total inclusão na igreja e na sociedade e reconhecimento enquanto seres humanos cuja humanidade é igual à humanidade de todos os restantes seres humanos.

 

 

Texto original: aqui.

Tradução: José Leote

Perante o crucificado

Cruz e coroa de espinhos

Detido pelas forças de segurança do Templo, Jesus não tem já dúvida alguma: o Pai não escutou os Seus desejos de continuar a viver; os Seus discípulos fogem procurando a sua própria segurança. Está só. Os Seus projetos desvanecem-se. Espera-O a execução.

O silêncio de Jesus durante as Suas últimas horas é impressionante. No entanto, os evangelistas recolheram algumas palavras Suas na cruz. São muito breves, mas as primeiras gerações cristãs ajudavam-nos a recordar com amor e agradecimento Jesus crucificado.

 

Lucas recolheu aquelas que ele diz enquanto está sendo crucificado. Entre estremecimentos e gritos de dor, consegue pronunciar algumas palavras que descobrem o que há no Seu coração: “Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem”. Assim é Jesus. Pediu aos Seus “amai os vossos inimigos” e “rogai pelos que vos persewguem”. Agora é Ele mesmo quem morre perdoando. Converte a Sua crucificação em perdão.

Esta petição ao Pai pelos que o estão a crucificar é, antes tudo, um gesto sublime de compaixão e de confiança no perdão insondável de Deus. Esta é a grande herança de Jesus para com a humanidade: Não desconfieis nunca de Deus. A Sua misericórdia não tem fim.


Marcos recolhe um grito dramático do crucificado: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”. Estas palavras pronunciadas no meio da solidão e do abandono mais total são de uma sinceridade dolorosa. Jesus sente que o Seu Pai querido o está a abandonar. Por quê? Jesus queixa-se do Seu silêncio. Onde está? Por que se cala?

 

Este grito de Jesus, identificado com todas as vítimas da história, pedindo a Deus alguma explicação a tanta injustiça, abandono e sofrimento, ficam nos lábios do crucificado reclamando uma resposta de Deus mais para lá da morte: Deus nosso, por que nos abandonas? Não vais responder nunca aos gritos e queixumes dos inocentes?

 

Lucas recolhe uma última palavra de Jesus. Apesar da Sua angústia mortal, Jesus mantém até o fim a Sua confiança no Pai. As Suas palavras são agora quase um sussurro: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Nada nem ninguém pode separar-se Dele. O Pai animou o Seu espírito toda a Sua vida. Terminada a Sua missão, Jesus deixa tudo nas Suas mãos. O Pai romperá o Seu silêncio e o ressuscitará.

 

Nesta semana santa vamos celebrar nas nossas comunidades cristãs a Paixão e a Morte do Senhor. Também poderemos meditar em silêncio perante Jesus crucificado, aprofundando as palavras que Ele mesmo pronunciou durante a Sua agonia.

 

Autor: José Antonio Pagola

Tradução: José Leote

Texto original: aqui.

Queres segui-Lo até à cruz?

 

Referência bíblica:

Evangelho: Lc 22,14-23,56


A Paixão segundo São Lucas tem as suas particularidades:

 

  1. É uma paixão a ser meditada ao longo das nossas experiências humanas nas quais Cristo se junta a nós, como ocorreu com os discípulos
     de Emaús, nos quais ardia o coração, ao ser proclamada, interpretada e atualizada a Palavra. Eles reconheceram-no ao partir o pão (Lc 24, 30-31). Ao longo deste caminho doloroso que leva à cruz, encontramo-nos com Jesus mediante os personagens que Lucas nos apresenta:

     

    • Estamos entre os apóstolos que discutem entre si acerca de quem de entre eles é o maior (Lc 22, 24).

       

    • Somos Pedro, cujo amor ao Senhor o faz dizer: "Senhor, estou pronto a ir contigo até para a prisão e para a morte" (Lc 22, 33) mas que, na primeira ocasião, renegará o seu mestre: " Eu te digo, Pedro: o galo não cantará hoje sem que, por três vezes, tenhas negado conhecer-me." (Lc 22, 34).

       

    • Somos Judas, à frente de uma multidão de pessoas, querendo traí-lo (Lc 22,47).

       

    • Somos Simão Cirineu, discípulo de todos os tempos, que caminha após Jesus, levando também ele a sua cruz (Lc 23, 26).

       

    • Somos as mulheres de Jerusalém que o lamentam (Lc 23, 27).

       

    • Somos um dos malfeitores crucificados com ele: "Jesus, lembra-te de mim, quando estiveres no teu Reino." (Lc 23, 42) e a quem Jesus responde: "Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.

       

      " (Lc 23, 43).

       

  2. A narração da Paixão segundo Lucas está repleta de delicadeza e de ternura do evangelista para com o Senhor Jesus. Lucas não narra certos detalhes mais cruéis: não relata a flagelação (estamos longe do filme de Mel Gibson). Judas não abraça Jesus, mas aproxima-se apenas para fazê-lo. Ao longo de todo o caminho da cruz, o Jesus de Lucas dá provas da sua paciência e perseverança. O mais difícil da sua Paixão acontece no Getsémani, quando, numa profunda angústia e agonia interior, ele é confrontado com angústias extremas: "Cheio de angústia, pôs-se a orar mais instantemente, e o suor tornou-se-lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra. " (Lc 22, 44). Reconfortado por um anjo, como o profeta Elias (1 Rs 19, 5ss), Jesus já é o vencedor do que o aguarda.

Lucas suaviza também as situações e os acontecimentos: no jardim de Getsémani, diz que Jesus encontra os discípulos dormindo de tristeza (Lc 24, 25). Acolhe Judas com delicadeza: "Judas, é com um beijo que entregas o Filho do Homem? " (Lc 22, 48). Converte o coração de Pedro com o seu olhar de amor e de ternura (Lc 22, 61). Fala às filhas de Jerusalém que lamentavam a sua sorte (Lc 23, 28-31). Perdoa os seus carrascos: “Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem. " (Lc 23, 34). Faz entrar no paraíso o ladrão crucificado com ele: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.” (Lc, 23, 43).

 

O Jesus de Lucas é tão cheio de bondade e de misericórdia que converte os seus algozes e os que o condenam. Pilatos, por três vezes, o inocenta (Lc 23, 4. 14, 22), as mulheres (Lc 23, 27), o povo (Lc 23, 48) o ladrão (Lc 23, 42) e o centurião (Lc 23, 47) declaram-no justo. Na cruz, as suas palavras não são um grito de sofrimento, mas uma oração da tarde: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito." (Lc 23, 46). Deste modo, Lucas convida-nos a entrar com Jesus na sua Paixão, a reconhecer as nossas fraquezas e, com Pedro, as nossas fragilidades, a sentirmos sobre nós o olhar do Senhor, a levarmos, seguindo-o como Simão Cirineu, a sua cruz e a nos abandonarmos com ele nos braços do Pai.

 

Para terminar, no início do relato de sua Paixão, a Ceia (Lc 22, 14-38) é, por um lado, a refeição do adeus de Jesus e, por outro, a inauguração da nova Aliança. E, no final do relato, após a morte de Jesus, Lucas diz-nos que as mulheres, acompanhando José de Arimateia, preparam com afeto o sepultamento. Mas com todos os seus perfumes, elas querem conservá-lo morto. Entretanto, precisa, o evangelista: "Era o dia da Preparação e já começava o sábado." (Lc 23, 54). Portanto, as luzes do sábado já brilhavam. Mais: estas luzes já anunciavam as luzes da Páscoa. Mas as mulheres não sabiam disso.

 

 

Autor: Pe. Raymond Gravel

Tradução: José Leote

Texto original: aqui.

A eleição de um novo papa e o Espírito Santo

Fumo branco

Depois da louvável atitude do ancião Bento XVI renunciando ao governo da Igreja Católica Romana, sucederam-se entrevistas com alguns bispos e sacerdotes nas rádios e televisões […]. Sem dúvida, um acontecimento de tal importância para a Igreja Católica Romana é notícia e leva a previsões, elucubrações de variados tipos, sobretudo de suspeitas, intrigas e conflitos dentro dos muros do Vaticano que teriam apressado a decisão do papa.

 

No contexto das primeiras notícias, o que chamou a minha atenção foi algo à primeira vista pequeno e insignificante para os analistas que tratam dos assuntos do Vaticano. Trata-se da forma como alguns padres entrevistados ou padres liderando uma programação televisiva, quando perguntados sobre quem seria o novo papa, saíssem pela tangente. Apelavam para a inspiração ou vontade do Espírito Santo, como aquele do qual dependia a escolha do novo pontífice romano. Nada de pensar em pessoas concretas para responder a situações mundiais desafiantes, nada de suscitar uma reflexão na comunidade, nada de falar dos problemas atuais da Igreja que a tem levado a um significativo marasmo, nada de ouvir os clamores da comunidade católica por uma democratização significativa das estruturas anacrónicas de sustentação da Igreja institucional.

 

A formação teológica desses padres comunicadores não lhes permite sair de um discurso padrão trivial e abstrato bem conhecido, um discurso que continua a fazer apelo a forças ocultas e de certa forma confirmando o seu próprio poder. A contínua referência ao Espírito Santo, a partir de um misterioso modelo hierárquico é uma forma de camuflar os reais problemas da Igreja e uma forma de retórica religiosa para não desvendar os conflitos internos que a instituição tem vivido. A teologia do Espírito Santo continua para eles mágica e a expressar explicações que já não conseguem mais falar aos corações e às consciências de muitas pessoas que têm apreço pelo legado do Movimento de Jesus de Nazaré. É uma teologia que continua igualmente a provocar a passividade do povo crente, frente às muitas dominações, inclusive as religiosas. Continuam repetindo fórmulas como se estas satisfizessem a maioria das pessoas.

 

Entristece-me o facto de verificar mais uma vez que os religiosos e alguns leigos a atuar nos meios de comunicação social não percebam que estamos num mundo em que os discursos precisam ser mais assertivos e marcados por referências filosóficas para além da tradicional escolástica. Um referencial humanista torná-los-ia bem mais compreensivos para a comum das pessoas, incluindo-se aqui os não católicos e os não religiosos. A responsabilidade dos media religiosos é enorme e inclui a importância de mostrar o quanto a história da Igreja depende das relações e interferências de todas as histórias dos países e das pessoas individuais. Já é tempo de sairmos dessa linguagem metafísica abstrata como se um Deus se fosse ocupar especialmente de eleger o novo papa, prescindindo dos conflitos, desafios, iniquidades e qualidades humanas. Já é tempo de enfrentarmos um cristianismo que admita o conflito das vontades humanas e que no final de um processo eletivo, nem sempre a escolha feita pode ser considerada a melhor para o conjunto. Enfrentar a história da Igreja como uma história construída por todos e todas nós é testemunhar respeito por nós mesmas/os e mostrar a responsabilidade que todas e todos que nos consideramos membros da comunidade católica romana temos. A eleição de um novo papa é algo que tem a ver com o conjunto das comunidades católicas espalhadas pelo mundo e não apenas com uma elite idosa minoritária e masculina. Por isso, é preciso ir mais além de um discurso justificativo do poder papal e enfrentar os problemas e desafios reais que estamos a viver. Sem dúvida, para isso as dificuldades são muitas e enfrentá-las exige novas convicções e o desejo real de promover mudanças que favoreçam a convivência humana.

 

Preocupa-me mais uma vez que não se discuta de forma mais aberta o facto de o governo da Igreja institucional ser entregue a pessoas idosas que apesar das suas qualidades e sabedoria já não conseguem enfrentar com vigor e desenvoltura os desafios que estas funções representam. Até quando a gerontocracia masculina papal será a cópia da imagem de um Deus branco, idoso e de barbas brancas? Haveria alguma possibilidade de sair desse esquema ou de ao menos começar uma discussão em vista de uma organização futura diferente? Haveria alguma possibilidade de abrir essas discussões nas comunidades cristãs populares que têm o direito à informação e à formação cristã mais ajustada aos nossos tempos?

 

Sabemos o quanto a força das religiões depende de desafios e comportamentos frutos de convicções capazes de sustentar a vida de muitos grupos. Entretanto, as convicções religiosas não podem reduzir-se a uma visão estática das tradições, nem a uma visão deliberadamente ingénua das relações humanas. As convicções religiosas igualmente não podem ser reduzidas a uma onda de devoções as mais variadas que se propagam através dos meios de comunicação. Mais. Não podemos continuar tratando o povo como ignorante e incapaz de perguntas inteligentes e astutas em relação à Igreja.

 

Entretanto, os padres comunicadores acreditam tratar com pessoas passivas e entre elas estão muitos jovens que desenvolvem um culto romântico em torno da figura do papa. Os religiosos mantêm essa situação muitas vezes cómoda por ignorância ou por avidez de poder. Provar a interferência divina nas escolhas que a Igreja Católica hierárquica, prescindindo da vontade das comunidades cristãs espalhadas pelo mundo é um exemplo flagrante dessa situação. É como se quisessem reafirmar erroneamente que a Igreja é em primeiro lugar o clero e as autoridades cardinalícias, às quais é dado o poder de eleger o novo papa e que esta é a vontade de Deus. Aos milhares de fiéis cabe apenas rezar para que o Espírito Santo escolha o melhor e esperar até que a fumaça branca anuncie uma vez mais o "habemus papam”. De maneira hábil sempre estão a tentar fazer os fiéis escapar da história real, da sua responsabilidade coletiva e apelar para forças superiores que dirijam a história e a Igreja.

 

É pena que esses formadores de opinião pública estejam ainda a viver num mundo teológica e talvez até historicamente pré-moderno, em que o sagrado parece separar-se do mundo real e pousar numa esfera superior de poderes à qual apenas alguns poucos têm acesso quase direto. É desolador ver como a consciência crítica em relação às suas próprias crenças infantis não tenha sido acordada em benefício próprio e em benefício da comunidade cristã. Parece até que acentuamos os muitos obscurantismos religiosos presentes em todas as épocas enquanto o Evangelho de Jesus continuamente convoca para a responsabilidade comum de uns em relação aos outros.

 

Sabendo das muitas dificuldades enfrentadas pelo papa Bento XVI durante o seu curto ministério papal, as empresas de comunicação católica apenas ressaltam as suas qualidades, a sua entrega à Igreja, a sua inteligência teológica, o seu pensamento vigoroso, como se quisessem mais uma vez esconder os limites da sua personalidade e da sua postura política não apenas como pontífice, mas também por muitos anos, como presidente da Congregação da Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício. Não permitem que as contradições humanas do homem Joseph Ratzinger apareçam e que a sua intransigência legalista e o tratamento punitivo que caracterizaram, em parte, a sua pessoa sejam lembrados. Falam desde a sua eleição, sobretudo de um papado de transição. Sem dúvida de transição, mas de transição para quê?

 

Gostaria que a atitude louvável de renúncia de Bento XVI pudesse ser vivida como um momento privilegiado para convidar as comunidades católicas a repensar as suas estruturas de governo e os privilégios medievais que esta estrutura ainda oferece. Estes privilégios tanto do ponto de vista económico quanto político e sócio cultural mantêm o papado e o Vaticano como um Estado masculino à parte. Mas um Estado masculino com representação diplomática influente e servido por milhares de mulheres através do mundo nas diferentes instâncias da sua organização. Esse facto convida-nos igualmente a pensar sobre o tipo de relações sociais de género que esse Estado continua mantendo na história social e política da atualidade.

 

As estruturas pré-modernas que ainda mantém esse poder religioso precisam de ser confrontadas com os anseios democráticos de nossos povos na busca de novas formas de organização que se coadunem melhor com os tempos e grupos plurais de hoje. Precisam ser confrontadas com as lutas das mulheres, das minorias e maiorias raciais, de pessoas de diferentes orientações sexuais e escolhas, de pensadores, de cientistas e de trabalhadores das mais distintas profissões. Precisam ser retrabalhadas na linha de um diálogo maior e mais profícuo com outros credos religiosos e sabedorias espalhadas pelo mundo.

 

E para terminar, quero voltar ao Espírito Santo, a esse vento que sopra em cada uma/um de nós, a esse sopro em nós e maior do que nós que nos aproxima e nos faz interdependentes de todos os viventes. Um sopro de muitas formas, cores, sabores e intensidades. Sopro de compaixão e ternura, sopro de igualdade e diferença. Este sopro não pode mais ser usado para justificar e manter estruturas privilegiadas de poder e tradições mais antigas ou medievais como se fossem uma lei ou uma norma indiscutível e imutável. O vento, o ar, o espírito sopra onde quer e ninguém deve atrever-se a querer ser mais uma vez seu proprietário. O espírito é a força que nos aproxima uns dos outros, é a atração que permite que nos reconheçamos como semelhantes e diferentes, como amigas e amigos e que juntos/as busquemos caminhos de convivência, de paz e justiça. Esses caminhos do espírito são os que nos permitem reagir às forças opressoras que nascem da nossa própria humanidade, os que nos levam a denunciar as forças que impedem a circulação da seiva da vida, os que nos levam a descobrir os segredos ocultos dos poderosos. Por isso, o espírito mostra-se em ações de misericórdia, em pão partilhado, em poder partilhado, em cura das feridas, em reforma agrária, em comércio justo, em armas transformadas em arados, enfim, em vida em abundância para todas/os. Esse parece ser o poder do espírito em nós, poder que necessita ser acordado a cada novo momento da nossa história e ser acordado por nós, entre nós e para nós.

 

 

Autoria: Ivone Gebara (Freira e teóloga católica)

«Habemus Papam» - NOTA À IMPRENSA 02/ 2013

NOTA À IMPRENSA

Coordenação Nacional da Associação Rumos Novos – Homossexuais Católicos

 

 

Lisboa/ Portimão, 13 de março de 2013

 

 

Habemus Papam

 

 

Como leigos comprometidos na vida da igreja orámos, nos últimos dias, para que o Espírito Santo iluminasse os cardeais na escolha do novo sucessor de Pedro.

 

A Igreja Católica encontra-se num momento de charneira na sua história, onde seria importante abandonar a lógica do poder e abraçar a lógica do serviço e da inclusão.

 

Um novo Papa deveria, obedecendo a Deus, estar ao serviço do Homem e saber ler os sinais dos tempos, como a todos nos interpelou o Concílio do Vaticano II.

 

Porém, neste momento de alegria para todos nós católicos, não podemos, enquanto fiéis homossexuais católicos, igualmente deixar de partilhar o nosso profundo desalento pela escolha do cardeal argentino Jorge Bergoglio para Papa.

 

Enquanto homossexuais católicos não nos podemos esquecer das inúmeras posições públicas e no seio da igreja do cardeal Bergoglio nas quais se refere ao casamento entre pessoas do mesmo sexo como sendo «um plano de Satanás para enganar os filhos de Deus» e que as pretensões dos fiéis homossexuais católicos mais não são do que «a destruição do plano de Deus». Estas palavras causaram mágoa e dor a muitos homossexuais católicos em todo o mundo e deixam-nos naturalmente apreensivos sobre se efetivamente poderemos assistir a uma nova postura da igreja, na senda da mensagem de Jesus Cristo.

 

Neste momento em que urge promover uma profunda mudança interior do ser humano e em que um novo Papa tem de ser o pastor que, em nome de Jesus Cristo, a todos acolhe, rezamos para que este Papa, iluminado pelo Espírito Santo, saiba fazer o corte com um certo modelo de igreja e que saiba escutar os movimentos de fiéis católicos que apelam, de há muito, a uma profunda renovação no seio da igreja.

 

Oramos para que a escolha do nome «Francisco» por parte do novo Papa, possa efetivamente vir a ser o espelho de uma opção pelos desfavorecidos, os excluídos e os marginalizados, na sociedade e no seio da igreja católica, em particular que finalmente haja uma mensagem de conforto e verdadeiro acolhimento particularmente em relação aos fiéis homossexuais católicos.