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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos Homossexuais Portugueses

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Papa contra igualdade no casamento?

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Muitos me manifestaram o seu desagrado, perplexidade ou indignação com as palavras do Papa em Manila.

Não é minha intenção defender o Papa. Estes dias todos somos acérrimos defensores da liberdade de expressão... Nem creio que tão pouco ninguém duvidará da minha defesa do casamento igualitário, nem da causa LGTBI.

Creio que há uma premissa principal: unir ideologia colonizadora com casamento igualitário, é no meu entender precipitado: melhor, relativismo, cultura do efémero, e não abertura à vida referem-se à mudança, que se está dando na Ásia, da cultura familiar do Ocidente com as políticas anti-natalidade, o divórcio express, os anticoncecionais, etc. Mas creio que em nenhum momento há de ser um discurso tão eufórico para uns e tão desalentador para outros.

Aí vão as minhas reflexões para quem tenha tempo e vontade de dialogar, porque para Sócrates o diálogo é o único caminho de chegar à verdade...

Aí vai...

Não vou a entrar no que o Papa realmente pensa e não diz e diz e não pensa. Mas sim, quero comentar o que diz e o que não diz.

Creio que é a única, ou talvez das pouquíssimas vezes, que num discurso oficial sobre a família, não se fala de que a única, a de verdade, é a formada por um homem e uma mulher. Compreende-se, mas já não se insiste. É uma ausência, que num discurso de um Papa defendendo a “família tradicional”, é tudo menos curiosa. Estarão começando a entender que há outras famílias?

Mas não me quero deter nas ausências, que as há, mas nos novos acentos, que não necessariamente negam outros, mas recalcam estes, que até agora pareciam ficar na sombra, e quem sabe são a substância do matrimónio “cristão”.

Família, Igreja doméstica onde se reza, se vive a fraternidade e a entrega: “Onde primeiro aprendemos a rezar é na família. Ali conseguimos conhecer Deus, crescer como homens e mulheres de fé, ver-nos como membros da grande família de Deus, a Igreja. Na família aprendemos a amar, a perdoar, a ser generosos e abertos, não fechados e egoístas. Aprendemos a ir mais além das nossas próprias necessidades, para encontrar os outros e partilhar as nossas vidas com eles. Por isso é tão importante rezar em família. Por isso as famílias são tão importantes no plano de Deus sobre a Igreja. Crescer com Jesus e Maria”. O substancial do discurso familiar é se na comunidade familiar se dá o amor cristão em todas as suas vertentes. Por muito canónico que seja um casamento, e por muitos filhos que tenham, e muito fieis que sexualmente sejam, se não se dá em plenitude o amor cristão, pode-se falar de família cristã? A esta abordagem respondo dizendo que se a família cristã é isso, a família LGTB também, portanto onde o amor cristão se viva em plenitude poderemos acrescentar o adjetivo cristão independentemente da orientação sexual dos que formem essa comunidade de vida.

Quero parar agora, ainda que brevemente, no parágrafo que mais encheu de euforia os conservadores: “A família vê-se também ameaçada pela crescente tentativa, por parte de alguns, de redefinir a própria instituição do casamento, guiados pelo relativismo, pela cultura do efémero, pela falta de abertura à vida. O nosso mundo necessita boas e fortes famílias para superar estes perigos. Filipinas necessita de famílias santas e unidas para proteger a beleza e a verdade da família no plano de Deus e para que sejam um apoio e exemplo para outras famílias. Toda a ameaça para a família é uma ameaça para a própria sociedade”. No casamento igualitário não se dá uma redefinição do casamento, mas há uma semelhança tão grande que por analogia se toma emprestado o nome de casamento, mas em nenhum momento se redefine, antes se amplia o significado, se assimilam.

Sim, são problemas essa tendência relativista ao considerar o casamento um simples contrato, o efémero do compromisso e o egoísmo. E também são problemas e muito reais, ainda que até agora muito pouco denunciados pelo magistério: “A situação económica provocou a separação das famílias por causa da migração e a procura de emprego, e os problemas financeiros caiem sobre muitos lares. Se, por um lado, demasiadas pessoas vivem em pobreza extrema, outras, pelo contrário, estão presas pelo materialismo e por um estilo de vida que destrói a vida familiar e as mais elementares exigências da moral cristã”. Aqui também todos nos podemos ver retratados, tanto a família “tradicional” como as famílias LGTB.

Já para terminar, referir-se ao casamento igualitário nas Filipinas onde há apenas um ano se aprovaram os anticoncecionais, e onde não existe o divórcio legal parece improvável. Parece mais referir-se às últimas tentativas de legalizar o divórcio e a redução do número de filhos.

Se a alguém ajuda, tranquiliza ou consola continuar pensando no Papa Francisco como Papa bom, ainda que o ressentimento de alguns e a necessidade de outros de o fazer mau, quer apressar-se a proclamar a sua homofobia. Creio que neste caso, não há matéria para chegar a tanto.

 

Tradução (do espanhol): Aníbal Liberal Neves

Autor: Gonzalo Rodriguez Lorenzo

Texto original: aqui.

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