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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

«Não Tenham Medo!» da Homossexualidade

Jean-Pierre Mignard

Defender a família e convidar para rezar por ela num país com uma boa progressão demográfica subentende que ela esteja ameaçada. O casamento de casais homossexuais realmente abalaria a família e o direito das crianças?

 

A Igreja tem o direito de se intrometer nesse debate legislativo. Trata-se de uma liberdade de expressão indiscutível, que não pode ser considerada de forma alguma um ataque à laicidade. A sua opinião é ainda mais útil porque o matrimónio figura na lista dos seus sacramentos.

 

Segundo uma pesquisa do IFOP (Instituto Francês de Pesquisas), 65% dos franceses seriam favoráveis ao casamento homossexual e 53% à homoparentalidade. A indicação, na mesma pesquisa, de que 45% dos católicos não se oporiam ao casamento homossexual é ainda mais singular…

 

De facto, convém resolver uma antiga disputa antes de se debater a questão do casamento. A homossexualidade é ou não uma das declinações naturais da sexualidade? O casamento homossexual, sobre o qual as divergências são concebíveis, justifica que uma ambiguidade seja removida. A tese oficial designa essa sexualidade com o vocábulo "desordem".

 

Alinhar os homossexuais, junto com outros, entre os "acidentados da vida" expressa um sentimento de compaixão, mas não os considera como sujeitos de direito. Mais inquietante é que uma instrução de 2005 do Vaticano exclui os homossexuais do ministério ordenado, salvo se tal sexualidade for "transitória". A Santa Sé mantém uma posição hostil à descriminalização da homossexualidade nos debates das Nações Unidas. Isso coloca-a na companhia de alguns dos regimes que continuam infligindo a pena de morte aos homossexuais. Trata-se de uma "verdadeira tragédia para as pessoas envolvidas e uma ofensa à consciência coletiva", segundo as palavras do secretário-geral, Ban Ki-moon. Essa humilhação era realmente necessária?

 

Como católico, espero que a Igreja [francesa] se expresse sobre esse ponto específico. Muitos de nós desejam isso, dentro e fora da Igreja. Se ela quer intervir no debate público, e pessoalmente eu considero isso um direito seu, ela deve aceitar o veredito da opinião pública. Além disso, é uma homenagem que lhe é feita, porque se espera da Igreja mensagens a favor da dignidade humana.

Há pouco tempo, o cardeal arcebispo de Lyon, Dom Philippe Barbarin, evocava duas grandes figuras homossexuais e cristãs, Miguel Ângelo e Max Jacob. A esses artistas, ele expressava a gratidão da Igreja, mas dizia principalmente que a sua homossexualidade era um facto, colocando-a assim fora de qualquer juízo de valor. Isso não o levou a declarar-se a favor do casamento homossexual, mas ao menos foi possível lançar as bases para uma discussão livre dos seus medos e dos seus fantasmas.

 

O ex-cardeal arcebispo de Milão, Carlo Maria Martini, ia além e instava os Estados a ajudar os homossexuais a estabilizar as suas uniões civis. Sobre o assunto e com toda a evidência, há muitas moradas na casa do Pai...

 

Entende-se muito bem que a Igreja Católica defenda o sacramento do matrimónio e a sua destinação principal. A solução teológica, de facto, não é simples. Mas é preciso implodir os obstáculos. Todas as reservas do mundo católico são admissíveis na mesa das discussões, mas elas serão aceites somente com a condição de um reconhecimento público e franco do facto de que a homossexualidade é uma sexualidade como as outras, que foge da esfera do juízo moral e penal ou do tratamento psiquiátrico, igualmente legítima e digna de reconhecimento como a heterossexualidade.

 

Ainda não chegou o momento, e é uma pena, de uma pastoral para os homossexuais. Mas chegou o momento de evocar essa questão dentro da Igreja e de se livrar dos seus espantos, que levaram, por exemplo, a separar, no pequeno cemitério de Ebnal (Inglaterra), para as exigências da sua beatificação, em 2010, mas contra a sua vontade testamentária, o corpo do cardeal britânico John Newman (1801-1890) do corpo do seu amigo, o reverendo Ambrose St. John, "que ele amava com um amor tão forte quanto o de um homem por uma mulher". Nada diz que esse grande prelado fosse homossexual, nada, mas até mesmo essa amizade inquietava.

 

Os católicos devem poder debater dentro das suas comunidades, das suas assembleias paroquiais, diocesanas, nas suas associações, sempre que possível, sempre que necessário, sem que se deseje. O que temos a temer das palavras, visto que nós reivindicamos a teologia da Palavra? Não estaríamos todos de acordo? Pois então!

 

É assim que se faz a abertura ao mundo, o que não significa submeter-se a ele. A Igreja, exemplar no diálogo inter-religioso, mostrar-se-á incapaz de qualquer diálogo intrarreligioso? Os bispos, que não são déspotas, deveriam ousar esse debate. O historiador Michel de Certeau dizia com um trecho fulgurante que, "no fundo, era no risco que se encontrava o sentido". E se há uma injunção bíblica e evangélica em forma de leitmotiv, ela é: "Não tenham medo!".

 

Autor: Dr. Jean-Pierre Mignard (católico, professor catedrático)

Tradução e Adaptação: José Leote (Rumos Novos)

Artigo Original: Le Monde