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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

O amor de Deus não é diminuído pela orientação sexual de uma pessoa

Afirmar que uma pessoa homossexual é, de alguma forma, menos humana, menos perfeita ou moral, está totalmente errado, escreve o Frei Tony Flannery

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O próximo Referendo sobre a Igualdade no Casamento [na Irlanda] não é a primeira vez que católicos comprometidos da minha geração têm sido confrontados com questões morais significativas sobre a forma como votaríamos. É um bom exercício, porque nos ajuda a clarificar por nós mesmos aquilo em que exatamente acreditamos e onde nos encontramos.

Tal como em todos os outros debates sociais que tivemos ao longo dos últimos 40 anos, não existem respostas claras preto no branco, porque cada uma delas, à sua maneira, aborda um tema que preocupa profundamente os seres humanos e onde o ser humano enquanto indivíduo está preocupado, e as respostas tipo preto e branco não são aqui muito úteis: a condição humana não cabe facilmente na apreciação rígida.

Tendo considerado a questão que nos é apresentada neste momento e depois de ter escutado o debate até aqui produzido e de ter pensado muito sobre o tema, irei votar Sim. Não considero que esta decisão esteja em conflito com a minha fé, ou com a minha função como padre.

Foi reconhecido pela maioria dos grandes pensadores na Igreja e está atualmente a ser realçado novamente pelo Papa, que existe uma hierarquia de ensinamentos, ou de valores, na Igreja Católica. Por outras palavras, nem todo o ensinamento encerra em si a mesma ordem de significado.

O casamento é sem margem para dúvida importante, quer para o ordenamento correto da sociedade civil, como para a vida moral. Porém, a Igreja somente declarou o casamento como sacramento no século XIII. Antes dessa época, era uma instituição civil e, frequentemente para as classes dirigentes, política. Agora é-nos pedido que concedamos autorização às pessoas com atração por pessoas do mesmo sexo para casar com a pessoa que amam.

Sobre o argumento se a orientação para pessoas do mesmo sexo faz parte do plano da natureza ou se é consequência de experiências culturais ou familiares, por outras palavras natureza ou criação, acredito firmemente que, embora possam existir, em casos particulares, influências do modo como a pessoa é criada, ela é definitivamente parte da ordem natural.

Em consequência, não posso aceitar que qualquer forma de culpa ou falta moral possa ser atribuída a alguém que é homossexual. É a forma como Deus criou essas pessoas, e parte do seu plano para a sua vida, ou, como poderíamos dizer, parte da mão de cartas que lhes foi dada. Portanto, sugerir que uma pessoa homossexual é, de qualquer forma, menos humana, menos perfeita ou menos moral, está totalmente errado. Estas pessoas têm tanto direito à sua dignidade enquanto seres humanos como qualquer outro.

O amor de Deus por essas pessoas não se encontra diminuído pelo facto de serem homossexuais. Temos de ser honestos e admitir que os ensinamentos de muitas Igrejas Cristãs no que respeita a qualquer forma de contacto entre pessoas do mesmo sexo não tem servido de qualquer ajuda. Isto, em parte, pode ser desculpado em gerações anteriores devido a uma falta de conhecimento e compreensão da orientação sexual. Porém, afirmações mais recentes da Igreja Católica, que incluem frases como “intrinsecamente maus” e “intrinsecamente desordenados”, não podem refugiar-se nessa desculpa.

Não há margem para dúvida que estas afirmações foram a causa de uma dor profunda e fizeram com que muitas pessoas homossexuais não se sentissem bem-vindas na Igreja; que se sentissem como pessoas de uma dignidade menor, devido à sua orientação. Por isto, a Igreja, a meu ver, está condenada pelos ensinamentos do Evangelho. Não fizemos muitos progressos.

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O ensinamento atual da Igreja Católica afirma que não há qualquer falha moral em sentir-se atraído por uma pessoa do mesmo sexo, mas que qualquer expressão física dessa atração é gravemente pecadora. Acho isto difícil de aceitar.

A expressão sexual desempenha um papel muito importante no crescimento e aprofundamento do amor entre duas pessoas e no grau como duas pessoas do mesmo sexo, criadas por Deus para se amarem. Afirmar que estas pessoas não podem exprimir fisicamente esse amor, sob a ameaça de pecado mortal ou condenação eterna, é uma forma desumana de ensinamento.

Saímos de um período da Igreja que classifico como doutrinário, quando a observância rígida da doutrina parecia ser a bitola para medir a forma como vivíamos a nossa vida cristã. Para mim, isso sempre me pareceu mais a atitude dos mestres do tempo de Jesus, do que aquilo que ele mesmo proclamou.

O Papa Francisco fez-nos regressar a alguns dos ensinamentos básicos de Jesus. Ele diz-nos constantemente que o amor, compaixão e misericórdia são as atitudes cristãs fundamentais…

 

Tradução: José Leote

Artigo Original: aqui.