Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Perante o crucificado

Cruz e coroa de espinhos

Detido pelas forças de segurança do Templo, Jesus não tem já dúvida alguma: o Pai não escutou os Seus desejos de continuar a viver; os Seus discípulos fogem procurando a sua própria segurança. Está só. Os Seus projetos desvanecem-se. Espera-O a execução.

O silêncio de Jesus durante as Suas últimas horas é impressionante. No entanto, os evangelistas recolheram algumas palavras Suas na cruz. São muito breves, mas as primeiras gerações cristãs ajudavam-nos a recordar com amor e agradecimento Jesus crucificado.

 

Lucas recolheu aquelas que ele diz enquanto está sendo crucificado. Entre estremecimentos e gritos de dor, consegue pronunciar algumas palavras que descobrem o que há no Seu coração: “Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem”. Assim é Jesus. Pediu aos Seus “amai os vossos inimigos” e “rogai pelos que vos persewguem”. Agora é Ele mesmo quem morre perdoando. Converte a Sua crucificação em perdão.

Esta petição ao Pai pelos que o estão a crucificar é, antes tudo, um gesto sublime de compaixão e de confiança no perdão insondável de Deus. Esta é a grande herança de Jesus para com a humanidade: Não desconfieis nunca de Deus. A Sua misericórdia não tem fim.


Marcos recolhe um grito dramático do crucificado: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”. Estas palavras pronunciadas no meio da solidão e do abandono mais total são de uma sinceridade dolorosa. Jesus sente que o Seu Pai querido o está a abandonar. Por quê? Jesus queixa-se do Seu silêncio. Onde está? Por que se cala?

 

Este grito de Jesus, identificado com todas as vítimas da história, pedindo a Deus alguma explicação a tanta injustiça, abandono e sofrimento, ficam nos lábios do crucificado reclamando uma resposta de Deus mais para lá da morte: Deus nosso, por que nos abandonas? Não vais responder nunca aos gritos e queixumes dos inocentes?

 

Lucas recolhe uma última palavra de Jesus. Apesar da Sua angústia mortal, Jesus mantém até o fim a Sua confiança no Pai. As Suas palavras são agora quase um sussurro: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Nada nem ninguém pode separar-se Dele. O Pai animou o Seu espírito toda a Sua vida. Terminada a Sua missão, Jesus deixa tudo nas Suas mãos. O Pai romperá o Seu silêncio e o ressuscitará.

 

Nesta semana santa vamos celebrar nas nossas comunidades cristãs a Paixão e a Morte do Senhor. Também poderemos meditar em silêncio perante Jesus crucificado, aprofundando as palavras que Ele mesmo pronunciou durante a Sua agonia.

 

Autor: José Antonio Pagola

Tradução: José Leote

Texto original: aqui.