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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Mulheres-padre e celibato são os próximos tabus

Papa acabou com tabu sobre preservativo, admitindo o uso em “certos casos”. Mas há ainda muitos outros tabus que movimentos católicos gostavam de ver ‘abolidos’.

  

 

 

Com as declarações de Bento XVI sobre o uso do preservativo – considerando que é admissível “em certos casos”, para evitar a transmissão de doenças como a sida – quebrou-se um dos tabus da Igreja Católica – e um dos mais criticados, sobretudo de fora. Mas restam outros, que dividem os próprios católicos: o celibato obrigatório dos padres; o papel das mulheres na Igreja ; o problema do divórcio; e o acolhimento dos fiéis homossexuais são aqueles que os católicos com quem o DN falou consideram mais urgentes.

 

“O que Bento XVI disse agora já devia ter dito há muito tempo”, aponta Maria João Sande Lemos, do Movimento Nós Somos Igreja. O fim do celibato obrigatório dos padres é outro ponto em que acha que a Igreja está atrasada. “Não é uma regra de raiz: foi imposto no século XII e não faz sentido. Toda a gente sabe que muitos apóstolos eram casados”, diz. Aliás, lembra que a Igreja já aceita padres protestantes casados, quando estes se convertem.

 

O teólogo Jorge Cunha refere que o que está em causa são os padres de paróquia e não o celibato em si – “porque haverá sempre pessoas que vivem a sua fé com o radicalismo do celibato”. “Não é possível fazer futurologia”, adverte, mas conclui que este é um tema em que pode haver mudanças.

 

O teólogo brasileiro Leonardo Boff também vê o fim do celibato como uma tendência para o futuro, mas não a curto prazo ou com o actual Papa. “Só com um Papa da periferia”, diz o fundador da Teologia da Libertação no Brasil.

 

Já quanto ao papel das mulheres na Igreja, Bento XVI parece menos disposto a mudar. O Papa refere, no mesmo livro de entrevistas em que pela primeira vez admitiu a possibilidade de usar preservativo – Luz do Mundo, que será publicado em Portugal no dia 30 -, que a Igreja não tem o direito de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, mesmo que queira. E há meses o Vaticano referia-se à ordenação de mulheres como um crime sério. Por isso, Maria João Sande Lemos acredita que esta será uma mudança difícil.

 

“Precisamos de uma igreja muito menos discriminatória e as mulheres, como baptizadas, têm de ter acesso a todos os sacramentos”, indica. E acredita que a Igreja vai ser “confrontada com a realidade e obrigada a dar um passo atrás, como foi agora nesta questão do preservativo”. “Estou convencida de que é irreversível, mas não sei se estarei viva para ver.”

 

A discriminação das mulheres também é visível, diz, “na visão pouco amistosa da sexualidade, sobretudo no que toca às questões que afectam mais as mulheres, como o planeamento familiar”. “Qual é o casal católico que não usa qualquer meio de planeamento familiar”, interroga-se, pedindo “um olhar descomplexado sobre a sexualidade”.

 

Outra questão que divide os católicos e para a qual urge procurar uma solução, diz José Leote do Grupo de Homossexuais Católicos Rumos Novos, é o acolhimento dos divorciados. Para o teólogo Jorge da Cunha não é provável que exista uma modificação da norma moral: o casamento é indissolúvel. Mas “há um problema para resolver, que é o das pessoas que falharam no seu primeiro casamento” e estão casadas em segundas núpcias. “Pode acontecer a admissão aos sacramentos. Há pessoas que sofrem muito por causa da situação em que vivem”, conclui.

 

Por fim, o “acolhimento verdadeiro, fraterno, dos fiéis homossexuais”, é uma das mudanças que José Leote põe à cabeça das suas preocupações, embora subscreva os outros temas referidos pelo movimento Nós Somos Igreja. Mas acredita que a mudança de atitude em relação aos homossexuais será mais complicada do que outras. “Este Papa tem-nos habituado a sempre que fecha uma porta abre uma janela. Vamos esperar.”

 

in: Diário de Notícias (23/11/2010)

Jornalista: Patrícia Jesus

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