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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

Por que não consigo deixar de ser gay?

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Antes de responder a esta pergunta, é imprescindível entender a origem do sofrimento dos homossexuais. Nenhuma orientação sexual, em si mesma, produz sofrimento, ou seja, ninguém sofre por ser gay ou lésbica. Há, entre os homossexuais, uma sensação de inadequação e de anormalidade, fruto de uma sociedade que marginaliza os diferentes. O sofrimento de gays e lésbicas é resultado do alto grau de preconceito e discriminação a que estão expostos diariamente. Para gays e lésbicas cristãos, o sofrimento é maior, pois as cobranças e as expetativas da igreja e da família somam-se à pressão de outros setores da sociedade.

 

Orientação sexual não é uma característica passageira. Ninguém está gay, assim como ninguém está hétero. Se fosse um estado – como muitos afirmam – seria possível mudar. A orientação sexual faz parte da constituição emocional mais íntima das pessoas. A homossexualidade não é uma fase, não é uma tendência, não é uma inclinação, não é uma moda, muito menos um comportamento. A homossexualidade é uma característica imanente (intrínseca), imutável e permanente de uma pequena parcela dos seres humanos.

 

É necessário, entretanto, responder a outra pergunta importante: por que alguns homossexuais cristãos desejam mudar? Primeiro porque acreditam que a Bíblia condena a homossexualidade; segundo, porque anseiam ser parte do grupo maioritário e hegemónico, formado pelos heterossexuais. O anseio de mudança é motivado, portanto, por dois aspetos: um aspeto espiritual (fazer a vontade de Deus) e um aspeto social (ser parte do grupo de prestígio).

 

Há respostas para ambos os aspetos. Estudos teológicos realizados desde a década de 1950 revelam que não há condenação bíblica da homossexualidade. Em suma, estes estudos indicam que os atos homossexuais descritos nas Escrituras são cometidos NÃO por força de orientação sexual - conceito até então desconhecido - mas por influência de outros contextos: abuso sexual (Sodoma e Gomorra), prostituição cultual (Levítico 18,22, Deuteronómio 23,17 e 18), hedonismo/idolatria (Romanos 1) e devassidão (1 Coríntios 6,9).

 

O grupo hegemónico não admite a presença dos diferentes. Sair desse grupo está fora de cogitação para muitos gays, que acabam pagando um preço muito caro. Sofrem pelo silêncio e pela solidão, pelo medo de partilhar a dor, pela deceção de não alcançar o padrão exigido, pela carência afetiva, pela ansiedade quanto ao futuro, pelas expetativas da igreja e da família. De facto, é difícil aceitar a própria sexualidade neste contexto. Há um falso conforto dentro do armário, mas ele é sufocante, traz dor, uma dor permanente, que aumenta à medida que o tempo passa. É preciso acreditar que, em Cristo, há vida fora do armário! Há vida fora dos padrões impostos pela religiosidade.

 

Isaías expressa claramente o pensamento do Criador: Ai do simples vaso de argila que discute com o seu artífice! Acaso o barro diz para o oleiro: «Que estás tu a fazer?» Ou: «A tua vasilha não tem asas?» (Is 45,9). O que Deus nos diz através do profeta é o seguinte: a minha vontade é soberana e deve prevalecer sobre a tua! Deus não admite que O questionemos como se Ele fosse passível de cometer erros! A tendência do homem é sofrer quando luta contra as determinações divinas (Ai do simples vaso de argila que discute com o seu artífice!). O apóstolo Paulo acrescenta: “Quem és tu, homem, para entrares em contestação com Deus? Dirá, porventura, o que é moldado àquele que o molda: «Porque me fizeste assim?»” (Romanos 9,20). Apesar do imperativo bíblico, a nossa atitude normalmente é conduzida pelas expetativas alheias. Acreditando fazer a vontade de Deus, permitimos passivamente que nosso coração seja violentado para se ajustar ao padrão das estruturas religiosas. Embora este mundo nos traga aflições, Deus não nos fez para o sofrimento. Nesse caminho, muitos perdem a fé e abandonam a Igreja.

 

Lembremo-nos: Deus não comete erros. Salomão escreveu: “Todas as coisas que Deus fez, são boas a seu tempo. Até a eternidade colocou no coração deles, sem que nenhum ser humano possa com­preender a obra divina do princípio ao fim. ” (Eclesiastes 3,11).

 

No afã enganoso de agradar a Deus e compor o grupo hegemónico, muitos submetem-se a “tratamentos” que prometem mudanças. No fim, sem os resultados prometidos, a autoestima se esvai e o senso de valor próprio desmorona. O fracasso do processo gerará, inevitavelmente, sentimentos de impotência e frustração. Consequentemente, depressão e outras doenças psíquicas terão solo fértil. Não raro, alguns optam por medidas extremas, como o suicídio. Será que fazer a vontade de Deus conduz a tão profundos abismos emocionais e a cativeiros existenciais? Não! Jesus veio para que tivéssemos vida em abundância! (João 10,10b). Cristo convida cansados e oprimidos para dele receber alívio (Mateus 11,28). Enquanto a igreja convencional fecha as portas aos diferentes, Jesus abre seus braços e acolhe a todos, incondicionalmente (João 6,37).

 

Portanto, gays e lésbicas não conseguem mudar a sua orientação sexual porque não está no coração de Deus que tal mudança aconteça. O Senhor deseja que nos aceitemos como obra das suas mãos, que encaremos a nossa sexualidade como um dom divino, não como um castigo. Devemos ter o mesmo sentimento de admiração de David ao descrever a sua própria formação no ventre materno: Tu modelaste as entranhas do meu ser// e formaste-me no seio de minha mãe.// Dou-te graças por tão espantosas maravilhas;// admiráveis são as tuas obras. (Sl 139,13.14). Ser homossexual não limita a graça divina, não impede que sejamos chamados filhos de Deus (João 1,12). Isso não é autoajuda, é verdade que liberta! A nossa busca não deve consistir em fazer ou ser aquilo que a sociedade determina como padrão, mas em aceitar o que Deus determinou ao nos formar. Aceitar a Sua vontade é experimentar algo bom, perfeito e agradável (Romanos 12,2). É preciso tomar posse dessa verdade. Deus não nos culparia por algo que não escolhemos ser. Ele é justo, é amor e misericórdia. Da mesma forma que ele não tem o culpado por inocente, ele não tem o inocente por culpado. (Naum 1,2.3).

 

Texto original: Alexandre Feitosa

Adaptação: José Leote

Efeminados e Sodomitas: Quem são eles?

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Será que a Bíblia reprova a homoafetividade, como a conhecemos no nosso tempo e cultura?

 

O apóstolo Paulo foi o único escritor do Novo Testamento a fazer menção a atos homossexuais – entre homens, apenas. O silêncio dos Evangelhos, dos Atos dos Apóstolos, das Epístolas Gerais e do Apocalipse comprova que os seus escritores estavam preocupados com outras questões e o facto de apenas Paulo mencionar atos homossexuais – por três vezes, apenas – é indício de que os atos homogenitais não constituíam um tema central da abordagem e do conceito de pecados sexuais.

 

Na verdade, duas palavras utilizadas nessas ocasiões por Paulo são razão de grande controvérsia entre os eruditos. A maioria das traduções protestantes em língua portuguesa está baseada no trabalho de João Ferreira de Almeida1. Porém, nos últimos anos outras traduções vêm merecendo algum destaque, o que representa uma mudança significativa, também, no sentido de alguns textos2. Há avanços e retrocessos em tais traduções, das quais se destacam a Bíblia Judaica e a Bíblia "A Mensagem" (baseada na versão de João Ferreira de Almeida).

 

A grande chave para se rejeitar tais textos como referência à homossexualidade é a dificuldade em saber com certeza o significado das palavras cujas traduções mais consagradas são “efeminados” e “sodomitas”. Tais palavras no original grego são, respectivamente: malakoi e arsenokoitai. Há dezenas de traduções para ambas as palavras, o que prova a incerteza dos eruditos sobre o que elas realmente significam no texto original. Palavras e termos como “devassos”, “travestis”, “catamitos”, “prostitutos masculinos”, “sodomitas”, “efeminados”, “pederastas” e “pedófilos”, entre várias outras, já foram utilizados para traduzir malakoi e arsenokoitai.

 

Malakos (plural malakoi) aparece noutros textos bíblicos e significa, literalmente, macio, suave ao toque, mole. No texto de Paulo adquiriu um significado metafórico, figurado. Os dicionários teológicos associam malakos a um homem efeminado, mas também reconhecem que o termo pode significar pessoas em geral dadas aos prazeres da carne (Dicionário VINE, CPAD). Tal tradução é bem mais coerente, pois todos os outros pecados ali citados se referem a pessoas de ambos os géneros. Algumas traduções como A Bíblia de Jerusalém (em português), La Bible du Semeur (em francês) e a Contemporary English Version (em inglês) já apresentam esta ideia. Há estudos que relacionam malakoi com a prostituição masculina praticada na época de Paulo, principalmente em Corinto, cidade famosa pela sua depravação sexual. Algumas traduções como a “Today’s New International Version” (2001), a “New International Reader’s Version” (1996) e a “New Century Version” (1984) apresentam essa ideia. Embora não completamente precisas, essas traduções já representam um avanço ao disassociar os pecados dos malakos da homossexualidade moderna. A palavra sodomita também aparece na Bíblia como referência aos prostitutos do templo. Conferir com Deuteronómio 23,17.18, de preferência em traduções diferentes.

 

O contexto cultural e religioso de Corinto justifica perfeitamente a teoria de que Paulo se referia à depravação ritualística tão comum naquela cidade: Leiamos o que diz Lindolfo WEINGÄERTNER, na obra O contexto histórico das recomendações bíblicas quanto à sexualidade, Encontro Publicações, 2000. Paraná (Brasil):

 

Nos tempos apostólicos, as influências das religiões oriundas da Babilónia, Pérsia, Egito e outras tinham invadido em larga escala a antiga religião dos gregos e romanos. Assim, no tempo do apóstolo Paulo, na cidade de Corinto, longe do lugar de origem dos cultos de fertilidade, existia um templo de Diana (chamada também de Ártemis) no qual atuavam centenas de prostitutas e prostitutos cultuais, que se entregavam sexualmente aos que frequentavam o lugar de adoração. O verbo ‘corintiar’ (korintiázein) era sinónimo de ‘viver em promiscuidade’. Nas cartas de Paulo aos coríntios ainda podemos sentir as dimensões da luta do evangelho de Cristo com a libertinagem e a promiscuidade sexual prevalecentes na cidade.

 

Apenas o vocábulo “arsenokoitai” se refere exclusivamente a homens, pois etimologicamente temos “arseno” que significa literalmente homem. Koitai significa “leito”, “cama”, numa conotação sexual. Portanto, arsenokoitai, significa o homem que mantém relações com outro homem ou, mais precisamente, o homem que penetra outro homem. Na época de Paulo, era comum a prática da exploração sexual, principalmente na relação senhor/escravo. Em Timóteo, Paulo menciona, juntamente com arsenokoitai, os traficantes de jovens escravos, o que reforça tal interpretação. Algumas traduções, valendo-se desse facto sócio-histórico, traduziram arsenokoitai como “pederastas” (Bíblia Vozes – 1995) e “pedófilos” (Bíblia dos Capuchinhos – 2002). Tais traduções, ainda que não completamente exatas, são coerentes com o contexto social do século I, pois revelam um caráter abusivo em tais relações. Essa era a visão judaica do comportamento sexual romano: a violência, o abuso e a prostituição. Paulo, por ser judeu, cultivava tais conceitos. O mais importante é compreender que o apóstolo desconhecia o sentido moderno da homoafetividade. O que ele presenciava estava muito longe de representar o amor entre pessoas do mesmo sexo e os seus relacionamentos estáveis. Alguns tradutores já perceberam que Paulo condena qualquer tipo de ato sexual não restrito às relações heterossexuais legais para a cultura judaica. Vamos ler novamente esses textos nas traduções já mencionadas no início deste artigo:

 

Quem usa e abusa das pessoas, do sexo, da terra e de tudo que nela existe não se qualifica como cidadão do Reino de Deus. Estou falando de libertinagem heterossexual, devassidão homossexual, idolatria, ganância e vícios destruidores.

(1 Coríntios 6,9 - Bíblia “A Mensagem”, 2011, Editora Vida, Brasil)

 

Temos consciência de que a Torah não tem por objetivo a pessoa justa, mas quem negligencia a Torah: descrentes, ímpios e pecadores, quem mata pai e mãe, assassinos, pessoas sexualmente imorais – quer heterossexuais quer homossexuais– vendedores de escravos, mentirosos e perjuros, e quem age de forma contrária à sã doutrina.

(1 Timóteo 1,9 e 10 – Bíblia Judaica, 2011, Editora Vida, Brasil)

 

Talvez nunca saibamos o que tais palavras significam, porém, é evidente que não se referem às relações homoafetivas e monogâmicas da atualidade. O que Paulo condena em tais textos é a prostituição, o sexo abusivo, cometido por solteiros (fornicação) fora do casamento (adultério) e o abuso entre homens. Outro ponto a ser considerado é o seguinte: se tal texto condena a homoafetividade, por que não menciona as mulheres?

 

Artigo original: Alexandre Feitosa

Adaptação: José Leote

 


1 João Ferreira de Almeida (Torre de Tavares, Várzea de Tavares, Portugal, 1628 - Batávia, Indonésia, 1691), foi um ministro pregador da Igreja Reformada nas Índias Orientais Holandesas, reconhecido especialmente por ter sido o primeiro a traduzir a Bíblia Sagrada para a língua portuguesa. A sua tradução do Novo Testamento foi publicada pela primeira vez em 1681, em Amsterdam. Almeida faleceu antes de concluir a tradução dos livros do Antigo Testamento, chegando aos versículos finais do Livro de Ezequiel.

2 A este propósito podemos mencionar a recente tradução da Bíblia Grega para português, feita por Frederico Lourenço