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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos Homossexuais Portugueses

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

Tempo para o diálogo sobre a ética sexual

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A comunidade católica deveria agradecer ao jesuíta Fr. James Martin por ter escrito Construir uma Ponte: Como a Igreja Católica e a Comunidade LGBT Podem Entrar num Relacionamento de Respeito, Compaixão e Delicadeza. Muitos/as católicos/as gays, lésbicas, bissexuais e transgéneros passaram anos à margem da nossa comunidade convidando-nos para esse diálogo. Este livro escancara uma nova porta de oportunidades para colocar questões importantes sobre a inclusão dos católicos LGBT na igreja e essas oportunidades devem ser agarradas.

 

O livro de Martin exorta os líderes da igreja e os católicos LGBT a se juntarem em diálogo. Utilizando as palavras do Catecismo da Igreja Católica, ele urge ambos os lados a se tratarem mutuamente com «respeito, compaixão e delicadeza.» Este é um bom conselho e aqueles que estão na hierarquia e que deram esse passo – o Cardeal Joseph Tobin de Newark, Nova Jersey, e o Bispo Patrick McGrath de São José, na California, para somente nomear dois, necessitam do nosso apoio.

 

Contudo, inevitáveis neste projeto de construção de pontes estão questões mais profundas que não podem deixar de ser examinadas. Pode o diálogo ser suficiente para alcançar uma igreja verdadeiramente inclusiva? Sem uma mudança nos ensinamentos da igreja referentes ao sexo e à sexualidade, podem as pessoas LGBT ter alguma esperança de ser tratados com igualdade e justiça pela hierarquia?

 

Há um bom precedente para o desenvolvimento da ética sexual da igreja, em particular nos últimos 50 anos. Durante séculos, a doutrina católica insistiu que a procriação era a única justificação para os atos sexuais e que a sexualidade era objetivamente desordenada. Estes ensinamentos foram questionados e modificados em meados do século XX nos documentos do Concílio do Vaticano II e na encíclica Humanae Vitae («Sobre a Vida Humana») do Papa Paulo VI. Atualmente, a igreja reconhece que o sexo entre um homem e uma mulher, dentro do laço do matrimónio, pode ser fonte de alegria e prazer para o corpo e para o espírito.

 

Porém, a doutrina sustenta igualmente que existe uma ligação indissolúvel entre o significado procriativos e unitivo do ato sexual. Portanto, segundo o catecismo, todos os atos sexuais entre casais casados têm «de ser ordenados per se para a procriação da vida humana» (2366). Esta «norma procriativa» remonta a mais de 1500 anos, ao tempo de Agostinho, que desenvolveu a ideia como resposta à sua crença da natureza pecaminosa e incontrolável da excitação sexual.

 

Hoje, a norma procriativa é uma das razões fundamentais porque a igreja continua a opor-se aos relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. Contudo, na realidade, esta doutrina tem consequências muito mais amplas para todos os católicos, independentemente da sua orientação sexual ou identidade de género.

 

Muito se fala sobre o ensinamento da igreja de que as relações entre pessoas do mesmo sexo são «intrinsecamente desordenados.» Porém, uma linguagem igualmente agreste é utilizada para outras transgressões sexuais à norma procriativa da igreja. Por exemplo, o catecismo declara que qualquer ação para tornar a conceção impossível, como por exemplo o uso de contracetivos, é «intrinsecamente má» (2370). O catecismo condena igualmente a masturbação como «um ato intrínseca e gravemente desordenado» porque «o uso deliberado da faculdade sexual fora das normais relações conjugais contradiz a finalidade da mesma» (2352).

 

A título de exemplo, veja-se o caso da lista do Bispo Thomas Paprocki de Spingfield, Illinois, contendo os católicos que ele sugere não se apresentem para receber a sagrada Comunhão.

 

As objeções verbalizadas pela igreja institucional ao casamento entre pessoas do mesmo sexo mascaram frequentemente o facto de que o ensinamento da igreja se opõe, na sua essência, aos atos sexuais nos quais a maioria dos seres humanos participa. A igreja condena qualquer tipo de ato sexual – incluindo aqueles realizados pelos casais casados – que não respeitem a norma procriativa. Portanto, de facto, poucos católicos conseguem viver de acordo com as normas da igreja que regem a atividade sexual.

 

Por mais estranhos que estes ensinamentos sejam, outros assuntos relacionados com os relacionamentos sexuais permanecem pouco claros e subdesenvolvidos, tais como as posições da igreja em relação aos divorciados recasados, os solteiros e o celibato.

 

Se bispos como Paprocki fossem tão incisivos em relação à sua oposição à masturbação, fertilização in vitro ou as vasectomias, como são na sua campanha contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, talvez mais católicos se apercebessem da urgência da necessidade de repensar a totalidade da ética sexual da igreja.

 

Encorajamos fortemente o diálogo entre os leigos e os líderes da igreja no que se refere a todos os assuntos da esfera sexual. Porém, também reconhecemos que o diálogo pode ter os seus limites, em particular se aqueles na liderança não demonstrarem uma abertura para desenvolverem o ensinamento da igreja no que concerne ao sexo e à sexualidade.

 

Apelamos aos bispos para que continuem a trabalhar no desenvolvimento da doutrina da sexualidade iniciada com o vaticano II. Este trabalho tem sido amplamente adiado pela pouca vontade por parte da hierarquia em perder a sua interpretação rígida de ideias milenares acerca da lei natural e da norma procriativa.

 

Obviamente, o trabalho tem continuado fora das portas do Vaticano, conducido por teólogos morais católicos que passaram as últimas quatro décadas desenvolvendo novos enquadramentos para a moral sexual e a tomada de decisões éticas baseadas no nosso entendimento crescente sobre a sexualidade. Infelizmente, aqueles que realizaram as maiores contribuições para aprofundar a nossa compreensão da ética sexual, como por exemplo o Fr. Charles Curran e a Irmã Margaret Farley, foram silenciados ou viram o seu trabalho condenado pelos bispos e pela Congressão para a Doutrina da Fé.

 

Se verdadeiramente estamos a viver numa nova cultura do encontro ao nível da igreja, talvez seja tempo do Vaticano comprometer estes teólogos e eticistas num diálogo construtivo sobre o fruto das suas pesquisas éticas. Até que a igreja esteja disposta a se comprometer a uma profunda reexaminação da sua doutrina sobre a sexualidade e os relacionamentos sexuais, qualquer diálogo sobre a inclusão das pessoas LGBT ou dos divorciados recasados estará simplesmente bloqueado.

 

Artigo original: Time for dialogue on sexual ethics

Tradução: José Leote (Rumos Novos)