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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Amor Homossexual

Há alguns decénios, a reflexão teológica sobre o amor homossexual desenvolveu-se bastante. Dois factores históricos provocaram este inesperado desenvolvimento.

 

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Em primeiro lugar, as ciências psicológicas e antropológicas descobriram que a orientação homossexual não é nem uma doença, nem uma perversão da natureza, mas uma variante absolutamente natural que diz respeito a uma minoria de homens e mulheres.


Durante os anos sessenta e setenta do século passado, organismos profissionais, aí compreendidas associações de médicos, mudaram, por isso, o seu juízo negativo no que se refere ao fenómeno homossexual.


Estas declarações científicas assinalaram uma viragem cultural bastante notável. As grandes tradições religiosas haviam sempre condenado o amor homossexual como uma perversão da natureza. Os pensadores religiosos estavam convencidos que a orientação heterossexual era universal e que os atos homossexuais eram comportamentos anormais, que transgrediam uma lei essencial da natureza humana. É por esta razão que alguns textos bíblicos denunciam o amor homossexual. No século XIX as sociedades modernas também decidiram criminalizar o comportamento homossexual.


Somente em finais do século XIX muitos investigadores reconheceram que a homossexualidade é uma orientação não escolhida e estável de algumas pessoas. Reagindo a esta descoberta, os moralistas, não podendo continuar a reconhecer nos homossexuais pecadores que podiam converter-se, começaram a considerá-los inferiores, enfermos, caracterizados por desordens e privados de equilíbrio psíquico.


Infelizmente, a Igreja católica ainda permaneceu ligada a este ponto no seu ensinamento oficial. Segundo uma Declaração da Congregação para a doutrina da fé, “a condição homossexual é destituída da sua finalidade essencial e indispensável e é, portanto, intrinsecamente desordenada”. Uma declaração mais recente diz-nos que os homossexuais não devem ser ordenados padres porque não são capazes de ter relações sadias com os homens e as mulheres da sua paróquia. Estes juízos oficiais, no entanto, indiferentes aos resultados da pesquisa científica, já não têm nenhuma credibilidade.

 

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A Rumos Novos, uma associação de católicos e católicas LGBT, fundada em Évora em 2008, apresentou a sua própria profissão de fé: “Cremos que os católicos e católicas LGBT são membros do corpo místico de Jesus e fazem parte do povo de Deus. Temos uma dignidade intrínseca, porque Deus nos criou, porque Cristo morreu por nós e porque o Espírito Santo nos santificou com o Batismo, fazendo de nós canais pelos quais o amor de Deus se expande no mundo... Acreditamos que os católicos e as católicas LGBT podem expressar a sua sexualidade através de um modo conforme ao ensinamento de Jesus”.


Desde então, e mesmo antes, nasceram outras associações de gays e lésbicas em diversos países. Há colectâneas de livros e artigos nos quais estes católicos contam e analisam a sua experiência religiosa e apresentam reflexões teológicas fundadas na sua leitura da Bíblia. Neste esforço de repensar a sua tradição, estes católicos são acompanhados por gays protestantes, judeus e muçulmanos. Segundo eles, ter fé quer dizer aceitar a própria orientação sexual como um dom de Deus.


O Deus do universo, que criou uma maioria de pessoas heterossexuais, decide criar uma minoria de pessoas homossexuais. Ao invés de se lamentar diante do seu criador, estes cristãos homossexuais têm orgulho da orientação sexual que Deus lhes deu e vivem o Eros do amor ao seu modo, seguindo o ensinamento de Jesus. Nas suas relações amorosas querem permanecer fiéis à vida espiritual, superar seu próprio egoísmo, abrir-se ao amor altruísta pelo outro, recusar a dominação e a dependência psicológica, praticar a reciprocidade e a partilha.

 

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Muitos teólogos reconhecem hoje que a reflexão moral sobre o amor homossexual não é autêntica se não são lidos os escritos dos cristãos gays e se não é tomado a sério o testemunho da sua fé. Todavia, estes teólogos dão-se conta que a posição defendida pelos católicos e católicas LGBT contradiz o ensinamento oficial da Igreja católica. Os teólogos sabem, ao mesmo tempo, que a Igreja, condicionada por novas experiências religiosas, por descobertas científicas e por uma releitura dos textos bíblicos, mudou, com frequência, o seu ensinamento. Nós não cremos mais no “fora da Igreja não há salvação”, doutrina enunciada pelos concílios do passado, não aceitamos mais a existência do limbo, pregado por séculos, apoiamos a liberdade religiosa e os direitos humanos, embora estas ideias tenham sido severamente condenadas pelos Papas do século XIX, estamos conscientes que a Igreja mudou o seu ensinamento sobre a tortura e a pena de morte, e assim por diante. É, pois, absolutamente razoável pensar que num destes dias a Igreja também mude a sua ética sexual.

 

Tradução/ Adaptação: José Leote

Texto original:Gregory Baum