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RUMOS NOVOS - Católicos Homossexuais

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

O Bispo John Stowe presente num encontro de católicos LGBT nos Estados Unidos

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No encontro Stowe afirmou sentir-se pequenino perante aqueles e aquelas que continuaram «uma vida de fé numa igreja que nem sempre os/as acolheu ou valorizou» ou ao seu esforço. Enquanto pastor, é preciso escutar as suas vozes e levar a sério a sua experiência, afirmou, tendo acrescentado que quer a presença quer a persistência dos católicos LGBT o inspiraram.

 

Eles têm mostrado «uma expressão valiosa de misericórdia» ao interpelarem a igreja «a ser mais inclusiva e mais próxima de Cristo, apesar de se lhes darem muitas razões para irem embora», afirmou.

 

O Bispo John Stowe tem esperança e reza «por uma cultura do encontro» que permita assegurar «que possamos tornar-nos copletamente comprometidos com aqueles e aquelas que pretendem viver uma vida católica e que amam a igreja católica... Por que razão quereríamos voltar-lhes as costas?», perguntou.

 

Stowe recuou ao encontro de S. Francisco com o pedinte há 800 anos. No início, o leproso com as suas chagas abertas repeliu-o, mas depois S. Francisco foi capaz de beijar o leproso. «Ele foi transformado por este encontro», disse o bispo.

 

«O nosso modo habitual de pensar é aquele de que justiça e misericórdia são incompatíveis.» disse Stowe. Porém, o Papa Francisco pediu aos católicos para encontrarem novos caminhos para trabalharem em conjunto, para abrirem novas possibilidades e tentarem não fazer juízos uns dos outros, acrescentou. «Todos nós ainda necessitamos de misericórdia. Trata-se da necessidade de conversão de atitudes tanto para a igreja institucional como para os seus membros», disse Stowe.

 

Sobre os funcionários da igreja e outros leigos comprometidos que tem sido afastados devido à sua orientação sexual, Stowe afirmou: «Temos de preservar a nossa tradição e a nossa integridade enquanto igreja. Arriscamo-nos a entrar em contradição sempre que pretendemos que os funcionários da igreja [e outros leigos comprometidos] vivam de acordo com os ensinamentos da igreja e quando nós, enquanto instituição, não vivemos de acordo com o nosso ensinamento, que sempre se opôs a qualquer tipo de discriminação.»

 

Stowe pensa que a igreja pode encontrar um caminho que permita «defender a nossa liberdade religiosa sem violar os direitos humanos de ninguém.» «Temos de ser consistentes, mesmo que isso algumas vezes possa ser difícil.»

 

O desafio é «articular os princípios do Evangelho de forma consistente e implementá-los com compaixão», disse. Algo que a doutrina social da igreja sempre defendeu foi a dignidade de cada ser humano. «Pregamos que o desabrochar do ser humano é um objetivo primordial,» afirmou, «mais importante do que a proteção das nossas instituições.»

 

Stowe afirmou ainda que nas suas muitas visitas a encontros de Crisma, os adolescentes da sua diocese perguntam: «Por que motivo os católicos e as católicas homossexuais não podem ser eles mesmos? Bispo Stowe,por que razão eles não podem amar quem querem?»

 

Ele disse que admira a forma como cada jovem sabe que a igeja acredita no valor intrínseco de cada pessoa. Porém, também sabem que as pessoas LGBT nem sempre são bem acolhidas ou tratadas com justiça na igreja, disse.

 

Ele tenta familiarizá-los com a doutrina da igreja sobre a dignidade de cada ser humano, citando palavras do documento do Concílio do Vaticano II, Gaudium et Spes (a Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Moderno) e outros exemplos. Ele refere como a discriminação conduz à desumanização, frequentemente exteriorizada em bullying, abuso, alguma vezes violência e mesmo morte.

 

«Temos de escutar os nossos jovens e prestar atenção a coisas como estas,» insistiu o bispo.

 

Refletindo sobre Mateus 12, 1-14, o bispo disse aos presentes que nesta leitura da moralidade cristã, ele encontra o valor infinito da pessoa humana para ser «a pedra angular e a fundação que permita determinar a moralidade de um determinado ato ou questão. A moalidade cristã está mais preocupada com o bem-estar da pessoa do que com regras, normas ou ordens. Jesus parece ensinar isto em inúmeras ocasiões», afirmou Stowe.

Os Homossexuais Católicos também são Igreja

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Ser homossexual significa estar arredado da participação ativa na sua comunidade paroquial; significa estar segregado, marginalizado.

 

Será porém este o ensinamento de Cristo? Será que o mesmo Cristo redentor que abençoou os puros de espírito, que chamou a Si todos os cansados e os oprimidos, que chamou todos sem exceção à sua Igreja, pode apelar à segregação? Ao afastamento? à marginalização? Serão mais dignos do amor de Deus todos os demais fiéis que sendo homossexuais não o dizem? Que sendo casados cometem adultério? Não será aqui que reina o pecado? Haverá pecado numa relação de amor e entrega mútua entre duas pessoas que se amam? Se Deus é amor, porque não poderá estar no meio do casal estável de homossexuais?

 

Será que uma igreja que defende um Cristo que veio trazer a nova e eterna Aliança, pelo Novo Testamento, se pode refugiar, quando isso lhe é útil, em livros do Antigo Testamento?

 

Será lícito que uma igreja que defende a interpretação não literal do texto bíblico, se refugie nesse tipo de interpretação quando pretende condenar a homossexualidade?

 

Enfim, será a Igreja instituída por Cristo em Pedro, a primeira pedra, que está errada, ou será a igreja dos homens que peca?

 

Estamos certos que Deus não olhará para a homossexualidade como pecado. Como seria isso possível de acontecer num Deus que ama e ampara todas as criaturas sem exceção? Efetivamente, se a homossexualidade for entendida como a identidade psicossexual dentro das fronteiras de um desenvolvimento humano saudável e psicológico, tendo por significado um relacionamento estável amoroso, então sendo Deus amor, onde há amor verdadeiro Deus está presente e onde Deus está presente não pode existir pecado.

 

Deus criou as pessoas com atracões românticas e físicas por pessoas do mesmo sexo, assim como aquelas com atracões por pessoas do outro sexo. Todos estes sentimentos são naturais e são considerados bons e abençoados por Deus. Logo estes sentimentos e atracões não podem constituir pecado e ser motivo de exclusão dos homossexuais da participação ativa nas suas comunidades paroquiais.

 

Porém, se a homossexualidade tem por significado comportamentos eróticos com pessoas do mesmo sexo, expressões físicas de união e prazer, encontros ocasionais, infidelidade, manipulação, então o pecado existe, quer na homossexualidade quer na heterossexualidade.

 

Conforme já verificámos atrás a Igreja refugia-se na Bíblia para condenar a homossexualidade (entendida como uma relação amorosa estável e fiel entre duas pessoas que se amam e querem ser família), contudo (conforme também já o referimos) a linguagem bíblica não se refere à homossexualidade como a entendemos, mas a prostitutos masculinos que eram utilizados nos cultos pagãos. Certamente que em parte alguma da Bíblia se legisla sobre o tema de uma atracão profunda e de amor entre dois adultos do mesmo sexo, resultando num compromisso.

 

Por outro lado, sendo a homossexualidade tão natural e dada por Deus como o é a heterossexualidade, facilmente nos apercebemos que as invetivas bíblicas contra a homossexualidade foram condicionadas pelas atitudes e crenças acerca desta forma de sexualidade e correspondentes a uma determinada época histórico-cultural.

 

Deste modo, todas as manifestações de um amor fiel e responsável entre duas pessoas homossexuais não são algo tratado nas Sagradas Escrituras.

 

O casal homossexual vivendo em pleno e de forma madura a sua relação de amor mútuo, deve fazer parte integrante da sua comunidade paroquial. Nela participar ativamente, dando testemunho, paralelamente com os demais casais heterossexuais, pois o casal homossexual católico não deve, nem pode, continuar a ser arredado da sua Fé em Deus e em Cristo. Um Cristo que diariamente continua a morrer na cruz para redenção dos homens, de TODOS os homens.

 

Por tudo isto e como leigos empenhados nas suas diversas comunidades paroquiais os casais de homossexuais masculinos devem ser chamados à participação, pois...

 

NÓS TAMBÉM SOMOS IGREJA!

Algumas Considerações Sobre a Entrevista Dada Pela Dra. Maria José Vilaça à Edição Portuguesa da Revista “Família Cristã”, do Mês de Novembro

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São sobejamente conhecidas as posições da Dra. Maria José Vilaça em assuntos como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, adoção e coadoção por casais do mesmo sexo e sobre a homossexualidade em si mesma.

 

Variadíssimas têm sido as vezes em que temos discordado publicamente das posições assumidas, outras há em que concordamos com os argumentos apresentados.

 

Deixando de lado a questão da denominada «ideologia do género», centremo-nos nas palavras proferidas. Da imprensa retemos: “Ter um filho homossexual é como ter um filho toxicodependente, não vou dizer que é bom”. Na entrevista dada à «Família Cristã» encontramos: «”Eu aceito o meu filho, amo-o se calhar até mais, porque sei que ele vive de uma forma que eu sei que não é natural e que o faz sofrer.” É como ter um filho toxicodependente, não vou dizer que é bom.»

 

Antes de prosseguirmos nesta reflexão, importa outrossim sublinhar dois conceitos, esses sim, presentes da resposta da dra. Maria José Vilaça: contra a lei natural e o sofrimento em função da orientação sexual. Ambos os argumentos são sobejamente conhecidos, mas gostaríamos de nos ater ao segundo (seria demorado abordar o primeiro argumento – nem é esse o objeto destas nossas considerações – fundamentado em S. Tomás de Aquino, cujo pensamento ainda detém uma enorme influência no seio da Igreja Católica e, em particular as suas ideias referentes à ética sexual que ainda moldam os ensinamentos da Igreja) e sublinhar que o que faz sofrer um católico homossexual não é tanto a sua condição de pessoa homossexual, mas mais a estigmatização que, infelizmente, alguns setores dentro da nossa igreja a submetem, esquecendo eles mesmos o acolhimento com delicadeza, compaixão e respeito, proposto pelo próprio Catecismo. Acreditamos que eliminada esta estigmatização e efetuada uma caminhada para o autêntico e fraterno acolhimento, em misericórdia, destes, como de todos e todas, os restantes fiéis, esse sofrimento terminará. Esse sofrimento, é igualmente provocado pela estigmatização que algumas famílias católicas infligem aos próprios filhos e filhas, esquecendo-se da sua condição de pais e do ser amor incondicional para com os filhos. Famílias que colocam acima desse amor, determinações e conceitos de uma Igreja anterior ao Vaticano II e que não sabia ler os sinais dos tempos.

 

Depois dizer que para percebermos algumas posições de alguns católicos e, por maioria de razão, da própria igreja católica institucional será sempre útil perceber a sua substância, origem e fundamentação teológica, pois somente assim poderemos caminhar na construção de pontes justas de diálogo, partilha e compreensão mútua.

 

Finalmente as palavras da dra. Vilaça que tanta celeuma levantaram ao longo deste fim de semana: eventualmente comparar a homossexualidade à toxicodependência e que fizeram logo alguns a se colocarem em bicos de pés para a chamar de «homofóbica». Não concordando com parte do conteúdo e achando infeliz o exemplo encontrado, notamos o apelo ao acolhimento e amor dos pais por qualquer filho ou filha que seja homossexual, ainda que não concordando estes com essa mesma orientação sexual. Parece-nos ser este o caminho a seguir: amar e acolher genuinamente.

 

Por outro lado, percebemos que o exemplo encontrado, ainda que muito infeliz, mais não pretendeu do que sublinhar aquela necessidade de amor e acolhimento, mesmo na discordância com o facto: a homossexualidade, por um lado, e a toxicodependência, por outro.

 

Perante isto, alguns se apressaram em gritar «homofóbica». Aliás, assistimos a um fenómeno curioso e preocupante, que, infelizmente, se tem vindo a acentuar nos últimos tempos, de que quem expressa uma opinião contrária à nossa é necessariamente homofóbico. Por outras palavras, queremos rotular de homofóbica toda a pessoa que discorda de nós, que tem uma opinião diversa sobre a homossexualidade, mesmo que não incite ao ódio contra quem quer que seja. Ou seja, pretendemos coartar a liberdade de expressão aos outros, que aos quatro ventos reclamamos para nós. Muitos de entre nós chamam os sacerdotes de pedófilos, fazendo uma generalização infundada e abusiva; chamam os fiéis disto e daquilo; a igreja daqueloutro e aqueloutro ainda. Todos e todas se arrogam o direito de o fazer e dizer as maiores barbaridades em nome da liberdade individual e de expressão, mas quando alguém discorda de nós: aqui d’el rei, que é «homofóbico/a».

 

Cremos ser importante saber escutar (não somente ouvir!) de ambas as partes. É importante percebermos os sentimentos das pessoas e respondermos a eles. É importante saber garantir direitos sociais, não destes contra aqueles e daqueles contra outros, mas porque todos fazemos caminho na construção de pontes que cimentam a nossa realidade de pertencentes a esta grande família humana, diversa, mas una.

 

Creio que é chegado o tempo de nos indignarmos menos, ou de nos tentarmos indignar. É chegado o momento de percebermos porque é que as coisas acontecem! Talvez, assim, ainda consigamos ir a tempo de salvar os direitos sociais assegurados, cuja perenidade, convém recordar, sempre estará associado à democracia.

 

José Leote

(Coordenador Nacional - RUMOS NOVOS)

Papa Francisco: os cristãos devem pedir desculpa às pessoas homossexuais por as terem marginalizado!

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A Igreja Católica e outras comunidades cristãs devem pedir desculpa às pessoas homossexuais e a muitos outros grupos de pessoas que deixaram ficar mal, ou ofenderam, ao longo da História. Afirmou o Papa Francisco a bordo do avião papal.

 

Na conferência de imprensa deste domingo, no voo de regresso a Roma, depois da viagem de dois dias à Arménia, o Pontífice afirmou taxativamente: “A Igreja deve dizer que se arrepende por não se ter comportado bem muitas vezes, muitas vezes.”

 

“Acredito que a Igreja não tem somente de dizer que se arrepende… em relação a esta pessoa que é homossexual e que ofendeu”, disse o Papa, “mas deve igualmente dizer que se arrepende em relação aos pobres, também às mulheres abusadas, às crianças forçadas a trabalhar.”

 

“Quando digo a igreja: os cristãos.” Clarificou o Papa. “A Igreja está saudável. Nós somos os pecadores.”

 

O Papa respondia a uma questão sobre as palavras proferidas pelo cardeal alemão Reinhard Marx, feitas na semana passada, de que a Igreja Católica devia pedir desculpa à comunidade homossexual por a ter marginalizado.

 

“Repito aquilo que já disse na primeira viagem,” afirmou hoje Francisco, referindo-se à conferência de imprensa que deu no regresso do voo do Rio de Janeiro, em 2013. “Repito também o que o Catecismo da Igreja Católica afirma: que [as pessoas homossexuais] não devem ser alvo de discriminação e que têm de ser respeitadas e pastoralmente acompanhadas.”

 

“A questão é uma pessoa que tem essa condição [e] que tem boa vontade porque procura Deus.” Disse o Pontífice.

 

“Quem somos nós para os julgar?” Perguntou, reformulando, agora no plural, a sua já famosa frase de 2013. “É nosso dever acompanhar bem o que o Catecismo afirma. O Catecismo é claro.”

 

“A cultura mudou – graças a Deus!” exclamou o Papa. “Como cristãos temos de dizer, muitas vezes, que lamentamos e não somente sobre este assunto.”

 

“Esta é a vida da Igreja”, afirmou o Pontífice. “Todos somos santos, porque todos temos o Espírito Santo dentro de nós. Mas também todos somos pecadores.”

 

Tradução: José Leote

Artigo original. aqui.

Cristianismo sem homofobia

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Todas as religiões devem lutar explícita e ativamente contra a homofobia, perseguições e agressões contra as pessoas homossexuais. É uma questão de vida ou morte. Não é uma questão de doutrina mas de justiça e solidariedade. Grupos extremistas fazem tudo para que a Igreja católica se radicalize e não querem que mostre o menor gesto de amizade para com os cristãos homossexuais.

São as religiões as principais fontes de homofobia no mundo? Tanto crentes como não crentes e tanto homossexuais como heterossexuais coincidiriam que sim. Nos 70 países onde a homossexualidade ainda é perseguida penalmente e os 8 que a castigam com pena de morte, há uma religião que dá o principal suporte moral e doutrinal a tal repressão. Não temos mais que recordar horrorizados as execuções de pessoas homossexuais lançadas de torres e terraços pelos fundamentalistas do ISIS. Mas o problema não é só muçulmano: em países de tradição cristã, os delitos de ódio contra homossexuais são cometidos principalmente por fundamentalistas cristãos e a principal fonte de homofobia procede de núcleos cristãos. As religiões e fóruns ecuménicos teriam que atuar decidida e explicitamente contra os delitos de ódio contra pessoas homossexuais em todo o planeta. Um olhar ao passado e o presente não pode senão provocar uma palavra pública de perdão do cristianismo às pessoas homossexuais pela sua repressão sistemática. O posicionamento das religiões é crucial para travar uma homofobia que continua sendo insuportável.

Desde o início do século XXI, cada 2 dias uma pessoa homossexual é assassinada violentamente no mundo pela sua condição sexual. Em países como México chega-se a assassinar 200 pessoas homossexuais por ano. Dados de 365gay.com assinalam que no Reino Unido 17% dos adolescentes homossexuais sofreram ameaças de morte. Na Alemanha 66% dos jovens homossexuais menores de 27 anos foi agredido por membros da sua própria família e 27% foram vítimas de provocação dos seus professores. Essa intensa violência contra os homossexuais é crime. Não deve ser só objeto de condenação mas que qualquer pessoa de boa vontade deve pôr a sua pessoa, palavra e ações contra ela.

Os efeitos da violência e discriminação contra as pessoas homossexuais produzem também um efeito de uma auto-violência de extensa repercussão: na Escócia metade dos jovens homossexuais (15-26 anos) recordam ter tido uma tentativa de suicídio. Na Irlanda foi um terço. Na França 27% dos homossexuais menores de 20 anos tentaram suicidar-se e na Alemanha a percentagem é de 18% para os homossexuais menores de 27 anos.

É a violência contra as pessoas homossexuais um fenómeno em retrocesso? Por um lado, a tolerância cresce em todo o mundo em termos absolutos, mas por outro lado há núcleos confessionais que estão intensificando a oposição contra o movimento LGBT, a legitimação das suas relações e da sua presença explícita na Igreja. Algumas iniciativas cristãs instam expressamente o ódio contra os homossexuais. Um caso extremo é a igreja batista de Kansas, onde a sua plataforma “God Hates Fags” é conhecida em todo o país.

82% dos norte-americanos evangelistas y pentecostais consideram que a homossexualidade en si mesma é pecado enquanto que também o pensa 29% de outras religiões e confissões cristãs como os católicos (o dado é  LifeWay Research, una companhia cristã de investigação radicada no Tennessee). A oposição do fundamentalismo cristão à homossexualidade está criando um efeito devastador na religiosidade das pessoas homossexuais. Segundo a agência Pew Research (abril 2013) entre as pessoas LGBT há mais do dobro daqueles que não têm nenhuma filiação religiosa. São 20% no conjunto de norte-americanos e 48% entre os norte-americanos LGBT. Isto é, em sentido inverso, entre os norte-americanos LGBT há 52% de pessoas pertencentes a uma confissão religiosa. Mas o extremismo anti-gay está aumentando a desfiliação religiosa e a Esperança vê cortados os seus caminhos.

O discernimento das relações entre o cristianismo e a homossexualidade é complexo mas a homofobia só cria confusão, ódio, divisão, multiplica os estereótipos, destrói todo o respeito e impede a reflexão e o próprio discernimento cristão. Os grupos homófobos criticam duramente quando a Igreja católica é prudente, hospitaleira e inclusiva para com as pessoas homossexuais e as suas reações tratam de provocar medo na Igreja, destruir as pontes de encontro, diálogo e colaboração, e obrigar a Igreja a posicionar-se radicalmente contra a homossexualidade. Os extremistas católicos querem obrigar a que a Igreja se radicalize em reação contra a Pastoral do Coração do papado.

Um caso prático tivemo-lo em Sevilha, onde em 2014 e 2015, a Comunidade de Vida Cristã (CVX) liderou juntamente com o grupo de cristãos LGBT Ichthys uma “vigília de oração por um mundo sem homofobia”. Em 2014 a CVX juntou-se à convocatória para acolher e proteger a Ichthys dos extremistas que tinham ameaçado com um ataque violento se celebrassem a sua vigília de oração. Em 2015 a convocatória já se realizou conjuntamente entre Ichthys e os laicos inacianos unidos globalmente na CVX. Houve uma minoritária mas convulsa reação de católicos que insultaram os que se reuniam a rezar contra a homofobia violenta. Publicamente foram insultados como degenerados, aberrantes, demoníacos, tonto-católicos, blasfemos, repugnantes, atribuiu-se-lhes uma “pastoral sodomo-gomorrita”, chamou-se covardes aos bispos e atacou-se o Papa Francisco dizendo que ao responder ao seu “quem sou eu para os jugar” instalou a confusão no papado. A CVX situou a pastoral com pessoas homossexuais como prioridade mundial e no Chile criou ferramentas pastorais expressamente assumidas pela Conferência Episcopal Chilena.

A Igreja católica experimentou como algumas estratégias cautelosas criaram uma maior divisão em toda a população e dentro do mundo católico romperam pontes de reflexão, polarizando e tornando impossível o diálogo, gerando extremismos em ambos os lados e destruindo a possibilidade de discernimento e deliberação públicas. Agora há um poderoso lobby católico que quer aplicar a mesma estratégia polarizadora à questão LGBT. O fracasso será tanto ou mais grave que o que conseguiram em matérias como o aborto e outros assuntos bio familiares. Há outra via possível, mais evangélica e menos ideológica, mais pastoral e menos tática. Coincidir em pontos comuns como a luta sem ambiguidades contra a homofobia é uma oportunidade para criar os encontros onde se possa discernir e atuar em colaboração. A Igreja deveria associar-se às vigílias de oração contra a homofobia. O próprio Cristo poria o seu corpo no meio das pedras para defender as vítimas homossexuais. Como Ele, porá a Igreja todo o seu corpo no meio contra a homofobia?

 

Autor: Fernando Vidal

Tradução do espanhol: Aníbal Liberal Neves

Artigo original: Entre Paréntesis

'Conselho Sombra' liderado por prelados europeus aborda a aceitação das uniões entre pessoas do mesmo sexo

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Um encontro secreto de cinquenta bispos e teólogos na Pontifícia Universidade Gregoriana, gerida por jesuítas, contou com observações finais da responsabilidade do cardeal Reinhard Marx da Alemanha

 

Ao mesmo tempo que o conselho ordinário do Sínodo dos Bispos se reunia esta semana para discutir o próximo Sínodo sobre a Família, um grupo privado de bispos e peritos reuniram-se, em separado, em Roma para trabalharem sobre os temas mais controversos do Sínodo, particularmente o apoio às uniões entre pessoas do mesmo sexo e à Comunhão para os divorciados e os recasados.

 

O Papa Francisco presidiu à reunião de 25 e 26 de maio do Conselho Ordinário do Sínodo dos Bispos, que esse encontra a preparar para o Sínodo de outubro a “vocação e missão da família na Igreja e na sociedade contemporânea.”

 

O conselho, que se reúne no Vaticano, examinou o instrumentum laboris do Sínodo, ou documento de trabalho, que foi produzido pelo Sínodo dos Bispos do ano passado e complementado com as respostas a questões que foram enviadas às dioceses de todo o mundo.

 

“Um estudo extenso e detalhado do texto deu origem a propostas e contribuições que conduziram à sua melhor integração e melhoria”, reportou o Serviço de Informações do Vaticano, tendo acrescentado que o texto final do documento de trabalho será preparado e traduzido pelo Secretariado Geral dentro das próximas semanas.

 

O Conselho teve igualmente em conta as modificações ao modus operandi do Sínodo.

 

O Secretário-Geral do Sínodo, Cardeal Lorenzo Baldisseri, nomeado em setembro de 2013, alterou as regras de funcionamento do Sínodo.

 

Antes da liderança do cardeal Baldisseri, o Sínodo fornecia sumários em diversas línguas de cada uma das intervenções agendadas dos padres sinodais.

 

Esse sistema foi abolido pelo Cardeal Baldisseri e substituído por um sumário breve apresentado diariamente pelo responsável de imprensa da Santa Sé, Fr. Federico Lombardi.

 

Face às críticas de que esta mudança afetava negativamente a transparência do Sínodo, o Cardeal Baldisseri defendeu que “a informação é fornecida através de um sumário oral” e é transparente e que os padres sinodais “não estavam proibidos de falar à imprensa”, embora estivessem proibidos de publicar as suas intervenções, pois “qualquer texto sinodal é propriedade do Sínodo”.

 

Por outro lado, a impossibilidade de ter acesso a toda a discussão dentro do Sínodo abriu caminho à especulação dos media.

 

O Sínodo do próximo outono pode apresentar-se com a mesma dinâmica, tanto mais que enquanto decorria o conselho ordinário do Sínodo dos Bispos com o Papa Francisco, um “conselho sombra” teve lugar em separado, respeitante aos assuntos mais problemáticos do Sínodo sobre a Família, que incluem a aprovação das uniões entre pessoas do mesmo sexo e a Comunhão dos divorciados e recasados.

 

A discussão do passado dia 25 de maio teve lugar num centro de conferências da Pontifícia Universidade Gregoriana, gerida por jesuítas, ainda que o encontro não tenha sido da responsabilidade da universidade. Bispos e teólogos falaram perante uma assistência de 50 bispos, de acordo com o jornal diário francês “Le Figaro”.

 

A conferência foi denominada “Convenção Mútua dos Bispos Franceses, Alemães e Suíços respeitante aos assuntos referentes ao cuidado pastoral do matrimónio e da família nas vésperas do Sínodo dos Bispos.”

 

A reunião não foi destinada a todos os bispos dos países interessados, mas somente para alguns de entre eles, enquanto outros nem sequer foram informados da sua realização.

 

Entre os oradores na reunião encontravam-se o Bispo Jean-Marie Lovey de Sião; o Bispo Jean-Luc Brunin do Le Havre; a teóloga Eva Maria Faber; Anne-Marie Pelletier, que ganhou o Prémio Ratzinger em Teologia, em 2014; Fr. François Xavier Amherdt, professor de teologia pastoral na Universidade de Freiburg; Eberhard Schockenhoff, professor de teologia moral em in Freiburg e o teólogo Alain Thomasset.

 

As notas finais foram dadas pelo Cardeal Reinhard Marx de Munique e Freising.

 

Um elemento que tomou parte na discussão sublinhou que o “tom foi o da necessidade de uma abertura pastoral em temas como a comunhão dos divorciados e dos recasados e da atenção pastoral às pessoas homossexuais”.

 

Tradução: José Leote

Artigo original: Catholic World Report

Nomeado Pelo Vaticano Afirma que o Relacionamento Sexual entre Pessoas do Mesmo Sexo pode Exprimir uma Dádiva de Cristo

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O Papa Francisco nomeou, no passado sábado, o radicalmente liberal e defensor dos direitos das pessoas homossexuais, o Frade dominicano Timothy Radcliffe como consultor para o Pontifício Conselho Justiça e Paz.

“Temos de acompanhar [as pessoas homossexuais] à medida que elas tentam descobrir o que isso significa, deixando que as nossas mentes se abram”, afirmou ele num seminário sobre educação religiosa em Los Angeles, em 2006. “Isto significa ver o 'Brokeback Mountain', ler novelas homossexuais, viver com os nossos amigos homossexuais e escutá-los quando eles escutam o Senhor”.

Em 2005, quando o Vaticano tomou medidas quanto à admissão de pessoas com tendências homossexuais nos seminários, o Padre Radcliffe afirmou que a homossexualidade não deveria barrar os homens do sacerdócio e, em vez disso, aqueles que se lhes opunham é que deveriam ser banidos.

Na qualidade de contribuinte para o relatório anglicano de 2013 sobre a ética sexual humana, o padre Radcliffe afirmou sobre a homossexualidade:

Como é que tudo isto é relevante para a questão da sexualidade entre pessoas do mesmo sexo? Não podemos começar com a questão de se ela é permitida ou proibida! Temos de perguntar o que ela significa e até que ponto ela é Eucarística. Certamente que ela pode ser generosa, vulnerável, meiga, mútua e não-violenta. Portanto, de muitas formas, penso que ela pode expressar um dom de Cristo. Podemos igualmente ver como ela pode ser a expressão de uma fidelidade mútua; uma relação estável na qual duas pessoas se ligam uma à outra para sempre.

Esta nomeação está já a gerar um coro de críticas dos setores mais conservadores da Igreja.

O amor de Deus não é diminuído pela orientação sexual de uma pessoa

Afirmar que uma pessoa homossexual é, de alguma forma, menos humana, menos perfeita ou moral, está totalmente errado, escreve o Frei Tony Flannery

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O próximo Referendo sobre a Igualdade no Casamento [na Irlanda] não é a primeira vez que católicos comprometidos da minha geração têm sido confrontados com questões morais significativas sobre a forma como votaríamos. É um bom exercício, porque nos ajuda a clarificar por nós mesmos aquilo em que exatamente acreditamos e onde nos encontramos.

Tal como em todos os outros debates sociais que tivemos ao longo dos últimos 40 anos, não existem respostas claras preto no branco, porque cada uma delas, à sua maneira, aborda um tema que preocupa profundamente os seres humanos e onde o ser humano enquanto indivíduo está preocupado, e as respostas tipo preto e branco não são aqui muito úteis: a condição humana não cabe facilmente na apreciação rígida.

Tendo considerado a questão que nos é apresentada neste momento e depois de ter escutado o debate até aqui produzido e de ter pensado muito sobre o tema, irei votar Sim. Não considero que esta decisão esteja em conflito com a minha fé, ou com a minha função como padre.

Foi reconhecido pela maioria dos grandes pensadores na Igreja e está atualmente a ser realçado novamente pelo Papa, que existe uma hierarquia de ensinamentos, ou de valores, na Igreja Católica. Por outras palavras, nem todo o ensinamento encerra em si a mesma ordem de significado.

O casamento é sem margem para dúvida importante, quer para o ordenamento correto da sociedade civil, como para a vida moral. Porém, a Igreja somente declarou o casamento como sacramento no século XIII. Antes dessa época, era uma instituição civil e, frequentemente para as classes dirigentes, política. Agora é-nos pedido que concedamos autorização às pessoas com atração por pessoas do mesmo sexo para casar com a pessoa que amam.

Sobre o argumento se a orientação para pessoas do mesmo sexo faz parte do plano da natureza ou se é consequência de experiências culturais ou familiares, por outras palavras natureza ou criação, acredito firmemente que, embora possam existir, em casos particulares, influências do modo como a pessoa é criada, ela é definitivamente parte da ordem natural.

Em consequência, não posso aceitar que qualquer forma de culpa ou falta moral possa ser atribuída a alguém que é homossexual. É a forma como Deus criou essas pessoas, e parte do seu plano para a sua vida, ou, como poderíamos dizer, parte da mão de cartas que lhes foi dada. Portanto, sugerir que uma pessoa homossexual é, de qualquer forma, menos humana, menos perfeita ou menos moral, está totalmente errado. Estas pessoas têm tanto direito à sua dignidade enquanto seres humanos como qualquer outro.

O amor de Deus por essas pessoas não se encontra diminuído pelo facto de serem homossexuais. Temos de ser honestos e admitir que os ensinamentos de muitas Igrejas Cristãs no que respeita a qualquer forma de contacto entre pessoas do mesmo sexo não tem servido de qualquer ajuda. Isto, em parte, pode ser desculpado em gerações anteriores devido a uma falta de conhecimento e compreensão da orientação sexual. Porém, afirmações mais recentes da Igreja Católica, que incluem frases como “intrinsecamente maus” e “intrinsecamente desordenados”, não podem refugiar-se nessa desculpa.

Não há margem para dúvida que estas afirmações foram a causa de uma dor profunda e fizeram com que muitas pessoas homossexuais não se sentissem bem-vindas na Igreja; que se sentissem como pessoas de uma dignidade menor, devido à sua orientação. Por isto, a Igreja, a meu ver, está condenada pelos ensinamentos do Evangelho. Não fizemos muitos progressos.

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O ensinamento atual da Igreja Católica afirma que não há qualquer falha moral em sentir-se atraído por uma pessoa do mesmo sexo, mas que qualquer expressão física dessa atração é gravemente pecadora. Acho isto difícil de aceitar.

A expressão sexual desempenha um papel muito importante no crescimento e aprofundamento do amor entre duas pessoas e no grau como duas pessoas do mesmo sexo, criadas por Deus para se amarem. Afirmar que estas pessoas não podem exprimir fisicamente esse amor, sob a ameaça de pecado mortal ou condenação eterna, é uma forma desumana de ensinamento.

Saímos de um período da Igreja que classifico como doutrinário, quando a observância rígida da doutrina parecia ser a bitola para medir a forma como vivíamos a nossa vida cristã. Para mim, isso sempre me pareceu mais a atitude dos mestres do tempo de Jesus, do que aquilo que ele mesmo proclamou.

O Papa Francisco fez-nos regressar a alguns dos ensinamentos básicos de Jesus. Ele diz-nos constantemente que o amor, compaixão e misericórdia são as atitudes cristãs fundamentais…

 

Tradução: José Leote

Artigo Original: aqui.

OS PROBLEMAS TEOLÓGICOS DA FAMÍLIA, SÃO DOGMAS DE FÉ?

(Conferência no Centro Cultural "Francisco Suárez", de Granada).


1. Quando falamos da “família”, de que falamos?

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Para compreender a profundidade e a importância do problema, que aqui afrontamos, há que ter em conta, antes de tudo, que a família é: 1) Uma unidade económica: a transmissão da propriedade (os bens, o património) foi, durante séculos, a base principal do matrimónio (Anthony Giddens, Um mundo desbocado, Madrid, Taurus, 2000, 67-68). 2) Uma unidade jurídica: os deveres e os direitos dos pais, dos filhos, e das relações que devem manter, necessitaram e justificaram uma série de leis e as consequentes subordinações ao poder judicial. 3) Uma unidade de relações emocionais: relações entre os cônjuges, entre os padres e os filhos, entre os irmãos...

Mas aqui é de suma importância assinalar que, na Europa medieval (e ainda em muitas culturas) o matrimónio não se contraia sobre a base do amor sexual, nem se considerava como um espaço onde o amor devia florescer. A desigualdade entre homens e mulheres era intrínseca à família tradicional. Na Europa as mulheres eram propriedade dos maridos. E isto estendia-se, é claro, à vida sexual. Durante grande parte da história, os homens valeram-se de amantes, cortesãs e prostitutas. Os mais ricos tinham aventuras amorosas com as empregadas. Isso sim, os homens tinham que se assegurar de que as suas mulheres foram as mães dos seus filhos.
4) Uma unidade para a procriação: já que o matrimónio e a família constituem normalmente o meio que, mediante a procriação, perpetua a espécie e, sobretudo, socializa os recém-nascidos integrando-os na sociedade.


2. Problemas teológicos da família

Quando neste conjunto de problemas (propriedade, direito, sexo, procriação, educação...) entra a religião e se mistura com tais problemas, a esses problemas soma-se um outro elemento, de enorme importância (para o bem ou para o mal) porque toca onde ninguém mais pode tocar, na intimidade da consciência, ali onde se vê a si mesmo como uma pessoa honrada ou, pelo contrário, como um indesejável, um desprezível, uma má pessoa. Todos os problemas que entram no enorme bloco da “bio-ética” estão condicionados, em grande medida, por esta intromissão do ato religioso na instituição familiar.

Partindo desta suposição, a pergunta que se coloca é a seguinte: os chamados “problemas teológicos da família”, são problemas que afetam a nossa fé cristã? E por tanto, se um crente está em desacordo com as soluções “oficiais”, que se lhes costuma dar a esses problemas, é por isso um mau crente ou mesmo um herege? Dito de outra forma, pode-se discordar das soluções “oficiais”, que se costumam dar aos problemas relativos ao matrimónio e à família, sem ser por isso um mau cristão que põe em sério perigo a sua fé e o seu amor à Igreja?


3. Dogma de Fé

Na Igreja entende-se por “Dogma de Fé”, “uma proposta objeto de fé divina e católica” (K. Rahner-H. Vorgrimler, Diccionario Teológico, Barcelona, Herder, 1966, 185). Esta afirmação baseia-se na definição que, em 1870, fez o concílio Vaticano I: “Deve crer-se com fé divina e católica todas aquelas coisas que estão contidas na palavra de Deus escrita ou tradicional, e são propostas pela Igreja para ser cridas como divinamente reveladas, quer por juízo solene, quer pelo seu magistério ordinário e universal” (Denzinger-Hünermann, 3011). Portanto, para que uma verdade seja Dogma de Fé, nessa verdade têm que se dar dois elementos essenciais: 1º) Tem que ser uma verdade que foi revelada por Deus. 2º) Tem que ser uma verdade que o Magistério da Igreja propõe como revelada por Deus. Se falta um destes dois elementos essenciais, não há (nem pode haver) um Dogma de Fé. A negação (ou o pôr em dúvida) de uma verdade determinada, que não reúna os dois elementos mencionados, não pode ser nunca uma heresia.

Daqui resulta que todos os que não são “dogmas de fé”, são por isso mesmo questões das quais se pode discordar. Seriam, portanto, “questiones disputatae”, segundo a denominação que lhes dava a estas questões a teologia escolástica medieval. Isto é, seriam questões que sempre podem estar submetidas à dúvida, à discussão, mesmo à dissidência.


4. Os problemas relativos à família, são Dogmas de Fé?

Antes de mais, temos presente que uma verdade teológica é “Dogma de Fé” quando essa verdade foi revelada por Deus (na Bíblia ou na Tradição) e quando, além disso, tal verdade foi proposta pelo Magistério da Igreja como uma afirmação de Fé que há-de ser aceite e crida como Dogma. Portanto, não basta perguntar se tal problema concreto (relativo ao matrimónio ou à família) se encontra na “revelação divina”. Além disso, tem que estar fora de dúvida que essa verdade foi proposta pelo Magistério infalível como Dogma de Fé.

Agora, não há nenhuma afirmação teológica, relativa ao matrimónio ou à família, que reúna os dois elementos mencionados. Concretamente, o tema da lei natural (a que costumam apelar os documentos eclesiásticos quando se referem à família) aparece, pela primeira vez, no Magistério solene da Igreja, na Declaração “Dignitatis Humanae” sobre a liberdade religiosa, do concílio Vaticano II, em 1963. O tema da indissolubilidade do matrimónio menciona-se pela primeira vez, num documento pontifício, na Encíclica “Arvanum Divinae Sapientiae”, de Leão XIII, em 1880. O tema da homossexualidade foi assunto dos manuais de teologia moral, até que em 1975, a Congregação para a Doutrina da Fé, na Declaração “Persona humana”, rejeita abertamente as práticas homossexuais como contrárias ao constante magistério eclesial e ao sentimento moral dos fiéis.

Não se trata de analisar aqui estes documentos. Para aquilo que interessa ao presente estudo, basta ter claro que nenhum destes documentos, nem os que trataram posteriormente estes assuntos, foram pronunciamentos do Magistério infalível da Igreja. Portanto, não se trata de doutrinas vinculantes para a Fé dos cristãos.

Em consequência, não se pode afirmar que os problemas que apresenta a teologia do matrimónio e a família sejam temas que afetam a Fé divina e católica. Não o são. Assim o demonstra a história da Igreja e da teologia cristã.

Com efeito, durante os primeiros séculos da Igreja, os cristãos seguiram os mesmos usos e costumes, no que diz respeito ao casamento, que havia no resto do Império romano. Esta situação manteve-se, pelo menos, até ao século IV (J. Duss-Von Werdt, O matrimónio como sacramento, em Mysterium Salutis, IV/2, 411). O qual quer dizer que os cristãos dos primeiros séculos não tinham consciência de que a revelação cristã trouxesse algo novo e específico ao ato cultural do matrimónio em si. Portanto, naqueles primeiros séculos, a Igreja não tinha um Direito matrimonial próprio e específico. Além disso - e isto é importante que se saiba -, a Igreja, durante quase todo o primeiro milénio, não só se regeu nas suas decisões (também sobre o matrimónio e a família) pelo Direito romano, mas que “a custódia da tradição jurídica romana recaiu fundamentalmente na Igreja. Como instituição, o Direito próprio da Igreja em toda a Europa foi o Direito romano. Como se dizia na Lei Ripuaria dos francos (61(58)1), no s. VII, “a igreja vive conforme ao Direito romano” (Peter G. Stein, El Derecho romano en la Historia de Europa, Madrid, Siglo XXI, 2001, 57). Mais ainda, no ano 619, o concilio de Sevilha, presidido por Santo Isidro, invocava o Direito romano como a “lex mundialis”, aceitando assim a sua universalidade (Conc. Hispalense II, can. 1 y 3. Cf. Ennio Cortese, Le Grandi Linee della Storia Giuridica Medievale, Roma, Il Cigno, 2008, 48). E isto manteve-se assim, não obstante as resistências de algum ou outro autor mais puritano, como foi o caso de Beda o venerável. Contudo, desde o ano 620, as Etymologiae de Santo Isidro ergueram-se como a mais importante fonte de referência do Direito romano em toda a extensão da Europa (Peter G. Stein, o. c., 58).

Agora, é importante saber que o Direito romano não dava atenção ao que ocorria dentro da família. As relações entre os seus membros eram um assunto privado, onde a comunidade não intervinha. Todo o Direito recaía sobre o poder e os privilégios do paterfamilias, em que se concentrava toda a propriedade familiar. E todos os poderes sobre a mulher e seus filhos. De maneira que os filhos, mesmo adultos, não podiam possuir bens até à morte do pai (Peter G. Stein, o. c., 7-8).

Como é lógico, estas condições e este vazio de legalidade indicam claramente que as preocupações da Igreja não se centravam nos temas relativos ao matrimónio e à família. Em todo o primeiro milénio, não há documento algum do Magistério que fale dos sete sacramentos. Porque a teologia dos sete sacramentos é elaborada a partir dos comentários ao Decretum de Graciano (.s. XI). Tais comentários fizeram-se, portanto, a partir do s. XII, quando apareceram os primeiros livros de Sententiae ou Tractatus sobre os sacramentos (as Sententiae Divinitatis e o Tractatus de sacramentis do Maestro Simón). Até que se impôs o Tratado de las Sentencias de Pedro Lombardo, que foi aceite como fonte dos comentários dos grandes Teólogos Escolásticos, dos séculos XII e XIII. Mas é importante saber que até ao s. XIV não se impôs a doutrina dos sete sacramentos (José M. Castillo, Símbolos de libertad. Teología de los sacramentos, Salamanca, Sígueme, 1981, 375-301).

Sabemos que o concílio de Trento dedicou a Ses. VII por completo ao tema dos sete sacramentos. Mas, para fixar exactamente o “valor dogmático” que têm as afirmações, que fez o concílio nesta Sessão, há que ter em conta dois pontos capitais: 1º) O anátema que impôs o concílio não significa necessariamente, de modo algum, condenações de heresia (por exemplo, DH 1660; 1759. Cf. P. Fransen, Reflexions sur l’anathème au concile de Trente: ETL 29 (1953) 658). 2º) A pergunta que fizeram aos padres e teólogos do concílio foi se as doutrinas, que ensinavam os reformadores sobre os sacramentos, eram “erros” ou “heresias” (CT 5, 844, 31-32). Mas não houve maneira de chegar a um acordo sobre este assunto. Assim consta expressamente nas Atas do concílio (CT 5, 994, 11-12. DH 1600; cf. José M. Castillo, o. c., 333).

Portanto, não é um “dogma de fé” que os sacramentos sejam sete; nem que o matrimónio cristão seja um sacramento instituído por Cristo. A partir desta afirmação fundamental, há que ter presente que toda a doutrina do Magistério, sobre o matrimónio e sobre a família, nunca foi uma definição dogmática. Sempre foram ensinamentos pastorais, catequéticas ou, em todo caso, de ordem inferior. Nem sequer o concílio Vaticano II se pronunciou dogmaticamente sobre os assuntos que tratou. Foi um “concílio pastoral”. Isto é o que quis João XXIII e manteve Paulo VI.

A conclusão, que cabe tirar do que foi dito, é que todas as questões e problemas, que se apresentaram e se estão debatendo no Sínodo da Família, são questões sobre as que todos os cristãos podemos (e devemos) sentir-nos livres para pensar, opinar e dizer a nossa opinião, sem que por isso devamos ter medo de atentar contra a nossa fé e a nossa fidelidade à Igreja.


5. Questões de maior atualidade

1. Divórcio

Disse que o Direito da Igreja, durante os dez primeiros séculos da sua história, foi o Direito romano. Assim como, nos manuais de Direito romano é ensinado que, pelo menos até ao século IV, a liberdade para se divorciar foi quase total na sociedade romana. A partir do século IV, começou a aumentar uma certa reprovação social nos casos de divórcios que se efetuavam sem uma causa justificada (cf. Aulo Gelio, nas Noches Áticas, em 232 a. C., que provaria a mencionada reprovação social nos casos de divórcio injustificado). A partir do século VI, Justiniano admite o divórcio por “justa causa”. E sabe-se, com segurança, que a Igreja aceitou e praticou esta legislação. Por exemplo, no ano 726, o papa Gregório II responde a uma consulta de São Bonifácio: Que deve fazer o marido cuja mulher tenha ficado doente e como consequência não pode cumprir o seu dever conjugal? “Seria bom que tudo continuasse igual e se entregasse à abstenção sexual. Mas, como isso é de grandes homens, o que não possa aguentar, que volte a casar; mas não deixe de ajudar economicamente aquela que adoeceu e não ficado excluída por más razões” (PL 89, 525). A mesma doutrina sobre o divórcio entre cristãos encontramo-la no papa Inocêncio I, em resposta a Probo (PL 20, 602-603; cf. M. Sotomayor, Tradición de la Iglesia con respecto al divorcio: Proyección 28 (1981) 102-103).


2. Homossexualidade

Este assunto é motivo e causa de enorme paixão e mais ainda de enorme sofrimento. Ambas coisas. Paixão para com aqueles que a rejeitam. E sofrimento que muitos deles padecem ou têm que suportar, nas sociedades em que esta condição da sexualidade humana é fortemente rejeitada.

É sobejamente conhecido que algumas religiões se opuseram, e continuam enfrentando, com violência as pessoas de condição homossexual. Na história do cristianismo, este enfrentamento chegou, por vezes, à violência extrema do assassinato. Antigamente, aos homossexuais queimavam-se vivos, como se fazia como os hereges. Contudo, à medida que passa o tempo, a cultura humaniza-se e, sobretudo, conhece-se melhor o que é a condição humana na sua totalidade, o juízo e a estima social deste assunto vai-se equilibrando.

Costuma-se citar São Paulo como um forte opositor da condição homossexual. Mas há que suavizar este juízo. Paulo, falando desde a Torá judia, singulariza em Rom 1, 26-27 a homossexualidade unicamente para a rejeitar como “contra a natureza”. Mas nessa tradição, como em muitas outras, a natureza sexual estava determinada pela biologia, o corpo e os genitais. Para muitas pessoas hoje em dia, contudo, a natureza sexual está determinada pela química, o cérebro e as hormonas. Deste modo, Paulo nunca esteve frente á pergunta que a que nós devemos responder actualmente (J. D. Crossan, J. L. Reed, En busca de Pablo, Estella, Verbo Divino, 2006, 453). Que acontece se se constata que a homossexualidade é tão “natural”, para alguns, como o é a heterossexualidade, para outros? Em todo o caso, não podemos utilizar Paulo para responder a uma pergunta que Paulo, no seu tempo e na sua cultura, jamais pôde fazer, nem suspeitar do problema que essa pergunta oculta.

Por isto, parece mais razoável fazer-se esta outra pergunta: aceitou a Igreja, em séculos anteriores e em alguns casos, o matrimónio homossexual?

O Direito romano, que a Igreja aceitou e fez seu, reconhecia duas definições de matrimónio. Assim o indicam os manuais de Direito romano (Antonio Fernández de Buján, Derecho Privado Romano, Madrid, Iustel, 2008, 134-135). Uma destas definições encontra-se já em Ulpiano (Digesto, 1. 1. 3) e foi desenvolvida por Modestino (D. 23. 2. 1), que entende o “matrimónio, coniunctio maris et feminae, a união do homem e da mulher”. A outra definição está também em Ulpiano (D. 24. 1. 32. 13): “Não é a união sexual o que faz o matrimónio, mas o afeto, affectio, matrimonial”. Como é lógico, o ”afeto matrimonial” pode-se dar e viver ao mesmo tempo entre pessoas de diferentes sexos como entre pessoas do mesmo sexo. É verdade que a definição de Modestino (“união de homem e mulher”) é a que prevaleceu no Decretum de Graciano e, daí, passou ao Direito Canónico. Contudo, a segunda das definições mencionadas ficou também recolhida nas Instituciones de Justiniano (A. Fernández de Buján, o. c., 135). De maneira que onde se põe o acento, em ambas definições, é “no projeto de vida em comum” (o. c., 135). É evidente que tal projeto se pode realizar tanto entre pessoas de distinto sexo como entre pessoas do mesmo sexo.

Em todos os outros aspetos - e isto é fundamental -, esta legislação teve que se traduzir em factos. Ou talvez o que aconteceu é que esta legislação era a que correspondia a factos que se viviam já na Idade Média. Isto é o que demonstra o estudo de John Boswell, “Os casamentos de iguais” (Barcelona-Madrid, 1996). A tese da obra de Boswell é que os homossexuais existiram na sociedade medieval ocidental, sem serem perseguidos de forma significativa, existindo também uma subcultura gay que era tolerada. A partir do século XIII, acentua-se a tendência para a uniformidade nas sociedades cristãs europeias e o fortalecimento das autoridades tanto religiosas como civis, coisa que se pôs de manifesto na perseguição contra os albigenses aos que se acusava de praticar a sodomia e de cometer delitos “contra natura”. Além disso, Boswell demonstra que existiam rituais para a celebração da união matrimonial entre pessoas do mesmo sexo. A oração destes rituais matrimoniais dizia: “Bendiz os teus servos N. e N., não unidos pela natureza... E concede-lhes amor recíproco e que permaneçam livres de ódio e escândalo...” (John Boswell, o. c., 490-491; cf. Javier Gafo, “Cristianismo y Homosexualidad”, en Javier Gafo (ed.), La homosexualidad: un debate abierto, Bilbao, Desclée, 3ª ed., 1998, 189-222).


6. Reflexão final

É evidente que a instituição familiar é a base sobre a qual se sustem a firmeza e a consistência do tecido social. Uma sociedade na qual a família se desestrutura e se rompe é uma sociedade que se autodestrói. Numa sociedade assim a violência desata-se até limites que não imaginamos. Pelo contrário, nas piores circunstâncias de crise social, se a família é sólida, a sociedade sustem-se e mantem as pessoas e as instituições. Vimo-lo na crise económica e política da Europa. A unidade familiar foi decisiva para manter uma ajuda e uma proteção segura àqueles que estão no desemprego e, em geral, aqueles que se viram em dificuldades. É bem conhecida a ajuda que prestaram os reformados aos filhos desempregados, às crianças, aos enfermos, etc.

É evidente também que a família tradicional está a evoluir. É um facto que o elemento determinante da família já não é o matrimónio, mas o casal. E o fator decisivo, para a manutenção do casal, é a comunicação baseada na relação pura (Anthony Giddens, o. c., 73-75). Trata-se da relação “baseada na comunicação emocional”. A relação que se baseia naquela forma de comunicação humana na qual “entender o ponto de vista da outra pessoa é o essencial” (o. c., 75). Insistir neste ponto, mantê-lo e enriquecê-lo, tudo isto é muito mais importante que resolver os problemas teológicos tradicionais da família. Problemas que foram apresentados por teólogos solteiros. E agora são de novo os solteiros os que pretendem resolver os problemas que eles apresentaram e problemas que os clérigos solteiros lhes meteram na cabeça aos laicos.

Sejamos, pois, respeitosos todos, uns com os outros. E, em lugar de discutir questões que não vão a resolver os verdadeiros problemas que hoje têm tantas famílias, sejamos honestos, todos. Reconheçamos as nossas limitações. E ponhamo-nos a procurar as verdadeiras soluções.

 

 

Texto original: aqui.

Tradução: Aníbal Liberal Neves.

Enquanto o bispo de Antuérpia pede à Igreja para reconhecer as uniões homossexuais, o de Alcalá volta à carga contra os direitos LGTB

Declarações de teor muito distinto na Bélgica e em Espanha põem de manifesto as diferentes sensibilidades da hierarquia católica em matéria LGTB. Enquanto o bispo de Antuérpia pede, numa entrevista, que a Igreja reconheça os casais do mesmo sexo, o bispo de Alcalá de Henares volta à carga contra as pessoas LGTB, numa pastoral.

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O bispo de Antuérpia, Johan Bonny, propôs à Igreja católica reconheça os casais do mesmo sexo. Foi numa entrevista publicada no jornal flamengo De Morgen. Em palavras suas: “Devemos procurar no seio da Igreja um reconhecimento formal da relação que também está presente em numerosos casais bissexuais e homossexuais. Da mesma maneira que na sociedade existe uma diversidade de enquadramentos jurídicos para os casais, deveria também haver uma diversidade de formas de reconhecimento no seio da Igreja“. Bonny afirmou também que “a ética cristã defende as relações duradouras nas que a exclusividade, a lealdade e o cuidado são centrais“. O bispo de Antuérpia especificou que se na sua opinião este “reconhecimento formal” deveria ter ou não carácter litúrgico e, nesse caso, de que tipo seria. Parece muito pouco provável, em todo caso, que advogue pelo matrimónio sacramental, mas o avanço que supõem estas palavras é inquestionável.

 

Não é a primeira vez que o bispo de Antuérpia se faz notar pela sua atitude de abertura. Como constatámos nesta página, em setembro passado, e antes do início do Sínodo extraordinário sobre a Família, Bonny pedira uma linguagem mais precisa sobre realidades tidas como “irregulares”, entre elas a homossexualidade. Nesta ocasião deu um passo mais ao reclamar um reconhecimento formal. Além disso, se em setembro passado falou no início do Sínodo, nesta ocasião torna-se plausível pensar que tem em mente a celebração da segunda parte do mesmo. Não em vão, como informámos, já se lançou um novo inquérito de preparação desta segunda parte que aborda de novo a realidade LGTB, ainda que de uma forma tangencial e desde logo com muito menos audácia que Bonny.

 

Além disso dá-se a circunstância de que o Bispo Johan Bonny tem muitas probabilidades de se converter no próximo presidente da Conferência Episcopal da Bélgica. Substituiria precisamente André-Joseph Léonard, um forte conservador e que protagonizou polémicas muito notórias. Destaca-se em especial a sua afirmação de que a sida era uma espécie de “justicia inmanente”, que também aqui constatámos.

 

Enquanto isto, Reig Pla continua com o seu discurso homófobo.

 

A mudança de tom (pelo menos aparente) sobre a realidade LGTB que o pontificado de Francisco está apresentando encontra no entanto mais resistências em Espanha. Esta mesma semana connecemos umas novas declarações do bispo de Alcalá de Henares, Juan Antonio Reig Pla, em que insiste pela enésima vez na sua linha de considerar a homossexualidade e a transexualidade como patologias e de prevenir contra os supostos interesses obscuros que estariam actuando por detrás do activismo LGTB e dos seus apoios institucionais.

 

Por ocasião da festa de Santo Estevão, a 26 de dezembro, Reig Pla escreveu uma carta pastoral na qual acusa Mariano Rajoy, de renunciar à reforma do aborto “por um prato de lentilhas” nas Nações Unidas (refere-se à recente

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eleição de Espanha como membro não permanente do Conselho de Segurança). Nas suas palavras: “Para entender bem a decisão do Presidente do Governo não é suficiente recorrer a análises eleitoralistas. Com todo o respeito pela sua pessoa, há que dizer que uma decisão tão grave responde a outras exigências como nos mostra o documento ‘Prioridades de Espanha nas Nações Unidas. 69º Período de Sessões da Assembleia Plenária’“. Quais são essas exigências, segundo Reig Pla? Para ele, está claro: citando partes do mencionado documento assinala que as exigências que Nações Unidas teria apresentado a Espanha teriam sido “promover” o aborto e os interesses do “lobby LGTBIQ”.

 

Concretamente, ao Bispo Reig Pla incomoda-o a frase “Continuaremos promovendo o pleno gozo e exercício de direitos por parte de pessoas gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e intersexuais (LGBTI) e a eliminação de todas as formas de discriminação”. Permitimo-nos reproduzir extensamente as suas próprias palavras:

 

“(…) Também aqui, condenamos, com toda a contundência, qualquer tipo de violência contra as pessoas e toda a discriminação injusta; com toda a Igreja queremos continuar prestando ajuda a todos, com verdadeiras entranhas de misericórdia, sem jugar as pessoas (Cf. Papa Francisco, 28-7-2013). Mas que significa na realidade ‘pleno gozo e exercício de direitos por parte das pessoas gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e intersexuais (LGBTI) e a eliminação de todas as formas de discriminação’? A resposta é: promoção universal da chamada ‘ideologia de género’ e das teorias queer, assim como da sua particular interpretação do conceito de ‘poder LGBTIQ’; direitos sexuais dos menores, assim chamados, LGBTIQ, tal como são definidos pela IPPF (Federação Internacional de Planeamento Familiar) e pela WAS (Associação Mundial para a Saúde Sexual); direito a `explorar´ a identidade sexual desde os 0 anos; direito a receber informação sobre a `relações do mesmo sexo´ a partir dos 4 anos; direitos dos menores à sua própria ‘orientação de género’ (LGBTIQ); no caso dos menores de idade com ‘desejo de mudar de sexo’ (DCS), ‘direito’ a que se lhes administrem, quanto antes, hormonas do sexo contrário e, no seu caso, direito - mesmo sendo menores de idade- à cirurgia de reconstrução aparente de sexo; matrimónio entre pessoas do mesmo sexo; direito dos casais do mesmo sexo a adoptar crianças; ‘retirada – por via legislativa- da assim chamada transexualidade da lista de patologias’, com a promoção de novas leis chamadas de ‘não discriminação’ e de ‘reconhecimento de direitos às pessoas com vontade de mudar de sexo’; direito à ‘não discriminação e igualdade de tratamento’ que implica situar fora da lei a quem, como a Igreja, afirme que a particular inclinação da pessoa com atração sexual pelo mesmo sexo, ‘deve ser considerada como objetivamente desordenada’ (Congregação para a Doutrina da Fé, Carta sobre a atenção pastoral às pessoas homossexuais, n. 3) ou que ‘os actos homossexuais são intrinsecamente desordenados’ (Catecismo da Igreja Católica, n. 2357); impedir, e penalizar legalmente, que profissionais da psiquiatria ou da psicologia possam ajudar pessoas com atração sexual pelo mesmo sexo (AMS) ou com vontade de mudar de sexo (DCS), que livremente o solicitem; subtrair aos pais de menores o poder paternal em tudo o que se refira à sexualidade dos seus filhos com AMS ou DCS; educação sexual obrigatória (teoria e prática) a menores, segundo os critérios LGBTIQ, mesmo contra a vontade expressa dos pais; diminuir a idade legal de consentimento para ter relações ‘sexuais’ entre pessoas do mesmo sexo (em Espanha, também aqui, a idade legal de consentimento está já nos 13 anos); impor, por lei, às empresas e instituições, a contratação de uma percentagem de trabalhadores chamados LGBTIQ; inversão do ónus da prova quando se produzem denúncias por pressupostas discriminações a pessoas chamadas LGBTIQ; promoção da sexualidade ‘intergeracional’ LGBTIQ; etc. (…)”

 

Merece além do mais destacar-se o facto de que na sua carta pastoral o bispo de Alcalá adere explicitamente a uma corrente segundo a qual haveria uma ação concertada a nível internacional com o objetivo de impor uma “Nova Ordem Mundial”. O Bispo Reig Pla insiste também em renomear os diferentes aspetos da realidade: fala das pessoas “chamadas” LGTBIQ, à homossexualidade chama-lhe “atração pelo mesmo sexo” e à transexualidade “desejo de mudar de sexo”, com as suas correspondentes abreviaturas (“AMS” y “DCS”). O objetivo é claro: opor-se mediante a linguagem a que a realidade LGTB faça parte essencial das pessoas, e devolvê-la ao campo da patologia.

 

Também chama a atenção à forma como o Bispo Reig Pla introduz as já célebres palavras do papa Francisco sobre a homossexualidade: “quem sou eu para julgar?”. E é que poucos bispos aparecem hoje em dia más afastados das mudanças formais e de cunho pastoral do novo papa que o de Alcalá.

 

Tradução: Aníbal Liberal Neves

Texto original: aqui.

 

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