Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Ainda sobre as palavras do cardeal Antonelli

O cardeal Antonelli, presidente do Conselho Pontifício para a Família… fez questão de fomentar a clivagem pretendida pela hierarquia católica. Permito-me dar duas achegas sobre este tópico. O cardeal tenta criar uma oposição entre uma suposta natureza «privada» da relação homossexual e uma natureza pública (e de interesse público) da relação heterossexual. Esta falsa oposição, certamente explorável por muita teologia conservadora, é suscetível de vir a criar «linhas de pensamento» que os media não hesitarão em replicar, quanto maior o facilitismo das fórmulas e dos slogans a que os seus seguidores derem forma. Por isso gostaria de chamar a atenção para dois aspetos do seu discurso que me parecem gritantes.


«A relação homossexual não entra neste campo social. É, portanto, uma questão privada. O legislador comete um erro antropológico quando quer organizar socialmente a homossexualidade.» (Cardeal Antonelli, presidente do Conselho Pontifício para a Família).


A relação homo não pode, de forma natural, em certa aceção do que é «natural», procriar, mas de formas mais ou menos naturais já o pode fazer. Por vias artificiais, também há bastante tempo que o pode fazer (como para ir à missa podem os católicos ir de forma «natural» pelo seu pé, ou de forma «artificial», de automóvel).

 

Contudo, tal como as outras, a relação homo pode criar Vida, porque a criação de Vida não se resume ao facto biológico da sua conceção. A Igreja deveria ser a primeira a compreender que a relação homossexual é tão geradora de Vida como qualquer outra, porque a Criação pressupõe, antes de tudo, o Amor (“Eu vim para que tenham Vida, e para que a tenham em abundância”).

 

Pelo que estas palavras do cardeal Antonelli, que nem são das mais extremistas que temos, nos trazem mais do mesmo em termos da igreja míope em relação à forma como uma Pessoa é Pessoa no mundo. Para a Igreja interessa a fabricação de crianças, a sua conceção, na estropiada conceção do «crescei e multiplicai-vos», isto é, produzi, logo se vê se isso é conjunturalmente bom, se a família, a cidade, o país, o planeta vos podem sustentar e permitir a dignidade humana, se a vossa vida será digna para a Humanidade. Além do disparate que isto significa, continua a ser difícil perceber onde vem esta leitura quantitativa do velho axioma, e como pode alguém conceber a Pessoa humana sem atender mais do que ao facto biológico, às condições de crescimento e formação das mesmas.

 

 

«A família é um bem comum da humanidade que não se encontra à livre disposição do legislador para responder às reivindicações subjetivas e problemáticas da época atual.» (Cardeal Antonelli, presidente do Conselho Pontifício para a Família).


Não se encontra? A legislação de proteção e segurança social, e boa parte da legislação integrante do direito civil das nações são o quê, senão a materialização dessa livre disponibilidade? Todas as reivindicações que originam factos regulamentares sobre a família, provenham elas da sociedade ou dos políticos, obedecendo a expectativas legítimas ou ilegítimas deste ou daquele ator, são exemplos da disposição razoavelmente livre que o legislador tem sobre essas mesmas famílias.

 

O conceito e o exercício da relação familiar são de facto bens comuns da humanidade mas igualmente bens privados daqueles que os conhecem, vivem e exercem, quer numa perspectiva de crescimento individual, quer de amadurecimento relacional, intra e entre núcleos familiares, numa dimensão simultaneamente pessoal, grupal e social. Desta forma, a família, independentemente da sua forma e intervenientes, enquanto expressão do amor, é uma manifestação do divino e portanto bem comum da humanidade ao mesmo tempo que bem privado de cada um dos seus elementos.

 

E nem sequer é exclusivo dos seres humanos, pois também os animais, seres integrantes da Criação, alimentam estas múltiplas dimensões nos seus relacionamentos. O legislador, enquanto tomador do poder de regulação do interesse coletivo, com maior ou menor legitimidade, atua sobre este bem comum e igualmente individual como atua sobre outros bens comuns e simultaneamente individuais, como sejam a água ou o ar que respiramos e poluímos, os bens naturais, tangíveis ou intangíveis, que Deus nos legou. 

 


NOTA: Ainda que seja um artigo produzido já há algum tempo (aquando das declarações do cardeal Antonelli no discurso de abertura do Congresso de Teologia Pastoral do México, integrado no VI Encontro Mundial da Família) por uma irmã da nossa comunidade, não queremos deixar de o partilhar aqui em primeira mão, porque este ainda mantém toda a sua atualidade.


 

AUTOR: Rosário