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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos Homossexuais Portugueses

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Católicos pelo Casamento entre Pessoas do Mesmo Sexo

Cada vez mais países legalizam o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Isto acontece porque muitas pessoas hoje acreditam que este casamento é legítimo e deve ser reconhecido pelo Estado. Entre elas, o presidente norte-americano reeleito Barack Obama. Todos os cidadãos são iguais em dignidade e direitos e por isso as uniões entre homossexuais devem ter o mesmo reconhecimento das uniões entre heterossexuais, com os mesmos direitos e deveres. Não há concorrência entre estas formas de união, visto que se destinam a pessoas diferentes e nem constituem uma ameaça à família ou à sociedade.

 

Muitos cristãos também acreditam nisso. Sabem que Deus é amor e compreensão e que Ele quer a felicidade dos seus filhos. Surge então uma questão aos fiéis católicos: como lidar com a oposição da alta hierarquia da Igreja ao reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo, considerado por ela uma ameaça à família tradicional e nociva a um correto progresso da sociedade?

 

O Concílio do Vaticano II, iniciado há mais de 50 anos, afirma que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e das mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e dos que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração (GS 1). É hora de olhar para a realidade humana de tantas pessoas homossexuais. Há uma história milenar de homofobia, com diversas formas de brutalidade física, hostilidade verbal e exclusão. Não se pode ignorar o anseio da população LGBT pela segurança, liberdade e igualdade. Opor-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo é acrescentar mais uma discriminação nesta longa história de exclusões e hostilidades.

O teólogo Karl Rahner refletiu sobre o conceito de ‘cristão adulto’, que pode contribuir bastante nesta questão. No início do século XX, o magistério da Igreja combatia a teoria da evolução. Ensinava que os primeiros capítulos da Bíblia, contendo a narração da criação do homem, deveriam ser entendidos de maneira literal. Se nessa época um paleontólogo estivesse plenamente convencido do vínculo entre o ser humano e o mundo animal, como deveria proceder? Neste caso, tal cientista não deveria rejeitar toda a fé da Igreja e nem toda a sua doutrina, mas discernir entre o que é fundamental e o que não é. Ele deve saber quais são as convicções realmente centrais e existencialmente significativas da sua fé, para nelas se aprofundar sempre mais; e progressivamente deixar de considerar o que se mostra irremediavelmente inaceitável.

 

Não se deve nunca colocar as coisas em termos de tudo ou nada. O próprio Concílio do Vaticano II diz que há uma ‘hierarquia de verdades’, isto é, uma ordem de importância dos ensinamentos da Igreja segundo o seu nexo com o fundamento da fé cristã (UR 11). Há ensinamentos de mais relevância, com um nexo maior; e outros de menos relevância, com um nexo menor. Isto contribui para o discernimento. O cristão adulto, diz Rahner, é um fiel que vive conflitos semelhantes ao daquele paleontólogo. Ele precisa tomar decisões em assuntos importantes, colocando-se diante de Deus e da sua consciência e enfrentar as consequências, sem ter necessariamente o desejado apoio da Igreja.

 

Os cristãos solidários com a população LGBT e seus direitos devem ser encorajados a viver esta fé inclusiva, tão necessária ao nosso tempo, mesmo que eles não tenham o devido apoio das suas igrejas. Isto é ser cristão adulto. Eles não estão sós, pois amam e conhecem a Deus que é amor.

 

 

Artigo original: Diversidade Católica

Adaptação: José Leote (Rumos Novos)

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