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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos Homossexuais Portugueses

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

CARTA ABERTA À HIERARQUIA DA IGREJA CATÓLICA A RESPEITO DO CUIDADO PASTORAL DAS PESSOAS HOMOSSEXUAIS

Padre

Apesar de ser um documento já com algum tempo, a sua justa atualidade, leva-nos a reproduzi-lo hoje aqui. Trata-se de uma carta aberta subscrita pelo clero de Chicago (Estados Unidos), mas que facilmente seria subscrita por muitos e muitos padres de qualquer um outro país. Aqui fica, então, o documento:

 

Enquanto padres católicos, temos ficado cada vez mais perturbados com o tom e, nalguns casos, o conteúdo dos documentos e afirmações provenientes do Vaticano, conferências episcopais e bispos sobre assuntos categorizados sob o título de «homossexual». Respeitamos a autoridade de ensino da Igreja. Devido a isto, achamos particularmente perturbante o aumento da violência e linguagem abusiva dirigida a qualquer ser humano. Tal linguagem é inapropriada. Isto é ainda mais gritante quando se dirige a membros da comunidade de fiéis. Estas declarações divisionistas e excludentes por parte da Igreja são contrárias à boa prática pastoral.


A viagem da vida na fé é única e sagrada, incluindo a integração pessoal da sexualidade e da espiritualidade. As condenações dirigidas a católicos sinceros que tentam tirar algum sentido da sua viagem são inapropriadas e pastoralmente destrutivas.


Enquanto padres e pastores falamos de modo a deixar claro que os nossos irmãos homossexuais são todos membros da família de Deus, irmãos e irmãs no Senhor Jesus e merecedores da mesma dignidade e respeito devidos a qualquer outro ser humano. O reconhecimento da dignidade inalienável da pessoa humana é o único caminho em direção à justiça e reconciliação. Afirmamos a bondade de todas as pessoas homossexuais. Alicerçamo-nos na declaração dos Bispos americanos «Sempre os Nossos Filhos». Adicionalmente reafirmamos a compreensão da bondade da pessoa humana conforme apresentada ao longo do papado do Papa João Paulo II. Para além disso, queremos claramente afirmar que ministrar para e com os nossos irmãos e irmãs homossexuais é reciprocamente benéfico, como acontece em toda a atividade ministerial. Julgar previamente onde conduzirá a viagem de qualquer crente é inadequado. Caminhar com eles, tal como fazemos com os nossos irmãos e irmãs heterossexuais, é a resposta cristã adequada.


No passado recente, bispos a título individual, conferências episcopais e o Vaticano têm assumido um tom de tal violência e abuso para com estes filhos e filhas da Igreja, que já não podemos continuar em silêncio. Já alguma vez qualquer outro grupo de pessoas dentro do Corpo de Cristo foi tão atacado e violado por uma linguagem espiritual tão malévola? Exemplos do mais recente documento do Vaticano mostram de forma demasiadamente clara a demonização destes filhos de Deus, referindo-se à homossexualidade como um «fenómeno moral e social preocupante», «uma depravação grave», «o alastrar do fenómeno», «aprovação ou legalização do mal», «grave prejuízo para o bem comum», «prejudicial ao correto desenvolvimento da sociedade humana», «intrinsecamente desordenado». Alguém pode considerar convidativa esta linguagem vil e tóxica?


Para muitos homossexuais católicos, esta série de ataques mais recentes forçou-os, sem autorrespeito e amor-próprio, a abandonarem a participação ativa na Igreja e a se questionarem como podem permanecer membros de uma Igreja que sentem ser abusiva. Não é possível ministrar para e com as necessidades dos nossos irmãos e irmãs homossexuais com linguagem deste tom como ponto de partida.


A Igreja Católica torna-se mais católica quando é inclusiva e acolhedora e menos refletora do evangelho de Jesus quando é excludente e rígida. Por este motivo, queremos igualmente afirmar as muitas declarações pastorais e positivas de alguns bispos e conferências episcopais (p. e. «Sempre os Nossos Filhos»).


A teologia da Igreja, inclusive o seu ensinamento moral, encontra-se sempre em diálogo com as experiências de vida mais amplas dos seus membros, que moldam e rearticulam o antigo depósito da fé. Encorajamos uma nova atmosfera de abertura ao diálogo que inclua a experiência vivida por muitos membros católicos. Reconhecemos as bênçãos de muitos homossexuais numa variedade de relacionamentos. Acreditamos que as suas experiências devem ser escutadas com respeito.


Ainda que desconheçamos quais as razões para a linguagem cada vez mais violenta e abusiva, deploramo-la enquanto ministros do evangelho de Jesus Cristo e pedimos que ela pare imediatamente. Para além disso, pedimos que todos aqueles que se encontram em posições oficiais de autoridade de ensino na Igreja se abstenham de mais declarações dirigida AOS membros homossexuais do Corpo de Cristo e que, em vez disso, comecem um diálogo sério COM aqueles mesmos membros do Corpo de Cristo.


Pela nossa parte, comprometemo-nos a tratar com respeito e dignidade, todos os que procuram continuar a sua caminhada de fé connosco, independentemente da sua orientação sexual.


Juntamo-nos aos muitos homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, que procuram justiça, misericórdia e compaixão na e através da Igreja Católica.


Estendemos um convite a todos aqueles que partilham a nossa preocupação para que copiem esta carta, a assinem e a enviem ao seu bispo, conferência episcopal ou ao Vaticano.


Tradução: José Leote (Rumos Novos)

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