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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Homossexuais Católicos versus Papa, uma perspectiva irlandesa

Quando as pessoas ouvem-me dizer que sou católico, frequentemente saem-se com a frase sarcástica: «Um homossexual católico? Como é que isso é possível?»

 

Tenho tido muito tempo para pensar na resposta. O problema é que estas pessoas frequentemente consideram-me um servidor obediente de Roma, pendurado em cada um dos twitts do Papa Bento XVI, sentindo-me alarmado e com medo quando ele condena a minha homossexualidade. Na realidade, um católico do nosso tempo vive uma vida muito diferente.

 

Tenho de admitir, que não me recordo de nenhuma retórica antihomossexualidade na missa, ou em nenhuma das escolas católicas por onde passei, na Irlanda do Norte, onde a religião significa muito mais e realmente reflete muito menos do que apenas religião. Crescer neste ambiente significou que era cauteloso em relação à minha sexualidade, mas apenas devido à remanescência de antigos preconceitos à volta do género e da sexualidade, que ainda existem na maioria das sociedades e não devido a qualquer coisa que tenha aprendido através da igreja. Na realidade, sinto-me confortável como homossexual católico, porque não vejo a necessidade de ambas as identidades encaixarem perfeitamente uma na outra de modo a serem ambas relevantes para a minha vida, mas sei que tecnicamente elas conflituam e, recentemente, isso tornou-se mais evidente.

 

Sob a liderança do Papa Bento XVI, o Vaticano tornou-se mais agreste nas suas críticas à homossexualidade e a minha geração, na Irlanda, está agora a afastar-se da Igreja. A revelação do escândalo de abuso [de menores] no início do século XXI foi um importante ponto de viragem, mas assuntos como a igualdade dos homossexuais - um que agora está vindo à tona em todo o mundo – certamente que ajudam a isto. É um facto que cada vez menos jovens frequentam a missa ao domingo e sei de três amigos que abandonaram a igreja no dia de Natal, porque o padre reiterava a mensagem do Papa contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Muitos dos meus amigos que vão regularmente à missa fazem-no por um sentido de obrigação, mas a prática agora está mais longe da sintonia com a vida moderna.

 

Então qual a necessidade de toda esta coisa católica, se não gostamos de ir à missa e não concordamos com o Papa? Bem, ser católico é algo mais do que ir somente a um encontro semanal e a fé em Deus é mais daquilo que é dito pelo clero. É um modo de vida e, particularmente em países devotos como o meu [Irlanda do Norte], é algo que une a comunidade entre si nas escolas, bairros e organizações. Em particular, a Irlanda do Norte é ainda um estado polarizado, com dois lados divididos por campos etno-políticos, onde a religião de cada um é o seu rótulo. Claro que isto se atenuou nos últimos anos, mas as raízes encontram-se suficientemente enraizadas de modo a que as pessoas ainda se sintam muito mais ligadas através da religião – quer gostem dela ou não – do que seria de esperar num país multiétnico. Os sentimentos de obediência ao Papa podem estar a desvanecer-se, mas os sentimentos de pertença entre os irmãos católicos não o estão. Ainda existe uma comunidade, mas o seu líder está a ser posto em causa social e moralmente.

 

As pessoas que não apoiam o casamento entre pessoas do mesmo sexo não devem ser importunadas ao faze-lo, mas têm de saber aceitar o contraditório. O Papa usou a sua mensagem de Natal para declarar que o casamento entre pessoas do mesmo sexo «destrói a verdadeira essência da criatura humana». Trata-se de uma retórica soberba e condenatória, ambas incorretas e ofensivas. Neste ponto, ele dá má fama a si próprio e aos demais católicos. Tivesse ele dito: «A igreja sempre acreditou que o casamento deve ser entre um homem e uma mulher e, apesar dos desejos de muitos, é assim que a posição da igreja permanecerá» e isso seria muito mais justo. De facto, ele disse que a igualdade dos homossexuais é um «ataque» à família tradicional.

 

Pelo contrário, a visão de muitos apoiantes da igualdade dos homossexuais é aquela onde os casais homossexuais e suas famílias coexistem com as famílias tradicionais. O Papa poderia ter reconhecido esta coexistência, em oposição à sugestão de que os homossexuais estão numa cruzada para destruir a família nuclear – recordemo-nos que as pessoas não se vão tornar homossexuais somente para ter um casamento homossexual. Descreve ainda o Papa o caminho para a sexualidade como «a escolha fundamental do homem», no qual os homossexuais «negam a sua natureza… que lhes foi dada pela sua identidade corpórea». Isto é embaraçoso, pois é agora quase universalmente aceite que a homossexualidade não é uma escolha. Antes pelo contrário, rejeitá-la iria contra a própria natureza da pessoa.

 

A divisão sobre a homossexualidade é uma reminiscência de como as gerações anteriores rejeitaram a condenação da contraceção por parte da Igreja. A Igreja argumenta que a contraceção vai contra o desígnio de Deus porque evita a criação de vida. As pessoas na Irlanda apercebem-se que a contraceção é o menor de dois males (considerando que o aborto destrói uma vida já criada) e no século XXI é uma ferramenta vital na saúde internacional. Dito de outra forma, eles usam-na na mesma. A Igreja condena a homossexualidade? Adivinhem? Mais uma vez, os Católicos não se importam verdadeiramente. É interessante notar que dos dois maiores partidos políticos da Irlanda do Norte – o DUP (maioritariamente unionista, com eleitores protestantes) e o Sinn Fein (maioritariamente republicano, com eleitores católicos) – é o Sinn Fein que apoia a igualdade no casamento. O DUP rejeita-a e tentou mesmo evitar, até 1982, a descriminalização da homossexualidade na Irlanda do Norte. Esta política democrática fala mais alto para a opinião das pessoas no terreno do que a voz de um homem não eleito em Roma.

 

Portanto como vejo o futuro da igreja católica na Irlanda? Já passaram vinte anos desde que Sinead O’Connor desmascarou o escândalo de abusos sexuais e dez anos desde que ele explodiu em força, com exposições em massa de ofensas sexuais históricas dentro da igreja. Vejo agora uma nova geração de jovens que ainda se identificam como católicos, mas que rejeitam alguns dos ensinamentos da igreja. Conheço pessoas que ainda rezam e têm espiritualidade, mas que não a levam necessariamente para as portas de uma capela. Vejo comunidades que agem a partir dos elementos positivos, generosos e de entrega dos ensinamentos católicos, mas deixaram cair as crenças divisionistas e condenatórias que mantiveram este país no medo e mesmo na pobreza, durante os séculos nos quais a igreja monopolizou as instituições irlandesas. Muitos podem dizer que isto soa muito a uma atitude de seleção – de facto é um tipo de reforma – mas é uma reforma para a melhoria do bem-estar e felicidade das pessoas. Então por que não deveria ser assim? Afinal de contas, a fé tem a ver com a felicidade e a religião tornou-se excessivamente numa espécie de controlo.

 

Ainda não é tarde para o Vaticano. Olho para o modo como as autoridades inglesas e a Família Real estão a reformar leis antigas sobre a sucessão e a religião no que toca à igualdade dos homossexuais e vejo como as coisas poderiam ser feitas dentro da igreja católica. Claro que a igreja não deveria ter de mudar de cada vez que ocorre uma mudança social. Quem quereria acreditar em algo, ou alguém, que muda constantemente de opinião? Porém, estas são questões estruturais que já são partes resolvidas nas vidas dos jovens católicos, pelo que a maré mudou – e não voltará atrás. Estas mudanças são perenes e a igreja deveria avaliar a sua posição.

 

Tal como acontece com muitas religiões, é necessário um longo caminho antes de alguém conseguir chegar a Papa. Porém, considerando tratar-se de uma posição de tamanho poder e influência pessoal, julgo que deveria ser mais do tipo presidencial, onde padres mais jovens e bispos pudessem entrar, levando consigo o pensamento das massas. Chamem-me ingénuo, mas tenho um sonho de que os católicos podem ter o seu próprio Obama. Infelizmente, não tenho muita fé de que isso realmente venha a acontecer, mas sem que isso aconteça a igreja enfrenta uma extinção rápida. Agora é o momento para o nosso renascer; a aurora de uma nova atitude social, onde ‘homossexuais’ e ‘católicos´ não sejam mais contraditórios, mas elementos de uma pessoa que caminham de mãos dadas.

 

 

Autor: Ben Kelly

Tradução: José Leote

Artigo original: aqui.