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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Jesus e o Leproso: o Toque que Restaura

 

 

40Um leproso veio ter com Ele, caiu de joelhos e suplicou: «Se quiseres, podes purificar-me.» 41Compadecido, Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: «Quero, fica purificado.» 42Imediatamente a lepra deixou-o, e ficou purificado. 43E logo o despediu, dizendo-lhe em tom severo: 44«Livra-te de falar disto a alguém; vai, antes, mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que foi estabelecido por Moisés, a fim de lhes servir de testemunho.»

45Ele, porém, assim que se retirou, começou a proclamar e a divulgar o sucedido, a ponto de Jesus não poder entrar abertamente numa cidade; ficava fora, em lugares despovoados. E de todas as partes iam ter com Ele. (Mc 1, 40-45).

 

Esta passagem tem um significado especial para as pessoas homossexuais.

 

Todos sabemos que na Palestina, no tempo de Jesus, era um risco contrair a doença. Era um risco de saúde. Contudo havia igualmente um risco espiritual. Tocar um leproso significaria que a pessoa se teria tornado espiritualmente contaminada – ritualmente impura. Porém, um sacerdote do templo tinha a autoridade de declarar um leproso limpo (Levítico 14, 1-32), permitindo, deste modo, que o homem ou mulher afligido pudesse reentrar na cidade e viver como qualquer outra pessoa, participando novamente em todos os rituais e actividades diárias.

 

As palavras gregas que Marcos usa para descrever a reacção de Jesus, quando o leproso se ajoelha perante ele, indicam que Jesus foi percorrido por uma forte emoção. Frequentemente estas palavras são traduzidas como pena. Contudo, Ched Myers, o famoso escolástico americano das escrituras, afirma que, em versões antigas do evangelho, as palavras usadas sugerem que a emoção que Jesus sentiu foi ira.

 

 

Por que se iraria Jesus?

 

Talvez a pista resida nas palavras que o leproso dirige a Jesus: «Se quiseres, podes purificar-me». A implicação é a de que outros já tinham feito uma escolha e que tinham escolhido em não declarar o leproso limpo, não libertando, desta forma, o homem ou mulher do pesadelo de ser um proscrito. Pode ter sido a imagem daqueles que não conseguiram mostrar compaixão que eram o objecto da ira de Jesus.

 

Quem eram os que poderiam ter escolhido declarar o leproso limpo? Teria sido, claro está, os sacerdotes. Talvez, a exemplo do sacerdote e do Levita da história do Bom Samaritano (Lucas 10, 29-37), eles temessem ficar ritualmente impuros se chegassem muito perto do leproso e assim não fossem capazes de realizar as suas tarefas no templo. Talvez receassem o risco de contrair a própria doença. De qualquer das formas, como que parecendo compreender a posição na qual Jesus se poderia encontrar, o leproso deixa uma saída a Jesus: «Se quiseres», diz ele. É como se dissesse: «Compreendo se também tu decidires passar-me ao lado…»

 

Que faz Jesus? Não somente permanece com o homem ou a mulher afligido, mas estende-lhe a mão e toca quem sofre. Somente então declara o leproso limpo.

 

Ao tocar no leproso, Jesus sabe que corre o risco de ficar infectado. Mas, igualmente importante, sabe que será rotulado de impuro – que «já não poderá ir abertamente a uma cidade». Quando o leproso se ajoelhou perante Ele, desafiando-O a fazer algo acerca de sua condição, Jesus fez a Sua escolha. Escolheu alcançar e tocar o leproso. Escolheu colocar a sua reputação e o seu trabalho em riso e a ser associado ao proscrito, ser um leproso com os leprosos.

 

Como pessoas homossexuais sabemos algo acerca de se ser um leproso. Algumas vezes experimentamos nós próprias a sensação de sermos os proscritos. E algumas vezes tratámos outros, mesmo outros irmãos homossexuais, como impuros e hesitámos em acolhe-los.

 

Jesus desafia-nos a abrirmos as mãos e a conhecer o poder do acolhimento e da cura para os quais as nossas mãos foram feitas.

 

Tocar pode dar vida, cura, afirmação.

 

Um toque pode ser feito em amor, em violência, ou para humilhar.

 

Sempre que tocamos outro ser humano; sempre que nos deixamos tocar, corremos um risco.

 

O toque pode ser bem recebido, ou pode ser rejeitado como uma intromissão.

 

O nosso toque pode aproximar-nos uns dos outros, ou pode construir uma parede, ou pode afastar-nos mais ainda.

 

Sempre que tocamos outro ser humano com compaixão e amor, também nós corremos o risco de contaminação; arriscamo-nos que o nosso toque seja mal interpretado, que outros nos julguem e nos declarem impuros.

 

Senhor, possamos nós não ter medo de nos tocarmos; possamos nós sempre nos tocarmos da mesma forma que tu tocaste no leproso, como tocaste nas criancinhas, como tocaste nos teus amigos, como tocaste nos teus inimigos.

 

Sempre que nos tocarmos uns aos outros, que seja com compaixão e com amor; que esse toque possa trazer vida àqueles a quem tocamos e que possa cada toque ser uma semente de comunidade, uma comunidade de compaixão e amor.

 

Autor:

Pe. Thomas Novak

(Trad. José Leote)