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RUMOS NOVOS - Católicos Homossexuais

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Papa Francisco: os cristãos devem pedir desculpa às pessoas homossexuais por as terem marginalizado!

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A Igreja Católica e outras comunidades cristãs devem pedir desculpa às pessoas homossexuais e a muitos outros grupos de pessoas que deixaram ficar mal, ou ofenderam, ao longo da História. Afirmou o Papa Francisco a bordo do avião papal.

 

Na conferência de imprensa deste domingo, no voo de regresso a Roma, depois da viagem de dois dias à Arménia, o Pontífice afirmou taxativamente: “A Igreja deve dizer que se arrepende por não se ter comportado bem muitas vezes, muitas vezes.”

 

“Acredito que a Igreja não tem somente de dizer que se arrepende… em relação a esta pessoa que é homossexual e que ofendeu”, disse o Papa, “mas deve igualmente dizer que se arrepende em relação aos pobres, também às mulheres abusadas, às crianças forçadas a trabalhar.”

 

“Quando digo a igreja: os cristãos.” Clarificou o Papa. “A Igreja está saudável. Nós somos os pecadores.”

 

O Papa respondia a uma questão sobre as palavras proferidas pelo cardeal alemão Reinhard Marx, feitas na semana passada, de que a Igreja Católica devia pedir desculpa à comunidade homossexual por a ter marginalizado.

 

“Repito aquilo que já disse na primeira viagem,” afirmou hoje Francisco, referindo-se à conferência de imprensa que deu no regresso do voo do Rio de Janeiro, em 2013. “Repito também o que o Catecismo da Igreja Católica afirma: que [as pessoas homossexuais] não devem ser alvo de discriminação e que têm de ser respeitadas e pastoralmente acompanhadas.”

 

“A questão é uma pessoa que tem essa condição [e] que tem boa vontade porque procura Deus.” Disse o Pontífice.

 

“Quem somos nós para os julgar?” Perguntou, reformulando, agora no plural, a sua já famosa frase de 2013. “É nosso dever acompanhar bem o que o Catecismo afirma. O Catecismo é claro.”

 

“A cultura mudou – graças a Deus!” exclamou o Papa. “Como cristãos temos de dizer, muitas vezes, que lamentamos e não somente sobre este assunto.”

 

“Esta é a vida da Igreja”, afirmou o Pontífice. “Todos somos santos, porque todos temos o Espírito Santo dentro de nós. Mas também todos somos pecadores.”

 

Tradução: José Leote

Artigo original. aqui.

ENCONTRO DE 13 DE MARÇO: OBRIGADO!

Obrigado!

 

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Terminado que está este encontro mensal "Escutando as Nossas Vidas", aqui partilhamos a enorme alegria que constitui este momento único de oração e partilha entre todos. Um obrigado muito sentido, a todos e todas os que participaram no mesmo, pela alegria, entusiasmo e espírito de partilha demonstrado.Obrigado ao sacerdote que nos acompanha e que Deus em boa-hora colocou no nosso caminho.


Foram maravilhosos todos os momentos que juntos passámos, atrevo-me a destacar a animação dos cânticos; a partilha quando escutámos as nossas vidas; as achegas do sacerdote; a celebração da Santa Missa, onde, mais do que nunca, nos sentimos em comunidade, orando, em torno do altar, o Pai Nosso, junto ao Corpo e Sangue do Senhor; as lágrimas da nossa Teresinha.

Finalmente, mas não por último, um obrigado, muito, mas mesmo muito, especial às irmãs Dominicanas, sem a perseverança das quais nunca seriam possíveis momentos como este.

É muito bom este sentirmo-nos irmanados na fé, mas também nas nossas experiências de vida. Que esta caminhada seja profícua, de frutos sempre crescentes e que a nossa participação continue sempre neste percurso de fé e partilha, com um número cada vez maior de irmãos e irmãs que de mãos dadas se dispõem a percorrê-lo conjuntamente. Que este tempo de Páscoa represente pata todos/as e cada um de nós o momento do renascimento pessoal e comunitário.

A todos e todas os que não puderam estar presentes, a certeza de que nos voltaremos a encontrar algures nesta caminhada.

De todos e todas me despeço com um até ao próximo dia 3 de Abril, pelas 15h30 para partilharmos "Espiritualidade, Castidade e Sexualidade".

Paz e Bem!
José Leote, em nome da equipa da Rumos Novos - Homossexuais Católicos.

Carta aberta de um católico homossexual a um sacerdote católico homossexual

Um católico escreve a Krzysztof Charamsa, o sacerdote da Cúria Romana que apresentou aos meios de comunicação mundiais o seu companheiro homossexual.

 

Querido Krzysztof Charamsa,

 

Irmão,

 

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Escrevo-te a partir de Lourdes, onde rezo por ti à nossa Mãe de Misericórdia. Devo dizer que a tua declaração pública de homossexualidade marcou-me deveras. Tal como tu, eu sou um homem católico que experiência atração homossexual e, por isso, gostaria de responder à tua declaração pública.

 

É verdade que “muitos católicos homossexuais sofrem” perante o imobilismo da Igreja a seu respeito. No Catecismo da Igreja Católica, as linhas que falam sobre a homossexualidade não constituem, em si mesmas, um programa pastoral. Nessa atmosfera, é normal que, por vezes, experimentemos “exclusão e estigmatização”.

 

Entendo, em parte, a “homofobia” de alguns dos nossos irmãos católicos, porque nada sabem sobre a homossexualidade e, muito menos, como comportar-se perante uma pessoa que se diz abertamente “gay”. Há vezes em que me sinto como um marciano. Devemos reconhecer, contudo, que as coisas estão a mudar. No Relatio Synodalis §76, os padres sinodais declaram: “Reserve-se uma atenção particular ao acompanhamento das famílias onde vivem pessoas homossexuais”. Percebemos que a Igreja entendeu que necessita implicar-se nesta pastoral…

 

Todos devemos denunciar publicamente a violência contra os homossexuais. Não existe nenhuma forma de violência que possa ser justificada. E se, entre nós, na Igreja, surge alguma forma de violência, comecemos pedindo perdão ao nosso Pai misericordioso. Não é abandonando a Igreja que podemos curar essas feridas. É amando-a! Não devemos criar um cisma: uma “Igreja pro-gay” e uma “Igreja anti-gay”. É necessário que avancemos todos juntos, escutando-nos mutuamente, sem nos julgarmos, se o nosso objetivo comum é Cristo.

 

Podemos permanecer juntos?

 

A Igreja não deve somente proclamar a verdade: deve proclamá-la com misericórdia. Este Jubileu, que abre estas portas, é um sinal para todos. A Igreja é nossa mãe, cuida de nós, mostra-nos o Caminho: Cristo. Há vezes, em que também eu tenho vontade de romper o cordão umbilical que me liga a esta mãe: “Mamã, deixa-me em paz!”. Porém, então, olho Jesus nosso Deus que escutou a sua mãe, mesmo aos 33 anos. “Não têm vinho…”.

 

A Igreja é igualmente a família de todos…

 

Tu respondeste ao chamamento de Cristo ao aceitar o sacerdócio ministerial. Compreendo que algumas das nossas escolhas, às vezes, parecem pesadas e difíceis de manter. Contudo peçamos, ao menos, auxílio para vivermos melhor os nossos compromissos… Entristece-me que não tenhas encontrado esse apoio e peço perdão, pela Igreja, se não o encontraste. Agora que, para ti e para Eduardo, começa um novo caminho, peço ao Senhor que te guie na nova fase da tua vida.

 

Fraternalmente,

por Maria a Jesus,

Clément Borioli

 

Qual o lugar para as pessoas homossexuais nas nossas comunidades cristãs? (1)

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O acolhimento das pessoas homossexuais é hoje realmente uma realidade nas comunidades cristãs? Embora nos últimos anos tenham sido dados passos em frente, a clandestinidade que as pessoas homossexuais se autoimpõem por temor de serem submetidos a juízos negativos é real e dolorosa para eles mesmos e para suas famílias.

A homossexualidade é uma realidade que existe na história de cada sociedade e de cada cultura. É inegável. Este fato, que permaneceu escondido por séculos, tornou-se hoje público na nossa sociedade. Há muitos anos a Igreja católica tomou em consideração esta realidade.

“Um número considerável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza”.

Todavia, será que é possível viver contemporaneamente a própria homossexualidade e a própria fé cristã sem precisar esconder-se? Recentemente um documento do Conselho Família e Sociedade (francês) exigia este acolhimento incondicional: “Para as comunidades católicas o acolhimento incondicional de cada pessoa está em primeiro plano. Cada pessoa, independentemente de seu percurso de vida, é em primeiro lugar um irmão ou uma irmã em Cristo, um filho de Deus.

Esta descendência divina transcende todos os elos humanos de família. “Toda pessoa tem direito a um acolhimento amável por aquilo que é, sem que deva esconder um ou outro aspeto de sua personalidade”.

Sabemos que cristãos, católicos e homossexuais estão entre nós, nas nossas famílias, entre os nossos amigos, nas nossas comunidades paroquiais. A diversidade das situações é complexa. A indagação de Martine Gross revela que os gays e as lésbicas cristãs, tendo interiorizado as afirmações da Igreja institucional, frequentemente vivem com desonra e sentimento de culpa a descoberta de sua homossexualidade.

 

Frequentes testemunhos de sofrimento

Participando ao longo de mais de dez anos na associação “Réflexion et Partage [Reflexão e Partilha], sou testemunha da dificuldade para um bom número de pessoas homossexuais encontrarem seu devido lugar na Igreja. Revelam-no muitos testemunhos e narrações de vida.

O testemunho de Thérèse é um entre tantos: Precisei de tempo para entender-me verdadeiramente! Aos quase 53 anos, noiva, começo finalmente a reconhecer-me como homossexual. (...) Fiquei aprofundada numa longa, longuíssima fase de indecisão, até que a realidade me recuperou de modo extremamente brusco. E há quatro anos iniciei realmente este caminho para mim mesma, e também para os outros, nas lágrimas e no sofrimento, mas também na paz e na alegria que às vezes nasce de encontros fortes e autênticos, seja com alguns dos meus amigos/que, que com outros/e que chegaram/e bem antes de mim neste difícil e íngreme caminho.

(...) Na pastoral dos divorciados e dos divorciados/recasados tem havido progressos notáveis. Quando poderemos ver estes progressos também na pastoral da homossexualidade? Quando se cessará de acrescentar sofrimento a sofrimento?

(...) Ouso, como Martin Luther King, ter um sonho: que nas nossas Igrejas, finalmente de portas abertas a toda a humanidade dos homens e das mulheres de hoje, cada um/uma seja acolhido/a como Filho e Filha de Deus, com suas riquezas e suas faltas, na Alegria e na Fraternidade... e que ninguém se deva jamais sentir um passageiro clandestino!”

E ainda o testemunho de Aurélia: “Nós somos inexistentes”: expressão de uma responsável pelas manifestações de “La Manif pour tous” [A Manifestação para todos] contra “O Casamento para todos”. Sim, vós sois milhares. Sim, vós não tendes sido entendidos. Perdoai!

Mas nós (pessoas homossexuais) somos milhões, há séculos, a não ser entendidos, a ser insistentes, invisíveis, estigmatizados, psiquiatrizados, exorcizados, torturados, humilhados, escondidos, e em alguns países até sepultados vivos!”.

E da mesma forma, quando um casal de homens (Julien e Bruno) que vivem junto há mais de dez anos, procura inserir-se num grupo de reflexão paroquial para os casais (hétero, certamente) tendo dez anos de vida em comum, por que excluí-los? São constringidos a marginalizar-se e a criar eles mesmos, fora de suas paróquias, o seu próprio grupo de reflexão junto com outros casais homossexuais católicos?

Evidentemente, os testemunhos não pretendem, por certo, dar uma imagem exaustiva do que vivenciam os cristãos homossexuais, mas têm o mérito de rejeitar toda conceção simplista. Se o testemunho não pode substituir-se ao debate e não pertence somente a ele a verdade, não se pode jogá-lo fora com um gesto da mão, como talvez se ouve: “Sim, mas contigo não é a mesma coisa, nós te conhecemos”.

A Igreja não pode hoje deixar de ir ao encontro das pessoas homossexuais e prosseguir o diálogo com eles e com suas famílias: “(...) o testemunho não pode substituir-se ao debate e não compete somente a ele a “verdade”. É evidente. Mas este debate e esta busca da verdade não podem regatear com este tipo de palavra. Sobretudo em nossa sociedade chamada de comunicação, na época do reino da informação, da imagem e da interatividade...

... Aceitando esta nova realidade (social e também política) através de um retorno ao testemunho, a Igreja pode beneficiar-se de uma nova oportunidade para o anúncio do evangelho nesta sociedade moderna ou mesmo pós-moderna. Para ela é a ocasião de demonstrar:

Que considera o homem de hoje como um interlocutor inteligente, de bom senso, capaz de refletir, e que ela respeita sua liberdade...

Que confia neles a priori (existe uma margem de diferença entre a ingenuidade e a paranoia, que condena de modo preconcebido o interlocutor), que confia nele. Em todos os encontros que teve, Jesus não reduz jamais o outro à sua complexidade. Jamais o encerra na sua contingência...

Que aceita que o homem de hoje queira confrontar as ideias com a realidade através do filtro de suas experiências, que necessita entender e ter o seu próprio parecer. (...)

“Para ela (isto é, para a Igreja) seria o modo de atingir o homem de boa vontade lá onde ele se encontra, de dirigir-se a ele e de reconhecê-lo como alguém que faz parte de um mundo a inventar juntos.”

 

Progressos Pastorais Significativos

Também se ainda resta um caminho a percorrer até que as pessoas homossexuais e suas famílias encontrem o seu justo lugar nas nossas comunidades cristãs, em muitas dioceses ocorrem hoje progressos fundamentais.

O objetivo não é tanto o de realizar uma pastoral distinta para favorecer o acolhimento das pessoas homossexuais, que constituiria uma forma de estigmatização positiva, mas antes o de reconhecer e dar consideração ao que é vivenciado por cada um, “afim de que estas pessoas possam viver uma vida cristã normal e empenhada e ter o seu lugar na Igreja como toda pessoa batizada”.

A primeira iniciativa a realizar é a de incentivar os lugares de acolhimento e de escuta, os grupos de palavra, tornando-os visíveis através de um desdobrável que registe o telefone, o email, o nome da pessoa a contatar.

Há muitíssimos anos algumas associações, como David e Jonathan, Devenir un em Christ [Tornar-se um em Cristo] já fizeram esta experiência. Mas, este tipo de iniciativa deve ter origem da responsabilidade das igrejas diocesanas, evidentemente com a colaboração das associações que as mantêm. Com efeito, muitas pessoas homossexuais e seus pais se sentem privados de recursos.

Sendo católicos, frequentemente se dirigem aos padres de suas paróquias ou à diocese: “Quando tomamos conhecimento da homossexualidade de nossa filha de 18 anos, encontramo-nos desarmados: por que ela era assim? O seu enormíssimo mal-estar e seu não querer viver nos impeliram a procurar entender. Sendo católicos, procuramos um padre para saber se ele conheceria uma associação que pudesse ajudar-nos.

Ele estava despreparado exatamente como nós. Nossa fé nos levou a perguntar-nos como viver esta situação serenamente e no amor atento por nossa filha e nossa família (temos quatro filhos, e esta é a última). Fizemos um percurso numa associação, encontrando outros pais e outros homossexuais.

Encontramos pessoas que escutam sem julgar e que compartilham das nossas dúvidas e das nossas preocupações. Abrimo-nos de um modo que não conhecíamos. Dez anos depois, podemos constatar que enriquecemos o nosso coração e o nosso modo de ver.

Deus é amor. Somente Ele sabe o que é a homossexualidade. Neste caminho que percorremos, confiamo-nos ao Seu Espírito que nos acompanha (...)”.

Muitas dioceses (St. Etienne, Lyon, Grenoble, Angouleme, Aix em Provence...) há um par de anos organizaram grupos de reflexão e/ou grupos de acolhimento, de escuta, de discussão aberta. Assim em Angouleme: “Há dois anos, com o apoio e o encorajamento de Mons. Dagens criamos dois grupos de compartilhamento: um para pessoas homossexuais, e o outro para pais de pessoas homossexuais. Temos dado andamento a estes grupos em colaboração com a associação Devenir Un En Christ. Mas, havia também uma convergente vontade do Padre Dagens e dos dois grupos para uma conexão direta com a diocese, através da pastoral da família. Neste momento estamos começando a difundir um pequeno volante: “Acolhimento e palavra”, para tornar conhecidos os dois grupos nas paróquias e também no site da diocese. De outra parte, queríamos ir mais longe na reflexão sobre o lugar na Igreja e nas nossas comunidades cristãs para as pessoas homossexuais.”

Em muitas dioceses vizinhas está sendo posta em marcha a mesma reflexão. Seria preciso dar evidência também a outros grupos de palavra para progenitores que estão coligados com a associação Réflexion et Partage [Reflexão e Partilha]. Mas, estes grupos ainda não têm verdadeira legitimidade diocesana. Numa diocese da periferia de Paris há cinco anos existe um grupo de discussão formado por pais que têm um filho homossexual.

“Somos cinco famílias. Este pequeno grupo é muito importante para trocar, comunicar e sustentar-nos uns com os outros. Há aproximadamente um mês contatamos com o pároco de St. Germain em Laye. Foi muito acolhedor e conectou um inserto no boletim paroquial. Pessoalmente, sinto-me sempre mais assegurado, e hoje não tenho mais medo de responder a pessoas que têm uma visão negativa. Um fato recente: Uma mãe de família, chegando ao conhecimento que eu tinha um filho homossexual, me disse: “Rezarei por ele”. Eu lhe respondi: “Não, sou-lhe grato, mas antes serei eu a rezar por você, para que seu visual se torne mais aberto”. Não posso mais calar. Creio que os nossos filhos deem um valor adjunto às nossas famílias”. (Marie-Pierre, mãe de família).

Guilherme e Elisabete acrescentam: “É uma fórmula excecional, que responde bem às expectativas dos genitores. Uma fórmula a promover por toda parte possa ser realizada. Tivemos ocasião de falar a respeito com certo número de amigos e muitos deles nos disseram que também eles estavam envolvidos com esta realidade.

O compartilhamento da nossa experiência teve um acolhimento positiva e tem sido iluminadora para outras famílias, mas com frequência essas famílias nos dizem que ninguém sabe (da homossexualidade de um componente) e que não se deve falar disso.”

Assim em Ardèche: “Somos um grupo de pais ativo há nove anos e nos encontramos 2 vezes ao ano com a presença do vigário geral. Atualmente fazem parte 9 casais. Dado que o vigário geral nos acompanha, o bispo tem conhecimento das nossas reuniões”. Os temas enfrentados no ano passado foram o matrimónio e a homogenitorialidade. Escrevemos um artigo em jornais paroquiais, mas obteve eco escasso”.

Em Paris existe um grupo de pessoas homossexuais que vivem como casais e se reúnem regularmente. Julien atesta: “Criamos o nosso grupo de casais católicos (que se encontram também como casais formados por pessoas do mesmo sexo). Este grupo de 6 casais se reúne aproximadamente cada 6 semanas para refletir sobre a questão da fecundidade do casal, em sentido geral.

Existe um aspeto espiritual e ele é compartilhado também por meio de um texto de meditação. De vez em quando convidamos uma pessoa externa ao grupo. Este grupo tem sido para nós e para a nossa fé uma âncora de salvação indispensável durante este último ano, no qual a Igreja da França foi convulsionada pela questão do matrimônio para todos.

Temos compartilhado momentos de rara fraternidade. Mas gostaríamos que tudo isso pudesse ser vivenciado em nível das paróquias. E nos agradaria fazer esta reflexão junto a casais homossexuais, estar dentro da Igreja e não esconder uma parte essencial do nosso ser”.

Devem ser vistos positivamente também os seis seminários tidos junto ao colégio dos Bernardinos em Paris sobre “Fé cristã e homossexualidade”, com a presença de representantes de várias associações (David e Jonathan, Devenir Un En Christ [Tornar-se um em Cristo], Communion Béthanie, Réflexion et Partage [Reflexão e Partilha]).

O último seminário, sobre o tema de “fare coppia” [fazer casal] permitiu cruzar as experiências de casais homossexuais e heterossexuais na escuta, no diálogo, na construção de um viver juntos e de uma fraternidade, destinados a dar os seus frutos.

Outras dioceses assumiram iniciativas para favorecer o diálogo e o encontro, como “O caminho de Emaús” (Nanterre, Orléans), peregrinação de um dia, aberto a todos e em particular às pessoas direta ou indiretamente envoltas com a homossexualidade. Por ter participado, posso assegurar-vos que tudo isso fez caírem muitos preconceitos sobre a homossexualidade.

Muitos dos preconceitos de fato ainda estão ligados a representações mentais, frequentemente por causa da falta de conhecimento e informação sobre a vivência das pessoas, e também por causa da rejeição da diversidade, que provoca perturbação. Creio que esta falta de conhecimento, esta ignorância, traga o medo e o medo gere a exclusão, o desprezo, as confusões, talvez os conflitos, o relegar a gueto e, enfim, o desejo de desembaraçar-se do outro.

 

A Alteridade em Questão

O encontro do outro em sua alteridade é uma questão fundamental. Quantos discursos ouvimos da boca de certos ambientes católicos para estigmatizar as pessoas homossexuais: “Os homossexuais recusam a diversidade”; esta afirmação, nas palavras de certos intelectuais se torna “A homossexualidade é a negação da alteridade”.

Se as diferenças, que sejam sexuais, geracionais ou culturais preexistam sem que nós estejamos em condições de geri-las, elas não garantem que se realize o acolhimento do outro. O saber reconhecer a alteridade nasce de uma aprendizagem que jamais termina, e permite a cada um ser, na relação com o outro, o que é, conduzir a própria vida, jamais sentir-se absorvido pelo outro, quem quer que ele seja (conjugado, amigo, genitor, professor, colega...).

Este trabalho ético é o mesmo para todos: “Cada casal é convidado a perguntar-se em que medida sua relação de amor gera confusão ou cria unidade, seja no interior ou no exterior do casal.

Há casais heterossexuais que de fato não respeitam estas relações da alteridade, como aquelas construídas sobre excessivas semelhanças entre o cônjuge e o pai ou a mãe, ou também aquelas nas quais os genitores consideram os seus filhos como objetos...”

A semelhança genital não tira nada do “ser estranho” do outro. Ou seja, não é possível reduzir o outro ao que conheço de mim mesmo, dos meus desejos, dos meus comportamentos.

As pessoas homossexuais insistem no fato que sua busca sexual não deriva somente, como muitos creem, de uma busca de prazer erótico. Costumeiramente as pessoas esperam encontrar um/uma amigo/amiga com o/a qual possam vivenciar experiências de ternura, fidelidade, ajuda recíproca, compartilhamento de preocupações e interesses diversos... e prazer sexual.

Procuram, deste modo, ter unidos “o desejo e a ternura” fazendo a experiência que amar “não é uma coisa óbvia”.

“Os psicanalistas menos sérios interpretaram erroneamente a conexão amorosa e sexual de um indivíduo com uma pessoa do mesmo sexo como uma conexão narcisista. Como se duas pessoas do mesmo sexo fossem a mesma pessoa! Como se somente a diferença sexual designasse a alteridade entre os seres! Como se, da mesma forma, entre homens e mulheres houvesse mais diferenças do que semelhanças.

A alteridade existe entre dois gêmeos, e com maior razão existe entre dois homens ou duas mulheres saídas de famílias diferentes. A alteridade é um dos determinantes do desejo sexual. Para desejar-nos reciprocamente, temos necessidade de muito de semelhante (o que temos em comum como seres humanos) e de um pouco de não semelhante, como confirma a neurobiologia.

Este “não semelhante” pode ser a diferença dos sexos, mas nem sempre e não somente. Nos humanos a alteridade, fonte de desejo sexual, pode encontrar-se na diferença física, na diferença cultural e social ou na diferença de personalidade.”

Enfim, afirmar que o casal homossexual negue a alteridade significa voltar a reconduzir o conceito de “mesmo” ao aspeto sexual e este último ao sexo. Portanto, não é que, porque dois seres são semelhantes de um ponto de vista biológico que eles são “o mesmo”: dois homens, duas mulheres têm personalidades diversas e únicas que fazem deles seres singulares.

As pesquisas no campo da neurobiologia confirmam que as diferenças entre os indivíduos de um mesmo sexo são tão importantes que superam as diferenças entre os dois sexos. Esta variabilidade se explica com a plasticidade do cérebro. No nascimento, dos nossos 100 bilhões de neurônios, somente 10% são conectados entre si.

90% das restantes conexões se realizarão progressivamente em consequência das influências da família, da educação, da cultura, da sociedade, afirma Catherine Vidal, neurobióloga.

É na capacidade de amar que são postos à prova, para os homossexuais como para os heterossexuais, a aceitação ou a recusa da alteridade, não no valor diferencial e impessoal de um objeto de pulsão.

A relação homossexual, além da semelhança dos sexos, pode abrir à diferença e à alteridade, dado que é o encontro de duas pessoas, cada uma das quais é única.

Os casais homossexuais têm um desejo duradouro e favorável de viver juntos. Tudo o que favorece os empenhos mais duradouros deve ser aprovado plenamente.

Uma pessoa homossexual que vive com um parceiro poderá ser fonte de fecundidade social para o ambiente circunstante.

 

Fecundidade

Na linguagem corrente temos limitado o sentido do termo “fecundidade” ao conceito de “dar a vida” ou “procriar”. Isto significa reduzir o ser humano ao seu nível animal.

Antropologicamente, a fecundidade recobre um significado mais amplo: a capacidade de dar uma vida humana.

Nós não fazemos que reproduzir-nos, nós produzimos a nós mesmos reciprocamente, nós produzimos o novo. Trata-se de colocar no mundo uma pessoa afim de que esta pessoa nasça a si mesma. E isto vai muito além da mera procriação biológica.

Dar a vida humana é o que a teóloga Marie-Christine Bernard, especializada em epistemologia das ciências humanas, chama a “genitoralidade espiritual”. É a responsabilidade que diz respeito a todos nós de fazer nascer alguém a si mesmo, de alguém gerar a própria vocação, de fazer que ele possa entrar em sua própria vida: "Pôr no mundo naquele sentido mais amplo que recém descrevemos, portanto, não só em sentido físico, se apresenta como o caminho por excelência que a bênção de Deus, destinada a todos, pode realizar. A bênção de Deus é ao mesmo tempo a promessa que Ele faz, o seu mais caro auspício de uma vida boa, rica de significado e de frutos e sua realização através do nosso livre consenso. A pessoa humana nasce a si mesma quando entende que esta promessa é destinada pessoalmente a ela, e segue este caminho".

Então, por que rejeitar os casais homossexuais, apelando à sua não fecundidade? Também eles são fecundos ou criativos, mas de modo diverso. Jesus revolucionou a ordem biológica da fecundidade: o homem não é fecundo porque gera, é fecundo porque se reconhece como pertencente ao Cristo.

A passagem do Evangelho segundo João (151-4.12.16) indica que a fecundidade reside no cumprimento do mandamento do amor de Jesus, isto é, de entrar na comunhão de amor de Jesus e do Pai, de deixar-se aproximar de Deus, entrar na intimidade com Ele, tornar-se seu amigo. Este amor chega realmente a desapropriar-se de si próprio. Jesus impeliu este despossuir-se de si ao morrer sobre a Cruz, e é precisamente a Cruz que garante “ao extremo” sua fecundidade: “Se o pequeno grão que cai por terra não morre, permanece só; ao invés, se morre produz fruto in abundância”.

Portanto, entrar na fecundidade não é mais viver para si mesmos, mas é viver para qualquer outro. Segundo Cristo a fecundidade é o dom de si, é uma morte a si mesmo e uma ressurreição. Esta ultrapassa infinitamente os nossos limites humanos. Realiza-se não segundo uma vontade humana, mas numa livre consagração das nossas ações a Deus, é um dom de Deus.

Assim dá testemunho Yvon, homossexual e cristão empenhado a mais de quarenta anos em sua paróquia: “Após estes 40 anos de lutas, nos quais houve momentos de alegria e de desespero – e também falências – me admiro que eu ainda queira fazer parte desta Igreja que com tanta frequência me maltratou.

Todavia, se os cristãos (e não somente os seus pastores) soubessem o que a Igreja deve a estes homossexuais (homens e mulheres), que atuam dentro dela, no segredo de sua identidade, se os cristãos reconhecessem todos os tesouros de paciência, de devoção e de atenção aos mais “pobres”, dos quais os homossexuais a cada dia dão prova (ajuda aos doentes de SIDA e aos anciãos, trabalho no âmbito da saúde ou da educação, etc.), os cristãos não estariam tão inclinados a condenar milhares de seus irmãos e irmãs ou de aceitar-lhes somente as palavras”.

A verdadeira fecundidade cristã não está ligada em primeiro lugar ao fato de ter filhos, mas à realização do Reino nas nossas vidas.

 

 


(1) Artigo de Claude Besson

 

Texto original: Revue Études

Revisão para português: José Leote

Papa Francisco concelebra Missa com Padre Defensor dos Direitos dos Homossexuais

No passado dia 6 de maio, o Papa Francisco beijou a mão e concelebrou com um sacerdote conhecido em Itália pela sua defesa dos direitos das pessoas homossexuais, o padre Michele de Paolis, de 93 anos e fundador da organização AGEDO FOGGIA.

 

O Pe. de Paolis concelebrou missa com o Papa Francisco na Casa de Santa Marta, tendo depois oferecido ao Sumo Pontífice um cálice em madeira e uma patena, bem como uma cópia do seu último livro «Caro Pe. Michele: Questões a Um Padre Inconveniente».

 

Num seu anterior livro, este sacerdote tinha escrito «o amor entre duas pessoas do mesmo sexo é uma dádiva de Deus, tal como acontece com o amor heterossexual». Afirmou ainda como disparatada a ideia de que os casais homossexuais não deveriam ter sexo.

 

O Papa Francisco encerrou o encontro beijando a mão do sacerdote.

 

Sendo o Pe. de Paolis, uma figura muito conhecida, em Itália, no âmbito da defesa dos direitos das pessoas homossexuais, o encontro teve enorme repercussão naquele país e, em conjunto com outro gestos recentes de Sua Santidade, é um indicador de esperança de que alguma coisa está a mudar na hierarquia da igreja e por isso também uma réstia de esperança para todos os homens e mulheres homossexuais.

 

Recordemos as palavras do Pe. de Paolis: «Temos de ultrapassar a letra das Escrituras, pois é o próprio Paulo em 2 Coríntios 3, 6, que nos diz: «a letra mata, enquanto o Espírito dá a vida».

 

«E é esta letra da Bíblia», escreveu de Paolis, «que matou e continua, de facto, a matar, infelizmente, não somente moralmente mas igualmente fisicamente. A Bíblia não é a palavra de Deus; a Bíblia contém a palavra de Deus.»

 

«Em vez de gastar energia em controvérsias intermináveis a Igreja deve procurar construir uma espiritualidade cristã de aceitação jubilosa do eu, dar graças a Deus pelo facto do amor homossexual ser uma dádiva de Deus, tal como o amor heterossexual. Uma espiritualidade na qual dialogamos e nos comparamos cos todos, mas somente obedecemos a Deus.»

 

As pessoas da Igreja, disse de Paolis, «ignoram por completo o fenómeno da homossexualidade, que a ciência já clarificou de forma inequívoca: a orientação homossexual não é livremente escolhida pela pessoa. O rapaz ou rapariga descobrirá que ela está profundamente enraizada na sua personalidade e que é um aspeto fundamental da sua identidade: não é uma doença, não é uma perversão.»

 

Lamentou a «insensibilidade» mostrada aos homossexuais por parte da Igreja Católica, afirmando: «Algumas pessoas da Igreja dizem que ‘não faz mal ser-se homossexual, desde que não tenham sexo e não exprimam amor entre si’. Esta é a maior das hipocrisias. É a mesa coisa que dizer a uma planta que cresce: «Não deves florir, não deves dar fruto!». Isso sim é contra a natureza!»

 

«Temos de ter paciência com a nossa Mãe Igreja», continua ele, «As suas atitudes em relação aos homossexuais mudarão.»

 

 

 

Artigo Original: LifeSiteNews

Tradução e adaptação: José Leote

HOMOSSEXUAIS E CATÓLICOS: Eles querem levantar o tabú

Casal Gay

Como conciliar a fé e o amor para com uma pessoa do mesmo sexo? E que diz atualmente a Igreja católica sobre a homossexualidade? Sem provocações, sem reivindicações mas somente a oportunidade para os cristãos abrirem os olhos sobre uma realidade, vidas, pessoas a acolher, a acompanhar e a escutar.

 

«Na faculdade, no nosso meio profissional, já não sentimos necessidade de esconder quem somos. Mas, na Igreja temos de manter um perfil baixo». Luís, 28 anos, tem o sentimento de não poder ser um cristão como os outros. Aspira a juntar-se a um grupo de leitura bíblica, ou de releitura de vida, como tantos dos seus amigos. «Mas como poderia eu participar ativamente se sinto que não posso invocar a minha espiritualidade, ancorando-a na dimensão relacional e afetiva da minha vida?»


Cristãos e homossexuais, o assunto permanece verdadeiramente tabu na Igreja católica. Falta de conhecimento duma realidade frequentemente identificada como uma cultura «gay» que se manifesta e exige, misturada com a pedofilia – que pode ser alimentada aos mais altos níveis da Igreja católica ainda recentemente -, as resistências são múltiplas. Como se os cristãos tivessem sempre dificuldade em reconhecer que a homossexualidade lhes toca tanto como ao resto da sociedade. Dominique recorda-se dolorosamente do escândalo que provocou quando consagrou um dossier a este tema na revista diocesana, impulsionada pelo vigário geral. «A homossexualidade e a Igreja são dois mundos que se ignoram e entre os quais tentamos construir pontes», reconhece Jean-Michel Dunand, fundador da Comunidade Contemplativa Betânia que se dedica, pela oração, «ao serviço das pessoas homossexuais». Na instituição, nenhuma comissão, nenhum grupo, nem no Vaticano, nem nas conferências episcopais, trabalham a questão. Uma vida desastrosa, segundo Philippe Ariño, autor de três obras sobre a cultura gay. «A Igreja tem o dever de investir neste universo e de compreender os seus códigos de modo a ser capaz de propor corretamente a sua mensagem», lança este católico comprometido de 31 anos.

 

É o teólogo moralista Xavier Thévenot que, nos anos 80 do século passado, revolucionou o olhar da Igreja, propondo as bases teológicas e pastorais do acolhimento aos homossexuais. Desde então o dossier nunca foi verdadeiramente reaberto.

 

Em França, a teóloga dominicana Véronique Magron profere regularmente conferências com um certo «sentimento de solidão». «Quase acreditaríamos que a Igreja pensa já ter feito muito sobre o assunto. Ora acontece que tudo ainda não foi dito, sublinha ela. Se, por exemplo, é para nós essencial, sob o plano teológico, pensar um casal estruturalmente aberto à fecundidade e à vida, isso não impede reconhecer que os casais homossexuais podem ter uma vida ética muito profunda. Por causa disto, temos ainda caminho a percorrer e a reflexão antropológica não se pode fechar». De facto, a questão do casal permanece delicada, mesmo se o magistério reconhece que este é preferível à libertinagem. Os pastores evocam o seu desejo de não escandalizar os outros paroquianos. Julien tentou integrar o grupo de reflexão da sua paróquia para jovens casais, mas foi dissuadido. «Para se construir de forma cristã sendo homossexual, tudo é inventado, sentimo-nos muito sós», deplora ele.
Na prática, o acolhimento às pessoas homossexuais na Igreja católica vive-se essencialmente na discrição dum acompanhamento pessoal. Com a finalidade de participar de forma coletiva articulada, alguns voltam-se para as associações de homossexuais católicos. Foi o que fez o Luís, um pouco a contragosto, sentindo-se enviado para um comunitarismo no qual, a priori, não se reconhecia. «Eu somente queria ser visto como um Filho de Deus. Porém, não há qualquer razão para ocultar a minha homossexualidade!» As paróquias nas quais estão implantadas estas associações, como Saint-Merri, em Paris, testemunham de facto a sua abertura. As ordens contemplativas mostram-se igualmente particularmente recetivas à procura dos movimentos. 25 comunidades acolheram cerca de cinquenta retiros que se desenrolaram nos últimos cinco anos, tais como os cistercienses ou a comunidade Betânia.

 

Algumas pessoas homossexuais preferem, contudo, juntar-se num desses sítios ditos «inclusivos», que acolhem minorias de todo o tipo. Desta forma, muitos católicos frequentam o templo protestante da Casa verde, em Paris, a Igreja MCC (Metropolitan Community Church), em Montpellier, ou o grupo Lambda da catedral americana (anglicano) de Paris.

 

«Para que as pessoas possam sair da clandestinidade, é preciso mudar os olhares. Não se trata de banalizar, a qualquer custo, a homossexualidade, isso nunca acontecerá, mas a Igreja não deve ajudar ao sofrimento», declara Claude. Em 2000, este natural de Nantes, fez testemunhar pais de pessoas homossexuais, no âmbito de uma reunião do Pentecostes, lançada pelo bispo. O grupo de Reflexão e Partilha nasceu em consequência, devido à sensibilização de padres e leigos. Após três anos de trabalho, publicou um livro, «Orientation sexuelle et vie chrétienne, que chegou aos 1000 exemplares.

 

Desde então, um movimento tímido de sensibilização começou na instituição. São frequentemente pais desamparados que revelam o vazio de propostas quando, em busca de informação e de apoio, se voltam para a igreja. Foi devido à sua interpelação que Fanny Chaligne, responsável diocesana pela pastoral da família de Orleães, pôs em marcha um grupo de partilha. Em Cambrai, Maria-Reine Guérin, antiga professora, viu o sofrimento dos adolescentes e a homofobia em marcha nas aulas. Membro dos serviços diocesanos da pastoral dos jovens, ela organizou uma conferência para sensibilizar pais, alunos e professores. «Passamos ao lado de muitos jovens porque fazemos como a avestruz. Sabemos sempre muitos bem quais merecem a nossa atenção num grupo, mas somos muito desajeitados e pouco audaciosos para ousar ajudá-los a avançar. Com esta conferência, ousamos dizer que estamos desarmados e que é preciso compreender em conjunto», explica ela.

 

Em Valenciennes, os encontros com a associação David & Jonathan foram organizados por Myriam Dubois, delegada da família para a região Norte, com a finalidade de formar a sua equipa, ativa quer no âmbito do conselho conjugal, quer no da educação afetiva e sexual dos jovens. «5% das pessoas questionam-se sobre a sua orientação sexual e há uma grande repressão: é indispensável que no nosso modo de evocar a sexualidade, as pessoas sintam que há uma porta aberta onde podem confiar. Para isso, não devemos ter medo de abordar o assunto: falar da homossexualidade não a provoca.»

 

Na Igreja de hoje, a abordagem é de aprender sobre este universo e sobre as questões que se levantam, para melhor acompanhar. «Começa-se a entrever que a homossexualidade não é uma reivindicação identitária mas uma realidade experimentada por pessoas que tentam viver de maneira responsável», comenta o padre Bernard Massarini, que acompanha os membros de «Tornar-se um em Cristo». A questão do acolhimento coloca-se com uma atualidade particular sobre o plano sacramental.

 

Inúmeras pessoas pedem para comungar, para serem confirmados ou batizados. Outrora não o teriam encarado, sabendo-se para além da norma estabelecida pela Igreja sobre a homossexualidade continente ou da heterossexualidade no casamento. Vemo-los igualmente pedir o batismo de um filho. Pedidos gerados caso a caso e que encontram acolhimento ou não, na discrição dos pastores.

 

De facto, toda a dificuldade, para os padres, é conseguir situar-se em relação ao magistério que prescreve a castidade continente a todos. «O objetivo do acompanhamento é o de ajudar a pessoa a implantar aquilo que ela é interiormente e que ela deve reconhecer», estima o padre Massarini. O magistério não é um mapa a seguir: é um resguardo, que permite evitar cair, quando passamos por «ondulação» demasiado forte. Recordando que existem outros esquemas, que a diferença sexual é estruturante, que a genitalidade mais não é do que uma parte da sexualidade, compromete-se a estar mais atento ao que fazemos e vivemos. E então transforma-se num utensílio para que haja mais humanidade.»

 

Porém, as pessoas homossexuais continuam a esperar uma forma de compromisso que venha do mais alto nível da instituição. Nos Estados Unidos, a carta pastoral «Eles são sempre os nossos filhos», dirigida pelos bispos, em 1996, aos pais e aos padres, esteve na origem de um verdadeiro pedido de acompanhamento eclesial. Nada disso se passou em França (N. T.: ou em Portugal). «Os bispos franceses dão mostras de uma grande abertura na intimidade dos gabinetes mas não passam daí, enquanto são tão audaciosos sobre outros temas», lamenta Jean-Michel Dunand. «Têm medo que se lhes lance a suspeita de caucionarem as questões da sociedade que estão relacionadas, como o casamento ou a adoção», analisa uma animadora em pastoral. «De facto, eles sentem-se felices que existam leigos para dizerem as coisas.» Em 2006, no âmbito de um sínodo diocesano, Michel Santier, então bispo de Luçon, pediu perdão a todos os que eram testemunhas «dos ferimentos recebidos da Igreja e dos seus membros» citando aqueles «que vivem uma orientação sexual que não escolheram». A declaração foi um escândalo, orquestrado pelos tradicionalistas da diocese. «A homossexualidade suscita uma tal agressividade em certos meios católicos que é preciso ser-se muito prudente na nossa abordagem pastoral. A palavra da igreja arrisca-se a ser sistematicamente mal compreendida», analisa-o ele hoje. Por seu lado, Gérard Daucourt, bispo de Nanterre, reconhece sentir-se «bastante desamparado para fazer propostas que formalizem o acolhimento das pessoas homossexuais, num contexto que se estende entre aqueles que lutam e aqueles que condenam.»

 

 

Autoria: Joséphine Bataille

Tradução: José Leote

Nova Série de Videos sobre Homossexuais Católicos

 O Papa Francisco não foi o único Jesuita a, nesta semana, ser notícias no que concerne às declarações positivas relacionadas com temas respeitantes às pessoas de orientação homossexual.

 

Também a Ignatian News Network, uma companhia de produções dos Jesuitas da California, lançou um video no YouTube, que é o primeiro de uma série sobre homossexuais católicos e a igreja e intitulado "Quem Somos Nós Para Julgar?".

 

Este primeiro episódio contém entrevistas com o Padre Jesuita James Martins, autor espiritual de renome, e com o Padre Jesuita Matt Malone, editor-chefe da America Magazine, uma revista católica americana. O episódio contém ainda uma entrevista com Arthur Fitzmaurice, um homossexual católico que é diretor de recursos da Catholic Association for Lesbian and Gay Ministry. Todos falam de forma positiva sobre os esforços de evangelização que muitas pessoas dentro da igreja católica estão a realizar com as pessoas LGBT.

 

Legendamos o vídeo, que aqui partilhamos com todos:

 

 

 

También hemos hecho la subtitulación del vídeo para nuestros hermanos de lengua española, que podrán encontra aquí.

O que a Bíblia diz - e não diz - sobre a homossexualidade (PARTE II)

A MINHA QUINTA PREMISSA

 

Perdemos o que essas passagens dizem a respeito de Deus, quando gastamos tanto tempo a debater o que elas dizem sobre sexo.

 

Se a Bíblia é a história do amor de Deus para o mundo e não um manual sobre sexo, isso por si só deveria moldar a maneira como lemos as Escrituras. Então, como nos vamos debruçar sobre os seis textos bíblicos que são usados por algumas pessoas para condenar a homossexualidade, vamos fazer duas perguntas sobre cada um deles:

 

Em primeiro lugar, o que é que o texto diz a respeito de Deus e que necessitamos ouvir, mas que nos pode estar a passar ao lado?

 

Em segundo lugar, o que é que o texto poderá estar a dizer sobre a homossexualidade?

 

 

PASSAGEM 1

Génesis 2, 21-25

A história da criação

 

Vamos começar "No início..." O que é que a história da criação em Génesis 1-2 diz sobre Deus?

 

Eu estou tão cansado de ler os placards feitos por manifestantes que dizem: "É sobre Adão e Eva, e não Adão e Sebastião." Na verdade, a história da criação é tão importante para Adão e Sebastião, como o é para Adão e Eva. Tanto homossexuais como heterossexuais, precisam de conhecer e celebrar a verdade no centro desta história.

 

Esta história da criação é principalmente a respeito de Deus, uma história escrita para mostrar o poder de Deus que criou o mundo e tudo que nele há. Ela ensina-nos que Deus é o nosso Criador, que Deus nos formou, e disse: "É bom." Não é este o coração do texto?

 

Agora, o que é que a história da criação diz sobre a homossexualidade? Como o texto diz, é "natural" que um homem e uma mulher se unam para criar uma nova vida, algumas pessoas pensam que isto significa que os casais homossexuais são "não natural". Elas interpretam assim o texto, mesmo que este esteja em silêncio sobre todos os tipos de relacionamentos que não gerem filhos, como por exemplo:

 

  • casais que não conseguem ter filhos;
  • casais que são velhos demais para terem filhos;
  • casais que optaram por não ter filhos;
  • pessoas solteiras.

 

São estas relações (ou a falta delas) "não naturais"? Não há nada dito aqui que condene ou aprove o amor que as pessoas do mesmo sexo possam ter uma pela outra, inclusive o amor que eu tenho para com o meu parceiro, Gary.

 

Então eu acredito que a história da criação diz muito sobre o poder de Deus e a Sua presença no universo - mas nada sobre a homossexualidade como a entendemos hoje.

 

 

 

PASSAGEM 2

Génesis 19, 1-14

A HISTÓRIA DE SODOMA

 

Agora vamos considerar o segundo texto bíblico usado por algumas pessoas para condenar os filhos de Deus homossexuais.

 

Lembra-se da história antiga de Sodoma?

 

Em primeiro lugar, o que é que a história de Sodoma em Génesis 19 diz sobre Deus?

 

Quando o Gary e eu vamos a uma faculdade ou universidade para falar, muitas vezes há manifestantes que carregam cartazes que anunciam:

 "Mel White é um sodomita". Na verdade, eu não sou de Sodoma. Essa cidade foi enterrada há séculos e ficava na área do Mar Morto. Eu sou da Califórnia.

 

Mais uma vez, esta história não é primariamente sobre sexo. É principalmente sobre Deus. Algumas pessoas dizem que a cidade de Sodoma foi destruída porque foi invadida por homossexuais sexualmente obcecados. Na verdade, a cidade de Sodoma tinha sido condenada à destruição muito antes. Então o que é que esta passagem nos diz realmente?

 

Jesus e cinco profetas do Antigo Testamento falam dos pecados que levaram à destruição de Sodoma - e nenhum deles menciona a homossexualidade. Mesmo o Billy Graham nunca mencionou a homossexualidade quando pregava sobre Sodoma.

 

Ouça o que Ezequiel 16, 48-49 nos diz: "Este é o pecado de Sodoma, ela e seus arrabaldes tiveram orgulho, excesso de comida, e próspera ociosidade, mas sem ajudar ou incentivar os pobres e necessitados. Eles eram arrogantes e isso foi abominável aos olhos de Deus. "

 

Hoje, tanto heterossexuais como homossexuais fazem bem em lembrar-se que partimos o coração de Deus, quando gastamos tudo o que ganhamos em nós mesmos, quando nos esquecemos dos pobres e famintos, quando nos recusamos a fazer justiça ou a mostrar misericórdia, quando deixamos os estranhos fora de portas.

 

Admito que há bastantes homossexuais que são sodomitas (e muitos heterossexuais também). Os sodomitas são ricos e não compartilham o que têm com os pobres. Os sodomitas têm muito, e querem mais, sempre mais. Enquanto milhões de pessoas passam fome, sem casa e com doenças, os sodomitas apressam-se a construir casas maiores, a comprar carros maiores e a possuir mais propriedades - colocando a sua confiança em carteiras de ações mais lucrativas e contas de aposentadoria mais seguras.

 

Seja qual for o ensino sobre a sexualidade que se possa retirar desta passagem, ouça a verdade primária e central que é a respeito de Deus. Deus chamou-nos para fazer justiça, amar a misericórdia, e andar humildemente com Ele. Sodoma foi destruída porque os seus habitantes não levaram Deus a sério sobre o cuidado com os pobres, os famintos, os sem-abrigo ou os proscritos.

 

Mas o que é que a história de Sodoma nos diz sobre a orientação homossexual como a entendemos hoje?

 

Nada, absolutamente nada!

 

Era comum para muitos soldados, ladrões e homens violentos violarem um inimigo caído, afirmando a vitória através de um ato desumano e degradante. Violar um inimigo, tinha a ver com poder e vingança, e não sobre a homossexualidade ou orientação homossexual. E isso ainda acontece.

 

 

Em agosto de 1997, Abner Louima, um jovem imigrante negro do Haiti, foi agredido por vários polícias depois de ter sido preso em Brooklyn. O tenente Charles Schwarz forçou Louima a baixar-se numa casa de banho de uma esquadra da polícia, enquanto o tenente Justin Volpe inseria uma vara quebrada no reto de Louima. Estes dois homens e outros três polícias envolvidos no incidente e no seu encobrimento, não eram homossexuais. Este não foi um ato homossexual. Tratava-se de poder e autoridade.

 

O ato sexual que ocorre na história de Sodoma é um estupro coletivo - e os homossexuais opõem-se a estupros tanto quanto qualquer outra pessoa. É por isso que eu acredito que a história de Sodoma diz muito sobre a vontade de Deus para cada um de nós, mas nada sobre a homossexualidade como a entendemos hoje.

 

 

PASSAGEM 3

Levítico 18, 22 e 20, 13

O CÓDIGO DE SANTIDADE

 

Vamos seguir em frente. O que é que os dois versículos, por vezes citados em Levítico dizem sobre Deus?

 

O Levítico 18, 22 diz: " Não coabitarás sexualmente com um varão; é uma abominação. "

 

Um versículo semelhante ocorre dois capítulos depois, em Levítico 20, 13: “Se um homem coabitar sexualmente com um varão, cometeram ambos um ato abominável; serão os dois punidos com a morte; o seu sangue cairá sobre eles. "

 

À primeira vista, essas palavras poderiam deixá-lo a sentir-se bastante desconfortável, especialmente se você é homossexual. Mas, mais objetivamente há uma profunda verdade sobre Deus - e não tem nada a ver com sexo.

 

O Levítico é um código de santidade escrito há 3.000 anos. Este código inclui muitas das leis sexuais desatualizadas que mencionámos anteriormente, e muito mais. Esse código inclui também proibições contra cortes de cabelo arredondados, tatuagens, trabalho ao sábado, o vestir roupas de tecidos mistos, comer carne de porco ou mariscos, leitura da mão e predições do futuro, e mesmo jogar com itens feitos de pele de porco. (Lá se vai o futebol!)

 

Então o que é um código de santidade?

É uma lista de comportamentos que as pessoas de fé acham ofensivos num determinado lugar e tempo. Neste caso, o código foi escrito apenas para os sacerdotes, e o seu objetivo principal era o de definir os sacerdotes de Israel sobre e contra os sacerdotes de outras culturas.

 

Quando tinha 10 anos, assinei um código de santidade escrito pela “Women’s Christian Temperance Union” que ordenava que eu nunca poderia provar cerveja, vinho ou licor. Eu pensei que se o assinasse, seria do agrado de Deus e da minha avó. Isso é um código de santidade. Quando eu estava no colégio, nós cristãos evangélicos, tínhamos um código de santidade não escrito e que era assim: "Eu não bebo, nem fumo, nem ando com meninas que o fazem" Agora eu sei o que você está a pensar. Essa última parte sobre "meninas que" foi particularmente fácil para mim. Mas a questão é que eu obedeci a esse código de santidade evangélica porque os meus pais disseram que quebrar essas regras não agradariam a Deus, e eu sabia que também não lhes agradaria a eles.

 

Tivemos outro código de santidade evangélica quando eu estava na escola que proibia a dança. Eu era delegado de turma, e recusei-me a ir ao baile porque tinha prometido não dançar. Eu fiz isso para agradar a Deus e à minha mãe - cuja mãe também a tinha feito assinar um código de santidade para que nunca dançasse.

 

E sobre esta palavra, abominação, que aparece em ambas as passagens?

Em hebraico, "abominações" (TO'EBAH) são comportamentos que as pessoas num determinado tempo e lugar consideram de mau gosto ou ofensivo. Para os judeus, uma abominação não era uma lei, não era algo mau como uma violação ou assassinato, expressamente proibido pelos Dez Mandamentos. Foi um comportamento coletivo de não-judeus, que levaram os judeus a pensar que esse tipo de comportamento desagradava a Deus.

 

Jesus e Paulo disseram que o código de santidade em Levítico não diz respeito aos crentes. No entanto, ainda existem pessoas que usam os dois versículos sobre “homens a dormir juntos”, com base neste código de santidade antigo, para dizer que a Bíblia condena a homossexualidade.

 

Mas espere, antes de continuarmos, vamos perguntar: O que é que este texto diz sobre Deus?

Mesmo que os códigos de santidade velhos já não se apliquem a nós, como cristãos é importante lembrarmo-nos de que em todas as épocas as pessoas de fé são responsáveis pelo estabelecimento de normas morais e éticas que honrem a Deus. Mas nós, pessoas de fé, devemos ter muito cuidado para não permitirmos que os nossos próprios preconceitos determinem o que esses padrões devam ser.

 

Em vez de se selecionar um item a partir de um código de santidade judaica antigo e usá-lo para condenar as minorias sexuais, vamos conversar sobre a definição de padrões sexuais que agradam a Deus - normas adequadas tanto para heterossexuais como para homossexuais, normas com base no amor, saúde e integridade para nós mesmos e para os outros.

 

Então, o que é que as passagens de Levítico dizem sobre a homossexualidade?

 

Estou convencido de que essas passagens não dizem nada sobre a homossexualidade como a entendemos hoje. Aqui está o porquê: Considere esta única passagem da Bíblia que foi usada durante séculos para condenar a masturbação:

 

Génesis 38, 9-10 – “Mas Onan compreendeu que essa descendência não seria a sua e, quando se aproximava da mulher de seu irmão, derramava no chão o sémen, a fim de não dar descendência a seu irmão. A sua conduta desagradou ao SENHOR, que também lhe deu a morte.”.

 

Para os escritores judeus da Escritura, um homem dormir com outro homem era uma abominação. Mas também o era, e digno de morte, a masturbação ou até mesmo praticar o “coito interrompido” (que é um método de contraceção no qual, durante a relação sexual, o pénis é removido da vagina logo antes da ejaculação, impedindo a deposição de sémen no interior da vagina. Era, e é, primordialmente um ato de controle de natalidade).

 

 Por que é que essas práticas sexuais eram consideradas abominações pelos escritores da Bíblia nesses tempos antigos?

 

A compreensão pré-científica judaica era de que o sémen dos homens continha a totalidade da vida. Sem conhecimento do sistema reprodutor feminino e da ovulação, assumiu-se que o esperma do homem continha toda a criança e que a mulher fornecia apenas o espaço de incubação. Portanto, o derramamento de sémen, sem a possibilidade de se gerar um filho era considerado assassinato.

 

Os judeus eram uma pequena tribo que lutava para povoar um país. Eles estavam em desvantagem numérica em relação aos seus inimigos. Entende-se a razão pela qual esses povos antigos sentiam que era uma abominação "perder" nem que fosse um único filho. Mas a passagem não diz nada sobre a homossexualidade como a entendemos hoje.

 

Nós já falámos sobre as passagens das Escrituras hebraicas que são usadas (ou mal usadas) por algumas pessoas para condenar as minorias sexuais. Agora vamos ver os três versículos das cartas do apóstolo Paulo nas Escrituras cristãs que são usados da mesma forma. Lembre-se: Em primeiro lugar, vamos verificar o que o texto diz a respeito de Deus, em segundo lugar, vamos considerar o que pode ou não dizer sobre a orientação sexual.

 

 

PASSAGEM 4

Romanos 1, 26-27

NATURAL E CONTRANATURA

 

O que é que Romanos 1, 26-27 diz sobre Deus?

 

Para a nossa discussão, esta é a passagem bíblica mais polémica de todas elas. Em Romanos 1, 26-27, o apóstolo Paulo descreve as mulheres não-judaicas que trocam as "relações naturais por outras que são contra a natureza" e os homens não-judeus, que "deixando as relações naturais com a mulher, inflamaram-se em desejos de uns pelos outros."

 

Este versículo parece ser claro: Paulo vê mulheres em práticas sexuais com outras mulheres e homens que têm sexo com outros homens e ele condena essa prática. Mas vamos voltar 2.000 anos atrás e tentar entender o que é que ele condena.

 

Paulo está a escrever esta carta aos Romanos depois da sua viagem missionária pelo Mediterrâneo. Na sua viagem, Paulo tinha visto grandes templos construídos em honra de Afrodite, Diana, e outros deuses da fertilidade e deusas do sexo e da paixão, em detrimento do único e verdadeiro Deus que o apóstolo honrava. Aparentemente, esses sacerdotes e sacerdotisas envolviam-se frequentemente em situações sexuais bizarras - incluindo castração, participavam em orgias sexuais embriagados e até tinham relações sexuais com jovens prostitutos e prostitutas do templo - tudo para honrar os deuses do sexo e do prazer.

 

A Bíblia é clara ao afirmar que a sexualidade é um dom de Deus. O nosso Criador celebra a nossa paixão. Mas a Bíblia também é clara ao dizer que quando a paixão toma o controle das nossas vidas, estamos em apuros.

 

Quando vivemos para o prazer, quando nos esquecemos que somos filhos de Deus e que Deus tem grandes sonhos para a nossa vida, podemos acabar servindo os falsos deuses do sexo e da paixão, assim como eles fizeram no tempo de Paulo. Na nossa obsessão pelo prazer, que pode até mesmo afastar-nos do Deus que nos criou - e, que no processo, pode até fazer com que Deus abandone todos os grandes sonhos e planos que Ele tem para as nossas vidas.

 

Será que esses sacerdotes e sacerdotisas tinham esses comportamentos, porque eles eram lésbicas ou homossexuais? Sinceramente acho que não. Será que Deus os abandonaria porque eles eram homossexuais? Não. Leia o texto novamente.

 

O Rev. Dr. Louis B. Smedes, um autor cristão distinto e especialista em ética, descreve claramente como esses sacerdotes e sacerdotisas promíscuas se envolveram nesta confusão, claro está, corroborado pela Palavra de Deus. Mais uma vez, nada tem a ver com a homossexualidade em si:

 

Smedes: "As pessoas que Paulo tinha em mente, recusaram-se a reconhecer e a adorar a Deus, e por este motivo foram abandonados por Deus. E ao serem abandonados por Deus, ele afundaram-se em depravações sexuais."

 

Smedes: "Os homossexuais que eu conheço não rejeitaram Deus de modo algum, pois eles amam a Deus e agradecem-lhe pela Sua graça e pelos Seus dons em suas vidas. Como poderiam eles então ter sido abandonados à homossexualidade, como forma de punição por se recusarem a reconhecer a Deus?"

 

Smedes: "Nenhum dos homossexuais que eu conheço desistiu das suas paixões heterossexuais em detrimento dos seus desejos homossexuais. Eles têm sido homossexuais desde o início dos seus impulsos sexuais. Eles não mudaram de uma orientação sexual para outra, eles descobriram apenas que eram homossexuais. Seria antinatural para a maioria dos homossexuais fazer sexo heterossexual."

 

Smedes: "E os homossexuais que eu conheço não desejam outros mais do que as pessoas heterossexuais ... o seu amor pelos seus parceiros é provável que seja tão espiritual e pessoal como qualquer amor heterossexual pode ser."

 

Obrigado, Dr. Smedes.

 

Conhecer uma pessoa homossexual que compartilhe da nossa fé em Cristo, vai ajudá-lo a perceber que não é razoável (sendo-o até injusto) comparar o amor dessa pessoa por outra do mesmo sexo, com os rituais de depravação sexual dos sacerdotes e sacerdotisas que dançavam em torno das estátuas de Afrodite e de Diana. Mais uma vez, tenho a certeza que essa passagem diz muito sobre Deus, mas nada sobre a homossexualidade como nós a entendemos hoje.

 

Você também vai notar que Romanos 2 começa com " Por isso, não tens desculpa tu, ó homem, quem quer que sejas, que te armas em juiz. É que, ao julgares o outro, a ti próprio te condenas..." Mesmo após descrever as práticas perturbadoras que viu, Paulo adverte-nos que julgar os outros é um assunto de Deus, e não nosso.

 

 

PASSAGENS 5 e 6

1 Coríntios 6, 9 e 1 Timóteo 1, 10

O MISTÉRIO DOS "MALOKOIS" E "ARSENOKOITAI" 

 

Agora, o que é que os escritos de Paulo em 1 Coríntios 6, 9 e 1 Timóteo 1, 10 dizem, em primeiro lugar sobre Deus, e, em seguida, sobre a homossexualidade? Estes são os dois últimos lugares na Bíblia que parecem referir-se ao comportamento sexual entre o mesmo sexo. Nós podemos combiná-los, porque eles são bastante semelhantes.

 

Paulo está exasperado. Os cristãos em Éfeso e Corinto têm disputas entre si, (familiar?). Em Corinto eles têm mesmo processos a decorrer uns contra os outros nos tribunais seculares. Paulo grita: "Vocês estão a partir o coração de Deus do modo como se tratam uns aos outros.”

 

Como todo o bom escritor, Paulo antecipa a primeira pergunta deles: "Bem, como nos devemos tratar uns aos outros?" Paulo responde: "Vocês sabem muito bem como se devem tratar uns aos outros. Está escrito nas tábuas de pedra da lei judaica."

 

A lei judaica foi criada por Deus para ajudar a regular o comportamento humano, para relembrar igrejas como as de Corinto e Éfeso de como Deus quer que nos tratemos uns aos outros. Paulo recita exemplos da lei judaica em primeiro lugar. Não se matem uns aos outros. Não durmam com uma pessoa que é casada. Não mintam, enganem ou roubem. A lista continua, e inclui também advertências contra a fornicação, idolatria, lenocínio, perjúrio, embriaguez, orgias e extorsão. Ela também inclui os termos "malokois" e "arsenokoitai".

 

E é aqui que começa a confusão. O que é um malokois? O que é um arsenokoitai?

Na verdade, essas duas palavras gregas têm confundido os estudiosos até aos dias de hoje. Diremos mais sobre elas mais tarde, quando perguntarmos o que os textos dizem sobre sexo. Mas primeiro vamos ver o que os textos dizem sobre Deus.

 

Depois de citar a lei judaica, Paulo lembra aos cristãos de Corinto que eles estão sob uma nova lei: a lei de Jesus, a lei do amor que nos obriga a fazer mais do que apenas evitar o assassinato, adultério, mentir, enganar e roubar. Paulo diz-lhes que o que Deus quer, não é uma restrita adesão a uma lista de leis, mas um coração puro, de uma boa consciência, e de uma fé que não seja falsa.

 

Essa, é a lição que todos nós precisamos de aprender com esses textos. Deus não nos quer a ter disputas uns contra os outros, sobre quem está no reino e quem está “fora” dele. Deus quer que nos amemos uns aos outros. É a tarefa de Deus julgar-nos. Essa não é de todo a nossa tarefa.

 

Então, o que é que esses dois textos dizem sobre a homossexualidade? São de facto homossexuais que Paulo está a mencionar aqui, e que constam na lei judaica?

 

Estudiosos gregos dizem que no primeiro século a palavra grega “malaokois” provavelmente significava " prepubescentes que atraem clientes". A Nova Versão Internacional diz: "prostitutos".

 

Quanto à arsenokoitai, os estudiosos gregos não sabem exatamente o que isso significava – e o facto de não sabermos é uma grande parte desse trágico debate. Alguns estudiosos acreditam que Paulo estava inventando um nome para se referir aos clientes dos “prostitutos”. Podemos chamá-los de "velhos sujos." Outros traduzem a palavra como "sodomitas", mas nunca explicam o que isso significa.

 

Em 1958, pela primeira vez na história, uma pessoa traduziu essa misteriosa palavra grega para inglês e decidiu que significava homossexual ou homossexuais, mesmo que essa palavra não exista no grego antigo ou no hebraico. Mas esse tradutor tomou a decisão por todos nós, e colocou a palavra homossexual na versão inglesa da Bíblia pela primeira vez.

 

No passado, as pessoas usavam os escritos de Paulo para apoiar a escravidão, segregação racial e apartheid. As pessoas ainda usam os escritos de Paulo para oprimir as mulheres e limitar o seu papel no lar, na igreja e na sociedade.

 

Agora, temos de nos perguntar: "Será que isso está a acontecer novamente?" É uma palavra em grego que não tem uma definição clara, e que está a ser usada para refletir o preconceito da sociedade e a condenar os filhos homossexuais de Deus?

 

Todos nós precisamos de olhar mais de perto para aquela misteriosa palavra grega “arsenokoitai” no seu contexto original.

 

Eu acho mais convincente o argumento de que Paulo estava a condenar homens casados que contratavam prostitutos prepubescentes (malakois) para o prazer sexual da mesma forma que contratavam meninas de pele suave para esse fim.

 

Homossexuais responsáveis unir-se-iam com certeza a Paulo para condenar aqueles que usam crianças para sexo, da mesma forma que nos juntaríamos a alguém para condenar as violações coletivas em Sodoma, ou o comportamento das sacerdotisas e sacerdotes loucos por sexo que deambulavam por Roma. Então, mais uma vez, estou convencido de que esta passagem diz muito sobre Deus, mas nada sobre a homossexualidade como a entendemos hoje.

 

 

A MINHA SEXTA PREMISSA

 

Os autores bíblicos estão silenciosos sobre a orientação homossexual como nós a conhecemos hoje. Eles nem a aprovam nem a condenam.

 

Já vimos de perto os seis textos bíblicos usados por algumas pessoas para condenar a homossexualidade. Mas também devemo-nos lembrar que Jesus, os profetas judeus, e até mesmo Paulo nunca sequer comentaram sobre o amor responsável que um homossexual sente por outro.

 

A Bíblia é completamente omissa sobre a questão da orientação homossexual. E não é de admirar, pois a orientação homossexual não era sequer conhecida até ao século XIX.

 

A descoberta de que alguns de nós são criados e/ ou formados a partir da  nossa mais tenra infância a sentirem atração por pessoas do mesmo sexo só foi feita nos últimos 150 anos.

 

Autores bíblicos não sabiam nada sobre a orientação sexual. Autores do antigo testamento e o próprio Paulo, assumiam que todas as pessoas nasciam e eram criadas heterossexuais, assim como eles acreditavam que a terra era plana, e que o sol se movia para cima e para baixo.

 

Em 1864, quase 3.000 anos depois de Moisés e pelo menos 18 séculos depois do apóstolo Paulo, o cientista social alemão Karl Heinrich Ulrichs foi o primeiro a declarar que os homossexuais eram uma classe distinta de indivíduos. Foi um grande momento para todas as minorias sexuais. É o nosso Colombo ao descobrir o Novo Mundo. É a nossa Madame Curie ao descobrir o rádio usado para os raios-X. É o nosso Neil Armstrong a caminhar na lua. Pode parecer um pequeno passo para o resto de vocês, mas é um grande passo para nós.

 

Ulrichs garantiu ao mundo do que nós, que somos homossexuais já o sabemos em nossos corações desde precoce idade. Nós não somos apenas heterossexuais que optam por ter comportamentos sexuais com indivíduos do mesmo sexo. Nós somos toda uma classe de pessoas cujo desejo de intimidade com o mesmo sexo, está no âmago de nosso ser, desde o início de nossas vidas.

 

Embora a palavra homossexual não tenha sido usada pela primeira vez até finais século XIX, Ulrichs reconheceu que os homossexuais sempre existiram, e que eram "por natureza diferentes dos heterossexuais", e que o nosso desejo por pessoas do mesmo sexo, intimidade e filiação é intrínseca, natural, inata desde a mais tenra infância. De acordo com o Dr. Ulrich, o que podia parecer "não natural" a Moisés e Paulo, era de facto "natural" para os homossexuais.

 

Portanto, esta é a minha sexta premissa. Os autores bíblicos não sabiam nada sobre a orientação homossexual como nós a entendemos, e, portanto, não dizem nada para a condenar ou aprovar.

 

Os autores da Bíblia são as autoridades em matéria de fé. Eles podem ser confiáveis quando falam sobre Deus. Mas eles não devem ser considerados as autoridades finais na orientação sexual.

 

Uma vez que os escritores da Bíblia não são as autoridades finais sobre a sexualidade humana, uma vez que nem sequer sabiam nada sobre a orientação sexual como a entendemos hoje, uma vez que Jesus e os profetas judeus ficaram em silêncio sobre qualquer tipo de comportamento do mesmo sexo, estou convencido de que a Bíblia não tem nada nela para aprovar ou condenar a orientação homossexual como nós a entendemos hoje.

 

 

A MINHA SÉTIMA PREMISSA

 

Embora os profetas, Jesus, e outros autores bíblicos não tenham dito nada sobre a orientação homossexual como a entendemos hoje, eles são claros sobre uma coisa: à medida que procuramos a verdade, devemo-nos "amar uns aos outros."

 

Podemos não ser capazes de usar a Bíblia como a autoridade final sobre a orientação sexual. Mas, à medida que buscamos a verdade, podemos e devemos usar a Bíblia como a nossa autoridade final sobre o modo como nos devemos tratar uns aos outros ao longo do caminho.

 

Um erudito jovem judeu perguntou a Jesus: "Qual é o maior mandamento?" Citando os profetas, Jesus respondeu: "O maior mandamento é este… amar a Deus com todo o teu coração, alma, mente e força, e o segundo mandamento é amares o próximo como te amas a ti mesmo ".

 

"Este é o meu mandamento:" Jesus disse: "que se amem uns aos outros, como eu vos amei." Na Bíblia isto é bastante explícito. Mesmo que discordemos com o que a Bíblia pareça dizer sobre a homossexualidade, podemos concordar que acima de tudo somos ordenados pelas Escrituras a amar a Deus e amarmo-nos uns aos outros.

 

Uma vez que Deus é o Deus da verdade e já que o próprio Jesus nos disse que a verdade nos libertaria, um modo de amarmos a Deus e amarmos ao próximo é a de buscar a verdade sobre a orientação sexual onde a possamos encontrar.

 

Existe um crescente corpo de evidências científicas, da psicologia, história, psiquiatria, medicina e experiência pessoal que levam a um veredicto claro: a homossexualidade não é uma doença nem um pecado. Infelizmente, a igreja sempre foi lenta, e na maior parte das vezes a última instituição na terra a aceitar uma nova verdade.

 

Em 1632, o cientista Galileu (que era um homem de fé) atreveu-se a apoiar a ideia radical de Copérnico, que viveu no século XV, de que todos os planetas, incluindo a Terra, giravam em torno do sol. Imediatamente, Galileu foi proclamado um herege pelo Papa, que citou as Escrituras na sua tentativa de refutar o que a ciência estava a provar.

 

Antes disso, “heróis protestantes” tinham-se unido para citar as Escrituras e condenar Copérnico. Estes não eram homens maus. Mas eles não podiam conceber que a Bíblia era um livro sobre Deus, e não sobre astronomia – tal como bons homens e mulheres de hoje têm dificuldade em admitir que a Bíblia é um livro sobre Deus, e não sobre a sexualidade humana.

 

Martinho Lutero disse: "Este tolo Copérnico deseja reverter toda a ciência da astronomia, mas a Sagrada Escritura em Josué 10, 13 diz-nos que Josué ordenou que o sol ficasse parado, e não a terra."

 

 

João Calvino citou o Salmo 93 no seu ataque a Copérnico. " Firmou o universo, que não vacilará”. Calvino acrescentou: " Quem é que se vai aventurar a colocar a autoridade de Copérnico acima da do Espírito Santo? "

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Melâncton, um dos mais próximos aliados de Lutero, usou Eclesiastes 1, 4-5 para condenar Copérnico. " O Sol nasce e o Sol põe-se e visa o ponto donde volta a despontar." Então, ele acrescentou estas palavras perigosas: "É parte de uma boa mente aceitar a verdade revelada por Deus, e obedecer-lhe. "

 

Por outras palavras ele diz que devemos acreditar no que a Bíblia diz - mesmo que a ciência o desminta.

 

Devido ao facto de os cristãos se terem recusado a deixar que a sua compreensão sobre a Palavra de Deus fosse atualizada pela ciência, Copérnico e Galileu foram condenados, declarados hereges e colocados sob prisão domiciliar para o resto de suas vidas. Em 1992, 359 anos depois, o Papa João Paulo II finalmente admitiu que a igreja tinha errado ao ignorar a ciência e ao interpretar a Bíblia literalmente.

 

O Papa disse algo que nunca se deve esquecer: "Os estudos históricos recentes permitem-nos afirmar que este triste mal-entendido agora pertence ao passado." Infelizmente, o pedido de desculpas veio tarde demais para aliviar Galileu do seu sofrimento. E se os estudiosos bíblicos da época de Galileu tivessem dito a Galileu: "Nós não concordamos com as suas teorias baseadas em Copérnico, mas resolvemos amar e confiar em você. Desde que ame a Deus e busque a vontade de Deus para a sua vida, você é bem-vindo aqui."

 

 

Imaginem o sofrimento que poderia ser evitado se a igreja dissesse isso aos seus filhos homossexuais: "Nós não entendemos a vossa opinião sobre a orientação sexual, mas nós amamos e confiamos em vocês. Desde que vocês amem a Deus e busquem a Sua vontade para as vossas vidas, vocês são bem-vindos aqui."

 

Em vez disso, os cristãos bem-intencionados estão a levar os seus filhos para longe da igreja, usando passagens bíblicas que nem sequer se referem à orientação sexual tal como a entendemos.

 

 

A MINHA OITAVA PREMISSA

 

Independentemente do que algumas pessoas achem do que Bíblia diz sobre a homossexualidade, não devem usar essa crença para negar aos homossexuais os seus direitos civis básicos. A discriminação contra minorias sexuais ou de género, é injusta.

 

Por favor, considere uma última coisa. Eu amo a Bíblia. Eu li a Palavra de Deus e ouço a voz de Deus através dela. Mas o nosso país não é um país regido pela lei bíblica. A nossa nação é regida pela Constituição. As nossas leis foram criadas para proteger o direito a um indivíduo de discordar. Se a lei bíblica (ou a visão que alguém tem sobre ela) substituir a Constituição como a lei da terra, estamos a minar o grande alicerce sobre o qual este país foi construído.

 

Quando eu fui convidado para um “talk-show” em Seattle, eu vi o que me poderia acontecer a mim e a milhões de pessoas como eu, se um verdadeiro literalista ganhasse o poder político sobre este país. O outro convidado do programa era um pastor presbiteriano independente. Quando eu lhe disse que era homossexual, ele disse sem hesitar: "Então você deveria ser morto." Um irmão cristão condenando-me à morte, guiado apenas pelo seu entendimento literal de Levítico 20, 13.

 

Perguntei-lhe: "Quem deve fazer a matança, vocês pessoas da igreja?" Ele respondeu: "Não, esse é o trabalho das autoridades civis. É por isso que precisamos eleger mais homens de Deus para o governo."

 

Sentei-me em silêncio atordoado, até que ele acrescentou:" Eu sei que deve ser difícil para você ouvir, Dr. White - mas Deus disse que em primeiro lugar o nosso dever é obedecer. "

 

Eu espero que nós possamos concordar que devemos estar unidos contra aqueles que desejam substituir a Constituição pela lei bíblica. É por isso que, quando eu dou palestras no campus de uma universidade, eu trago uma Bíblia num bolso e uma Constituição no outro.

 

Podemos apoiar os plenos direitos civis para todos mesmo que se discorde?

 

Nesta última premissa, estou a pedir-lhe que mesmo que não concorde com a minha posição sobre a homossexualidade, que pelo menos sustente a minha posição sobre os direitos civis para todas as pessoas, incluindo os homossexuais.

 

 

Eu espero que concorde que somos uma família, todos irmãos e irmãs do mesmo Pai celestial. Podemos ser diferentes, mas ainda assim podemos viver juntos… e em paz.

 

 

Autor: Mel White

Tradução: Vítor Roma

Revisão, adaptação e arranjo gráfico: José Leote

Texto original: aqui.

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