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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos Homossexuais Portugueses

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Desafios da Igreja sobre a relação entre espiritualidade e sexualidade

André Musskopf

As declarações do Papa Francisco sobre os homossexuais, como este assunto repercute dentro e fora da Igreja Católica, relação entre sexualidade e espiritualidade, juventude, diferenças de gênero e o atual papel da mulher são alguns dos temas tratados pelo teólogo André S. Musskopf em entrevista ao site do I Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora. Ele pontua alguns dos desafios que a Igreja Católica terá que enfrentar, já que está sendo impelida cada vez mais a abordar assuntos considerados polêmicos, e conversou sobre como "mudanças doutrinárias" poderão ser implantadas sem que se fira nenhum dos princípios orientadores da ética teológica católica romana.

 

 

1. Senhor Musskopf, o Papa Francisco surpreendeu a comunidade católica mundial ao declarar que não julgaria os homossexuais que possuem uma vivência cristã, adotando uma postura diferente de seus antecessores. Para o senhor, essa declaração do Papa veio para aliviar a Igreja de pressões midiáticas imediatas ou representa um discurso verdadeiro de tolerância?

 

É muito difícil dizer ao certo. Mesmo que se trate de uma declaração para aliviar as pressões midiáticas, o significando e a repercussão dela estão para além do controle do Papa, da Igreja ou da própria mídia. O certo é que ela não muda, em princípio, nenhuma das regras da Igreja definida pelos seus documentos. Então, de fato, não há mudança real por parte da Igreja. Há teólogos/as que têm argumentado que algumas brechas têm sido abertas a partir do raciocínio teológico expresso em alguns documentos recentes do Vaticano, mas não vejo essa repercussão na vida cotidiana dos/as fieis, os/as quais, vão construindo seus significados muitas vezes apesar do Papa ou da Igreja. Por outro lado, a repercussão das falas do Papa, no sentido de que demonstram uma abertura tem, sem dúvida, animado muitas pessoas, especialmente aquelas ligadas à Igreja Católica Romana, e que esperam por mudanças significativas. Todos/as sabemos que não será um anúncio ou uma encíclica que determinará o respeito à diversidade sexual ou mesmo o fim da homofobia, na Igreja e na sociedade. Mudanças muito mais profundas terão que ser realizadas para que a Igreja deixe de ser uma engrenagem do atual sistema político e econômico que vitimiza pessoas, grupos e povos, e assuma o papel profético que lhe cabe. A abertura para a participação efetiva de pessoas homossexuais pode ser um dos sinais de um novo caminho, mas para que voltemos a sonhar com uma "igreja pobre" desafios muito maiores e estruturais deverão ser enfrentados.

 

 

2. Ainda em relação aos homossexuais, deve haver alguma mudança doutrinária na Igreja nos próximos anos?

 

Não conheço suficientemente a estrutura e as forças atuantes no interior da Igreja Católica Romana. Entendo que isso dependerá da capacidade de organização e pressão das comunidades que compõem a igreja, no sentido de que seja inevitável uma mudança de postura, inclusive doutrinária. A Igreja, assim como outras estruturas, geralmente reagem a qualquer força que possa ameaçar o seu lugar e o seu poder nas sociedades. É possível que se chegue à conclusão de que é melhor ceder nesse ponto para manter o poder em outros e seguir refletindo e promovendo uma determinada forma de manter as coisas como estão, como já foi o caso em muitas situações do passado e do presente. Então se encontrará formas de justificar essas "mudanças doutrinárias" sem que se fira nenhum dos princípios orientadores da ética teológica católica romana, inclusive o da infalibilidade papal, e há teologia já escrita e produzida para isso há décadas. Acessá-la é uma questão de vontade e compromisso, ou simplesmente conveniência. Por outro lado, se acreditamos no poder do Espírito Santo, devemos sempre contar com a possibilidade de que seu sopro anime não apenas os doutores da lei, mas principalmente as comunidades e que elas, fortalecidas por esse Espírito promovam as verdadeiras mudanças necessárias na vida da igreja, ali onde ela acontece, no bairro, na vila, embaixo da árvore, ou até mesmo em igrejas e catedrais. Por isso oramos.

 

 

3. "Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne". Gênesis 2:24. Durante muito tempo nosso corpo material foi entendido como fonte de pecado, e, como tanto, negado com veemência. Atualmente, como é entendida e estudada esta relação entre sexualidade e espiritualidade?

 

Há muitas vertentes e tentar situá-las e definir suas origens e seus alcances é sempre um empreendimento inglório, especialmente num espaço reduzido como esse. Sem dúvida as tradições do passado nos ajudam e são fundamentais como parte da elaboração de quem somos e quem queremos ser hoje. Não há, no entanto, fundamento ético mais importante do que as nossas próprias relações, experiências e qual o sentido e valor que atribuiremos a elas hoje. Essa é a tarefa de cada nova geração, que tem a incumbência e a possibilidade de ler os sinais de seu tempo, corrigir erros do passado e apontar novos caminhos para quem vem depois. A ideia de pecaminosidade ligada à materialidade do corpo (fundamentalmente na sua dimensão erótica, afetiva e sexual) sem dúvida se deve à incorporação de algumas questões filosóficas gregas no pensamento cristão dos primeiros séculos. Haverá quem discuta isso, quem dirá que a culpa não é dos gregos, que essas questões podem ser biblicamente comprovadas, que as leituras feitas por alguns teólogos na história da igreja é que nos levou para esse caminho. A fragmentação do ser humano (em corpo e alma/razão, por exemplo) desempenha um papel importante na criação dessa dicotomia entre o que é bom (alma/razão) e ruim (corpo), sendo que o primeiro deve controlar o segundo para a possibilidade da virtude. As consequências são auto evidentes. Este tipo de argumentação continua viva e forte. Mas, além dessas, outras linhas de estudo e pesquisa tem desenvolvido propostas interessantes para romper com a dita dicotomia, olhar para as pessoas e suas relações de maneira mais integral, entendendo que sexualidade e espiritualidade estão intrinsecamente conectadas. A partir da Teoria e Teologia Queer (Indecente) por exemplo, argumenta-se que a sexualidade (entendida em sua forma mais ampla, no sentido daquilo que motiva e interliga as nossas relações) é um elemento fundante para entender as formas como construímos nossas relações, nossas formas de organização social e nossas instituições. Nesse sentido, relações amorosas e eróticas que promovem o encontro livre e incondicional expressam da maneira mais profunda a nossa espiritualidade e aquilo que podemos chamar de transcendência (que em seu sentido corrente é entendida como algo exterior ao ser humano e à vida em geral, mas que pode ser compreendido como a força vital que nos aproxima, nos entrelaça e faz com que, em nossas relações - com Deus, com as outras pessoas e com todo o cosmos - sejam boas), criando condições de vida sustentáveis, responsáveis e prazerosas para toda a criação.

 

 

Nota: Texto em português do Brasil.

Artigo integral original: aqui.

 

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