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RUMOS NOVOS - Católicos Homossexuais

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

O Bispo John Stowe presente num encontro de católicos LGBT nos Estados Unidos

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No encontro Stowe afirmou sentir-se pequenino perante aqueles e aquelas que continuaram «uma vida de fé numa igreja que nem sempre os/as acolheu ou valorizou» ou ao seu esforço. Enquanto pastor, é preciso escutar as suas vozes e levar a sério a sua experiência, afirmou, tendo acrescentado que quer a presença quer a persistência dos católicos LGBT o inspiraram.

 

Eles têm mostrado «uma expressão valiosa de misericórdia» ao interpelarem a igreja «a ser mais inclusiva e mais próxima de Cristo, apesar de se lhes darem muitas razões para irem embora», afirmou.

 

O Bispo John Stowe tem esperança e reza «por uma cultura do encontro» que permita assegurar «que possamos tornar-nos copletamente comprometidos com aqueles e aquelas que pretendem viver uma vida católica e que amam a igreja católica... Por que razão quereríamos voltar-lhes as costas?», perguntou.

 

Stowe recuou ao encontro de S. Francisco com o pedinte há 800 anos. No início, o leproso com as suas chagas abertas repeliu-o, mas depois S. Francisco foi capaz de beijar o leproso. «Ele foi transformado por este encontro», disse o bispo.

 

«O nosso modo habitual de pensar é aquele de que justiça e misericórdia são incompatíveis.» disse Stowe. Porém, o Papa Francisco pediu aos católicos para encontrarem novos caminhos para trabalharem em conjunto, para abrirem novas possibilidades e tentarem não fazer juízos uns dos outros, acrescentou. «Todos nós ainda necessitamos de misericórdia. Trata-se da necessidade de conversão de atitudes tanto para a igreja institucional como para os seus membros», disse Stowe.

 

Sobre os funcionários da igreja e outros leigos comprometidos que tem sido afastados devido à sua orientação sexual, Stowe afirmou: «Temos de preservar a nossa tradição e a nossa integridade enquanto igreja. Arriscamo-nos a entrar em contradição sempre que pretendemos que os funcionários da igreja [e outros leigos comprometidos] vivam de acordo com os ensinamentos da igreja e quando nós, enquanto instituição, não vivemos de acordo com o nosso ensinamento, que sempre se opôs a qualquer tipo de discriminação.»

 

Stowe pensa que a igreja pode encontrar um caminho que permita «defender a nossa liberdade religiosa sem violar os direitos humanos de ninguém.» «Temos de ser consistentes, mesmo que isso algumas vezes possa ser difícil.»

 

O desafio é «articular os princípios do Evangelho de forma consistente e implementá-los com compaixão», disse. Algo que a doutrina social da igreja sempre defendeu foi a dignidade de cada ser humano. «Pregamos que o desabrochar do ser humano é um objetivo primordial,» afirmou, «mais importante do que a proteção das nossas instituições.»

 

Stowe afirmou ainda que nas suas muitas visitas a encontros de Crisma, os adolescentes da sua diocese perguntam: «Por que motivo os católicos e as católicas homossexuais não podem ser eles mesmos? Bispo Stowe,por que razão eles não podem amar quem querem?»

 

Ele disse que admira a forma como cada jovem sabe que a igeja acredita no valor intrínseco de cada pessoa. Porém, também sabem que as pessoas LGBT nem sempre são bem acolhidas ou tratadas com justiça na igreja, disse.

 

Ele tenta familiarizá-los com a doutrina da igreja sobre a dignidade de cada ser humano, citando palavras do documento do Concílio do Vaticano II, Gaudium et Spes (a Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Moderno) e outros exemplos. Ele refere como a discriminação conduz à desumanização, frequentemente exteriorizada em bullying, abuso, alguma vezes violência e mesmo morte.

 

«Temos de escutar os nossos jovens e prestar atenção a coisas como estas,» insistiu o bispo.

 

Refletindo sobre Mateus 12, 1-14, o bispo disse aos presentes que nesta leitura da moralidade cristã, ele encontra o valor infinito da pessoa humana para ser «a pedra angular e a fundação que permita determinar a moralidade de um determinado ato ou questão. A moalidade cristã está mais preocupada com o bem-estar da pessoa do que com regras, normas ou ordens. Jesus parece ensinar isto em inúmeras ocasiões», afirmou Stowe.

Os Homossexuais Católicos também são Igreja

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Ser homossexual significa estar arredado da participação ativa na sua comunidade paroquial; significa estar segregado, marginalizado.

 

Será porém este o ensinamento de Cristo? Será que o mesmo Cristo redentor que abençoou os puros de espírito, que chamou a Si todos os cansados e os oprimidos, que chamou todos sem exceção à sua Igreja, pode apelar à segregação? Ao afastamento? à marginalização? Serão mais dignos do amor de Deus todos os demais fiéis que sendo homossexuais não o dizem? Que sendo casados cometem adultério? Não será aqui que reina o pecado? Haverá pecado numa relação de amor e entrega mútua entre duas pessoas que se amam? Se Deus é amor, porque não poderá estar no meio do casal estável de homossexuais?

 

Será que uma igreja que defende um Cristo que veio trazer a nova e eterna Aliança, pelo Novo Testamento, se pode refugiar, quando isso lhe é útil, em livros do Antigo Testamento?

 

Será lícito que uma igreja que defende a interpretação não literal do texto bíblico, se refugie nesse tipo de interpretação quando pretende condenar a homossexualidade?

 

Enfim, será a Igreja instituída por Cristo em Pedro, a primeira pedra, que está errada, ou será a igreja dos homens que peca?

 

Estamos certos que Deus não olhará para a homossexualidade como pecado. Como seria isso possível de acontecer num Deus que ama e ampara todas as criaturas sem exceção? Efetivamente, se a homossexualidade for entendida como a identidade psicossexual dentro das fronteiras de um desenvolvimento humano saudável e psicológico, tendo por significado um relacionamento estável amoroso, então sendo Deus amor, onde há amor verdadeiro Deus está presente e onde Deus está presente não pode existir pecado.

 

Deus criou as pessoas com atracões românticas e físicas por pessoas do mesmo sexo, assim como aquelas com atracões por pessoas do outro sexo. Todos estes sentimentos são naturais e são considerados bons e abençoados por Deus. Logo estes sentimentos e atracões não podem constituir pecado e ser motivo de exclusão dos homossexuais da participação ativa nas suas comunidades paroquiais.

 

Porém, se a homossexualidade tem por significado comportamentos eróticos com pessoas do mesmo sexo, expressões físicas de união e prazer, encontros ocasionais, infidelidade, manipulação, então o pecado existe, quer na homossexualidade quer na heterossexualidade.

 

Conforme já verificámos atrás a Igreja refugia-se na Bíblia para condenar a homossexualidade (entendida como uma relação amorosa estável e fiel entre duas pessoas que se amam e querem ser família), contudo (conforme também já o referimos) a linguagem bíblica não se refere à homossexualidade como a entendemos, mas a prostitutos masculinos que eram utilizados nos cultos pagãos. Certamente que em parte alguma da Bíblia se legisla sobre o tema de uma atracão profunda e de amor entre dois adultos do mesmo sexo, resultando num compromisso.

 

Por outro lado, sendo a homossexualidade tão natural e dada por Deus como o é a heterossexualidade, facilmente nos apercebemos que as invetivas bíblicas contra a homossexualidade foram condicionadas pelas atitudes e crenças acerca desta forma de sexualidade e correspondentes a uma determinada época histórico-cultural.

 

Deste modo, todas as manifestações de um amor fiel e responsável entre duas pessoas homossexuais não são algo tratado nas Sagradas Escrituras.

 

O casal homossexual vivendo em pleno e de forma madura a sua relação de amor mútuo, deve fazer parte integrante da sua comunidade paroquial. Nela participar ativamente, dando testemunho, paralelamente com os demais casais heterossexuais, pois o casal homossexual católico não deve, nem pode, continuar a ser arredado da sua Fé em Deus e em Cristo. Um Cristo que diariamente continua a morrer na cruz para redenção dos homens, de TODOS os homens.

 

Por tudo isto e como leigos empenhados nas suas diversas comunidades paroquiais os casais de homossexuais masculinos devem ser chamados à participação, pois...

 

NÓS TAMBÉM SOMOS IGREJA!

Carta aberta de um católico homossexual a um sacerdote católico homossexual

Um católico escreve a Krzysztof Charamsa, o sacerdote da Cúria Romana que apresentou aos meios de comunicação mundiais o seu companheiro homossexual.

 

Querido Krzysztof Charamsa,

 

Irmão,

 

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Escrevo-te a partir de Lourdes, onde rezo por ti à nossa Mãe de Misericórdia. Devo dizer que a tua declaração pública de homossexualidade marcou-me deveras. Tal como tu, eu sou um homem católico que experiência atração homossexual e, por isso, gostaria de responder à tua declaração pública.

 

É verdade que “muitos católicos homossexuais sofrem” perante o imobilismo da Igreja a seu respeito. No Catecismo da Igreja Católica, as linhas que falam sobre a homossexualidade não constituem, em si mesmas, um programa pastoral. Nessa atmosfera, é normal que, por vezes, experimentemos “exclusão e estigmatização”.

 

Entendo, em parte, a “homofobia” de alguns dos nossos irmãos católicos, porque nada sabem sobre a homossexualidade e, muito menos, como comportar-se perante uma pessoa que se diz abertamente “gay”. Há vezes em que me sinto como um marciano. Devemos reconhecer, contudo, que as coisas estão a mudar. No Relatio Synodalis §76, os padres sinodais declaram: “Reserve-se uma atenção particular ao acompanhamento das famílias onde vivem pessoas homossexuais”. Percebemos que a Igreja entendeu que necessita implicar-se nesta pastoral…

 

Todos devemos denunciar publicamente a violência contra os homossexuais. Não existe nenhuma forma de violência que possa ser justificada. E se, entre nós, na Igreja, surge alguma forma de violência, comecemos pedindo perdão ao nosso Pai misericordioso. Não é abandonando a Igreja que podemos curar essas feridas. É amando-a! Não devemos criar um cisma: uma “Igreja pro-gay” e uma “Igreja anti-gay”. É necessário que avancemos todos juntos, escutando-nos mutuamente, sem nos julgarmos, se o nosso objetivo comum é Cristo.

 

Podemos permanecer juntos?

 

A Igreja não deve somente proclamar a verdade: deve proclamá-la com misericórdia. Este Jubileu, que abre estas portas, é um sinal para todos. A Igreja é nossa mãe, cuida de nós, mostra-nos o Caminho: Cristo. Há vezes, em que também eu tenho vontade de romper o cordão umbilical que me liga a esta mãe: “Mamã, deixa-me em paz!”. Porém, então, olho Jesus nosso Deus que escutou a sua mãe, mesmo aos 33 anos. “Não têm vinho…”.

 

A Igreja é igualmente a família de todos…

 

Tu respondeste ao chamamento de Cristo ao aceitar o sacerdócio ministerial. Compreendo que algumas das nossas escolhas, às vezes, parecem pesadas e difíceis de manter. Contudo peçamos, ao menos, auxílio para vivermos melhor os nossos compromissos… Entristece-me que não tenhas encontrado esse apoio e peço perdão, pela Igreja, se não o encontraste. Agora que, para ti e para Eduardo, começa um novo caminho, peço ao Senhor que te guie na nova fase da tua vida.

 

Fraternalmente,

por Maria a Jesus,

Clément Borioli

 

Como é ser homossexual e católico

Testemunho de Luca B.

 

Sou católico e sou homossexual e procuro viver em pleno a minha fé, sem ignorar aquilo que sou. Às vezes um verdadeiro desastre. No começo é uma grande confusão, na verdade, um ciclone de perguntas que bombardeiam a mente, depois com o passar do tempo, as coisas mudam tranquilamente, às vezes para pior. É como ter uma ferida, uma chaga que alguém de tempos a tempos irá reabrir, um golpe que julgamos são, mas que teima em nunca mais sarar. Ser homossexual e católico é como ser refugiado em terra estrangeira; é como viver no mesmo lugar de sempre e ter saudades de alguma coisa que nunca existiu.

 

Aqueles que te cercam e que, pouco a pouco, fazem as suas escolhas, são os qu têm sorte porque têm uma vida, mas eu sou mais afortunado: eu tenho duas, duas vidas paralelas, duas vidas vividas a metade, duas pessoas que não conversam entre si, que frequentemente têm receio de se falar com medo de se agredirem, que não se arriscam a formar uma identidade compacta, mas somente um grande sentimento de perda.

 

Ser homossexual católico é como ser uma rapariga muda, que todas as noites antes de adormecer ouve ópera sonhando tornar-se numa cantora lírica, mas que bem sabe que nunca irá pertencer a nenhuma daquela miríade de notas que podem ser ouvidas por outras pessoas, mas que porém não sabe expressar esse não na sua mente.

 

Ser homossexual católico é como a longa batalha de Alésia, onde o inimigo se encontra no exterior, mas também no interior; uma guerra em duas frentes: consigo e com o mundo; o medo do julgamento e o julgamento que alimenta o medo, não deixando senão uma série de paus aguçados que impedem um de entrar em contacto com o outro.

 

Ser homossexual e católico é a tentativa de abraçar a própria fé, a própria cruz que, às vezes, mais parece um cato mexicano que outra coisa qualquer, mas que no deserto é a única fonte de alimento; é como colocar o próprio coração no congelador com medo de o usar, porque te falta a esperança, porque alguém te disse que és diferente, diferente de todos, igual a ninguém.

 

Ser homossexual e católico é o sacrifício feito em nome dos que te rodeiam, por medo de fazer sofrer, preferindo sofrer sozinho, com medo de desiludir, de ser posto de lado, magoado e atacado.

 

Ser homossexual é massacrar os próprios sentimentos porque nada deve transparecer à tua volta, senão aquilo que os outros esperam de ti: um substituto para as emoções dos outros, bastante confortável e prático, mas a custo de uma parte de si que diariamente é destruída. É o pesadelo de sair de casa ao sábado por três vezes seguidas, por aqueles com quem se sai, por aquilo que dirão de ti, pela pessoa com quem se sai verdadeiramente, por aqueles que se pode encontrar e temos de nos esquivar utilizando qualquer expediente possível.

 

Ser homossexual é uma quantidade de pequenas satisfações e uma quantidade de mentiras contadas aos teus amigos e conhecidos e é sobre isso que constróis a tua relação; é uma caixa cheia de máscaras, de personalidades, umas mais elaboradas que outras, mas que somente servem para cobrir o abismo da solidão, miséria e raiva que te cobrem da cabeça aos pés.

 

Ser homossexual e católico é estar condenado a viver como bobo, fazendo um jogo dos próprios sentimentos, dos próprios fracassos, um anti-herói que fala de forma cínica das aventuras, na tentativa de despertar, pelo menos, um pouco de alegria nos outros, porque dizer-se que se ama um homem irá somente despertar comiseração ou compaixão, poucos alcançando a tolerância em relação ao teu modo de mostrares os sentimentos.

 

Eu sempre quis encontrar uma outra forma de sentir as coisas, sem me sentir, a cada batida do meu coração, errado ou diferente dos restantes seres humanos.

 

 

Ser homossexual e católico é estar prisioneiro de si próprio, com a vontade de fugir e a impossibilidade de escapar. É a sensação de repulsa que provoca nos católicos a tua sensibilidade e o facto de seres católico, nos outros homossexuais. É um quarto de hotel sem uma cama. Uma lista infinita de «porquê?», de revolta para com o próprio Deus, que com amor te gerou mas que com má intenção te deixa viver de rancores e lamentações que a ninguém interessam.

 

Avalie-se se vale verdadeiramente a pena viver uma vida marginalizada, afogando a própria solidão em festas extravagantes, chats eróticos, vida promíscua ou drogas pesadas.

 

Avalie-se se, por acaso, o juízo que faz é somente de palavras ou se, às vezes, não se trata de pedras lapidando o pouco de humanidade que ainda resta, que não nos faz sentir diferentes dos animais selvagens.

 

Imagine apenas 5 minutos ser como eu sou, a quantas pessoas ainda vem a vontade de sorrir? Homens que se fecharam dentro do estereótipo vivem diariamente a sua condenação à vida. Não foi Deus que os condenou, fomos nós, que num belo dia decidimos que alguém era estrangeiro, que andava destruído, que as guerras eram uma oportunidade, um instrumento. Depois chegou a paz e agora aqueles que fazem o mal são somente os criminosos e os assassinos. Talvez sim, mas talvez não…

 

Quantas pessoas serão ainda mortas devido à nossa palavra contundente e certeira? Quantos rapazes aniquilaremos com a nossa maledicência? Quantas raparigas sofrem perseguição devido à nossa insensibilidade? Quantas mulheres serão espancadas por nossa e somente nossa culpa? Quantos pobres que simplesmente têm fome e sede continuaremos a tratar como capachos?

 

Olha-me no bolso, homem das mãos limpas que condenas a violência física, olha bem no bolso se não resta nenhuma mancha de sangue do meu último massacre. Observa no meu coração a raiva, a destruição e o mal que convivem com o desiderato de amar e construir, o bem ainda o domina mas não dorme sobre as brasas frias.

 

 

* A. C.C. e à sua família. Com afeto.

 

Artigo original: aqui.

Tradução: José Leote (Rumos Novos)

Católicos pelo Casamento entre Pessoas do Mesmo Sexo

Cada vez mais países legalizam o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Isto acontece porque muitas pessoas hoje acreditam que este casamento é legítimo e deve ser reconhecido pelo Estado. Entre elas, o presidente norte-americano reeleito Barack Obama. Todos os cidadãos são iguais em dignidade e direitos e por isso as uniões entre homossexuais devem ter o mesmo reconhecimento das uniões entre heterossexuais, com os mesmos direitos e deveres. Não há concorrência entre estas formas de união, visto que se destinam a pessoas diferentes e nem constituem uma ameaça à família ou à sociedade.

 

Muitos cristãos também acreditam nisso. Sabem que Deus é amor e compreensão e que Ele quer a felicidade dos seus filhos. Surge então uma questão aos fiéis católicos: como lidar com a oposição da alta hierarquia da Igreja ao reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo, considerado por ela uma ameaça à família tradicional e nociva a um correto progresso da sociedade?

 

O Concílio do Vaticano II, iniciado há mais de 50 anos, afirma que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e das mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e dos que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração (GS 1). É hora de olhar para a realidade humana de tantas pessoas homossexuais. Há uma história milenar de homofobia, com diversas formas de brutalidade física, hostilidade verbal e exclusão. Não se pode ignorar o anseio da população LGBT pela segurança, liberdade e igualdade. Opor-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo é acrescentar mais uma discriminação nesta longa história de exclusões e hostilidades.

O teólogo Karl Rahner refletiu sobre o conceito de ‘cristão adulto’, que pode contribuir bastante nesta questão. No início do século XX, o magistério da Igreja combatia a teoria da evolução. Ensinava que os primeiros capítulos da Bíblia, contendo a narração da criação do homem, deveriam ser entendidos de maneira literal. Se nessa época um paleontólogo estivesse plenamente convencido do vínculo entre o ser humano e o mundo animal, como deveria proceder? Neste caso, tal cientista não deveria rejeitar toda a fé da Igreja e nem toda a sua doutrina, mas discernir entre o que é fundamental e o que não é. Ele deve saber quais são as convicções realmente centrais e existencialmente significativas da sua fé, para nelas se aprofundar sempre mais; e progressivamente deixar de considerar o que se mostra irremediavelmente inaceitável.

 

Não se deve nunca colocar as coisas em termos de tudo ou nada. O próprio Concílio do Vaticano II diz que há uma ‘hierarquia de verdades’, isto é, uma ordem de importância dos ensinamentos da Igreja segundo o seu nexo com o fundamento da fé cristã (UR 11). Há ensinamentos de mais relevância, com um nexo maior; e outros de menos relevância, com um nexo menor. Isto contribui para o discernimento. O cristão adulto, diz Rahner, é um fiel que vive conflitos semelhantes ao daquele paleontólogo. Ele precisa tomar decisões em assuntos importantes, colocando-se diante de Deus e da sua consciência e enfrentar as consequências, sem ter necessariamente o desejado apoio da Igreja.

 

Os cristãos solidários com a população LGBT e seus direitos devem ser encorajados a viver esta fé inclusiva, tão necessária ao nosso tempo, mesmo que eles não tenham o devido apoio das suas igrejas. Isto é ser cristão adulto. Eles não estão sós, pois amam e conhecem a Deus que é amor.

 

 

Artigo original: Diversidade Católica

Adaptação: José Leote (Rumos Novos)

TESTEMUNHOS: Eles são católicos e homossexuais

Como assumir ao mesmo tempo a sua orientação sexual e a sua crença em Deus? Como é que a Igreja acolhe e acompanha estas pessoas que, diariamente, ou através da sua caminhada de vida, descobrem uma atracção, um amor por uma pessoa do mesmo sexo? Mesmo que o assunto permaneça tabu, nascem iniciativas, desenham-se aberturas…

 

Xavier e Benoît, um casal e uma comunidade de Vida Cristã (espiritualidade inaciana)

«Como casal desde há sete anos, permanecemos profundamente ligados à Igreja. Estamos activos no seio da CVX [1], ou na nossa paróquia. De facto, respeitamos infinitamente a posição da Igreja sobre este assunto, até quase que a compreendemos, se considerarmos que ela não pode ter outro discurso. Vivemos simplesmente, acolhemos aquilo que a vida nos «reservou» sem que o tivéssemos escolhido, a não ser a escolha de assumir, como a parábola dos talentos: a nós de fazer frutificar o que nós somos, de dar amor onde estamos e de testemunhar essa fé que nos foi passada. Essa fé, tentamos transmiti-la aos três filhos de Xavier, quando eles estão em casa, de férias, tentamos partilhá-la o mais simplesmente na CVX, o mais profundamente possível, sem provocações e sem chocar… essa fé, exprimimo-la aquando da cerimónia do nosso Compromisso: nesse dia, em 2010, fizemos a escolha de exprimir o nosso amor mútuo, que voltamos resolutamente para todos aqueles que partilham o nosso caminho (crianças, famílias, amigos, etc.). Esta cerimónia, que criámos em torno daqueles que nos são mais próximos, não a quisemos como uma simulação de casamento, isso não faria qualquer sentido e, fiéis à Igreja, não desejamos colocarmo-nos contra Ela. Confiámos, simplesmente, o nosso projecto, o nosso futuro, a Deus, confiando-lhes as orações dos nossos entes queridos» Xavier e Benoît.

 

"Fiel à minha fé, apesar da minha consternação"

«Sim, sou homossexual e católico. E praticante em ambos os casos… porque não teríamos o direito, também nós, de amar e ser amados em plenitude de sentimentos? Não pedimos compaixão mas a assunção de uma realidade biológica. Um dia, em confissão, um padre recusou-me a absolvição devido ao único de lhe ter confessado que era homossexual… Que humilhação para mim! Se acrescentarmos a isso o facto de a minha situação nunca ter sido verdadeiramente aceite pela minha família, o facto de levar uma vida pública bastante intensa e o facto de habitar na província, facilmente se compreenderá que nem sempre é fácil ser homossexual em 2011. Os costumes evoluem, mas não as mentalidades, pelo menos ao mesmo ritmo. Apesar dos períodos de turbulência e de dúvida, permaneci fiel à minha fé e encontro-me igualmente envolvido na minha paróquia. Eu acomodo-me, mas luto pela minha condição, pensando que o amor de Deus é mais forte que a maldade dos homens.» Olivier.

 

"É preciso intervir junto dos pais e dos alunos "

«A 4 de Agosto de 1990, o nosso quarto filho, Jean-Baptiste, morreu aos 26 anos, no nosso apartamento, devido a uma doença, diagnosticada em 1981 nos Estados Unidos e tida então como o «cancro gay»: a SIDA. Três anos antes, em vez do Serviço militar, ele era professor na Universidade de S. José, em Beirute, em plena guerra civil. Não foi uma bala perdida que o atingiu, mas o VIH. Ele dizia que tanto se sentia atraído por raparigas como por rapazes… A doença de Jen-Baptiste deu-me a conhecer que as pessoas homossexuais têm comportamentos tão variados como aqueles que se dizem heterossexuais, ainda que nós, concidadãos, não vejamos frequentemente senão a ponta do iceberg. Por exemplo a entreajuda e a fidelidade ao longo dos anos, podem ser vividas entre dois homens de forma tão intensa, senão mais intensa, que entre casais heterossexuais. Isto não deveria continuar a ser ignorado pela minha Igreja Católica, reservando a palavra «matrimónio» para os casais formados por um homem e uma mulher. Realço um documento notável do ensino católico (Maio de 2010) sobre a «educação afectiva relacional e sexual nos estabelecimentos católicos de ensino». «Um número significativo de homens e mulheres têm tendências homossexuais profundas. Eles não escolhem a sua condição homossexual. A educação aborda, pois, aqui, uma questão extremamente sensível. Formas diversas de homofobia podem ferir gravemente as pessoas… O educador deve, portanto, velar particularmente na articulação entre o que pode dizer sobre a diferença sexual no respeito incondicional pelas pessoas». Para fazer isso seria desejável que existissem mais pessoas que se formem, de modo a intervirem junto dos pais e dos alunos. Um pai de família.

 

"Os Bispos devem ter a questão em consideração "

«Escutei o apelo de Deus aos 12 anos, numa idade em que descobri igualmente qual era a minha sexualidade. Nunca a vivi de forma errada, pois fui criado num meio muito ecuménico. Vi que a reflexão antropológica levada a cabo pela outras Igrejas permitia ver o problema de outro modo. À minha volta, no entanto, depressa me apercebi dos danos que o silêncio fazia junto de muitos padres, seminaristas, que se torturam sobre esta questão. Os bispos devem ter a questão em consideração para os membros interessados do clero e propor-lhes um lugar de partilha. Depoiis, é necessário familiarizar as comunidades com esta questão e permitir aos que o desejem de se encontrarem para melhor viverem a sua presença em comunidade. Membro de uma grande ordem religiosa durante vários anos, decidi abandoná-la quando me apaixonei, tendo explicado a razão da minha partida. Uma verdadeira renuncia, pois era um religioso feliz. Este «sair do armário» institucional deu origem a uma verdadeira tempestade na minha ordem. Há um medo terrível da verdade. Sugeriram-me, antes, que ficasse, mas que me calasse, preocupando-se sobretudo com o que as pessoas iriam pensar. Acontece que os fiéis apoiaram-me e compreenderam-me. Por outro lado, nunca coloquei em causa a minha vocação sacerdotal; a minha orientação sexual não me impede de viver e servir. Actualmente, encontrei um ministério pois fui acolhido numa paróquia. O bispo conhece a minha história. Tenho um amigo que escolhi e perante o qual estou comprometido, mas renunciei a uma vida sexualmente activa no casal. É um caminho que enche e completa a minha vida. Nunca me senti tão equilibrado.» François, 42 anos, pároco.

 

"Para uma abordagem de aceitação da minha encarnação"

«Desde os meus doze anos que penso que sou mau. Aos vinte anos mandei a religião passear. Deus não poderia querer nada comigo, pois eu era homossexual. Alguns anos mais tarde fui agarrado pela sua mensagem de amor. Ele amava-me como eu era. Então, preparei-me para uma vocação religiosa, que era muito forte, sem voltar a colocar-me a questão da minha homossexualidade. Encontrava-me, provavelmente, numa forma de rejeição. Depois tive uma relação com um seminarista e tomei consciência que, de facto, o problema ultrapassava-me largamente. Com todas estas questões, cheguei a um retiro de escolha de vida. Aí, Deus colocou-me, de forma esmagadora, frente às minhas contradições. Foi na experiência espiritual que compreendi que deveria ter plenamente em consideração quem eu era… não tinha avançada nada durante todos estes anos! Hoje, coloquei de parte o meu projecto religioso – que, por um lado me permitia regular o meu problema – para encetar o que considero ser uma abordagem razoável para aceitar a minha encarnação. A Igreja deve retirar a homossexualidade da marginalização. Se continua a caricaturá-la como uma vida de perdição, ela empurra-nos para o silêncio e a uma vida instintiva oculta que não queremos!»  Luís, 28 anos.

 

"Uma bomba na nossa família"

«Quando o nosso filho nos anuncia que é homossexual, é uma bomba que cai na nossa família! Pensamos que estamos abertos a muitas situações, descobrimos que, precisamente, essa não pode ser verdadeiramente abordada com os restantes membros da família pois é tabu. Os outros filhos não percebem o nosso bloqueio e sentimo-nos tão infelizes que nem encontramos a coragem, nem as palavras para falar com o cônjuge (a nós foram precisos seis meses para verdadeiramente discutir e constatar que nada podíamos fazer em relação à nossa filha de 23 anos). Quando falo com ela, ela diz-me que nunca foi tão feliz na vida, mesmo que tenha ficado apaixonada sem nunca ter antes nenhuma tendência. Se eu lhe digo que ela talvez não seja homossexual e que ele deveria procurar viver outras situações, ela responde que é assim mesmo e que eu deveria discutir o assunto com os meus amigos, a minha família. Sou incapaz de falar com quem quer que seja, pois não sinto nenhum orgulho na nossa situação familiar, no momento em que todos os nossos amigos estão casados e com filhos!»  MB.

 

"Finalmente associei o meu espírito ao meu corpo "

«Sou cristã, homossexual e feliz: a minha orientação amorosa é diferente, mas não inferior. Portanto, interiorizei desde muito nova que «os homossexuais não fazem parte do plano de Deus». Para fazer parte do plano de Deus, realizei uma clivagem mental: amava Deus, os outros, era uma católica apaixonada pelo Evangelho, era uma enfermeira apaixonada pelos doentes e a tratá-los mas não era uma mulher. Casei-me com um cristão muito meigo. Mas na aliança perfeita homem-mulher-Deus, vivi uma espécie de desolação. Foi um casamento de morte, uma relação contra a minha natureza, que me deixou gravemente doente. Prefiro morrer de amor na eternidade, pois era incapaz de amar, dizia. De facto, era o meu amor que não estava no sítio certo. Encontrei uma mulher. Foi essa a minha verdade. Deste modo, a descoberta e a aceitação da minha homossexualidade foram espectaculares. Associei, enfim, a minha fé, a minha sexualidade, o meu espírito e o meu corpo. É a separação que nos torna doentes. Perante Deus, o meu primeiro amor, pude juntar as peças espartilhadas, tornar-me naquela que sou, desculpabilizada, acalmada e abençoada. Cada baptizado é chamado ao amor e à dádiva.» Sophie.

 

O centro Tiberíade, uma família para os doente de SIDA

«Tendo acompanhado toda a minha vida, no quadro das minhas actividades profissionais, pessoas homossexuais maioritariamente marcadas pela infecção pelo VIH, encontrei-me com naturalidade como administrador e acompanhante dum centro de acolhimento de dia para essas mesmas pessoas, quando chegou a minha idade de reforma. O Centro Tiberíade, organizado pela Diocese no coração do 7.º bairro de Paris e criado pelo Monsenhor Jean Marie Lustiger a pedido da Madre Teresa. Uma equipa de voluntários e de elementos permanentes que acolhe, durante cinco dias por semana, pessoas para quem a vida foi madrasta, muitas vezes isoladas e doentes. Perto de 7000 refeições, preparadas por uma equipa discreta de voluntários, são servidas todos os anos. As pessoas acolhidas romperam frequentemente todos os laços com as suas famílias. Encontram no Tiberíade um ambiente caloroso e atencioso onde podem, com naturalidade, partilhar o seu dia-a-dia, expor as suas angústias e encontrar uma escuta e ajuda psicológica e terapêutica. Há à disposição uma biblioteca, jogos, actividades artísticas, visitas, estadias «no verde», sem esquecer uma iniciação à fé cristã e a presença regular dum capelão com uma possível participação na missa de sexta-feira à tarde. Vive-se em Tiberíade uma fraternidade real, ao ponto de numerosos acolhidos afirmarem diariamente «a minha família está aqui».  Michel.

 

Ser católico e transgénero

«Embora a Igreja comece timidamente a ter em consideração a homossexualidade, parece ignorar completamente ou mesmo rejeitar as pessoas transgéneras ou transexuais. Foi desta forma que não tendo encontrado, até há quatro anos, nenhum lugar na Igreja para me acolher com a minha especificidade, caminhei durante mais de 15 anos com um grupo de homossexuais cristãos: «Devenir Un En Christ (DUEC)», que me ajudou, mas não respondia plenamente à minha «diferença». Descobri a Comunidade Betânia. O único lugar da Igreja, que eu saiba, que se preocupa com o CCI (Cruzamento dos Cristãos Inclusivos) das pessoas transidentitárias que, de momento, me acompanha no plano espiritual e me ajuda a conciliar Fé e Transidentidade. Isabelle.

 

Pais de homossexuais

«É indispensável e urgent dar liberdade de expressão aos pais de homossexuais que se encontram frequentemente em grande sofrimento e aos jovens que não sabem para quem se voltar quando se apercebem que são homossexuais.

 

De facto a Igreja (de facto a Igreja é o quê?) trata o tema de forma expedita, como já o fez em relação à contracepção, mesmo quando tem o cuidado de não condenar as pessoas.

 

O Magistério denuncia frequentemente este estado (pois não é uma escolha, é um estado de facto) como uma desordem (no melhor), uma perversão (no pior) e somente tem como proposta «a vida na castidade».

 

O grupo «Reflexão e Partilha» no qual participamos reúne pais preocupados com este problema e jovens, frequentemente em casal, elaborou um folheto informativo sobre o tema «A Orientação sexual e a vida cristã» e deseja que sejam formados outros grupos e que estes proponham às autoridades eclesiásticas uma palavra apaziguadora e construtiva. Claude e Jacques.

 

Texto orignal: Elisabeth Marshall e Joséphine Bataille

Órgão: La Vie

Tradução: José Leote



[1] Comunidade de Vida Cristã. A CVX é uma comunidade mundial de leigos, com Estatutos aprovados pela Igreja, e uma Espiritualidade própria: a Espiritualidade Inaciana; isto é, a sua fonte de inspiração característica, para além das Sagradas Escrituras e do Sentido de Igreja, são os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola. As linhas orientadoras da CVX estão consignadas nos Princípios Gerais, que ajudam a unir a Fé e a Vida numa opção apostólica.

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