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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos Homossexuais Portugueses

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Carta de uma mãe...

Caro Bispo xxxxxx,

 

Sou licenciada pela Universidade de Marquette, de berço Católico, esposa e uma mãe de 71 anos com um filho homossexual… Gostaria que ouvisse a história do meu filho. Antes da tomada de quaisquer decisões sobre uma abordagem pastoral a qualquer grupo, acredito que aqueles que tomam as decisões têm de conhecer a experiência das pessoas às quais estão a oferecer o ministério.

 

Normalmente um filho ou filha homossexual assume-se perante os pais quando já concluiu os seus estudos e se encontra estabelecido na sua atividade laboral, devido ao risco extremo de serem afastados da família. O meu filho assumiu-se ao ser questionado sobre o assunto quando se encontrava no último ano do ensino secundário. Disse que ia sair para meter gasolina e ficou fora toda a noite.

 

Nesse dia, quando ele regressou da escola tive uma conserva com ele. «Filho não podes ficar fora toda a noite e não nos dizeres nada. O teu pai e eu estávamos preocupadíssimos». A sua resposta foi: «Mãe, tive de ir ver alguns amigos». Acabei por descobrir que estes amigos eram homossexuais e que ele tinha ido vê-los porque estava a lutar com a necessidade de compreender a sua orientação sexual. Nunca pensei em não o aceitar devido ao que aconteceu neste ano.

 

O meu filho disse-me, quando andava no 6.º ano, que não faria a Confirmação na Igreja Católica. Na altura não conseguiu partilhar as suas razões para esta decisão. Ele começou à procura de outra igreja, tendo frequentado, durante um ano, um grupo de jovens Batistas, tendo então encontrado uma igreja onde entrou quando se encontrava no 10.º ano. Reparei que o seu comportamento começou a mudar: escolhia roupa que antes nunca usaria, espalhava gravações de música e posters e ficava cantando no quarto durante longos períodos de tempo. O meu marido e eu descobrimos que afinal esta igreja era um culto e tirámo-lo de lá. Depois de saber que ele era homossexual, mesmo assim senti que ainda tinha o meu filho e não um clone submetido a uma lavagem cerebral. Nunca poderia nega-lo ou abandoná-lo. Depois de ficar a saber sobre a sua homossexualidade, tivemos muitas conversas. Disse-lhe que não diria nada ao pai. Teria de ser ele a faze-lo quando se sentisse confortável. Nestas conversas ele acabou por partilhar que se sentia muito feliz por o termos tirado do culto religioso. Perguntei-lhe porquê. Ele partilhou que aquilo que lhe pediam para fazer lhe dava dores de cabeça. «Por que razão não te vieste embora?», perguntei. «Porque sabia que aquele culto era muito conservador e queria arrancar a homossexualidade de mim», foi o que ele me respondeu. Senti-me magoada por tudo aquilo que ele sofreu.

 

No 12.º ano voltou a sofrer mais. Suportou vários meses de abuso verbal. Reparei que ele estava cada vez mais deprimido e perguntei-lhe sobre isso. Ele informou-se da perseguição sexual. Contactámos o responsável pela escola e fomos informados que havia uma tolerância zero no respeitante à perseguição por orientação sexual. O meu filho informou então o diretor-adjunto sobre o problema. O abuso parou mas os outros alunos puseram-no de parte como um pária. Algumas semanas mais tarde ele regressou ao carro após sair da escola e encontrou lixo despejado em cima do capô do carro. Uma nota estava presa debaixo do limpa para brisas, dizendo: «És tão sujo como este lixo.»

 

Durante todo este tempo nunca me senti confortável em pedir apoio na igreja. Daquilo que sabia acerca do modo como a igreja encarava a homossexualidade, sentia que seria posta da parte ou fariam sentir-me culpada por ter um filho homossexual. Voltei-me para os amigos. O meu filho não disse nada ao pai até ao seu primeiro ano na faculdade, quando veio a casa pelo Dia de Ação de Graças. Ele acabou por adoecer devido ao stress emocional relacionado com o assumir-se. Na noite de sexta-feira, desse fim de semana, ele reuniu-nos a todos na sala de estar. A irmã mais velha já sabia, tal como eu. O meu marido e eu estávamos sentados num lado da sala. A irmã e ele estavam do outro lado. Ele simplesmente balbuciou: «Pai, tenho uma coisa para te dizer». O meu marido perguntou: «O que é?» Ele respondeu: «Sou homossexual». O meu marido respondeu: «Eu sei». Fiquei surpreendida, mas o meu marido suspeitava que o nosso filho pudesse ser homossexual. A minha filha disse: «Pai, pareces ter ficado bem com isto. Há alguma coisa que te preocupe sobre isto?». Ele respondeu: «O meu sobrinho morreu com SIDA. Não quero que o mesmo aconteça contigo». Neste momento, tudo aquilo sobre o que nunca havíamos falado estava ultrapassado e a situação da nossa família era muito mais saudável.

 

O meu filho acabou por se licenciar, trabalhou para companhias que tinham contratos de defesa e descobriu que não era o tipo de vida de trabalho que queria fazer. Atualmente, concluiu os estudos necessários para se candidatar à faculdade de medicina. O meu filho está no caminho para contribuir de uma forma madura e compassiva para ajudar a diminuir algum do sofrimento presente no mundo. Jesus disse: «Pelo seu fruto os conhecereis». É minha esperança que os líderes e membros da igreja parassem de julgar os outros e olhassem para aquilo que de bom que os homossexuais fazem na igreja e na sociedade em geral. Neste momento, não acredito que o meu filho alguma vez volte à igreja.

 

Depois de ter tomado conhecimento da orientação sexual do meu filho, propus-me a conhecer e a aprender mais sobre as pessoas que são homossexuais. Muitas das pessoas que conheci foram criadas como Católicas e receberam em troca a mensagem de que não há lugar para elas na igreja. Apesar desta mensagem, alguns permaneceram na igreja. A Eucaristia é a razão pela qual essas pessoas não abandonam a igreja. Negar a Eucaristia a Católicos batizados, somente porque alguém os julgou, é nada cristão.

 

Seguem-se as minhas observações sobre a postura da igreja no ensino da moralidade referente à sexualidade:

 

Neste domínio parece haver, entre alguns membros e líderes da igreja, uma estrutura mental de «absoluta retidão». Aquilo que quero dizer com isto é que estas pessoas sabem que são detentoras da verdade absoluta, possuem mentalidades fechadas e simplesmente não querem ouvir porque sabem que têm razão. Para mim isto é semelhante a uma idolatria, pois todos somos seres humanos limitados que, em conjunto, deveríamos estar à procura da verdade e a deixar espaço a que o Espírito Santo nos iluminasse e esclarecesse. Algumas vezes o Espírito Santo informa através da escuta mútua e dos leigos.

 

Como pode a Conferência Episcopal formular um ensinamento pastoral quando não consultaram o grupo de pessoas que, a partir da sua experiência pessoal, os podem informar? OS PAIS SÃO OS PRIMEIROS MINISTROS DOS SEUS FILHOS HOMOSSEXUAIS E ELES NÃO FORAM CONSULTADOS.

 

A Pastoral alterou a fraseologia ao descrever a pessoa homossexual, de orientação sexual para inclinação sexual. Uma inclinação é algo a que alguém se pode opor. Uma orientação é algo de profundamente enraizado na pessoa. Outro aspeto do uso da palavra inclinação é que este dá uma falsa esperança, aos pais que acabam de tomar contacto com a homossexualidade, de que há uma possibilidade de a orientação sexual dos seus filhos ou filhas ser alterada. Todos os homossexuais que conheci sabem que a sua orientação sexual é uma parte da sua própria constituição e podem-na tanto mudar como o pode um heterossexual tornar-se homossexual.

 

Como mãe de um filho homossexual, parece-me que muitos dos mitos erróneos referentes à homossexualidade presentes na sociedade em geral, também se encontram presentes entre os bispos que formularam a pastoral do ministério para os homossexuais. Alguns destes mitos são:

  • Os homossexuais são mais promíscuos do que os heterossexuais;
  • Os homossexuais não deveriam falar sobre a sua orientação sexual, pois podem converter outros à homossexualidade;
  • Os homossexuais podem ser predadores sexuais de jovens ou então podem ser pedófilos.

Enquanto bispo emérito V. Eminência ocupa um lugar único. Ninguém lhe pode tirar a diocese. O senhor é como o avô ou a avó experiente e sábio nas famílias que pode oferecer a sua sabedoria. Devido ao seu interesse profundo em temas de justiça social, exorto-o a analisar os direitos dos Católicos homossexuais enquanto tema de justiça social. Eles têm o direito de ser abertos sobre quem são, a receberem o ministério da igreja enquanto Católicos batizados e a serem ministros na igreja. Esperaria que V. Eminência tivesse a coragem de ser uma voz profética de justiça em prol da nossa comunidade junto dos seus irmãos bispos.

Obrigado por ler estas linhas.

 

Sinceramente,

Doris M. Hand

Fullerton, CA

 

Tradução: José Leote

(Rumos Novos)

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