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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Oração do Espírito de Chipiona

Chipiona (Catedral)

Deus e Pai bom, que nos amas e nos procuras.

Queremos-Te. Queremos-Te e sentimo-nos queridos.

Somos obra tua, causa da Tua criação e temos a certeza

de que jamais nos abandonas à nossa sorte.

Prova disso é aqueles Arco-Íris de cores,

que mostraste a Noé como fidelidade de amor

ao homem e à mulher de cada época (Gn 9, 13).

A pessoa é o Teu fascínio, Pai de amor.

A pessoa, a sua dignidade e a sua vida.

Por isso, chegado o momento enviaste-nos o Teu Filho Jesus,

que  terminaria com um testemunho de vida e obras,

o amor que sentes pelo mundo e pelas pessoas.

Jesus mostrou-nos o rosto vivo da misericórdia,

do perdão sem fim.

Foi o rosto vivo da amorosidade distribuindo amor em Teu nome,

restaurando a dignidade perdida, cuidando dos marginalizados,

acalmando os desejos de vingança e mostrando a todos

que é possível ser as mãos de Deus, sendo fraternos,

respeitosos e compreensivos.

Quando Jesus estava reunido com os seus discípulos,

enviou-nos o Seu Espírito Santo.

Como força renovadora.

Como ânimo perene para continuarmos vivendo com esperança

no sentido comunitário do cristianismo e dos seus valores.

Por este mesmo Espírito Te damos graças Pai.

Porque o sentimos próximo, na nossa vida.

E porque este Espírito foi sentido por nós de maneira especial em Chipiona,

junto à nossa mãe a Virgem Maria de Regla e fundamento da nossa fé.

Que o Teu Filho Jesus nos continue a animar com este Espírito

que nos foi dado e pelo qual vivemos.

Que por intercessão da Virgem Maria, Regra e amparo da nossa fé,

todos continuemos a nos sentirmos irmãos e irmãs

e abraçados pelo amor de Jesus Cristo. Ámen.

 

 

 

 

 

 

 

 Oração escrita por: Floren Salvador Díaz Fernández

Texto original: Cartujo con Licencia Propria

Tradução: José Leote (Rumos Novos)

 

No Uruguai: reunião "histórica" entre arcebispo e pessoas homossexuais

O arcebispo Daniel Sturla reuniu-se com representantes da Associação de Famílias de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Homoparentais do Uruguai. «É o primeiro membro da hierarquia da Igreja Católica que fala corretamente sobre estes temas, utilizando a terminologia correta quando se refere à orientação sexual ou à identidade de género», disse o presidente da associação.

 

 

Daniel Sturla

Este foi o primeiro encontro na história do Uruguai entre um arcebispo e as pessoas homossexuais.

 

Para o presidente da Associação de Famílias LGBT, Omar Salsamendi, a reunião foi «altamente positiva».

 

«A Associação não professa qualquer religião, algo que lhe está vedado pelo seu próprio estatuto. Mas para além disto, foi uma reunião histórica. Antes de mais, porque é o primeiro alto dignitário da Igreja Católica do Uruguai que se reúne para falar sobre esta temática com uma Organização de defesa dos direitos LGBT», disse Salsamendi.

 

A «conversa amena» durou uma hora. Sturla frisou que a Igreja mantem a sua postura sobre a lei da igualdade no casamento, mas assinalou explicitamente que está contra qualquer tipo de discriminação.

 

Salsamendi recordou que o novo arcebispo afirmou publicamente que não é contraditório com a fé ou com os dogmas da Igreja ter amigos homossexuais. «É a primeira vez que um arcebispo afirma (N. T.: no Uruguai) «tenho amigos homossexuais», disse.

 

«É o primeiro membro da hierarquia da Igreja Católica que fala corretamente fala corretamente sobre estes temas, utilizando a terminologia correta quando se refere à orientação sexual ou à identidade de género», sublinhou Salsamendi.

 

«Neste aspeto, vejo Sturla alinhado com os novos tempos e longe de discursos retrógrados e carentes de toda a fundamentação técnica ou científica», acrescentou.

 

Durante a conversa, Sturla pediu desculpa pelas ações da Igreja Católica do Uruguai que possam ter ferido ou magoado as pessoas homossexuais, ainda que tenha deixado claro que ele não se encontrava no exercício do seu cargo quando isso aconteceu.

 

 

Artigo original: aqui.

Tradução: José Leote

Sair do Armário: Um Risco que Vale a Pena Correr

Sair do armário

Algumas das decisões mais difíceis e importantes da vida das pessoas homossexuais estão relacionadas com o «sair do armário», isto é, com o decidir viver aberta e honestamente a nossa orientação sexual. Ninguém te pode dizer quando e como dares o próximo passo. É uma viagem pessoal, mas não é uma que devas fazer sozinho.

 

Esperamos que este guia te possa servir de orientação.

 

Todos temos experiências diferentes e o sair do armário é um risco para muitas pessoas homossexuais. Porém, sair do armário é um risco que vale a pena correr, porque é uma das coisas mais poderosas que qualquer um de nós pode fazer. Até agora não conhecemos ninguém que se tenha arrependido de ter decidido viver a sua vida honestamente. A ninguém deve ser negado o direito de viver completamente como um ser humano de acordo com a sua orientação sexual.

 

As sondagens têm-se encarregado de demonstrar que as pessoas que conhecem pessoas homossexuais têm maior probabilidade de apoiar direitos iguais para todos. É por isso que o sair do armário pode ser um pequeno passo para qualquer pessoa homossexual, mas contribui para um grande passo para todas as pessoas homossexuais.

 

Agora que já estás fora do armário, não fiques por aí. É preciso falar com os familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho, ou estudo, sobre a discriminação que enfrentamos diariamente nas nossas vidas. Temos de educar o próximo: no nosso círculo de amigos, ou na família. Eles são as pessoas que mais nos amam. São os nossos aliados na luta pela igualdade. Se não lhes dizemos nada sobre o impacto que a discriminação tem nas nossas vidas, negamos-lhes injustamente a oportunidade de lutar connosco. Se as pessoas desconhecem que a discriminação existe, esta continuará para sempre.

 

(NOTA: Para mais informações sobre este tema, por favor visita o nosso site, no separador: Áreas » Sair do Armário)

Desafios da Igreja sobre a relação entre espiritualidade e sexualidade

André Musskopf

As declarações do Papa Francisco sobre os homossexuais, como este assunto repercute dentro e fora da Igreja Católica, relação entre sexualidade e espiritualidade, juventude, diferenças de gênero e o atual papel da mulher são alguns dos temas tratados pelo teólogo André S. Musskopf em entrevista ao site do I Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora. Ele pontua alguns dos desafios que a Igreja Católica terá que enfrentar, já que está sendo impelida cada vez mais a abordar assuntos considerados polêmicos, e conversou sobre como "mudanças doutrinárias" poderão ser implantadas sem que se fira nenhum dos princípios orientadores da ética teológica católica romana.

 

 

1. Senhor Musskopf, o Papa Francisco surpreendeu a comunidade católica mundial ao declarar que não julgaria os homossexuais que possuem uma vivência cristã, adotando uma postura diferente de seus antecessores. Para o senhor, essa declaração do Papa veio para aliviar a Igreja de pressões midiáticas imediatas ou representa um discurso verdadeiro de tolerância?

 

É muito difícil dizer ao certo. Mesmo que se trate de uma declaração para aliviar as pressões midiáticas, o significando e a repercussão dela estão para além do controle do Papa, da Igreja ou da própria mídia. O certo é que ela não muda, em princípio, nenhuma das regras da Igreja definida pelos seus documentos. Então, de fato, não há mudança real por parte da Igreja. Há teólogos/as que têm argumentado que algumas brechas têm sido abertas a partir do raciocínio teológico expresso em alguns documentos recentes do Vaticano, mas não vejo essa repercussão na vida cotidiana dos/as fieis, os/as quais, vão construindo seus significados muitas vezes apesar do Papa ou da Igreja. Por outro lado, a repercussão das falas do Papa, no sentido de que demonstram uma abertura tem, sem dúvida, animado muitas pessoas, especialmente aquelas ligadas à Igreja Católica Romana, e que esperam por mudanças significativas. Todos/as sabemos que não será um anúncio ou uma encíclica que determinará o respeito à diversidade sexual ou mesmo o fim da homofobia, na Igreja e na sociedade. Mudanças muito mais profundas terão que ser realizadas para que a Igreja deixe de ser uma engrenagem do atual sistema político e econômico que vitimiza pessoas, grupos e povos, e assuma o papel profético que lhe cabe. A abertura para a participação efetiva de pessoas homossexuais pode ser um dos sinais de um novo caminho, mas para que voltemos a sonhar com uma "igreja pobre" desafios muito maiores e estruturais deverão ser enfrentados.

 

 

2. Ainda em relação aos homossexuais, deve haver alguma mudança doutrinária na Igreja nos próximos anos?

 

Não conheço suficientemente a estrutura e as forças atuantes no interior da Igreja Católica Romana. Entendo que isso dependerá da capacidade de organização e pressão das comunidades que compõem a igreja, no sentido de que seja inevitável uma mudança de postura, inclusive doutrinária. A Igreja, assim como outras estruturas, geralmente reagem a qualquer força que possa ameaçar o seu lugar e o seu poder nas sociedades. É possível que se chegue à conclusão de que é melhor ceder nesse ponto para manter o poder em outros e seguir refletindo e promovendo uma determinada forma de manter as coisas como estão, como já foi o caso em muitas situações do passado e do presente. Então se encontrará formas de justificar essas "mudanças doutrinárias" sem que se fira nenhum dos princípios orientadores da ética teológica católica romana, inclusive o da infalibilidade papal, e há teologia já escrita e produzida para isso há décadas. Acessá-la é uma questão de vontade e compromisso, ou simplesmente conveniência. Por outro lado, se acreditamos no poder do Espírito Santo, devemos sempre contar com a possibilidade de que seu sopro anime não apenas os doutores da lei, mas principalmente as comunidades e que elas, fortalecidas por esse Espírito promovam as verdadeiras mudanças necessárias na vida da igreja, ali onde ela acontece, no bairro, na vila, embaixo da árvore, ou até mesmo em igrejas e catedrais. Por isso oramos.

 

 

3. "Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne". Gênesis 2:24. Durante muito tempo nosso corpo material foi entendido como fonte de pecado, e, como tanto, negado com veemência. Atualmente, como é entendida e estudada esta relação entre sexualidade e espiritualidade?

 

Há muitas vertentes e tentar situá-las e definir suas origens e seus alcances é sempre um empreendimento inglório, especialmente num espaço reduzido como esse. Sem dúvida as tradições do passado nos ajudam e são fundamentais como parte da elaboração de quem somos e quem queremos ser hoje. Não há, no entanto, fundamento ético mais importante do que as nossas próprias relações, experiências e qual o sentido e valor que atribuiremos a elas hoje. Essa é a tarefa de cada nova geração, que tem a incumbência e a possibilidade de ler os sinais de seu tempo, corrigir erros do passado e apontar novos caminhos para quem vem depois. A ideia de pecaminosidade ligada à materialidade do corpo (fundamentalmente na sua dimensão erótica, afetiva e sexual) sem dúvida se deve à incorporação de algumas questões filosóficas gregas no pensamento cristão dos primeiros séculos. Haverá quem discuta isso, quem dirá que a culpa não é dos gregos, que essas questões podem ser biblicamente comprovadas, que as leituras feitas por alguns teólogos na história da igreja é que nos levou para esse caminho. A fragmentação do ser humano (em corpo e alma/razão, por exemplo) desempenha um papel importante na criação dessa dicotomia entre o que é bom (alma/razão) e ruim (corpo), sendo que o primeiro deve controlar o segundo para a possibilidade da virtude. As consequências são auto evidentes. Este tipo de argumentação continua viva e forte. Mas, além dessas, outras linhas de estudo e pesquisa tem desenvolvido propostas interessantes para romper com a dita dicotomia, olhar para as pessoas e suas relações de maneira mais integral, entendendo que sexualidade e espiritualidade estão intrinsecamente conectadas. A partir da Teoria e Teologia Queer (Indecente) por exemplo, argumenta-se que a sexualidade (entendida em sua forma mais ampla, no sentido daquilo que motiva e interliga as nossas relações) é um elemento fundante para entender as formas como construímos nossas relações, nossas formas de organização social e nossas instituições. Nesse sentido, relações amorosas e eróticas que promovem o encontro livre e incondicional expressam da maneira mais profunda a nossa espiritualidade e aquilo que podemos chamar de transcendência (que em seu sentido corrente é entendida como algo exterior ao ser humano e à vida em geral, mas que pode ser compreendido como a força vital que nos aproxima, nos entrelaça e faz com que, em nossas relações - com Deus, com as outras pessoas e com todo o cosmos - sejam boas), criando condições de vida sustentáveis, responsáveis e prazerosas para toda a criação.

 

 

Nota: Texto em português do Brasil.

Artigo integral original: aqui.

 

Magistério Católico: Algumas Respostas

Texto que retiramos do nosso site (http://rumosnovos.org):

Excluídos do Povo de Deus? (O Problema da Homosexualitatis Problema da Congregação para a Doutrina da Fé)

No primeiro documento da igreja dedicado ao tema das relações homossexuais «Homosexualitatis Problema», o «Problema da Homossexualidade», Bento XVI cita dois versículos do Levítico que parecem condenar os relacionamentos homossexuais, para depois saltar para a afirmação sem fundamento que, porque aqueles versículos descrevem tais ações como uma «abominação», as pessoas aí descritas se encontram «excluídas do Reino de Deus».

Se fossemos aceitar este raciocínio tal como ele nos é proposto, deveríamos ser igualmente capazes de o aplicar a outros comportamentos que são igualmente descritos como «abominações» e, desta forma, descobrir quem mais se encontra «excluído do Reino de Deus».

 

Estes versículos incluem na sua condenação aqueles bem conhecidos pecadores de má fama como os que comem marisco e carne de coelho; aqueles que se vestem com roupas de tecidos mistos e aqueles que se barbeiam. Para sermos consistentes, tomando por base o argumento atrás apresentado, somente nos restam duas opções: ou aceitamos que a maioria do clero também se encontra «excluída do povo de Deus», ou temos de aceitar que o raciocínio apresenta falhas. 

 

«Homosexualitatis Problema» conclui com dois maravilhosos versículos da Sagrada Escritura: «Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará» (Jo 8, 32) e «realizar a verdade na caridade (cfr. Ef 4, 15), ambos versículos profundos que subscrevemos. O que nos incomoda, é a falsidade, a desonestidade total, de um documento que pretende ser sobre a "verdade", mas em vez disso reforça alegações (pois isso é o que elas são: alegações, argumentos não fundamentados) com uma longa série de falsidades que saltam à vista.

 

Poderíamos aceitar, de boa-fé, um documento que nos submetesse exigências e as apoiasse num raciocínio claro. Infelizmente, este documento não o faz. Fornece-nos antes um excelente exemplo do estilo retórico típico da igreja: apresentar afirmações como sendo inquestionavelmente verdadeiras, sem necessidade de qualquer justificação e depois forçando-nos à submissão através da mera força da repetição. Aqui deixamos exemplos das afirmações feitas precisamente desta forma, sem demonstração, e que facilmente se podem demonstrar ser incorretas:

«Em Levítico 18, 22 e 20, 13, quando se indica as condições necessárias para se
pertencer ao povo eleito, o Autor exclui do povo de Deus os que têm um comportamento
homossexual.»

Estes versículos do Levítico são bem conhecidos e é indesculpável que são tão grosseiramente deturpados. Eles não condenam aqueles «que se comportam de modo homossexual», mas um conjunto mais estrito de comportamentos: homens que se deitam com homens «como o fazem com as mulheres». Não condena as relações entre as mulheres, nem condena outro tipo de «comportamento homossexual», como por exemplo, carícias, ou cuidar da casa, ou cozinhar, ou amor e apoio mútuos, ou a dança, ou … Mas e o que é comportamento «de modo homossexual»?

«Não pode haver dúvidas quanto ao julgamento moral aí expresso (em Génesis 19,
na história de Sodoma) contra as relações homossexuais.»

Repare-se que isto não é somente uma pretensão de que a história é uma condenação das «relações homossexuais». É muito mais forte e diz que «não pode haver dúvida». Na realidade, o oposto é verdadeiro: há, na verdade, muitas dúvidas. Não há somente «dúvida», mas mesmo negação absoluta. Muitos estudiosos bíblicos reputados realçam atualmente que não existe qualquer condenação da homossexualidade em parte alguma do Génesis 19. A história, tal como é contada no Génesis, não identifica o infame «pecado de Sodoma», mas este é identificado noutro lugar e não é a «homossexualidade».

 

O documento continua a defender que «existe uma evidente coerência no interior das mesmas Escrituras no que diz respeito ao comportamento homossexual.» Isto é um disparate. Ao longo de mais de 30000 versículos das Escrituras, somente meia-dúzia parecem criticar alguns comportamentos homossexuais e mesmo estes versículos estão envoltos em controvérsia. (Mais de 300 versículos contêm admonições contra o comportamento heterossexual).

«O ensinamento da Igreja de hoje encontra-se, portanto, em continuidade orgânica
com a visão contida na Sagrada Escritura e com a constante tradição.»

O Vaticano gosta de repetir esta frase sobre a «constante tradição» (ou tradição «imutável») no que se refere às «relações homossexuais». Na realidade, não existe «constante» tradição, quando olhamos a longo prazo sobre a História. Há sim «continuidade orgânica», que tem mudado substancialmente ao longo dos dois milénios de história, tal como o ensinamento tem mudado em muitas outras coisas: escravatura, usura, sujeição das mulheres à vontade dos maridos; natureza sacramental do casamento e necessidade da sua solenização na igreja (outrora somente requerida para padres), celibato obrigatório dos padres, …

 

Sobre a homossexualidade, historiadores como James Boswell, Mark Jordan e Alan Bray mostraram o quanto o ensinamento evoluiu e mudou ao longo dos séculos.

A perspetiva da igreja «encontra apoio também nos resultados seguros das ciências
humanas».

Não é assim. As ciências humanas, tal como as ciências naturais e sociais, mostram claramente a visão oposta. Os zoólogos mostraram que o comportamento homossexual ocorre por todo o reino animal. Os Psicólogos encontraram diferenças entre os cérebros das pessoas hétero e homossexuais. As associações profissionais dos médicos e psiquiatras estão de acordo em como a homossexualidade não é uma patologia ou qualquer variante “anormal”. A antropologia e a história social mostram o mesmo… Nenhuma destas ciências naturais apoia a perspetiva da igreja, como o documento pretende fazer crer. Notemos, contudo, o estilo retórico difuso: não pretende reclamar que todos os ramos da ciência o apoiam, somente que os «resultados seguros das ciências humanas» o fazem. Por outras palavras, as descobertas que efetivamente apoiam o ensinamento da igreja são «seguras», as que não o fazem podem simplesmente ser ignoradas como inseguras, independentemente de quais sejam os pontos de vista da comunidade científica, como um todo.

A «atividade homossexual impede a autorrealização e a felicidade porque contrária
à sabedoria criadora de Deus.»

Esta afirmação ultrajante é daquelas em que a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) gostaria, sem margem para dúvida, de acreditar, mas que não possui qualquer base para a sua aceitação, nem sequer é fornecida qualquer justificação. Por outro lado, existem duas razões óbvias para a sua rejeição, pelo menos quando aplicada a pessoas com uma orientação homossexual natural. Primeiro, se estas é a forma pela qual fomos feitos pelo Criador, como é que a sua expressão pode ser «contrária à sabedoria criadora de Deus»? Deus não comete erros. Acreditará verdadeiramente a CDF que somos chamados a reparar de alguma forma os erros de Deus? A verdade aqui presente, como frequentemente acontece neste documento, é precisamente a oposta à que é apresentada. As lições da psicoterapia são claras: aquilo que é perigoso para a saúde mental e evita a realização e a felicidade humanas é a negação da identidade e verdade individuais, incluindo a identidade sexual.

Estas são as falsidades mais óbvias e claras presentas na firmação. Existem outras que são menos relevantes, mas igualmente enganadoras.

São Paulo, em 1 Coríntios 6, 9 «repropõe a mesma doutrina, elencando também
entre aqueles que não entrarão no reino de Deus os que agem como homossexuais».

Este texto não lista aqueles «que se comportam de modo homossexual». Lista antes os «malakoi» e os «arsenekotoi». Sabes o que isso significa? Não? Nem o sabe igualmente ninguém. A tradução exata destes termos sempre tem intrigado os estudiosos da Bíblia, porque o seu significado é pouco claro, mas pode estar ligado à idolatria, ou à prática algumas vezes descrita (de forma pouco precisa) como «prostituição do templo». Certamente que não se refere a pessoas que se comportam de «modo homossexual», o que quer que isso signifique.

1 Timóteo 10 menciona «explicitamente como pecadores aqueles que praticam atos
homossexuais».

Novamente, isso não é verdade. Menciona «explicitamente» os «malakoi».

 

Existem inúmeros outros truques de retórica utilizados pelo Cardeal Ratzinger neste documento, onde a partir da escolha da linguagem e de falsos contrastes ele começa, por exemplo, por contrastar os «atos homossexuais» com as «relações conjugais». Quando, em abono da verdade, deveria comparar «atos conjugais», com todas as suas associações com um casamento de amor. Claro está que não o faz. Ele ignora totalmente todas as considerações a tais relacionamentos de amor entre pessoas do mesmo sexo, escrevendo somente sobre atos e comportamento «homossexuais» (historicamente, um termo clínico); sobre a «condição homossexual» e sobre a «desordem».

 

O próprio título do documento é enganador. Designa-se «Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o Atendimento Pastoral das Pessoas Homossexuais», mas o título formal do documento é «Homosexualitatis Problema», apresentando simplesmente a homossexualidade como um problema. O que não é verdade. O único problema aqui presente é a total incapacidade do Vaticano em compreender, ou mesmo tentar compreender, o «problema».

 

Mesmo a escolha dos versículos das Escrituras diz-nos: «Conhecereis a verdade», conclui o documento. Porém, e quanto ao escutar? Para uma igreja que se proclama ser uma «igreja que escuta», disso não há uma réstia de prova neste documento, que os autores tenham feito qualquer tentativa de escutar as pessoas que sabem mais sobre este assunto: aqueles que aprenderam a partir da sua própria experiência pessoal o que é ter uma orientação homoerótica.

 

O verdadeiro motivo que se esconde atrás da carta, que nos deve preocupar a todos, nada tem a ver com o «cuidado pastoral», nem com «falar a verdade». Em vez disso, como o próprio texto da carta deixa bem claro, o verdadeiro objetivo é simplesmente o controle. Este é refletido na negação consistente do documento em relação à validade de quaisquer conclusões que divirjam das suas: se a ciência não corrobora, então não é «segura»; se a exegeses das Escrituras está em conflito com o Magistério, então os estudiosos da Bíblia estão errados. Parece que nada deve ser aceite, a menos que esteja de acordo com a visão do autor acerca da «verdade» da igreja. Divergência, debate, discussão são simplesmente descartados. (Lembremo-nos que na origem da CDF esteve a infame Inquisição, que mandou executar milhares de alegados homossexuais, normalmente na fogueira, entre os séculos após a Alta Idade Média e o início da Reforma. Ao contrário de outras atrocidades na história da igreja, esta é uma em relação à qual ainda não houve um pedido oficial de desculpas).

 

As mentiras, meias-verdades e destreza retórica desagradável que a CDF utilizou numa tentativa de estigmatizar e condenar as relações amorosas estáveis entre pessoas do mesmo sexo, sob o pretexto do cuidado pastoral e de falar a verdade, mais não podem ser encarados do que um ato hostil contra uma pequena minoria.