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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Eles são católicos e católicas e homossexuais!

Como assumir ao mesmo tempo a sua orientação sexual e a sua crença em Deus? Como é que a Igreja acolhe e acompanha estas pessoas que, diariamente, ou através da sua caminhada de vida, descobrem uma atracção, um amor por uma pessoa do mesmo sexo? Mesmo que o assunto permaneça tabu, nascem iniciativas, desenham-se aberturas…

 

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Xavier e Bento, um casal e uma comunidade de Vida Cristã (espiritualidade inaciana)

«Como casal desde há sete anos, permanecemos profundamente ligados à Igreja. Estamos ativos no seio da CVX[1], ou na nossa paróquia. De facto, respeitamos infinitamente a posição da Igreja sobre este assunto, até quase que a compreendemos, se considerarmos que ela não pode ter outro discurso. Vivemos simplesmente, acolhemos aquilo que a vida nos «reservou» sem que o tivéssemos escolhido, a não ser a escolha de assumir, como a parábola dos talentos: a nós de fazer frutificar o que nós somos, de dar amor onde estamos e de testemunhar essa fé que nos foi passada. Essa fé, tentamos transmiti-la aos três filhos de Xavier, quando eles estão em casa, de férias, tentamos partilhá-la o mais simplesmente na CVX, o mais profundamente possível, sem provocações e sem chocar… essa fé, exprimimo-la aquando da cerimónia do nosso Compromisso: nesse dia, em 2010, fizemos a escolha de exprimir o nosso amor mútuo, que voltamos resolutamente para todos aqueles que partilham o nosso caminho (crianças, famílias, amigos, etc.). Esta cerimónia, que criámos em torno daqueles que nos são mais próximos, não a quisemos como uma simulação de casamento, isso não faria qualquer sentido e, fiéis à Igreja, não desejamos colocarmo-nos contra Ela. Confiámos, simplesmente, o nosso projecto, o nosso futuro, a Deus, confiando-lhes as orações dos nossos entes queridos» Xavier e Bento.

 

"Fiel à minha fé, apesar da minha consternação"

«Sim, sou homossexual e católico. E praticante em ambos os casos… porque não teríamos o direito, também nós, de amar e ser amados em plenitude de sentimentos? Não pedimos compaixão mas a assunção de uma realidade biológica. Um dia, em confissão, um padre recusou-me a absolvição devido ao único de lhe ter confessado que era homossexual… Que humilhação para mim! Se acrescentarmos a isso o facto de a minha situação nunca ter sido verdadeiramente aceite pela minha família, o facto de levar uma vida pública bastante intensa e o facto de habitar na província, facilmente se compreenderá que nem sempre é fácil ser homossexual em 2011. Os costumes evoluem, mas não as mentalidades, pelo menos ao mesmo ritmo. Apesar dos períodos de turbulência e de dúvida, permaneci fiel à minha fé e encontro-me igualmente envolvido na minha paróquia. Eu acomodo-me, mas luto pela minha condição, pensando que o amor de Deus é mais forte que a maldade dos homens.» Oliveira.

 

 

"É preciso intervir junto dos pais e dos alunos "

«A 4 de Agosto de 1990, o nosso quarto filho, João Batista, morreu aos 26 anos, no nosso apartamento, devido a uma doença, diagnosticada em 1981 nos Estados Unidos e tida então como o «cancro gay»: a SIDA. Três anos antes, em vez do Serviço militar, ele era professor na Universidade de S. José, em Beirute, em plena guerra civil. Não foi uma bala perdida que o atingiu, mas o VIH. Ele dizia que tanto se sentia atraído por raparigas como por rapazes… A doença de João Batista deu-me a conhecer que as pessoas homossexuais têm comportamentos tão variados como aqueles que se dizem heterossexuais, ainda que nós, concidadãos, não vejamos frequentemente senão a ponta do iceberg. Por exemplo a entreajuda e a fidelidade ao longo dos anos, podem ser vividas entre dois homens de forma tão intensa, senão mais intensa, que entre casais heterossexuais. Isto não deveria continuar a ser ignorado pela minha Igreja Católica, reservando a palavra «matrimónio» para os casais formados por um homem e uma mulher. Realço um documento notável do ensino católico (Maio de 2010) sobre a «educação afectiva relacional e sexual nos estabelecimentos católicos de ensino». «Um número significativo de homens e mulheres têm tendências homossexuais profundas. Eles não escolhem a sua condição homossexual. A educação aborda, pois, aqui, uma questão extremamente sensível. Formas diversas de homofobia podem ferir gravemente as pessoas… O educador deve, portanto, velar particularmente na articulação entre o que pode dizer sobre a diferença sexual no respeito incondicional pelas pessoas». Para fazer isso seria desejável que existissem mais pessoas que se formem, de modo a intervirem junto dos pais e dos alunos. Um pai de família.

 

"Os Bispos devem ter a questão em consideração "

«Escutei o apelo de Deus aos 12 anos, numa idade em que descobri igualmente qual era a minha sexualidade. Nunca a vivi de forma errada, pois fui criado num meio muito ecuménico. Vi que a reflexão antropológica levada a cabo pelas outras Igrejas permitia ver o problema de outro modo. À minha volta, no entanto, depressa me apercebi dos danos que o silêncio fazia junto de muitos padres, seminaristas, que se torturam sobre esta questão. Os bispos devem ter a questão em consideração para os membros interessados do clero e propor-lhes um lugar de partilha. Depois, é necessário familiarizar as comunidades com esta questão e permitir aos que o desejem de se encontrarem para melhor viverem a sua presença em comunidade. Membro de uma grande ordem religiosa durante vários anos, decidi abandoná-la quando me apaixonei, tendo explicado a razão da minha partida. Uma verdadeira renuncia, pois era um religioso feliz. Este «sair do armário» institucional deu origem a uma verdadeira tempestade na minha ordem. Há um medo terrível da verdade. Sugeriram-me, antes, que ficasse, mas que me calasse, preocupando-se sobretudo com o que as pessoas iriam pensar. Acontece que os fiéis apoiaram-me e compreenderam-me. Por outro lado, nunca coloquei em causa a minha vocação sacerdotal; a minha orientação sexual não me impede de viver e servir. Actualmente, encontrei um ministério pois fui acolhido numa paróquia. O bispo conhece a minha história. Tenho um amigo que escolhi e perante o qual estou comprometido, mas renunciei a uma vida sexualmente activa no casal. É um caminho que enche e completa a minha vida. Nunca me senti tão equilibrado.» Francisco, 42 anos, pároco.

 

"Para uma abordagem de aceitação da minha encarnação"

«Desde os meus doze anos que penso que sou mau. Aos vinte anos mandei a religião passear. Deus não poderia querer nada comigo, pois eu era homossexual. Alguns anos mais tarde fui agarrado pela sua mensagem de amor. Ele amava-me como eu era. Então, preparei-me para uma vocação religiosa, que era muito forte, sem voltar a colocar-me a questão da minha homossexualidade. Encontrava-me, provavelmente, numa forma de rejeição. Depois tive uma relação com um seminarista e tomei consciência que, de facto, o problema ultrapassava-me largamente. Com todas estas questões, cheguei a um retiro de escolha de vida. Aí, Deus colocou-me, de forma esmagadora, frente às minhas contradições. Foi na experiência espiritual que compreendi que deveria ter plenamente em consideração quem eu era… não tinha avançada nada durante todos estes anos! Hoje, coloquei de parte o meu projecto religioso – que, por um lado me permitia regular o meu problema – para encetar o que considero ser uma abordagem razoável para aceitar a minha encarnação. A Igreja deve retirar a homossexualidade da marginalização. Se continua a caricaturá-la como uma vida de perdição, ela empurra-nos para o silêncio e a uma vida instintiva oculta que não queremos!»  Luís, 28 anos.

 

"Uma bomba na nossa família"

«Quando o nosso filho nos anuncia que é homossexual, é uma bomba que cai na nossa família! Pensamos que estamos abertos a muitas situações, descobrimos que, precisamente, essa não pode ser verdadeiramente abordada com os restantes membros da família pois é tabu. Os outros filhos não percebem o nosso bloqueio e sentimo-nos tão infelizes que nem encontramos a coragem, nem as palavras para falar com o cônjuge (a nós foram precisos seis meses para verdadeiramente discutir e constatar que nada podíamos fazer em relação à nossa filha de 23 anos). Quando falo com ela, ela diz-me que nunca foi tão feliz na vida, mesmo que tenha ficado apaixonada sem nunca ter antes nenhuma tendência. Se eu lhe digo que ela talvez não seja homossexual e que ele deveria procurar viver outras situações, ela responde que é assim mesmo e que eu deveria discutir o assunto com os meus amigos, a minha família. Sou incapaz de falar com quem quer que seja, pois não sinto nenhum orgulho na nossa situação familiar, no momento em que todos os nossos amigos estão casados e com filhos!»  MB.

 

"Finalmente associei o meu espírito ao meu corpo"

«Sou cristã, homossexual e feliz: a minha orientação amorosa é diferente, mas não inferior. Portanto, interiorizei desde muito nova que «os homossexuais não fazem parte do plano de Deus». Para fazer parte do plano de Deus, realizei uma clivagem mental: amava Deus, os outros, era uma católica apaixonada pelo Evangelho, era uma enfermeira apaixonada pelos doentes e a tratá-los mas não era uma mulher. Casei-me com um cristão muito meigo. Mas na aliança perfeita homem-mulher-Deus, vivi uma espécie de desolação. Foi um casamento de morte, uma relação contra a minha natureza, que me deixou gravemente doente. Prefiro morrer de amor na eternidade, pois era incapaz de amar, dizia. De facto, era o meu amor que não estava no sítio certo. Encontrei uma mulher. Foi essa a minha verdade. Deste modo, a descoberta e a aceitação da minha homossexualidade foram espectaculares. Associei, enfim, a minha fé, a minha sexualidade, o meu espírito e o meu corpo. É a separação que nos torna doentes. Perante Deus, o meu primeiro amor, pude juntar as peças espartilhadas, tornar-me naquela que sou, desculpabilizada, acalmada e abençoada. Cada baptizado é chamado ao amor e à dádiva.» Sofia.

 

Ser católico e transgénero

«Embora a Igreja comece timidamente a ter em consideração a homossexualidade, parece ignorar completamente ou mesmo rejeitar as pessoas transgéneras ou transexuais. Foi desta forma que não tendo encontrado, até há quatro anos, nenhum lugar na Igreja para me acolher com a minha especificidade, caminhei durante mais de 15 anos com um grupo de homossexuais cristãos: «Devenir Un En Christ (DUEC)», que me ajudou, mas não respondia plenamente à minha «diferença». Descobri a Comunidade Betânia. O único lugar da Igreja, que eu saiba, que se preocupa com o CCI (Cruzamento dos Cristãos Inclusivos) das pessoas transidentitárias que, de momento, me acompanha no plano espiritual e me ajuda a conciliar Fé e Transidentidade. Isabel.

 

Pais de homossexuais

«É indispensável e urgente dar liberdade de expressão aos pais de homossexuais que se encontram frequentemente em grande sofrimento e aos jovens que não sabem para quem se voltar quando se apercebem que são homossexuais.

De facto a Igreja (de facto a Igreja é o quê?) trata o tema de forma expedita, como já o fez em relação à contracepção, mesmo quando tem o cuidado de não condenar as pessoas.

O Magistério denuncia frequentemente este estado (pois não é uma escolha, é um estado de facto) como uma desordem (no melhor), uma perversão (no pior) e somente tem como proposta «a vida na castidade».

O grupo de pais da Rumos Novos no qual participamos, reúne pais preocupados com este problema e jovens, frequentemente em casal, elaborou um folheto informativo sobre o tema «A Orientação sexual e a vida cristã» e deseja que sejam formados outros grupos e que estes proponham às autoridades eclesiásticas uma palavra apaziguadora e construtiva. Cláudia e Jacinto.

 

[1] Comunidade de Vida Cristã. A CVX é uma comunidade mundial de leigos, com Estatutos aprovados pela Igreja, e uma Espiritualidade própria: a Espiritualidade Inaciana; isto é, a sua fonte de inspiração característica, para além das Sagradas Escrituras e do Sentido de Igreja, são os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola. As linhas orientadoras da CVX estão consignadas nos Princípios Gerais, que ajudam a unir a Fé e a Vida numa opção apostólica.

 

Tradução/ Adaptação: José Leote

Artigo original: Elisabeth Marshall e Joséphine Bataille 

A Nossa Alegria Mútua

Os opositores do casamento entre pessoas do mesmo sexo, citam frequentemente as Escrituras. Mas o que a Bíblia ensina sobre o amor argumenta a favor do outro lado.

 

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Vamos tentar, por um minuto, escutar a palavra dos conservadores e definir o casamento como a Bíblia o faz. Devemos começar por Abraão, o grande patriarca, que dormiu com a sua serva após descobrir que a sua amada esposa Sara era infértil? Ou por Jacob, que foi pai de crianças de quatro mulheres diferentes (duas irmãs e as suas servas)? Abraão, Jacob, David, Salomão e os reis de Judá e Israel – todos estes pais e heróis eram polígamos. O modelo do Novo Testamento sobre o casamento é ainda melhor. O próprio Jesus era solteiro e pregava uma indiferença para com as coisas terrenas – particularmente a família. O apóstolo Paulo (também ele solteiro) encarava o casamento como um ato de último recurso para aqueles que não conseguiam conter a sua própria luxúria animal. «É melhor casar do que arder em paixão», diz o apóstolo num dos mais indiferentes pronunciamentos jamais feito sobre uma instituição acarinhada. Será que algum casal heterossexual contemporâneo – que provavelmente acordou no seu dia de núpcias acolhendo algumas ideias otimistas e sem preconceitos acerca de igualdade de género e do amor romântico – se voltaria para a Bíblia como um livro de como fazer?

 

Claro que não, mas, contudo, os opositores Religiosos do casamento entre pessoas do mesmo sexo, afirmam que sim.

 

A batalha sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo tem sido empreendida por mais de uma década, mas nos últimos seis meses – desde que a Califórnia legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo e posteriormente, com um referendo em novembro, alterou a sua Constituição de modo a proibi-lo – o debate passou a uma guerra total, com a retórica religiosa a subir de tom a condizer. Desde 1860, quando os púlpitos do país estavam cheios de oradores que se pronunciavam a favor e contra a escravatura, que uma das nossas instituições sociais (e económicas) básicas não tinha estado sob tanto escrutínio. Contudo se na Guerra Civil os tradicionalistas tinham o seu James Henley Thornwell – e os partidários da mudança, o seu Henry Ward Beecher – desta vez os lados estão desequilibrados. Todas a retórica religiosa, parece estar ao lado dos opositores do casamento entre pessoas do mesmo sexo, que utilizam a Escritura como fundamento para as suas objecções.

 

O argumento assemelha-se a esta declaração, que o Rev. Richard A. Hunter, um ministro Universal Metodista, deu ao Atlanta Journal-Constitution, em junho [de 2008]: «A Bíblia e Jesus definem o casamento como sendo entre um homem e uma mulher. A igreja não pode condenar ou abençoar os casamentos entre pessoas do mesmo sexo, porque isto encontra-se em oposição às Escrituras e à nossa tradição».

 

A isto há duas respostas óbvias: Primeiro, apesar da Bíblia e Jesus dizerem muitas coisas importantes acerca do amor e da família, nenhuma define de forma explícita o casamento como sendo entre um homem e uma mulher. Segundo, como o exemplo em cima ilustra, nenhuma pessoa sensível e moderna quer que o casamento – o seu ou o de qualquer outra pessoa – se pareça, na sua forma particular, com algo como o que é descrito na Bíblia. «Casamento» na América refere-se a duas coisas distintas: uma instituição religiosa e outra de natureza civil[1], embora seja maioritariamente entendido como uma confusão entre ambas. Enquanto instituição civil, o casamento oferece benefícios práticos a ambos os parceiros: direitos contratuais que dizem respeito a impostos, seguros, cuidado e custódia de crianças, direitos de visita e herança. Enquanto instituição religiosa, o casamento oferece algo mais: um compromisso de ambos os parceiros perante Deus de se amarem, honrarem e cuidarem – na doença e na saúde, na riqueza e na pobreza – de acordo com a vontade de Deus. Num casamento religioso, duas pessoas prometem cuidar uma da outra, de forma profunda, do mesmo modo em que acreditam que Deus cuida deles. Os literalistas da Bíblia estarão em desacordo, mas a Bíblia é um documento vivo, poderoso por mais do que 2000 anos porque a sua verdade interpela-nos à medida que mudamos através da história. Nessa perspetiva, as Escrituras não nos apresentam nenhuma razão palpável porque os homossexuais não se possam (civil e religiosamente) casar, mas apresentam-nos um número de excelentes razões porque o podem fazer.

 

 No Antigo Testamento, o conceito de família é fundamental, mas os exemplos daquilo que os conservadores sociais chamariam de «família tradicional» são raramente encontrados. O casamento era crítico para o passar da tradição e da história, bem como na manutenção do frágil e precioso monoteísmo dos Judeus. Contudo, de acordo com o estudioso bíblico Alan Segal, o arranjo era entre «um homem e tantas as mulheres quantas este conseguisse pagar». Os conservadores sociais apontam para Adão e Eva como a prova do seu argumento de um homem e uma mulher, particularmente este versículo do Génesis: «Por isso, o homem deixará pai e mãe, para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne». Contudo, como afirma Segal, se acreditarmos que a Bíblia foi escrita por homens e não outorgada por Deus, então este versículo foi escrito por pessoas para as quais a poligamia era o caminho do mundo. (O facto de os casais homossexuais não poderem procriar também tem sido suscitado como objeção bíblica, pois não é verdade que Deus disse: «Crescei e multiplicai-vos»? Porém, os autores bíblicos nunca poderiam imaginar o verdadeiro novo mundo da adoção internacional e presenciar a tecnologia reprodutiva, bem como os heterossexuais inférteis ou para além da idade reprodutiva e que se casam diariamente).

 

Ozzie e Harriet[2] também não se encontram no Novo Testamento. O Jesus bíblico era – apesar dos esforços recentes dos novelistas para o retratarem de outro modo – enfaticamente não-casado. Ele pregava um tipo de família radical: uma comunidade preocupada de fiéis, cuja ligação a Deus suplantava todos os laços de sangue. Deixai as vossas famílias e segui-Me, diz Jesus nos Evangelhos. Não haverá casamento no céu, diz Ele em Mateus. Jesus nunca se refere à homossexualidade, mas condena redundantemente o divórcio (deixando um buraco, nalguns casos, no que se refere aos maridos das mulheres infiéis).

 

O apóstolo Paulo deu eco à falta de interesse de Jesus, nos assuntos da carne. Para ele, o celibato era o ideal cristão por excelência, mas a estabilidade familiar era a melhor alternativa. Casai se tiverdes de o fazer, disse ele a quem o escutava, mas não vos divorcieis. «Todavia, mando aos casados – não eu, mas o Senhor – que a mulher se não separe do marido». Continua sem mencionar que a frase «casamento homossexual» não aparece de todo na Bíblia.

 

Se a Bíblia não nos fornece exemplos abundantes do casamento tradicional, então a que se opõem verdadeiramente os detratores do casamento homossexual? Bem, claro está que à homossexualidade em si mesma – particularmente ao sexo entre homens. O sexo entre mulheres nunca levantou tanta ira, mesmo nos tempos bíblicos. Na sua entrada sobre «Práticas Homossexuais», o «Anchor Bible Dictionary» faz notar que em nenhum lugar da Bíblia é referido o sexo entre as mulheres, «possivelmente porque isso não representava uma «união» verdadeiramente física. A Bíblia condena o sexo entre homens num punhado de passagens. Duas vezes o Levítico refere-se ao sexo entre os homens como uma «abominação» (versão King James), mas isto são linhas soltas num texto específico que define códigos para a vivência no mundo judeu antigo, um texto devotado, versículo após versículo, ao tratamento da lepra, rituais de limpeza para as mulheres menstruadas e a forma correta de sacrificar um bode – ou um carneiro ou uma rola. A maioria de nós já não prestam atenção ao Levítico para cortar o cabelo ou sacrifícios de sangue; a nossa compreensão moderna do mundo ultrapassou estas prescrições. Por que razão haveríamos de olhar para a condenação da homossexualidade com maior serenidade do que o fazemos em relação ao conselho dado sobre o melhor preço a pagar por um escravo?

 

Paulo foi duro para com a homossexualidade, embora recentemente alguns escolásticos mais progressistas tenham argumentado que a sua condenação de homens que «estavam inflamados de luxúria uns pelos outros» (que ele chama de uma «perversão») é realmente uma crítica à maldade da pior espécie: ilusão, violência, promiscuidade e deboche. No seu livro «A Arrogância das Nações», Neil Elliott argumenta que Paulo se refere, nesta passagem famosa, à depravação dos imperadores romanos, os hábitos cobardes de Nero e Calígula, através de uma referência que quem o ouvia captaria de imediato. «Paulo não fala sobre aquilo a que chamamos homossexualidade», afirma Elliott. «Fala sobre um determinado grupo de pessoas que fizeram tudo o que queriam. Não estamos aqui a lidar com nada de parecido com o amor homossexual ou o casamento homossexual. Estamos, outrossim, a falar sobre pessoas verdadeiramente violentas que chegaram ao final dos seus dias e foram julgadas por Deus». Na minha opinião, poderíamos acrescentar, que Paulo se debateu de forma mais veemente contra o divórcio – e, pelos menos, metade dos cristãos na América passaram por cima desse ensinamento.

 

As objeções religiosas ao casamento homossexual não têm as suas raízes na Bíblia, mas no costume e na tradição (e num desconforto pessoal com o sexo homossexual que transcende o argumento teológico). Os rituais e as orações comuns refletem a nossa prática comum: o Livro Episcopal da Oração Comum descreve os participantes num casamento como «um homem e uma mulher». Mas a prática quotidiana muda – e para melhor, como afirmou o Rev. Martin Luther King, Jr, «O arco da história é amplo, mas dobra-se no sentido da justiça». A Bíblia sustenta a escravatura, uma prática que os americanos consideram agora universalmente vergonhosa e bárbara. Recomenda a pena de morte para os adúlteros (e no Levítico, para os homens que tenham sexo com homens, se isso interessar). Fornece abrigo para os antissemitas. Uma visão madura da autoridade escritural exige-nos, como já fizemos no passado, que nos movamos para além do texto literal. A Bíblia foi escrita para um mundo muito diferente do nosso. É impossível aplicar as suas regras, tal e qual, ao nosso mundo.

 

Principalmente, o casamento evolui de forma a ser irreconhecível às mulheres de Abraão e Jacob. A monogamia tornou-se a norma no mundo cristão do século VI. Os divertimentos frequentes dos maridos com amantes e prostitutas tornou-se tabu no começo do século XX. Em meados do século XIX, punham de lado as esposas que eram vítimas de violência doméstica e nos anos 70 a maioria dos estados americanos viram-se livres das suas leis «senhor e cabeça de casal», que davam aos maridos o direito de decidirem onde uma família iria viver e se a mulher poderia aceitar um emprego. A visão atual do casamento como uma união de partes iguais, juntos numa relação simultaneamente romântica e pragmática é, através de padrões recentes, radical, afirma Stephanie Coontz, autora de «Casamento, uma História».

 

As cerimónias religiosas sobre o casamento já mudaram de forma a refletirem as novas conceções do casamento. Lembrem-se de quando dizíamos «homem e esposa» em vez de «marido e esposa»? Lembrem-se de quando deixamos de utilizar a palavra «obedecer»? Mesmo Miss Manners, a voz da tradição e da razão, aprovou essa alteração, em 1997. «Parece» escreveu ela, «que deixar cair o «obedecer» foi uma alteração sensível de um serviço que fazia assunções sobre o casamento que a sociedade já não possui».

 

Não podemos olhar para a Bíblia como um manual de casamento, mas podemos lê-la em busca de verdades universais à medida que lutamos por um futuro mais justo. A Bíblia dá-nos inspiração e avisos em temas como o amor, casamento, família e comunidade. Fala, de forma eloquente, sobre o papel fundamental das famílias, numa sociedade justa e dos riscos que correríamos e também os nossos filhos se nos deixássemos de juntar em pares amorosos. Os homossexuais gostam de apontar a história de amor do rei David e do seu amigo Jónatas, com o qual ele era «um só espírito» e ao qual ele «amava como a si próprio». Os conservadores afirmam que estamos em presença de uma história de amizade platónica, mas é também uma história sobre dois homens que lutaram um pelo outro em tempos difíceis, numa guerra violenta e na desaprovação de um parente poderoso. David rasga as suas roupas na morte de Jónatas e, em desgosto, escreve uma canção:

“Choro por ti, Jónatas, meu irmão.

Eras o meu melhor amigo

e para mim a tua amizade era mais maravilhosa

que o amor de uma mulher.”

 

Aqui, a Bíblia louva o “amor” duradouro entre homens. Aquilo que Jónatas e David faziam ou não na sua intimidade é talvez melhor deixado à história e à nossa própria imaginação.

 

Para além do seu louvar da amizade e da sua condenação do divórcio, a Bíblia dá-nos muitos exemplos de casamentos que desafiam as convenções, mas que beneficiam a comunidade no seu todo. A Torah desencorajou os antigos Hebreus a se casarem fora da tribo, contudo o próprio Moisés casou com uma estrangeira, Séfora. A rainha Ester é casada com um não-judeu e, de acordo com a lenda, salva o povo Judeu. O Rabi Arthur Waskow, do Centro Shalom, em Filadélfia, acredita que o Judaísmo se desenvolve através da diversidade e da inclusão. «Não creio que o judaísmo deve ou queira deixar qualquer parte da população humana, fora do processo religioso», afirma. «Não devemos querer deixar [os homossexuais] fora da tenda sagrada». O casamento de José e Maria é ele próprio pouco ortodoxo (para sermos suaves na linguagem), um caso de um arranjo não convencional aceite pela sociedade para um bem comum. Afinal de contas, o menino necessitava de dois pais humanos.

 

Na história cristã, a mensagem de aceitação para todos encontra-se codificada. Jesus alcança a todos, particularmente aqueles que estão à margem e transporta toda a comunidade cristã para o seu abraço. O Rev. James Martin, um Jesuíta e autor, cita a história de Jesus revelando-se à mulher junto ao poço – sem se importar que ela tenha tido cinco maridos anteriormente e um atual namorado – como prova do amor incondicional de Jesus por todos. O grande estudioso da Bíblia Walter Brueggemann, professor emérito do Seminário de Teologia de Columbia, cita o apóstolo Paulo quando procura apoio bíblico para o casamento homossexual: «Não há judeu nem grego; não há servo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo». O argumento religioso a favor dos casamentos homossexuais, acrescenta «não se encontra com referências específicas a determinados textos, mas com a convicção generalizada que a Bíblia se inclina em direção à inclusão».

 

A prática da inclusão, mesmo em desafio às convenções sociais, o alcançar dos marginalizados, a ênfase à solidariedade e à comunhão em vez e contra o caos, a depravação, a indiferença – todos estes valores bíblicos argumentam a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Se somos a favor da igualdade racial e da natureza comum da humanidade, então os valores da estabilidade, monogamia e família seguem-se-lhes com naturalidade. Terry Davis é o pastor da Primeira Igreja Presbiteriana, em Hartford, (Connecticut, EUA) e tem presidido, desde 1992, a «uniões abençoadas». «Sou contra a promiscuidade – o amor deve ser manifestado em relações comprometidas, não através de sexo casual, e penso que a igreja deveria reconhecer a validade de relacionamentos comprometidos entre pessoas do mesmo sexo», afirma.

 

Mesmo assim, poucas denominações judias ou cristãs apoiam o casamento homossexual, mesmo nos estados onde este é legal. A prática varia por região, por igreja ou sinagoga, mesmo por clérigo. As denominações mais progressistas – a Igreja Unida de Cristo, por exemplo – concordaram em apoiar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Outras denominações e dioceses realizam cerimónias de «união abençoada» ou de «bênção», mas demarcam-se da palavra «casamento», por esta ser politicamente explosiva. Portanto a questão frustrante e semântica mantém-se: devem os homossexuais casar-se no mesmo sentido sacramental que o fazem os heterossexuais? Eu argumentaria que sim. Se somos todos filhos de Deus, feitos à sua imagem e semelhança, então negar o acesso a qualquer sacramento tendo por base a sexualidade é exatamente o mesmo que o negar tendo por base a cor da pele – e ninguém no seu perfeito juízo concordaria com isso. As pessoas casam-se «para alegria mútua», explica o Rev. Chloe Breyer, diretor executivo do Centro Interconfessional, em Nova Iorque, citando a cerimónia de casamento Episcopal. É o que as pessoas religiosas fazem: cuidam uma da outra apesar das dificuldades, acrescenta. No casamento, os casais crescem mais perto de Deus. «Estando um com o outro em comunidade é o modo de amar a Deus. É sobre isso que é o casamento».

 

Mais básica que a teologia é a necessidade humana. Queremos, como o fez Abraão, chegar a velhos rodeados por família e amigos e sermos sepultados, no final, pacificamente entre eles. Queremos, como ensinou Jesus, amarmo-nos uns aos outros para nosso próprio bem – e, sem sermos pretensiosos, para o bem do mundo. Queremos que as nossas crianças cresçam em lares estáveis. O que acontece no quarto, na verdade, não tem nada que ver com tudo isto. O meu amigo, o padre James Martin diz que a sua leitura favorita das Escrituras referente à questão da homossexualidade é o Salmo 139, um cântico que louva a beleza e a imperfeição que há em todos nós e que glorifica o conhecimento de Deus do nosso íntimo mais secreto: «Vós é que plasmastes o meu interior… Dou-vos graças por tantas maravilhas». Depois acrescenta que, no fundo do seu coração, acredita que se Jesus estivesse vivo hoje, se dirigiria especialmente aos homossexuais entre nós, pois «Jesus não quer que as pessoas estejam sós e tristes». Que a oração deste padre jesuíta seja também a nossa!

 


 

[1] Tal situação não ocorre em Portugal, onde existem duas terminologias diversas: matrimónio (sacramento religioso) e casamento (contrato civil) (N. T.).

[2] Telenovela americana, produzida pela ABC de 3 de Outubro de 1952 até 3 de Setembro de 1966, centrada na vida real da família Nelson. A série retratava Ozzie Nelson, a sua mulher Harriet Nelson e os seus filhos, David Nelson e Eric Nelson, mais conhecido por Ricky. A série atraiu amplas audiências, embora nunca tenha estado entre as dez mais vistas, e tornou-se o sinónimo do estilo de vida familiar americano dos anos 50. (N. T.).

 

 

Tradução: José Leote

Artigo original: Revista Newsweek, por Lisa Miller

Amor Homossexual

Há alguns decénios, a reflexão teológica sobre o amor homossexual desenvolveu-se bastante. Dois factores históricos provocaram este inesperado desenvolvimento.

 

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Em primeiro lugar, as ciências psicológicas e antropológicas descobriram que a orientação homossexual não é nem uma doença, nem uma perversão da natureza, mas uma variante absolutamente natural que diz respeito a uma minoria de homens e mulheres.


Durante os anos sessenta e setenta do século passado, organismos profissionais, aí compreendidas associações de médicos, mudaram, por isso, o seu juízo negativo no que se refere ao fenómeno homossexual.


Estas declarações científicas assinalaram uma viragem cultural bastante notável. As grandes tradições religiosas haviam sempre condenado o amor homossexual como uma perversão da natureza. Os pensadores religiosos estavam convencidos que a orientação heterossexual era universal e que os atos homossexuais eram comportamentos anormais, que transgrediam uma lei essencial da natureza humana. É por esta razão que alguns textos bíblicos denunciam o amor homossexual. No século XIX as sociedades modernas também decidiram criminalizar o comportamento homossexual.


Somente em finais do século XIX muitos investigadores reconheceram que a homossexualidade é uma orientação não escolhida e estável de algumas pessoas. Reagindo a esta descoberta, os moralistas, não podendo continuar a reconhecer nos homossexuais pecadores que podiam converter-se, começaram a considerá-los inferiores, enfermos, caracterizados por desordens e privados de equilíbrio psíquico.


Infelizmente, a Igreja católica ainda permaneceu ligada a este ponto no seu ensinamento oficial. Segundo uma Declaração da Congregação para a doutrina da fé, “a condição homossexual é destituída da sua finalidade essencial e indispensável e é, portanto, intrinsecamente desordenada”. Uma declaração mais recente diz-nos que os homossexuais não devem ser ordenados padres porque não são capazes de ter relações sadias com os homens e as mulheres da sua paróquia. Estes juízos oficiais, no entanto, indiferentes aos resultados da pesquisa científica, já não têm nenhuma credibilidade.

 

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A Rumos Novos, uma associação de católicos e católicas LGBT, fundada em Évora em 2008, apresentou a sua própria profissão de fé: “Cremos que os católicos e católicas LGBT são membros do corpo místico de Jesus e fazem parte do povo de Deus. Temos uma dignidade intrínseca, porque Deus nos criou, porque Cristo morreu por nós e porque o Espírito Santo nos santificou com o Batismo, fazendo de nós canais pelos quais o amor de Deus se expande no mundo... Acreditamos que os católicos e as católicas LGBT podem expressar a sua sexualidade através de um modo conforme ao ensinamento de Jesus”.


Desde então, e mesmo antes, nasceram outras associações de gays e lésbicas em diversos países. Há colectâneas de livros e artigos nos quais estes católicos contam e analisam a sua experiência religiosa e apresentam reflexões teológicas fundadas na sua leitura da Bíblia. Neste esforço de repensar a sua tradição, estes católicos são acompanhados por gays protestantes, judeus e muçulmanos. Segundo eles, ter fé quer dizer aceitar a própria orientação sexual como um dom de Deus.


O Deus do universo, que criou uma maioria de pessoas heterossexuais, decide criar uma minoria de pessoas homossexuais. Ao invés de se lamentar diante do seu criador, estes cristãos homossexuais têm orgulho da orientação sexual que Deus lhes deu e vivem o Eros do amor ao seu modo, seguindo o ensinamento de Jesus. Nas suas relações amorosas querem permanecer fiéis à vida espiritual, superar seu próprio egoísmo, abrir-se ao amor altruísta pelo outro, recusar a dominação e a dependência psicológica, praticar a reciprocidade e a partilha.

 

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Muitos teólogos reconhecem hoje que a reflexão moral sobre o amor homossexual não é autêntica se não são lidos os escritos dos cristãos gays e se não é tomado a sério o testemunho da sua fé. Todavia, estes teólogos dão-se conta que a posição defendida pelos católicos e católicas LGBT contradiz o ensinamento oficial da Igreja católica. Os teólogos sabem, ao mesmo tempo, que a Igreja, condicionada por novas experiências religiosas, por descobertas científicas e por uma releitura dos textos bíblicos, mudou, com frequência, o seu ensinamento. Nós não cremos mais no “fora da Igreja não há salvação”, doutrina enunciada pelos concílios do passado, não aceitamos mais a existência do limbo, pregado por séculos, apoiamos a liberdade religiosa e os direitos humanos, embora estas ideias tenham sido severamente condenadas pelos Papas do século XIX, estamos conscientes que a Igreja mudou o seu ensinamento sobre a tortura e a pena de morte, e assim por diante. É, pois, absolutamente razoável pensar que num destes dias a Igreja também mude a sua ética sexual.

 

Tradução/ Adaptação: José Leote

Texto original:Gregory Baum 

 

108.º Encontro - NOVEMBRO

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É com muita alegria que partilhamos que, graças ao Senhor, temos tido feedback do nosso desafio «Encontro na minha terra».

 

Assim, partilhamos que o próximo «Encontros da Comunidade», o 108.º, irá decorrer na Trafaria, na margem sul.

 

O nosso ponto de encontro será no adro da Igreja de S. Pedro da Trafaria e daí partiremos para o local do encontro, pelo que pedimos a todas e todos que sejam pontuais.

 

Como habitualmente, no final do nosso encontro seguir-se-á o tradicional jantar da comunidade.

 

Portanto, gostaríamos de te convidar a estar connosco neste dia dia que marca o arranque do «Encontro na Minha Terra».

 

Pensando nos irmãos e irmãs provenientes de Lisboa e que cheguem por transporte fluvial começamos mais cedo para terminar mais cedo, de modo a que possam apanhar o último barco para Lisboa.