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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

O Sínodo aprova «avançar em direção a uma igreja participativa e corresponsável» na qual não votem somente os bispos

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O documento final proclama a «mudança inevitável» para um maior papel das mulheres e leigos na Igreja.

 

Foi um documento próprio de um Sínodo, que procurou o consenso e que o conseguiu. Todos os pontos superaram, com larga margem, os dois terços exigidos e o documento final foi aprovado com 191 votos a favor e 43 contra. De referir que dos 268 padres sinodais, cerca de uma vintena não votaram.

 

Os pontos mais polémicos, e que contaram com mais votos contra, foram os relacionados com a sinodalidade, os abusos sexuais, o papel da mulher e, especialmente, o ponto 150, que diz respeito aos homossexuais, onde 65 padres sinodais votaram contra e 178 a favor. No mesmo, sublinha-se que «há questões sobre o corpo, a afetividade e a sexualidade que requerem uma elaboração antropológica, teológica e pastoral mais profunda», entre os quais se destacam os relacionados com «a diferença e a harmonia entre a identidade masculina e feminina e as inclinações sexuais».

 

Neste sentido, «o Sínodo reafirma que Deus ama cada pessoa e também o faz a Igreja, renovando o seu compromisso contra a discriminação e a violência com base sexual». Considera ainda que «é redutor definir a identidade das pessoas a partir da sua orientação sexual».

 

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«Em muitas comunidades cristãs já há caminhos de acompanhamento na fé das pessoas homossexuais: o Sínodo recomenda o encorajamento destes caminhos», assinala o documento, que pede que se auxilie estas pessoas «a ler a sua própria história; a aderir livre e responsavelmente ao chamamento batismal; a reconhecer o desejo de pertença e contribuição à vida da comunidade; a discernir as melhores formas para que isto suceda». Desta forma «ajudamos a que nenhum jovem seja excluído, a integrar cada vez mais a dimensão sexual na sua personalidade, crescendo na qualidade das relações e caminhando até ao dom de si mesmo».

 

No que diz respeito ao papel da mulher, o documento final admite o desejo de «um maior reconhecimento e valorização das mulheres na sociedade e na igreja» e sublinha que «muitas mulheres desempenham um papel insubstituível nas comunidades cristãs», ainda que «em muitos lugares é difícil dar-lhes espaço nos processos de tomada de decisões, mesmo quando não requerem responsabilidades ministeriais específicas».

 

«A ausência da voz e do olhar femininos empobrecem o debate da Igreja e o caminho, subtraindo ao discernimento uma contribuição preciosa», pelo que o Sínodo «recomenda que todos se mostrem mais conscientes da urgência de uma mudança inevitável, também a partir de uma reflexão antropológica e teológica sobre a reciprocidade entre homens e mulheres».

 

No que concerne aos abusos sexuais, o documento aponta que «é um fenómeno muito espalhado na sociedade, que também afeta a Igreja e representa um obstáculo sério à sua missão». Deste modo, «o Sínodo reafirma o seu firme compromisso com a adoção de medidas preventivas rigorosas que impeçam a sua repetição, a partir da seleção e capacitação daqueles que estão encarregues das responsabilidades e tarefas educativas».

 

«Há diferentes tipos de abuso: poder, económico, consciência, sexual» e «a tarefa de erradicar as formas de exercício da autoridade em que se exercem e de contrariar a evidente falta de responsabilidade e transparência com que abordaram muito casos». No que diz respeito às causas, o documento aponta o clericalismo que «surge a partir de uma visão de vocação elitista e de exclusão, que interpreta o ministério recebido como um poder para exercer em vez de um serviço livre e generoso para oferecer; e isto leva-nos a acreditar que pertencemos a um grupo que tem todas as respostas e já não necessita escutar e aprender nada, ou que finge escutar».

 

Sobre a sinodalidade, o documento convida «as Conferências Episcopais e as Igrejas particulares a continuarem este caminho, participando em processos de discernimento comunitário que também incluem, nas deliberações, aqueles que não são bispos». Neste ponto, o Sínodo quer abrir-se «aos jovens marginalizados e aos que têm pouco ou nenhum contacto com as comunidades eclesiais». «Esperamos que estes caminhos envolvam as famílias, institutos religiosos, associações, movimentos e aos próprios jovens, para que se propague a «chama» daquilo que experimentamos nos últimos dias».

 

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Deste modo, o texto final apela ao «despertar» da sinodalidade, que é uma «dimensão constitutiva da igreja». Devido a ela «a igreja está chamada a assumir um rosto relacional que se centra em escutar, acolher, no diálogo, no discernimento comum num processo que transforma as vidas dos que nela participam», para construir «uma Igreja de escuta, tendo plena consciência de que escutar é mais do que sentir».

 

«É uma escuta mútua na qual todos temos algo a aprender. Fiéis, Colégio Episcopal, Bispo de Roma: uma escuta aos outros; e todos escutando o Espírito Santo», proclama o Sínodo, que pede que se «avance em direção a uma Igreja participativa e corresponsável, capaz de aumentar a riqueza da variedade da qual é composta, recebendo com gratidão a contribuição de fiéis leigos, incluindo jovens e mulheres; aquela da vida consagrada de homens e mulheres e aquela de coletivos, associações e movimentos. Ninguém deve ser colocado de lado».

 

«Esta é a forma de evitar o clericalismo, que exclui muitos dos processos de tomada de decisões, e a clericalização dos leigos, que os fecha em vez de os lançar em direção ao compromisso missionário no mundo», constata o documento. «O Sínodo pede que se torne efetiva e ordinária a participação ativa dos jovens nos lugares de responsabilidade das igrejas particulares, assim como nos organismos das Conferências Episcopais e da Igreja universal», acrescenta o texto, que pede «o estabelecimento de um corpo representativo da juventude a nível internacional».

 

Texto de:Jesús Bastante

Tradução do espanhol: José Leote (Rumos Novos) 

Documento final do Sínodo dos Jovens apresentado em Roma

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Foi aprovado na sua totalidade e apresentado hoje em Roma o documento final do Sínodo dos Jovens.

 

Para nós católicas e católicos LGBT é de saudar a inclusão no mesmo de expressões como «O Sínodo reforça que Deus ama cada pessoa e assim faz a Igreja, renovando o seu compromisso contra qualquer discriminação e violência com base sexual”, pode ler-se no número 150, ponto com maior número de votos contra.

 

O texto é relativo aos «caminhos de acompanhamento na fé das pessoas homossexuais», que o Sínodo quer «favorecer».

 

«Desta forma, ajuda-se cada jovem, sem excluir ninguém, a integrar cada vez mais a dimensão sexual na sua própria personalidade, crescendo na qualidade das relações e caminhando para o dom de si», pode ainda ler-se no documento.

 

Infelizmente, para nós, o texto fala em «inclinações sexuais», sem qualquer referência à sigla LGBT, que se encontrava no documento de trabalho, e considera redutor, com o que concordamos em absoluto e de há muito o temos defendido, «definir a identidade das pessoas a partir, unicamente, da sua ‘orientação sexual’».

 

Os participantes admitem, ainda, a dificuldade em transmitir a «beleza da visão cristã» sobre o corpo e a sexualidade, propondo uma «antropologia da afetividade e da sexualidade» aos jovens, que apresente o «justo valor da castidade».

 

Apesar desta caminhada iniciada no sentido do acolhimento das pessoas LGBT, o documento refere, mais à frente, que os participantes pedem que se apliquem mais «energias eclesiais» neste campo, para transmitir o ensinamento católico e a Teologia do Corpo, desenvolvida por São João Paulo II, entre outras.

 

Neste encerramento do Sínodo dos Jovens 2018, a Rumos Novos - Católicas e Católicos LGBT reafirma o seu propósito de continuar ao serviço na igreja para uma caminhada de acolhimento de tod@s, jovens e menos jovens, nesta mesma igreja.

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Deputados católicos britânicos escrevem ao Papa Francisco sobre os jovens LGBT

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Um grupo de vários deputados católicos escreveram esta semana ao Papa Francisco pedindo-lhe que garanta pessoalmente que o sínodo dos jovens se centre no dano provocado às crianças e jovens no mundo devido ao estigma LGBT.

 

O deputado Mike Kane afirmou que «o Sínodo dos Jovens da Igreja Católica, em Roma, é um momento único em cada geração onde todos podemos criar uma mudança positiva nas vidas dos jovens. Quer se seja católico ou não, pessoa LGBT ou não, as decisões que podem ser tomadas neste Sínodo serão sentidas nos anos vindouros em todo o mundo.»

 

A carta será entregue ao Papa por Sally Axworthy, embaixatriz britânica junto da Santa Sé, em nome dos deputados.

 

Na sua carta, os deputados trabalhistas Mary Creagh, Conor McGinn e Mike Kane e o deputado conservador Sir David Amess, juntaram-se à mensagem da Campanha Equal Future 2018, ao pedirem ao Papa que assegure que uma atenção especial é dada ao dano que está a ser feito às crianças e aos jovens em todo o mundo quando lhe é transmitida a perceção de que ser uma pessoa LGBT é um infortúnio ou uma deceção. Pedem que a igreja católica utilize a sua posição privilegiada nas sociedades à escala global para lidar com este dano e pôr-lhe cobro.


A deputada Mary Creagh afirmou «acreditamos que a igreja católica desempenha um papel importante na defesa dos marginalizados e dos que não têm voz, bem como na proteção das pessoas em relação ao dano. O Sínodo representa para nós um momento para afirmar a liderança em nome dos jovens e um modo de os proteger do dano que resulta de atitudes negativas ou ambivalentes acerca das pessoas LGBT que lhes são transmitidas.»

O sínodo dos jovens, atualmente a decorrer em Roma, chegará esta semana às suas conclusões finais para que o Papa se debruce sobre elas. Os deputados, dos partidos trabalhista e conservador do Parlamento britânico, afirmaram que embora compreendam que existem muitos pontos de vista no seio da igreja acerca da homossexualidade, a igreja deveria estar unida contra qualquer dano que esteja a ser perpetrado contra os jovens. 


O deputado Conor McGinn disse «quaisquer que sejam as discordâncias existentes dentro da igreja, estas não devem ser causa de que o sínodo não consiga abordar o dano psicológico infligido aos jovens através de qualquer perceção de que ser uma pessoa LGBT seria um infortúnio. A igreja católica desempenha uma posição charneira no mundo para lidar e pôr fim ao dano.»

O diretor da campanha Equal Future 2018, Tiernan Brady, comentou «proteger as crianças e os jovens de todo o dano causado pela perceção de que ser LGBT é um infortúnio ou uma deceção é uma tarefa de toda a sociedade, quer no reino da fé ou social. A Equal Future 2018 acolhe o contributo destes parlamentares do mesmo modo como, estamos certos, a igreja católica o fará e que especificamente pediu por opiniões.»

 

 


A carta integral (em inglês) dos parlamentares britânicos pode ser lida aqui.

 

Tradução do inglês: José Leote (Rumos Novos)

Cardeais: temas LGBT fazem parte da discussão no Sínodo dos Jovens

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Com as sondagens de opinião a mostraem que os jovens aceitam o casamento entre pessoas do mesmo sexo e outros direitos para as pessoas LGBT, havia questões sobre a forma como o sínodo dos bispos sobre os jovens, em curso, iria abordar o assunto. Na primeira parte do encontro de quase um mês, um arcebispo americano encheu as parangonas dos jornais ao sugerir de que não existe tal coisa como «católicos LGBT», lançando um debate sobre se o documento final produzido pelo encontro mundial deveria incluir a frase.

 

O assunto não tem sido um tópico principal dentro do adro do sínodo, mas numa conferência de imprensa em Roma, no sábado [NT: 20 de outubro], três arcebisppos responderam a questões dos jornalilstas dizendo que o tópico surgiu e que os delegados jovens instaram os responsáveis da igreja a serem mais acolhedores para com as pessoas LGBT, bem como com as suas famílias.

 

«Vamos ao encontro das pessoas onde elas estão, caminhamos com elas, avançamos», disse o Cardeal Blase.

 

«Temos de nos certificar de que não colocamos obstáculos face à graça de Deus. Vamos ao encontro das pessoas onde elas estão, caminhamos com elas, avançamos», disse o Cardeal Blase Cupich em resposta a uma questão. «Algumas vezes nessa caminhada as pessoas perdem-se ou dão um passo atrás, mas ainda estamos com elas de modo a manter essa caminada em andamento.»

 

O Papa Francisco escolheu o Cardeal Cupich, que está à frente da Arquidiocese de Chicago, para estar presente no encontro, que começa a concluir o seu trabalho na preparação de um documento final para submeter ao papa na próxima semana.

 

Outro delegado ao sínodo, o Cardeal John Ribat da Papua Nova Guiné, afirmou que os jovens presentes no sínodo falaram sobre os temas LGBT «livremente», exortando os responsáveis da igreja a dirigir-se às pessoas LGBT no seu modo preferido. Afirmou que os delegados leigos «estão realmente a ajudar-nos a compreender, a verdadeiramente vermos onde elas se encontram e o modo como essas pessoas [querem] ser ouvidas, reconhecidas e aceites.»

 

O arcebispo australiano Peter Comensoli sugeriu que @s católic@s LGBT não deveriam ter um tratamento especial.

 

«Muito simplesmente, não somos tod@s pecador@s? E não procuramos tod@s ser encontrados por Deus? E sendo encontrad@s por Deus, como é que então podemos encontrar as nossas vida n'Ele?», perguntou.

 

Mais tarde, respondendo a outra questão, o arcebispo acrescentou que é importante para os responsáveis da igreja responderem através de um modo cristão aos membros da comunidade LGBT.

 

«Quando os meus amigos ou amigas que podem ser homossexuais ou lésbicas ou em luta com o seu género, quando falo com el@s, falo-lhes com a amizade de Cristo, como é meu dever e, como amigo, pergunto-lhes: como é que devemos progredir juntos em direção ao pé da cruz?» afirmou.

 

Alguns bispos católicos defenderam dentro do sínodo que a igreja não devia utilizar a expressão LGBT, um acrónimo preferido por muitas pessoas gays, lésbicas e transgéneros, porque esta denota uma ideologia política. Sugeriram o uso de expressões como «pessoas com atração pelo mesmo sexo», em sua substituição.

 

No início do mês, o arcebispo Charles Chaput de Filadélfia afirmou durante a sua apresentação que «não existe tal coisa como um 'católico LGBT' ou um 'católico transgénero' ou um 'católico heterossexual', como se os nossos apetites sexuais definissem quem somos; como se estas designações descrevessem comunidades discretas de integridade diversa mas igual dentro da verdadeira comunidade eclesial, o corpo de Jesus Cristo.»

 

Relatórios tornados públicos no sánado mostram que os membros dos grupos de trabalho de língua inglesa estão a lutar com a forma como devem ser tratados os assuntos LGBT. Um grupo escreveu «ninguém, devido ao seu género, estilo de vida, ou orientação sexual, deveria alguma vez ser levado a sentir-se não amado», mas acrescentou «e é por isso o amor autêntico não exclui de forma alguma o chamamento à conversão, a uma mudança de vida». Outro grupo opos-se à criação de um documento novo sobre o ministério com pessoas LGBT.

 

De acordo com a revista Crux, um dos grupos de língua alemão relatou «Queremos uma discussão séria com os jovens na igreja sobre temas de sexualidade e uniões de facto», enquanto o grupo de língua espanhola pediu à igreja para acompanhar todas as pessoas «incluindo aquelas com orientações sexuais diversas, de modo a que estas pessoas possam crescer na fé e no seu relacionamento com Deus.»

 

O tópico da sexualidade foi igualmente levantado no início da semana.

 

O arcebispo Matteo Zuppi, responsável pela Arquidiocese de Bolonha, afirmou numa conferência de imprensa a 18 de outubro que o cuidado pastoral das pessoas LGBT é um «assunto importante», mas avisou sobre transformá-lo «num problema ideológico».

 

Já Silvia Retamales, uma delegada leiga do Chile ao sínodo, afirmou numa conferência de imprensa do passado dia 15 de outubro que as pessoas gay se «deveriam sentir como filh@s de Deus, não como problemas» na igreja.

 

«A igreja tem de ser mais inclusiva», afirmou.

 

Artigo original: Michael J. O’Loughlin

Tradução do inglês: José Leote (Rumos Novos)

Sou um padre gay, mas estou a questionar a permanência numa igreja que culpa a homossexualidade pelo abuso de crianças

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Sou um homem gay.. Sou igualmente um padre colocado numa comunidade de fé vibrante e acolhedora. Passei igualmente muitos anos num seminário no coração da Igreja católica institucional.

 

Crescer gay foi uma parte de mim como o é o facto de ser humano. Cresci com a consciência desse facto, tendo gradualmente passado por várias fases de vergonha devida ao bullying versus aceitação - antes de o abraçar e mesmo gostar disso como acontece hoje.

 

Sempre fui recatado, ainda hoje o sou, e somente saí do armário para alguns familiares e amigos - e sinto-me bem assim.

 

Quando era jovem e pensava seriamente em tornar-me padre, tinha medo de ser rejeitado porque era gay. O ensinmento oficial da igreja católica afirma que a homossexualidade é intrinsecamente desordenada. E eu nunca levantei a cabeça para desafiar este ensinamento e somente o aceitei, como toda a gente faz. Mais à frente na caminhada, as linhas orientadoras da igreja afirmariam que os homens com tendências homossexuais profundamente enraízadas não deviam ser admitidos nos seminários.

 

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Felizmente que quando senti o chamamento para ser padre e fui honesto acerca da minha sexualidade, fui tratado com respeito e fui aceite. Um padre envolvido na seleção brincou dizendo que se a igreja se visse livre de todos os padres gays, somente restaria um velho cardial com uma máquina de escrever.

 

Portanto agora, como padre com cerca de 10 anos de experiência, já não tenho que adular (não que alguma vez o tenha feito) estes ensinamentos repugnates, tais como a homossexualidade ser intrinsecamente desordenada e que os jovens não podem ser admitidos nos seminários simplesmente porque são gays.

 

É por isso que quando recebi a cópia de uma carta aberta aos Bispos Católicos da Inglaterra e do País de Gales, escrita pelo Pe. David Marsden, quis falar.

 

Marsden escreveu a sua carta aberta depois de ter sido afastado do seu cargo no Oscott College, um seminário em Birmingham. Ele foi afastado por ter discordado do diretor acerca de um aluno que ele achava ser abertamente gay. Marsden queria o estudante expulso. O diretor, claramente um homem de caráter, recusou-o determinantemente.

 

Marsden estabeleceu igualmente algumas ligações muito perturbantes entre os padres predadores e a homossexualidade, referenciando Theodore McCarrick, um prelado americano, que resignou em julho do cargo de Cardial, após muitas acusações de comportamente predatório terem sido feitas contra ele.

 

Da carta de Marsden, cito: «Espero e oro que a ação do Espírito Santo esteja agora a purificar a hierarquia ao expor o mal perpetrado pelo clero homossexual um pouco por todo o mundo. Sinto ser meu dever informá-lo e aos fiéis católicos que o coletivo homossexual no seio da hierarquia que permitiu ao [ex-cardial] McCarrick funcionar de um modo sem obstáculos, ainda se encontra hoje vivo na igreja católica na Inglaterra e no País de Gales.»

 

Temos aqui um exemplo doentio de ligar sacerdotes gays - que os há muitos - a comportamento predatório. Isto não está somente fatualmente errado, mas cheira igualmente a uma flagrante homofobia.

 

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O Papa Francisco visita a Irlanda por altura do Encontro Mundial das Famílias 2018, enfrentando um manifestante exibindo um cartaz que diz: «Pope head of the biggest paedophile ring in the history of man» («Papa o chefe da maior rede de pedofilia na história do homem») .

 

Ninguém pode fingir que os escândalos recentes na igreja envolvendo má conduta sexual, abuso e encobrimentos não tiveram um efeito devastador na imagem da igreja católica. É um desastre de relações públicas e ninguém parece ser capaz de lidar de forma eficaz com a crise. O Papa Francisco está, pelo menos, a tentar e pode ser louvado pela sua abordagem de misericórdia e senso-comum. Contudo, o Papa tem muitos inimigos que o veem como um liberal e que anseiam pelo regresso aos dias da direita política do papa alemão Bento XVI.

 

Tudo isto levou-me a baixar as escotilhas no meu pequeno mundo. Questionei em numerosas ocasiões se quero mesmo exercer o sacerdócio como membro a tempo inteiro da igreja. E, apesar disso, continuo. Vou em frente. Porquê? Porque a minha fé e a preciosa fé dos meus paroquianos, jovens e idosos, que sentem conforto e esperança na vida e palavras de Jesus, não é propriedade da igreja institucional. Não depende de politiquices mesquinhas e cartas abertas vis.

 

Tradução do inglês: José Leote (Rumos Novos)

«Os homossexuais não podem ficar fora da pastoral»

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Mulheres, homossexuais, ecumenismo, ecologia... Os grandes temas continuam presentes no debate dos padres sinodais, quando as discussões chegam ao final da segunda semana. Desta modo, o Prefeito de Comunicação, Paolo Ruffini, destacou no briefing do meio dia, do passado dia 17 de outubro, que «os homossexuais não podem ficar fora da pastoral».

 

No encontro do dia 17, participaram também o prior de Taizé, o irmão Alois; o abade cisterciense, Mauro Lepori; o bispo da Islândia, David Bartimej; e o delegado fraterno, pastor Marco Fornerone.

 

Na sua intervenção, o irmão Alois sublinhou o modo como «é importante mostrar a disponibilidade da igreja para acolher e escutar as pessoas que desejam partilhar uma alegria ou uma dor». «Muitas pessoas de diversas confissões desejam orar juntas», destacou o religioso francês, que referiu que «este tema deve estar mais presente no Sínodo».

 

Por seu turno, Ruffini insistiu que nesta fase do Sínodo se «encontram muito presentes os temas do modo como participar com os jovens no ambiente digital e do acompanhamento por parte da Igreja. Nestes domínios é necessário um verdadeiro diálogo intergeracional».

 

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Lepori insistiu que os padres sinodais «não querem ser 'carteiros que trazem um texto', mas testemunhas do que se passa no Sínodo». deste modo, sublinhou, os bispos «estão a escutar muitas intervenções e testemunhos importantes que nos tocam o coração e que levaremos para casa como experiência de comunhão».

 

«A contribuição ecuménica é importante neste Sínodo», sublinhou o irmão Alois, destacando a diferença com o ocorrido nos Sínodos precedentes. «É mais uma forma de reforçar a comunhão», sublinhou o prior de Taizé, uma opinião partilhada com o abade cisterciense: «O Sínodo é como uma obra de comunhão. Uma obra em curso».

 

«Devemos escutar o Espírito Santo e não somente a nós mesmos», acrescentou Lepori. Por seu lado, monsenhor Tencer apontou que «este Sínodo foi muito bem preparado», pois houve comunicação «com kovens de todo o mundo». «Temos de valorizar as possibilidades que os novos meios nos oferecem», destacou.

 

«Vejo uma experiência de conversão na qual todos nós experimentamos a amizade com Cristo e com a Igreja. Temos de escutar os jovens e dar testemunho de uma Igreja que coloca a comunhão em primeiro lugar», rematou o irmão Alois.

 

Por seu turno, Fornerone mostrou a alegria dos valdenses pelo «diálogo sobre a linguagem» e pelo desejo maioritário de «uma maior participação das mulheres». Ruffini concluiu o breafing realçando que nas últimas intervenções falou-se da Igreja no mundo digital, das migrações, do meio ambiente e da família e «reafirmou-se o valor sagrado da vida».

 

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Testemunho!

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Durante muito tempo senti-me infeliz por não conseguir "superar" a minha homossexualidade, contudo logo que me aceitei senti-me livre, pleno e até atrativo. O meu convite é para que te aceites como criação perfeita de Deus, vivas ao máximo a tua vida, caminhando, em cada dia, na mão de Deus.

 

Faz uns meses um primo por parte do meu pai perguntou-me se eu "jogava no outro campeonato" devido a um comentário que fiz numa página do Facebook. Como não queria expor-me respondi-lhe que o havia feito por brincadeira. Contudo, o meu primo contou à mão (minha tia) que, furiosa, chamou a minha mãe, perguntando-lhe se sabia da publicação. No dia seguinte a minha mãe perguntou-me sobre ela e não pude continuar a negar que me havia aceitado como gay. Os meus pais são cristãos muito conservadores e não o aceitaram e pediram-me que continuasse procurando "vencer" a homossexualidade, tal como o tinha tentado fazer no passado.

 

É muito difícil ser criado num contexto onde a homossexualidade é vista como pecado e ainda que eu partilhasse dessa mesma ideia não conseguia deixar de sentir atração por homens. Fiz tudo o que a igreja cristã ensina para me "libertar" da homossexualidade, desde as disciplinas espirituais, passando pelo jejum, pela oração e pelo recitar as Sagradas Escrituras, até submeter-me a exorcismos e a terapia tanto individual como de grupo. O não ver resultados trouxe à minha vida muita culpa e amargura. Tinha mesmo pensamentos suicidas.

 

Faz mais de ano e meio que decidi aceitar-me como gay e sinto-me mais feliz comigo mesmo. Não quero ter de dizer na igreja que Deus me "libertou" da homossexualidade, enquanto mantenho encontros sexuais com homens. Não quero negar a minha orientação sexual para encaixar no sistema, ainda que no meu interior sofra e chore enquanto pergunto a Deus: por que não sou heterossexual?

 

Ao sair do armário saiu-me um enorme peso de cima, porque posso ser eu mesmo sem ter que sentir vergonha de nada e com a ajuda de Deus seguirei em frente no caminho da felicidade, a qual é direito inalienável que têm todos os seres humanos.

 

Tradução do espanhol: José Leote (Rumos Novos)

Reflexões sobre duas questões LGBT presentes no Sínodo

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Questões referentes à temática LGBT encontram-se a ser abordadas no Sínodo dos Bispos sobre os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional, atualmente a decorrer em Roma, principalmente porque os jovens de hoje estão cada vez mais interessados nas questões sobre as pessoas gays, lésbicas, bissexuais e transgénero. Para muitos jovens, as pessoas LGBT são os seus irmãos e irmãs, tios e tias, amigos e vizinhos - e, algumas vezes, eles mesmos. Isto refletiu-se no documento de trabalho do sínodo, que afirmou "Alguns jovens LGBT... desejam beneficiar de uma maior aproximação e experimentar um maior carinho por parte da Igreja."

 

Nalguns setores da igreja, isto pode ser considerado essencialmente uma preocupação "ocidental". Porém, a diversidade étnica da comunidade LGBT no ocidente, em parte porque alguns procuraram refúgio ou asilo nesta parte do mundo devido à sua sexualidade, demonstra o modo como o tratamento das pessoas LGBT é um assunto para a igreja global. Já para não mencionar que um cada vez maior número de católico espalhados pelo mundo se identifica como LGBT.

 

Em resultado disto, algumas questões acerca das pessoas LGBT estão perante os delegados ao sínodo. De acordo com os participantes, as discussões até agora têm-se centrado em duas questões, ambas sobre nomenclatura: Primeira, pode o sínodo utilizar o termo "LGBT" nos seus documentos? Segunda, pode o sínodo reconhecer que os casais gay podem constituir "família"? Como é que devemos abordar estas questões - ao mesmo tempo em que não pomos em causa o ensinamento da igreja sobre a homossexualidade e a sua oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo?

 

Primeira questão: pode o sínodo usar o termo "LGBT" nos seus documentos?

Deixem-me sugerir três razões porque "LGBT" pode ser usado nos documentos do sínodo:

  1. Chamar às pessoas LGBT o que elas pedem que lhes seja chamado faz parte do "respeito" reclamado pelo Catecismo da Igreja Católica.

    Esta pode ser a razão mais importante para utilizar o termo "LGBT". Referir-se às pessoas LGBT através do nome que a maioria usa atualmente para se referir a si próprio faz parte do "respeito" reclamado pelo Catecismo (N. 2358). Vejamos outro exemplo: o uso contemporâneo evita o termo "Preto" e, em vez dele, opta por "Afro-americano" ou "Negro", o que reflete aquilo que este grupo prefere. recusar chamar um grupo pelo nome que a maioria no grupo prefere roça a falta de respeito. Os jovens LGBT, que são frequentemente perseguidos, vítimas de bullying e "chamados nomes" estão particularmente atentos à linguagem desrespeitosa.

    Para além disso, se a igreja utiliza termos ultrapassados, desconhecidos, excessivamente clínicos ou considerados desrespeitosos ou mesmo ofensivos (como "atraídos pelo mesmo sexo" o é para a maioria das pessoas LGBT), a igreja arrisca-se a impedir um autêntico diálogo com este grupo. E se a igreja não se conseguir comprometer no diálogo, então não pode fazer teologia de forma correta - um caminho contrário ao convite do Vaticano II de ser uma igreja no mundo moderno ("Gaudium et Spes"). Deste modo, reconhecer este termo comum, em particular para os jovens LGBT, é simultaneamente respeitoso e teologicamente útil.

 

Os jovens LGBT querem sentir-se parte da igreja.

 

  1. Utilizar "católicos LGBT" inclui-os na igreja.

    Alguns têm argumentado que usar esse termo separa as pessoas LGBT do resto da igreja. Contudo, este argumento não é utilizado com outros grupos dentro da igreja. Há muitos outros grupos que são normalmente identificados por uma característica particular - católicos jovens-adultos, católicos latino-americanos, católicos idosos, pais católicos - e poucos são aqueles que sugerem que tal identificação os separa da igreja. Identifica-os simplesmente como membros constituintes do Corpo de Cristo e lembra-nos da diversidade rica no seio da igreja (1 Cor 12, 20). Em especial, os jovens LGBT querem sentir-se parte da igreja. Isto é um sinal de diversidade não de divisão.

 

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  1. Usar "católicos LGBT" não é sinónimo de aceitação de uma ideologia.

    Quando as pessoas se autodescrevem como LGBT tal não significa que considerem a sua sexualidade ou identidade como um traço dominante da sua personalidade, pelo menos não mais do que as pessoas que se referem a si próprias como "católicos italianos" ou "católicos idosos" consideram isso o traço dominante. Usar o termo não tem como significado que ser LGBT seja a parte mais importante do que essas pessoas são. No geral, o uso de um adjetivo não equivale a definir uma pessoa ou um grupo em termos de uma das suas características.

    Do mesmo modo, o termo não constitui uma declaração de apoio a uma ideologia política ou posição teológica. Por exemplo, quando um jovem se identifica como "gay" ou "lésbica", ele ou ela está simplesmente a expressar uma parte de quem é, não a fazer uma proclamação sobre temas controversos. De facto, as pessoas LGBT abarcam um amplo espetro de visões e compromissos sociais, políticos e económicos.

    Por todas estas razões, eu sugeriria que o sínodo pode utilizar o termo comumente aceite "LGBT".

 

Segunda questão: pode o sínodo reconhecer que os casais gay formam uma "família"?

 

Novamente, deixem-me sugerir três razões porque, sem desafiar as posições da igreja sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, pode fazer sentido para o sínodo usar esta nomenclatura.

 

  1. Há muitas formas de ser uma "família".

    Dada a ampla diferença cultural existente no mundo, há muitos tipos de famílias, para além da família nuclear constituída por mãe, pai e filhos. E, historicamente, também existiram diferentes tipos de família. Por exemplo, na Bíblia, as famílias surgem-nos de muitas formas e tamanhos.

    Atualmente, as famílias não são sempre formadas somente pelo casamento mas também por outros laços de amor e afinidade - por exemplo, uma mãe solteira e o seu filho; um homem divorciado e o seu filho adotivo; um casal recasado e divorciado com filhos; um casal resultante de um casamento civil com filhos; um avô, tia ou tio criando netos, sobrinhas ou sobrinhos; um tutor legal vivendo com o seu tutorado; várias gerações de adultos vivendo com irmãos e primos e uma família alargada de irmãos e irmãs cujos pais faleceram. Talvez o mais comum de todos, pelo menos no ocidente, é o número cada vez maior de crianças nascidos de casais não casados (homens e mulheres). Cada grupo, embora num enquadramento não tradicional, considerar-se-ia a si próprio como família.

    A igreja pode não aprovar algumas destas situações, mas não obstante refere-se a elas como famílias. Utiliza o termo e tem utilizado o termo no sínodo, ampla e coloquialmente. Talvez mesmo alguns dos delegados ao sínodo sejam provenientes de famílias não tradicionais, mas provavelmente referir-se-ão à sua própria "família". Também os pastores reconhecem que as famílias são bem mais complexas do que imaginamos. Neste mesmo enquadramento os casais gay podem formar famílias e são merecedores do termo.

 

Se a igreja deseja efetivamente dirigir-se ao mundo contemporâneo deve considerar usar as expressões que o mundo compreende

 

  1. Os casais gay são "famílias" quer no sentido legal quer no emocional.

    A igreja opõe-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Porém, cada vez mais os casais gay são reconhecidos pelas autoridades civis como famílias. Os tribunais em muitos países consideram os casais de pessoas do mesmo sexo como famílias legalmente constituídas e noutros países como possuindo affinitas (afinidade). Portanto, eles são família em sentido legal.

    Estas famílias são igualmente um lugar onde o amor está presente - no cuidar um do outro, no cuidar dos filhos, no cuidar dos pais que envelhecem, no cuidar da comunidade em geral - tal como também o está nas famílias tradicionais. Muitos casais gay também heroicamente adotam as crianças mais desfavorecidas e marginalizadas. Tais famílias fornecem uma medida de estabilidade social no mundo e auxiliam no desabrochamento da sociedade na medida em que apoiam outros na comunidade e contribuem para o bem comum.

    No geral, se a igreja deseja dirigir-se efetivamente ao mundo deve considerar usar as expressões através das quais o mundo se compreende. E, mais uma vez, se a igreja negar este facto isso pode impedir o diálogo com esses muitos tipos de famílias

 

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  1. Os casais gay têm filhos que necessitam de cuidado espiritual - enquanto membros de "famílias".

    A oposição da igreja ao casamento entre pessoas do mesmo sexo é claro. Porém, mesmo assim eles são casados sem a aprovação da igreja, os pais gay fazem muitas das outras coisas que os outros pais fazem: amam os filhos e filhas, providenciam a sua educação e lutam para que eles e elas se tornem nas pessoas que Deus deseja que eles e elas sejam.

    Desejam igualmente que os seus filhos e filhas sejam parte da igreja. Deste modo, os casais gay batizam os filhos e filhas, levam-n@s à Missa, ensinam-@s a rezar, matriculam-n@s em aulas de religião e moral, rejubilam quando estes e estas recebem os sacramentos e, acima de tudo, desejam para os filhos e filhas o tesouro das graças da igreja. Este é o fruto claro da fé, da graça de Deus em ação nos corações destes pais.

    Mesmo nas situações em que os católicos LGBT se sentiram feridos pela igreja, muitos ainda pretendem criar os filhos e filhas na fé - um sinal inconfundível da graça de Deus. Para o Corpo de Cristo esta é uma fonte poderosa de vida e é importante para a igreja reconhecer isto e afirmá-lo. Os filhos e filhas destes casais veem-se também naturalmente como parte de uma família. Argumentar de outra forma arrisca a que estas crianças e jovens se sintam excluídos da igreja.

    A família tem sido frequentemente chamada de "pequena igreja", onde os filhos e filhas ouvem falar, pela primeira vez, acerca de Deus e acerca do amor. Então, talvez a melhor razão para usar o termo "família" em relação a estes casais e aos seus filhos e filhas é a de que eles são um locus [N. T. palavra do latim, que significa “lugar”] de amor.

 

 

Autor: Pe. James Martin, SJ

Tradução: José Leote (Rumos Novos)


 

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James Martin, S.J., é editor geral da revista America, consultor do Dicastério do Vaticano para a Comunicação e autor do livro Construindo uma Ponte, sobre católicos LGBT.

Matthew Shepard, cujo assassinato em 1998 se transformou num símbolo para o movimento em prol dos direitos das pessoas homossexuais, será enterrado na Catedral Nacional de Washington

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A família não enterrou os seus restos mortais depois de Shepard ter sido sovado e deixado para morrer perto de Laramie, Wyoming (EUA), por receio de que a campa fosse profanada.

 

Quando Matthew Shepard morreu numa noite fria há 20 anos, depois de ter sido agredido com a coronha de uma pistola e amarrado a uma vedação de madeira, os pais mandaram cremar o corpo do jovem de 21 anos e guardaram as cinzas por temerem atrair as atenções para o local do último descanso de uma pessoa que foi vítima de um dos piores crimes de ódio dos Estados Unidos.

 

Porém, agora com o aniversário do assassinato do seu filho, os Shepards decidiram enterrar os seus restos mortais no interior da cripta na Catedral Nacional de Washington, onde os ativistas pela igualdade dos homossexuais afirmam que pode ser um símbolo proeminente e mesmo um destino de peregrinação em prol do movimento. Embora a causa da igualdade LGBT tenha tido avanços históricos desde que Shepard foi morto, ela ainda aparece muito diferenciada em muitas partes do mundo.

 

O assassinato de Shepard em 1998, um estudante da Universidade do Wyoming, às mãos de dois jovens, numa área remota a leste de Laramie, foi de tal modo horrenda que o seu nome está presente na lei federal contra crimes de ódio dirigidos às pessoas LGBT. Foi igualmente tema de livros, filmes e da peça de teatro "The Laramie Project", que é uma das peças de teatro mais representadas nos Estados Unidos.

 

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Selvaticamente agredido e deixado para morrer, Shepard foi encontrado quase 18 horas depois por um ciclista que pensou tratar-se de um espantalho. Matthew morreu uns dias depois, a 12 de outubro de 1998, aos 21 anos.

 

A 26 de outubro, as suas cinzas serão depositadas num nicho no columbário da cripta, uma área privada no piso inferior da massiva catedral gótica, que é a sede da igreja episcopal e um local eleito para os eventos espirituais nacionais. Shepard, que fo membro ativo na igreja episcopal, será uma das mais de 200 pessoas enterradas na catedral no último século. Outras incluem o Presidente Woodrow Wilson; Helen Keller e a sua professora Anne Sullivan e o Alimirante da Marinha George Dewey, afirmou o porta-voz Kevin Eckstrom. Embora os visitantes não tenham acesso à cripta, os responsáveis da catedral estão a considerar a possibilidade de instalar uma placa que possa ser vista e tocada, semelhante àquela existente em Braille instalada para Keller.

 

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A cerimónia do dia 26 de outubro será aberta ao público e será presidida pela bispa episcopal de Washington, Mariann Edgar Budde e pelo bispo Gene Robinson, cuja ordenação em 2003 como o primeiro bispo assumidamente gay na igreja episcopal deu origem a um cisma dramático na denominação que ainda não está resolvido.

 

Robinson é amigo de Judy e Dennis Shepard, pais de Matthew.

 

"Se sei alguma coisa sobre Deus é que Deus pode extrair algo de bom a partir de algo terrível. E os movimentos necessitam de símbolos. [O movimento para a igualdade gay tem] o triângulo, que recorda aquele que foi usado para nos marcar durante o Holocausto; a bandeira arco-íris e temos também Matt Shepard, que se tornou num símbolo da forma como somos alvo de violência," afirmou Robinson na passada quarta-feira à noite. "Este pode ser um lugar maravilhoso para as cinzas de Matt repousarem e onde as pessoas podem ir e fazer uma espécie de peregrinação. Todos nós seres humanos necessitamos de lugares especiais para irmos e lembrar-mo-nos de coisas importantes e penso que este pode tornar-se um destino para as pessoas LGBTQ que experimentaram a violência nas suas vidas, que contínua a ser um problema, apesar de todos os ganhos que conseguimos."

 

Em vez de se desvanecer, o simbolismo da morte de Matthew Shepard intensificou-se com o passar do tempo e aqueles que trabalham na fundação com o seu nome afirmam que o seu recente recrudescimento - e o de outros grupos de defesa que realizam um trabalho semelhante - reflete um retrocesso ou um marcar passo no alcance de uma igualdade completa para as pessoas LGBT.

 

A morte de Matthew Shepard é uma tragédia duradoura que afeta todas as pessoas e deveria servir como um apelo permanente para rejeitarmos a intolerância em relação às pessoas LGBTQ e, em vez dela, abraçarmos cada um dos nossos vizinhos por aquilo que são.

 

Tradução e Adaptação: José Leote (Rumos Novos)

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