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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Islão e Homossexualidade

Convoco os teólogos muçulmanos a rever as suas atitudes para com a diversidade humana e emendar as leis da Sharia

 

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A Sharia do Islão está baseada no texto corânico e nos ensinamentos e ações do profeta Maomé (que a paz esteja com Ele), recolhidos em livros chamados Hadith. Em ambas as fontes, faz-se referência à história de Sodoma e Gomorra, a qual constitui a base para a lei e a condenação contundente da homossexualidade no Islão. O raciocínio analógico (qiyaas) e o consenso dos peritos académicos (ijma’) baseiam-se nos dois textos prévios e na sua própria interpretação. Pede-se aos académicos muçulmanos contemporâneos que revejam esses textos e o contexto no qual se revelou, e ver como se relaciona com a homossexualidade no contexto actual tanto no Ocidente, como no Oriente, assim como no contexto islâmico contemporâneo. Isto pode-se fazer através do processo de raciocínio independente (Ijtihad) que é um aspeto do pensamento islâmico e da reforma legal que foi proposta e esquecida durante muito tempo.

 

O profeta Maomé (pbuh) nunca se referiu à homossexualidade de forma directa. Nem reclamou o castigo ou a perseguição de pessoas homossexuais devido à sua orientação sexual. O profeta Maomé referiu-se a um grupo de homens afeminados em Medina chamados “Mukhannathun”. Contudo, na medida em que este grupo de Mukhannathun tinha qualidades de homens gays modernos, não se pode afirmar que “o profeta Maomé nunca teve que ver com a homossexualidade de forma directa, nem reclamou a perseguição ou o castigo das pessoas homossexuais devido à sua orientação sexual”.

 

Os Mukhannathun representam claramente os homens gays modernos, já que estiveram envolvidos em práticas nada comuns aos gays contemporâneos. O profeta chegou a proibir a alguns deles trabalhar nos quartos das mulheres dos lares muçulmanos e deportou a um deles para fora de Medina. Tudo isto se fez com base nas suas ações imorais e contra a religião, mas nunca pela sua orientação sexual.

 

Esta atitude para com os Mukhannathun  e outros homens afeminados continuou nos períodos Omeya (661 – 750) e Abasida (758-1258) durante aproximadamente seiscentos anos depois da morte do profeta Maomé. Assim, encontramos uma atitude tolerante para com a homossexualidade nestes períodos. A poesia homossexual, como a escrita pelo homossexual Abu Nawas (813), floresceu durante este período no reino do Califa Harun Al-Rashid.

 

Sem a história de Sodoma e Gomorra, que se crê que se refere à “homossexualidade perversa”, seria difícil para os muçulmanos formular uma opinião sobre a homossexualidade. Se se pode provar, fora de toda a dúvida, que esta história se refere à violação homem-homem ou ao sexo anal sem consentimento, o argumento de que os homossexuais merecem o mesmo castigo que Sodoma e Gomorra cairia pelo seu próprio peso.

 

Na minha investigação dos últimos oito anos reuni os achados arqueológicos de investigadores como Ron Wyatt e as tradições do Antigo e Novo Testamento para ter um quadro da estrutura social, politica e religiosa de Sodoma e Gomorra. Com esta informação esclarece-se a história contada no Corão.

 

É evidente que os habitantes de Sodoma e Gomorra não foram homossexuais tal como entendemos o fenómeno hoje em dia, mas antes, homens aristocratas heterossexuais que tinham a mesma liberdade sexual que os homens heterossexuais no século V em Atenas e no século VII na Arábia.

 

Liberdades que serviam as necessidades egoístas e do poder do patriarcado; liberdades que lhes permitiram ter encontros sexuais com um conjunto amplo de indivíduos, desde animais até ao direito de um homem de violar uma mulher e de ter sexo com uma criança, e ao mesmo tempo ter contraído matrimónio com uma mulher aristocrática, a qual poderia criar filhos legítimos e proteger a linhagem.

 

O sexo anal praticou-se dentro de tais liberdades em Sodoma e Gomorra, com homens que não provinham necessariamente da comunidade, mas eram estrangeiros e hóspedes frente a quem estavam obrigados a mostrar hospitalidade, segundo a lei do profeta Abraham.

 

Inicialmente, este ato foi pensado para os humilhar, para demostrar domínio sobre eles e evitar que regressassem às suas cidades, das quais se pensava que possuíam recursos valiosos que não podiam ser partilhados com forasteiros.

 

Este ato de sexo anal sem consentimento, uma desgraça para um homem heterossexual, foi finalmente presenciado por Deus quando enviou dois anjos seus disfarçados de jovens para visitar Lot como hóspedes. Quando se teve esta notícia na comunidade, correram à casa de Lot para exigir que lhes entregassem esses homens. Foi então quando os anjos revelaram que pela manhã Sodoma e Gomorra seriam destruídas e que Lot se devia preparar com a sua família para o êxodo antes do amanhecer.

 

É claro pela investigação que a natureza da atrocidade sexual cometida não foi a do mútuo consentimento ou a homossexualidade, embora esta pudesse ter sido praticada, mas a do abuso de um poder sexual que se poderia descrever como violação de homem contra homem. A muito repetida história no Corão sobre os anjos, que aparecem como jovens para provar à gente de Lot, indica que a interação sexual não foi por consentimento mútuo, mas por violação.

 

Num Hadith escrito por Abu Hurairah e gravado por Abu Dawood: um dia um Mukannath, muçulmano praticante, mas que obviamente vestia roupas de mulher e levava mãos pintadas, foi levado ante o Profeta e os seus companheiros lhe pediram permissão para o matar, mas este rejeitou dizendo “ é-me proibido matar aqueles que rezam”; em troca, foi exiliado a Al-Naqi, poucas milhas nos arredores de Medina. Ainda depois do seu exílio, o Profeta permitiu-lhe entrar em Medina uma vez por semana para cobrir as suas necessidades pessoais. Este Hadith deveria ser considerado por aqueles que justificam matar homossexuais ou ainda pessoas transgénero.

 

Também vemos que em Sahih Bukhari e em Sahih Muslim, que se consideram as compilações mais autênticas das palavras e atos do profeta, não se condena, em absoluto, este grupo particular de Khannaath. A única referência sobre os encontros sexuais entre pessoas do mesmo sexo é essa sobre a cidade de Lot.

 

Agora sabemos que se referia ao grave pecado de abusar do poder sexual e da violação de homem a homem e não a condenação de uma orientação ou identidade homossexual que tem sido um fenómeno natural desde tempos imemoriais.

 

Em conclusão, convoco os teólogos muçulmanos a rever as suas atitudes para com a diversidade humana e emendar as leis da Sharia para que incluam a proteção e os direitos de este grupo diverso de pessoas.

 

Deus disse no Corão:
Ó humanidade! Criámos-te da união de um homem e uma mulher, e fizemos-te em nações e tribos (Shu-ub significa também partes, seitas ou divisões e Qabeel diferentes tipos o espécies), para que possam conhecer-se um ao outro. Também, o mais nobre de vós ante Deus é o mais profundamente consciente de Deus e quem pratica a autocontenção. Na verdade Deus é omnisciente, omniconsciente.(Corão 49:13)

 

Dizei: “Todos agem de acordo com a sua própria “shakl” (disposição, espécimen ou forma) e Deus sabe quem se guia pelo caminho".  (Corão 17:84)

 

 

Autor: Imã Muhsin Hendricks

Tradução (do espanhol): Aníbal Liberal Neves

Artido (em espanhol): aqui.