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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Ainda que sejamos provenientes de variadíssimos ambientes sociais, geográficos e culturais, partilhamos um elo comum: amamos a Deus e seguimos o Seu Filho Jesus Cristo. Devido a este elo único somos "um só em Cristo".

É possível ser católico e homossexual?

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Ser cristão é reconhecer que se é amado por Deus e querer tornar-se discípulo de Jesus qualquer que seja a nossa orientação sexual e o nosso estado de vida.

 

É percorrer um caminho de vida, de felicidade, que não se encontra traçado, mas no qual nos sabemos acompanhados.

 

Não há qualquer outra condição para se ser católico que não seja aquela de seguir Jesus, colocando-se à escuta da sua Palavra e aceitando deixá-lo entrar na nossa vida. Deus interessa-se por cada um qualquer que seja a sua história, a sua vida, os seus limites, os seus talentos… A cada um/a ele diz: «Visto que és precioso aos meus olhos, que te estimo e te amo…» (Isaías 43, 4).

 

Ser católico é igualmente caminhar com outros crentes, no seio do Povo de Deus que é a Igreja. Não há vida cristã que seja isolada. Esta pertença à Igreja pode ser sentida como difícil, quando as suas posições sobre a homossexualidade estão em contradição com o que a nossa consciência julga justo. Esta tensão não significa que exista uma incompatibilidade entre ser católico e ser homossexual. É um apelo para que a pessoa homossexual descobrir, só ou na companhia de outros/as, antes de mais, o porquê da sua relação com Cristo, para além daquilo que lhe parece incompreensível. É igualmente um apelo à Igreja para esta questionar a sua capacidade de acolher o outro independentemente de quem seja.

 

Para além das incompreensões, é sempre preciso recordarmo-nos que todas e todos somos pessoas que procuram.

 

Tradução e adaptação: José Leote

NOTA DE IMPRENSA: Rumos Novos toma posição face às declarações do sr. Cardeal-Patriarca no final de 193.ª Assembleia Plenária da CEP

NOTA À IMPRENSA

Coordenação Nacional de Rumos Novos – Católicas e Católicos LGBT (PORTUGAL)

 

PARA DIVULGAÇÃO IMEDIATA

 

Lisboa/ Portimão, 16 de novembro de 2017

 

CATÓLICAS E CATÓLICOS LGBT TOMAM POSIÇÃO PÚBLICA FACE AO Comunicado final da 193.ª Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa

 

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Rumos Novos – Católicas e Católicos LGBT portugueses, manifesta publicamente a sua fraternal e respeitosa discordância com as palavras proferidas pelo Sr. Cardeal Patriarca, na conferência de imprensa que encerrou a 193.ª Assembleia Plenária da CEP, respeitantes à admissão de pessoas de orientação homossexual nos seminários.

 

Em vários momentos desta conferência de imprensa sublinhou o Sr. Cardeal Patriarca que a quem tem «essa tendência» é «melhor não criar a ocasião», implicitamente afirmando que as pessoas de orientação homossexual, sacerdotes ou futuros sacerdotes, terão menor capacidade no exercício da sua atividade pastoral, em função de eventualmente terem menor capacidade de «controlar» a sua sexualidade. Aliás, já neste sentido se pronúncia o documento (Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis – O Dom da Vocação Presbiteral) analisado nesta assembleia plenária da CEP quando afirma «Estas pessoas [homossexuais] encontram-se, de facto, numa situação que constitui um grave obstáculo a um correto relacionamento com homens e mulheres».

 

Ora tais afirmações somente contribuem para aumentar o estigma, dentro da igreja, em relação aos fiéis de orientação homossexual, ainda por cima quando o próprio cardeal-patriarca afirma que tal orientação «não é conforme» e que «em Cristo não havia nada de homossexual»

 

Gostaríamos de recordar que o próprio Catecismo da Igreja Católicas afirma que os fiéis de orientação homossexual «deverão ser acolhidos com compaixão, delicadeza e respeito», o que, por maioria de razão, se deve aplicar igualmente aos candidatos aos seminários.

 

Gostaríamos igualmente de recordar que os sacerdotes, especialmente os de rito latino (ocidental), ao serem ordenados, adotam um estilo de vida celibatário, que compreende a renúncia do casamento para que se dediquem inteiramente à Igreja. Ora, este compromisso assumido perante o Bispo é válido para todos os sacerdotes, hétero ou homossexuais, e, por isso, ainda mais incompreensível e anacrónico se torna o documento do Vaticano e, com tristeza e mágoa, escutámos as palavras do cardeal-patriarca a este propósito.

 

Partir deste pressuposto errado de que as pessoas homossexuais que se aproximam dos seminários não podem ser aceites somente em função da sua orientação sexual constitui não somente uma menorização para estas pessoas, mas igualmente um afastamento da mensagem de amor do próprio Cristo, já para não falar que não se respalda em qualquer base científica.

 

Ao proceder deste modo, a igreja institucional esquece-se da sua primordial missão de pastoreio de todo o povo de Deus e dá, antes, voz ao seu preconceito e, implicitamente trazendo à tona a insinuação de que, de alguma forma, os recentes escândalos de pedofilia no seio da Igreja católica se encontram relacionados com a homossexualidade. Ora esta analogia implícita, não é verdadeira e contribui seriamente para a estigmatização das pessoas de orientação homossexual.

 

Na Rumos Novos – Católicas e Católicos LGBT conhecemos muitos sacerdotes homossexuais, que se entregam seriamente ao seu ministério, mas também conhecemos muitos outros com afilhados, sobrinhos, governantas e afins, aos quais, muitas vezes, se olha para o outro lado. Qual é mais fiel a Cristo e ao ensinamento da Igreja?

 

Apraz-nos recordar aqui e agora as palavras, proferidas há escassos dias, por D. José Cordeiro, Bispo da diocese de Bragança-Miranda de que “não podemos enfrentar os desafios de hoje com as respostas de ontem”.

 

Fraternalmente continuamos a desafiar a Igreja institucional a, de vez, abandonar estas «respostas de ontem» e a, de forma séria, pensar que respostas verdadeiramente tem para os fiéis de orientação homossexual, que vivem celibatários ou na castidade de uma vida familiar; de pensar que respostas verdadeiramente tem para todos os que se aproximam dos seminários, sentindo o chamamento de Cristo, mas cuja orientação é homossexual, ainda que disponíveis para o celibato e veem negada essa aproximação.

 

Lendo os «sinais dos tempos» como a todos e todas nos desafiou o Vaticano II, é preciso que, de mãos dadas, percorramos este difícil caminho de reflexão e encontro, numa ponte estreita, mas como irmãos e irmãs, pois a isso nos interpela o próprio Cristo e o amor cristão.