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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Sopro do Espírito [33.º Domingo do Tempo Comum (18 de novembro), Ano B]

 

Ana e o seu Cântico

 

O que acontece quando entras no mundo de Ana e do seu cântico?

Deus entrega-nos e chama-nos à justiça

 

As passagens bíblicas desta semana:

1 Samuel 1, 4-10; ou Daniel 12, 1-3 e Salmo 16; Hebreus 10, 11-14; (15-18); 19-25; Marcos 13, 1-8

 

Que nos dizem outros irmãos sobre estas passagens?

A história de Ana mostra que a infelicidade e a perseguição em torno de temas ligados sexo, género e família não são novos. Contudo, os textos também nos falam do desejo de Deus em corrigir estes e outros males.» Ken Stone (Seminário Teológico de Chicago).

 

«Muitos homossexuais são regularmente lembrados que “não estamos ao nível” das expectativas da sociedade heterossexual. Estas leituras mostram como as opiniões dos outros moldam dramaticamente a nossa visão de nós próprios. No entanto, também nos lembram da vida, amor e justiça.» Holly Toensing (Professora assistente no Departamento de Teologia da Universidade de Xavier, Ohio, EUA).

 

«A necessidade de se sentir ou ser validado como ser humano é importante para todas as pessoas independentemente da sua orientação sexual, identidade de género, raça, credo, fé ou situação económica. Para muitos hoje, tal como para Ana, ter filhos é um caminho em direção a essa mesma validação. Nenhuma instituição, religiosa ou qualquer outra, deveria ter a autoridade para negar tais direitos humanos fundamentais.» Bentley de Bardelaben (Igreja Unida de Cristo).
 

Conversemos então sobre os textos

1 Samuel 1, 4-10 e 1 Samuel 2, 1-10 focam-se sobre Ana, uma mulher que se encontra profundamente amargurada porque não tem filhos. Ao examinarmos a história de Ana, somos recordados que, apesar da continuidade direta que alguns leitores pretendem estabelecer entre o mundo bíblico e as comunidades religiosas modernas, Israel antigo era caracterizado por muitas práticas relacionadas com o género e parentesco que são muito diferentes das dos dias de hoje. Tal como muitos homens na Bíblia Hebraica (tais como Abraão, Jacob e David), o marido de Ana, Elcana, tinha mais do que uma mulher. A sua outra mulher chamava-se Penina.
 

 
Como interpretamos as escrituras nas nossas vidas? Num momento em que os Cristãos discutem acerca do uso literal da Bíblia como fonte da ética Cristã; como entendemos inúmeras referências bíblicas, incluindo 1 Samuel, que sugerem práticas aceites de poligamia?   

 
 
Penina deu à luz filhos e filhas enquanto Ana não tem nenhum. A importância dada ao parto, em Israel, sem dúvida que conduzia muitas mulheres a experimentarem, como grande tragédia, o facto de não conseguirem gerar filhos. De facto, enquanto Elcana tenta assegurar a Ana que o seu valor não depende de dar à luz, a própria perceção de Ana sobre a sua situação foi tão profundamente moldada pela ênfase de Israel em relação ao parto que ela chora e é incapaz de se alimentar. As expectativas sociais dominantes acerca do género e da família minam a sua felicidade e autoestima. Para além de que, Penina persegue Ana por aquilo que pode ser visto como o falhanço de Ana como mulher.
 

 
De que modo é que as pessoas homossexuais não são conformes às expectativas dominantes acerca do género e do parentesco? Como é que essa não conformidade ameaça a felicidade de cada um e a sua autoestima, ou conduz a perseguição por parte de outros?  

 

A amargura de Ana termina através da intervenção de Deus, quando ela dá à luz Samuel. Ainda que a sua aflição envolva assuntos de género, lide da casa e família, o seu cântico de louvor tem um âmbito mais vasto. A sua alegria leva-a a louvar o Deus que não somente dá filhos à estéril, mas também que “levanta do pó o mendigo” e “tira da imundície o pobre” (1 Samuel 2, 8). Ela não se mostra preocupada somente com a sua própria libertação, mas fala igualmente da libertação de outros. A este respeito, Ana oferece um modelo a todos aqueles que nos nossos dias desejam libertar-se da amargura e da perseguição. De modo semelhante a Ana, as pessoas ho experimentam algumas vezes o reino da família, género e questões ligadas à sexualidade como fonte de amargura e podem chamar o auxílio de Deus. Contudo, o exemplo de Ana na oração avisa-nos todos em relação à excessiva preocupação com a nossa própria situação. Um desejo de justiça para nós próprios deve conduzir a um desejo de justiça para com o próximo.

 

 


 
Como podem as pessoas homossexuais expressar hoje a mesma preocupação acerca da justiça para os pobres e desprotegidos tal como Ana mostra na sua oração?  

 

Tal como acontece nas outras leituras de hoje, a oração de Ana enfatiza a esperança bíblica de que a intervenção divina corrigirá o que de mal há no mundo. Textos como a oração de Ana desde sempre têm dado esperança e encorajamento àqueles que são levados por convicções religiosas a lutar pela justiça e contra a opressão. Eles encarnam expectativas para futuras intervenções de Deus, tal como encontramos na leitura de Marcos 13, 1-8.

 

Contudo muitos leitores estão igualmente desconfortáveis com elementos destes textos, tais como a distinção, algumas vezes feita, entre aqueles que estão destinados para a vida eterna e aqueles que estão destinados para o desprezo eterno (como vemos, por exemplo, na leitura de Daniel 12, 1-3). Afinal de contas, a distinção entre aqueles que merecem a vida eterna e aqueles que merecem o desprezo eterno pode facilmente ser usado para justificar o desdém por aqueles cujas vidas não estão de acordo com as normas dominantes, incluindo as pessoas homossexuais.

 

Lendo tais textos, é útil ter presente a boas novas encontradas no cântico de Ana e a confissão Cristã em Hebreus 10. Por todos aqueles que são perseguidos e derrubados, Deus ergue-os (1 Samuel 2, 6-8). Em Hebreus 10, Cristo ofereceu “pelos pecados um único sacrifício” (Heb 10, 12). O perdão é necessária para todos e igualmente disponível a todos. Estas passagens questionam a tendência de alguns em colocar alguns tipos de pessoas para além dos limites do amor de Deus.

 


Deus da Ana, lembra-te novamente, hoje,

      daqueles que desesperam e são perseguidos

      por questões relacionadas com a sexualidade e família.

 

Que possa cada um de nós recordar

      que todos nós somos perdoados por Ti,

      e seguirmos o conselho

      de estarmos “atentos uns aos outros, para nos estimularmos

      ao amor e às boas obras” (Hebreus 10, 24).

 

Ámen.