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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos Homossexuais Portugueses

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Magistério Católico: Algumas Respostas

Texto que retiramos do nosso site (http://rumosnovos.org):

Excluídos do Povo de Deus? (O Problema da Homosexualitatis Problema da Congregação para a Doutrina da Fé)

No primeiro documento da igreja dedicado ao tema das relações homossexuais «Homosexualitatis Problema», o «Problema da Homossexualidade», Bento XVI cita dois versículos do Levítico que parecem condenar os relacionamentos homossexuais, para depois saltar para a afirmação sem fundamento que, porque aqueles versículos descrevem tais ações como uma «abominação», as pessoas aí descritas se encontram «excluídas do Reino de Deus».

Se fossemos aceitar este raciocínio tal como ele nos é proposto, deveríamos ser igualmente capazes de o aplicar a outros comportamentos que são igualmente descritos como «abominações» e, desta forma, descobrir quem mais se encontra «excluído do Reino de Deus».

 

Estes versículos incluem na sua condenação aqueles bem conhecidos pecadores de má fama como os que comem marisco e carne de coelho; aqueles que se vestem com roupas de tecidos mistos e aqueles que se barbeiam. Para sermos consistentes, tomando por base o argumento atrás apresentado, somente nos restam duas opções: ou aceitamos que a maioria do clero também se encontra «excluída do povo de Deus», ou temos de aceitar que o raciocínio apresenta falhas. 

 

«Homosexualitatis Problema» conclui com dois maravilhosos versículos da Sagrada Escritura: «Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará» (Jo 8, 32) e «realizar a verdade na caridade (cfr. Ef 4, 15), ambos versículos profundos que subscrevemos. O que nos incomoda, é a falsidade, a desonestidade total, de um documento que pretende ser sobre a "verdade", mas em vez disso reforça alegações (pois isso é o que elas são: alegações, argumentos não fundamentados) com uma longa série de falsidades que saltam à vista.

 

Poderíamos aceitar, de boa-fé, um documento que nos submetesse exigências e as apoiasse num raciocínio claro. Infelizmente, este documento não o faz. Fornece-nos antes um excelente exemplo do estilo retórico típico da igreja: apresentar afirmações como sendo inquestionavelmente verdadeiras, sem necessidade de qualquer justificação e depois forçando-nos à submissão através da mera força da repetição. Aqui deixamos exemplos das afirmações feitas precisamente desta forma, sem demonstração, e que facilmente se podem demonstrar ser incorretas:

«Em Levítico 18, 22 e 20, 13, quando se indica as condições necessárias para se
pertencer ao povo eleito, o Autor exclui do povo de Deus os que têm um comportamento
homossexual.»

Estes versículos do Levítico são bem conhecidos e é indesculpável que são tão grosseiramente deturpados. Eles não condenam aqueles «que se comportam de modo homossexual», mas um conjunto mais estrito de comportamentos: homens que se deitam com homens «como o fazem com as mulheres». Não condena as relações entre as mulheres, nem condena outro tipo de «comportamento homossexual», como por exemplo, carícias, ou cuidar da casa, ou cozinhar, ou amor e apoio mútuos, ou a dança, ou … Mas e o que é comportamento «de modo homossexual»?

«Não pode haver dúvidas quanto ao julgamento moral aí expresso (em Génesis 19,
na história de Sodoma) contra as relações homossexuais.»

Repare-se que isto não é somente uma pretensão de que a história é uma condenação das «relações homossexuais». É muito mais forte e diz que «não pode haver dúvida». Na realidade, o oposto é verdadeiro: há, na verdade, muitas dúvidas. Não há somente «dúvida», mas mesmo negação absoluta. Muitos estudiosos bíblicos reputados realçam atualmente que não existe qualquer condenação da homossexualidade em parte alguma do Génesis 19. A história, tal como é contada no Génesis, não identifica o infame «pecado de Sodoma», mas este é identificado noutro lugar e não é a «homossexualidade».

 

O documento continua a defender que «existe uma evidente coerência no interior das mesmas Escrituras no que diz respeito ao comportamento homossexual.» Isto é um disparate. Ao longo de mais de 30000 versículos das Escrituras, somente meia-dúzia parecem criticar alguns comportamentos homossexuais e mesmo estes versículos estão envoltos em controvérsia. (Mais de 300 versículos contêm admonições contra o comportamento heterossexual).

«O ensinamento da Igreja de hoje encontra-se, portanto, em continuidade orgânica
com a visão contida na Sagrada Escritura e com a constante tradição.»

O Vaticano gosta de repetir esta frase sobre a «constante tradição» (ou tradição «imutável») no que se refere às «relações homossexuais». Na realidade, não existe «constante» tradição, quando olhamos a longo prazo sobre a História. Há sim «continuidade orgânica», que tem mudado substancialmente ao longo dos dois milénios de história, tal como o ensinamento tem mudado em muitas outras coisas: escravatura, usura, sujeição das mulheres à vontade dos maridos; natureza sacramental do casamento e necessidade da sua solenização na igreja (outrora somente requerida para padres), celibato obrigatório dos padres, …

 

Sobre a homossexualidade, historiadores como James Boswell, Mark Jordan e Alan Bray mostraram o quanto o ensinamento evoluiu e mudou ao longo dos séculos.

A perspetiva da igreja «encontra apoio também nos resultados seguros das ciências
humanas».

Não é assim. As ciências humanas, tal como as ciências naturais e sociais, mostram claramente a visão oposta. Os zoólogos mostraram que o comportamento homossexual ocorre por todo o reino animal. Os Psicólogos encontraram diferenças entre os cérebros das pessoas hétero e homossexuais. As associações profissionais dos médicos e psiquiatras estão de acordo em como a homossexualidade não é uma patologia ou qualquer variante “anormal”. A antropologia e a história social mostram o mesmo… Nenhuma destas ciências naturais apoia a perspetiva da igreja, como o documento pretende fazer crer. Notemos, contudo, o estilo retórico difuso: não pretende reclamar que todos os ramos da ciência o apoiam, somente que os «resultados seguros das ciências humanas» o fazem. Por outras palavras, as descobertas que efetivamente apoiam o ensinamento da igreja são «seguras», as que não o fazem podem simplesmente ser ignoradas como inseguras, independentemente de quais sejam os pontos de vista da comunidade científica, como um todo.

A «atividade homossexual impede a autorrealização e a felicidade porque contrária
à sabedoria criadora de Deus.»

Esta afirmação ultrajante é daquelas em que a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) gostaria, sem margem para dúvida, de acreditar, mas que não possui qualquer base para a sua aceitação, nem sequer é fornecida qualquer justificação. Por outro lado, existem duas razões óbvias para a sua rejeição, pelo menos quando aplicada a pessoas com uma orientação homossexual natural. Primeiro, se estas é a forma pela qual fomos feitos pelo Criador, como é que a sua expressão pode ser «contrária à sabedoria criadora de Deus»? Deus não comete erros. Acreditará verdadeiramente a CDF que somos chamados a reparar de alguma forma os erros de Deus? A verdade aqui presente, como frequentemente acontece neste documento, é precisamente a oposta à que é apresentada. As lições da psicoterapia são claras: aquilo que é perigoso para a saúde mental e evita a realização e a felicidade humanas é a negação da identidade e verdade individuais, incluindo a identidade sexual.

Estas são as falsidades mais óbvias e claras presentas na firmação. Existem outras que são menos relevantes, mas igualmente enganadoras.

São Paulo, em 1 Coríntios 6, 9 «repropõe a mesma doutrina, elencando também
entre aqueles que não entrarão no reino de Deus os que agem como homossexuais».

Este texto não lista aqueles «que se comportam de modo homossexual». Lista antes os «malakoi» e os «arsenekotoi». Sabes o que isso significa? Não? Nem o sabe igualmente ninguém. A tradução exata destes termos sempre tem intrigado os estudiosos da Bíblia, porque o seu significado é pouco claro, mas pode estar ligado à idolatria, ou à prática algumas vezes descrita (de forma pouco precisa) como «prostituição do templo». Certamente que não se refere a pessoas que se comportam de «modo homossexual», o que quer que isso signifique.

1 Timóteo 10 menciona «explicitamente como pecadores aqueles que praticam atos
homossexuais».

Novamente, isso não é verdade. Menciona «explicitamente» os «malakoi».

 

Existem inúmeros outros truques de retórica utilizados pelo Cardeal Ratzinger neste documento, onde a partir da escolha da linguagem e de falsos contrastes ele começa, por exemplo, por contrastar os «atos homossexuais» com as «relações conjugais». Quando, em abono da verdade, deveria comparar «atos conjugais», com todas as suas associações com um casamento de amor. Claro está que não o faz. Ele ignora totalmente todas as considerações a tais relacionamentos de amor entre pessoas do mesmo sexo, escrevendo somente sobre atos e comportamento «homossexuais» (historicamente, um termo clínico); sobre a «condição homossexual» e sobre a «desordem».

 

O próprio título do documento é enganador. Designa-se «Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o Atendimento Pastoral das Pessoas Homossexuais», mas o título formal do documento é «Homosexualitatis Problema», apresentando simplesmente a homossexualidade como um problema. O que não é verdade. O único problema aqui presente é a total incapacidade do Vaticano em compreender, ou mesmo tentar compreender, o «problema».

 

Mesmo a escolha dos versículos das Escrituras diz-nos: «Conhecereis a verdade», conclui o documento. Porém, e quanto ao escutar? Para uma igreja que se proclama ser uma «igreja que escuta», disso não há uma réstia de prova neste documento, que os autores tenham feito qualquer tentativa de escutar as pessoas que sabem mais sobre este assunto: aqueles que aprenderam a partir da sua própria experiência pessoal o que é ter uma orientação homoerótica.

 

O verdadeiro motivo que se esconde atrás da carta, que nos deve preocupar a todos, nada tem a ver com o «cuidado pastoral», nem com «falar a verdade». Em vez disso, como o próprio texto da carta deixa bem claro, o verdadeiro objetivo é simplesmente o controle. Este é refletido na negação consistente do documento em relação à validade de quaisquer conclusões que divirjam das suas: se a ciência não corrobora, então não é «segura»; se a exegeses das Escrituras está em conflito com o Magistério, então os estudiosos da Bíblia estão errados. Parece que nada deve ser aceite, a menos que esteja de acordo com a visão do autor acerca da «verdade» da igreja. Divergência, debate, discussão são simplesmente descartados. (Lembremo-nos que na origem da CDF esteve a infame Inquisição, que mandou executar milhares de alegados homossexuais, normalmente na fogueira, entre os séculos após a Alta Idade Média e o início da Reforma. Ao contrário de outras atrocidades na história da igreja, esta é uma em relação à qual ainda não houve um pedido oficial de desculpas).

 

As mentiras, meias-verdades e destreza retórica desagradável que a CDF utilizou numa tentativa de estigmatizar e condenar as relações amorosas estáveis entre pessoas do mesmo sexo, sob o pretexto do cuidado pastoral e de falar a verdade, mais não podem ser encarados do que um ato hostil contra uma pequena minoria.

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