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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

Encontro de março 2019

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Partilhamos convosco que o nosso próximo encontro é já no dia 3 de março, pelas 15h30.

 

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O tema para partilha/ reflexão será: Sair do armário, sem sair do caminho.

Deixamos o PROGRAMA do Encontro:

  • 15h30 - Oração de abertura.
  • 15h45 - Apresentação do tema.
  • 16h45 - Partilha e Reflexão sobre o tema.
  • 18h30 - Interrupção: Chá e bolos.
  • 19h00 - Oração Taizé.
  • 19h45 - Jantar da Comunidade (*)

(*) Como é habitual o jantar decorre num restaurante de Lisboa. O custo de participação no jantar é obtido por perequação e ronda geralmente os 15 a 16 EUR por pessoa.

 

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Novo livro, «No Armário do Vaticano», produz uma nuvem tóxica de suspeição

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Foto de Sean Ang em Unsplash

 

Frederic Martel, um sociólogo francês e autor do livro No Armário do Vaticano: Poder, Hipocrisia, Homossexualidade, revelou, de forma ousada, aos jornalistas presentes numa conferência de imprensa, ocorrida no passado dia 20 de fevereiro, na Associação de Imprensa Estrangeira que «a esmagadora maioria» dos mais de 200 membros do Colégio de Cardeais são homossexuais e sugeriu que muitos levam vidas duplas.

 

Embora tenha sido amplamente noticiado que, de acordo com o livro, 80 porcento dos padres que trabalham no Vaticano são gays, na conferência de imprensa Martel procurou distanciar-se desta alegação dramática. Martel afirmou que o número lhe havia sido referido por um sacerdote que ele entrevistou para o livro. «Não valido, nem deixo de o fazer. Como é que podemos sabê-lo?» disse ele aos jornalistas.

 

Questionado pela revista dos jesuítas americanos, America, por provas que justificassem esta afirmação de que «a grande maioria» dos cardeais na igreja são homossexuais, Martel não conseguiu dar qualquer resposta justificativa.

 

A tese central deste livro é aquela de que os cardeais e bispos que fazem condenações fortes da homossexualidade são mais propensos a ser gays eles próprios. Martel descreve isto como sendo parte da sua tentativa de encobrimento de quem verdadeiramente são.

 

Escrevendo ao jeito tabloide, Martel relata aquilo que as suas várias fontes lhe disseram acerca deste ou daquele prelado ou cardeal do Vaticano. Depois de ter contado estas histórias em mais do que uma página, Martel acrescenta algumas vezes: «Claro que não podemos ter a certeza de que este seja exatamente o caso.» Uma classificação tão estranha levanta uma questão básica da ética jornalística: Por que razão é que ele escreve algo que levanta suspeita ou questiona a integridade de tantas pessoas sem fornecer uma única prova sólida?

 

Ninguém pode duvidar de que há padres homossexuais a trabalhar no Vaticano, tal como há, na mesma proporção, pessoas homossexuais em quase todas as organizações internacionais. Porém, relatar - como Martel o faz, baseado naquilo que outros lhe disseram ou naquilo que ele pensa ter observado ou deduzido durante a investigação - que cerca de 80 porcento do pessoal do Vaticano é gay e insinuar, como ele o faz, que muitos levam vidas duplas, levanta certamente questões de credibilidade e verificação.

 

Martel afirmou que um documento de 300 páginas que inclui fontes, notas e capítulos não publicados estaria disponível online no dia da publicação do livro.

 

Martel afirmou que um documento de 300 páginas que inclui fontes, notas e capítulos não publicados estaria disponível online no dia da publicação do livro.

 

A piada com o número de 80 porcento revela uma das fragilidades fundamentais deste livro de mais de 550 páginas. Será publicado em oito línguas (incluindo o português) em 20 países, a 21 de fevereiro, no exato dia em que o Papa Francisco abre a cimeira no Vaticano sobre a proteção de menores na igreja.

 

Questionado sobre o momento de lançamento do livro, Martel procurou desvalorizar o ganho financeiro de lançar o livro no mesmo dia em que a imprensa internacional se encontra focada no Vaticano. Em vez disso argumentou de que há uma ligação entre o livro e a cimeira, que deve ser procurada na cultura de segredo do Vaticano. Afirmou que, particularmente desde o tempo do Papa Paulo VI, a cultura de segredo do Vaticano escondeu a homossexualidade dos cardeais e dos bispos, mas levou igualmente a que muitos deles protegessem os abusadores de menores porque não queriam que as suas próprias histórias fossem reveladas.

 

Martel apresentou a edição italiana do livro, chamada Sodoma, onde afirmou que durante a pesquisa que fez para o livro, realizou cerca de 1500 entrevistas ao longo de quatro anos com uma variedade de pessoas ligadas ao Vaticano, em 30 países, incluindo os Estados Unidos, Argentina, México, Peru, (Portugal) e a cidade do Vaticano. Revelou que essas entrevistas incluíram 42 cardeais, 52 bispos ou prelados, 27 padres gay, cerca de 45 diplomatas da Santa Sé e embaixadores estrangeiros e 11 Guardas Suíços, bem como prostitutos e antigos funcionários do Vaticano que já não trabalham no ministério e vivem vidas abertamente gay. Ele gravou as entrevistas e foi assessorado por cerca de 80 investigadores, tradutores, jornalistas locais ou «facilitadores» e - talvez o mais significante, dado que se frequentemente se move numa linha fina que arrisca descambar na difamação - cerca de 15 advogados, em diferentes países.

 

Martel disse à imprensa que «somente uma pessoa gay» podia ter escrito este livro, pois somente ele podia «compreender os códigos e o sistema» da vida gay em Roma. Um heterossexual «não podia». Martel nega a existência de um «lobby gay» no vaticano, mas afirma que há uma «ampla maioria silenciosa de homossexuais» que aí vivem em isolamento como «mónadas». Defendeu ainda que que há «uma mentira» no coração do sistema do Vaticano, onde a esmagadora maioria dos padres são homossexuais e afirmou que «ao impor o celibato e a castidade [aos sacerdotes], a igreja tornou-se sociologicamente homo-sexualizada.» Martel também afirma que a sua investigação «revelou» uma subcultura gay no Vaticano e nos episcopados espalhados pelo mundo.

 

O livro de Martel levanta muitas questões, mas produz igualmente uma nuvem tóxica de suspeita sobre muitos cardeais, bispos e padres que será difícil dissipar ou neutralizar. Martel disse aos jornalistas que não pretende atingir pessoas, mas que somente pretende atingir um sistema fraudulento, mas sempre acaba por admitir que «expõe» o falecido cardeal colombiano Lopez Trujillo, citando provas de que ele era um homossexual praticante, bem como o núncio em Paris, arcebispo Luigi Ventura e alguns outros.

 

O autor afirma que o verdadeiro «vilão» no seu livro é o reitor do Colégio dos Cardeais, Angelo Sodano, que serviu como núncio no Chile ao longo de 10 anos, durante a ditadura de Pinochet e mais tarde como secretário de estado de João Paulo II. Ele acusa que o cardeal «sabia tudo acerca dos casos de abuso» no Chile, referentes a Fernando Karadima; no México, referentes a Marcial Maciel; no Perú, acerca de Sodalicio e nos Estados Unidos, acerca do antigo cardeal Theodore McCarrick. Argumenta que o cardeal Sodano «deveria ser investigado pelas autoridades judiciais do Vaticano.»

 

Martel afirma que o Papa João Paulo II era homofóbico e estava rodeado por homossexuais no armário e que emitiam muitas declarações antigay.

 

Martel também aponta em direção ao cardeal polaco Stanislaw Dziwisz, secretário particular do Papa João Paulo II, que, afirma ele, estava profundamente envolvido nestes casos. Alega que o Papa João Paulo II era homofóbico e estava rodeado por homossexuais no armário e que emitiam muitas declarações antigay. Descreve o Papa Bento XVI como um «homofilo reprimido». Contudo, defende o Papa Francisco, quem perceciona rodeado de «borboletas» e preso numa ratoeira, atacado pelas forças da ala conservadora que procuram ligar a homossexualidade à pedofilia. Martel nega veementemente esta ligação, realçando o facto de que muitas raparigas foram igualmente abusadas.

 

O Papa Francisco foi recentemente acusado de encobrir os abusos de McCarrick. Contudo, Martel acusa que, tal como o cardeal Sodano, o cardeal Tarcisio Bertone, o secretário de estado de Bento XVI, sabia igualmente dos abusos de McCarrick. Realçou que o Papa João Paulo II promoveu McCarrick e deu-lhe o chapéu vermelho. Acusou que, para além do Papa Bento XVI, o Papa João Paulo II sabia do comportamento abusivo de McCarrick, tal como o sabia o arcebispo Carlo Maria Viganò, que tem «uma psicologia homofila e pertence à corrente pró-gay que nega.»

 

Neste livro, Martel, que afirma ter sido católico até aos 12 anos e que desde essa idade se sente atraído pelo catolicismo liberal em França, põe em casa a integridade não somente de muitas pessoas, incluindo cardeais, bispos, outros prelados e papas, mas igualmente da igreja.

 

Se gostarmos de bisbilhotice, anedotas, histórias sarcásticas e insinuações sobre pessoas colocadas em altos cargos na igreja, então iremos gostar deste livro. Porém, se gostamos de provas claras, documentação, separação dos factos das suposições ou quaisquer outras formas de provas para apoiarem as alegações ou afirmações feitas no livro, então ficaremos desapontados.

 

Fonte: America - The Jesuit Review

Arcebispo de Melbourne convoca fiéis LGBTI enquanto a igreja tenta se redefinir

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O arcebispo de Melbourne (Austrália), Peter Comensoli, pediu à comunidade LGBT para ajudar a igreja a definir um novo rumo após anos de escândalos e de agitação interna.

 

Numa movimentação sem precedentes que dividiu alguns no interior da igreja, a arquidiocese convidou católicas e católicos gay para uma reunião que durou duas horas e meia e onde se discutiu a forma como a instituição deveria mudar com os tempos.

 

O encontro realizou-se no âmbito de consultas para aquela que será, no próximo ano, a conferência mais importante dos bispos católicos australianos realizada nos últimos 80 anos: o Conselho Plenário 2020.

 

Porém, fontes no interior da igreja admitem que a decisão de procurar conselho junto da comunidade LGBT «causou desconforto» junto de alguns membros da linha dura que temem que a conferência possa resultar numa mudança radical, numa época em que assuntos como a ordenação das mulheres e abrandamento das regras do celibato obrigatório são já vivamente contestadas.

 

Outros viram o convite como um passo positivo, esperançosos que ele poderia marcar o início de um relacionamento mais inclusivo entre a arquidiocese e as católicas e os católicos LGBT, após acrimónia de longa data sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a discriminação religiosa nas escolas.

 

«Não se trata de abrir a porta às pessoas LGBT de fé, porque já lá estamos,» afirmou o Comissário governamental para o Género e a Sexualidade do governo do primeiro-ministro australiano Daniel Andrews, Ro Allen, que participou na reunião. «Trata-se de nos incluir e nos abraçar como iguais.»

 

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O Comissário para o Género e a Sexualidade do governo australiano, Ro Allen, esteve entre os 80 participantes da sessão plenária da arquidiocese de Melbourne, na Austrália.

 

Cerca de 80 pessoas - incluindo alguns dos mais destacados defensores do debate sobre a igualdade no casamento - participaram no encontro de 6 de fevereiro passado, que foi organizado pelo bispo auxiliar de Melbourne, Mark Edwards, e centrado na questão: o que é que pensa que Deus nos está a pedir na Austrália, neste momento?

 

O jornal Age, na sua edição de domingo passado, referiu que os participantes deixaram bem claro que queriam sentir-se mais acolhidos pela igreja, embora alguns estivessem mais céticos do que outros em relação à capacidade da instituição para mudar.

 

Uma professora sublinhou como era fazer parte de uma escola católica onde podia ser despedida devido à sua sexualidade.

 

Um pai contou o caminho de aceitação pelo qual passou depois de saber que o filho era gay.

 

Outro homem falou sobre o irmão que queria ir a um seminário, onde lhe era perguntado, como parte do formulário de candidatura, se era «efeminado».

 

Questionado sobre o encontro, Shane Healy, o diretor de comunicações da arquidiocese, afirmou: «Foi uma oportunidade para as pessoas LGBT partilharem as suas esperanças e medos, as suas mágoas e alegrias na vida da igreja da Austrália. Penso que foi uma experiência deveras positiva para todas e todos os que estiveram presentes.»

 

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As pessoas LGBT disseram que queriam sentir-se acolhidas.

 

O Conselho Plenário do próximo ano, o primeiro a decorrer na Austrália desde 1937, é encarado dentro dos círculos católicos como um acontecimento altamente significativo para colocar a igreja num novo caminho.

 

Surge igualmente numa conjuntura crítica: no rescaldo da Comissão Real para as Respostas Institucionais ao Abuso de Crianças e à medida que o papel e a importância da igreja continuam a mudar profundamente.

 

«A igreja já não tem a presença que outrora teve na nossa sociedade», afirmou o arcebispo de Brisbane, Mark Coleridge, presidente da Conferência Episcopal da Austrália, após o plenário ter sido anunciado. «Precisamos tomar isso em devida consideração e decidir de acordo.»

 

Até agora, mais de 40000 pessoas e grupos apresentaram sugestões, enquanto que as sessões de «escuta e diálogo» se realizaram por todo o país, na preparação para o evento.

 

Fonte: The Age.

Os desafios e os dons de um sacerdote homossexual

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A publicação no próximo dia 21 de fevereiro do livro «No Armário do Vaticano», da autoria de Frédéric Martel que, segundo é anunciado, irá constatar o óbvio: o elevado número de sacerdotes de orientação homossexual e, certamente, dar origem a inúmeros debates sobre o estado do sacerdócio. Até agora, há aquelas e aqueles que defendem a aceitação e a misericórdia pelos sacerdotes que são homossexuais, argumentando que estes padres sempre têm tido, e continuaram a ter, muito que dar à igreja. Do outro lado, encontram-se aquelas e aqueles que sentem que, uma vez que a homossexualidade é definida pelo ensinamento da igreja como sendo uma forte tendência orientada para um mal moral intrínseco (Atendimento Pastoral das Pessoas Homossexuais, 1986), a presença de padres homossexuais é, no melhor dos casos, um embaraço e, no pior, uma tendência que precisa ser revertida.

 

Torna-se, pois, necessário efetuar uma revisão clara e desapaixonada dos maiores problemas levantados pelo fenómeno dos padres homossexuais no seio da igreja católica. Aquilo que se segue é um sumário dos maiores desafios enfrentados pelos padres homossexuais (e igualmente enfrentados pela igreja em função do seu ministério), bem como dos dons que os padres homossexuais podem trazer à igreja. Esta breve visão geral é o produto de uma revisão da literatura disponível sobre o assunto, bem como de entrevistas com sacerdotes hetero e homossexuais (tanto diocesanos como religiosos).

 

 

Duas notas introdutórias

 

Primeira, uma nota sobre a terminologia: especificamente os termos homossexual e gay. (Considerando que mesmo a terminologia mais básica provou ser base de discórdia dada a sensibilidade do tópico.) Ainda que gay seja obviamente de uso mais contemporâneo, também carrega um grande número de conotações que em nada ajudam para as finalidades deste artigo (p. e. estilo de vida gay, ativismo gay, ...). Em consequência, o termo homossexual, ainda que excessivamente clínico, pode ser mais eficaz quando nos referimos especificamente à orientação sexual de uma pessoa.

 

Segunda, uma nota relacionada ou, melhor, uma suposição - sobre o celibato. Em muitos livros, artigos e discussões sobre a homossexualidade do clero, assume-se que ser-se homossexual significa ipso facto ser-se sexualmente ativo. Porém a palavra homossexual é, mais uma vez, utilizada como a descrição da orientação sexual, enquanto condição, não enquanto indicação de a pessoa ser sexualmente ativa. A menos que seja provado e outra forma, não há nenhuma razão para acreditar que os padres homossexuais são menos propensos a manter os seus votos de celibato do que os heterossexuais. Este artigo partirá do pressuposto de que os padres homossexuais levam os seus votos de celibato tão seriamente como os seus pares heterossexuais.

 

 

Os Desafios do Sacerdote Homossexual

 

Há, conforme o Pe. Cozzens realçou no seu livro, The Changing Face of the Priesthood (A Mudança da Face do Sacerdócio), um elevado número de padres homossexuais e seminaristas nos Estados Unidos. O quão elevado é difícil de determinar. (As estimativas do seu livro vão dos 23 aos 58 porcento, com percentagens ainda mais elevadas entre os padres mais jovens.) O facto de um elevado número de padres partilharem uma característica semelhante significa que a igreja necessita levar em consideração quer os desafios quer os dons oferecidos por este grupo. Não fazer isso seria ignorar um desenvolvimento que podia ter um impacto significativo na vida da igreja católica. Quais são, portanto, alguns dos problemas enfrentados pelos sacerdotes homossexuais? E que desafios são enfrentados pela igreja em resultado da sua presença?

 

Identidade e integridade. O ensinamento atual da igreja sobre a homossexualidade é claro. Os atos homossexuais são intrinsecamente desordenados (Catecismo da Igreja Católica n.º 2357) e mesmo a orientação homossexual é objetivamente desordenada (CIC n.º 2358). Deste modo, ainda que os homossexuais possam sentir no coração o apelo à aceitação, é-lhes mesmo assim difícil confiar somente nos documentos do Vaticano e na linguagem da teologia moral da igreja como forma de aceitarem a sua sexualidade enquanto parte integrante de qualquer pessoa humana, como um aspeto positivo da sua personalidade.

 

Para o padre homossexual, um homem chamado a comunicar o amor de Deus pelo próximo, isto pode revelar-se deveras problemático. Viver a aceitação por parte de Deus por si próprio é um passo importante na vida espiritual de todo o cristão. Seguem-se dois desafios. Primeiro, a dificuldade para um padre esforçando-se para transmitir aceitação e amor por parte da igreja quando uma parte da sua personalidade é rotulada pela igreja como objetivamente desordenada. Segundo, a dificuldade em realizar o trabalho da igreja, particularmente o seu ministério sacramental, sabendo que a igreja o considera orientado para um mal moral intrínseco.

 

Há igualmente a incapacidade inerente de partir da própria experiência pessoal nas homilias, no aconselhamento ou em qualquer outro tipo de trabalho pastoral, como os padres heterossexuais podem facilmente fazer. Muitos padres heterossexuais, por exemplo, falam frequente e comovente sobre o terem deixado uma vida com uma mulher e filhos. Do mesmo modo, muitos padres que estão a trabalhar na recuperação de alcoólicos falam sobre o processo de recuperação libertador como um profundo dom espiritual. Portanto, o primeiro desafio é equilibrar o ensinamento da igreja com a aceitação do eu perfeitamente uno como criado e amado por Deus.

 

Insularidade. Para muitos homossexuais, chegar a aceitar a sua sexualidade é um passo gigantesco na compreensão de si próprios enquanto pessoas amadas por Deus. Um padre entrevistado referiu que ter-se encontrado no que refere à sua sexualidade foi o momento mais importante da sua jornada espiritual enquanto cristão. Para muitos homens homossexuais parte deste processo de aceitação inclui gostar da companhia de outros homossexuais. Porém, para os padres isto pode revelar-se problemático. Como o Pe. Cozzens realçou no seu livro, pode ter como significado que os padres homossexuais escolhem passar o tempo somente com outros padres homossexuais. Para além disso, pode significar que, devido ao facto de se sentirem bem junto de outros homossexuais, um padre homossexual pode escolher passar a maior parte do seu tempo de ministério, por exemplo, com católicas lésbicas e católicos gays. O perigo reside no desenvolvimento de uma preferência somente por apostolados direcionados para gays e lésbicas, em vez do desenvolvimento de um ministério sacerdotal aberto a todos os tipos de pessoas a partir de uma ampla variedade de passados.

 

Outro perigo é que, nalguns locais, grupos de padres homossexuais possam desenvolver uma rede de amizades mais próximas entre si que, consciente ou inconscientemente, excluam os padres heterossexuais. Certamente que desenvolver uma forte identidade comunitária é normal para qualquer grupo com afinidades, particularmente um no qual os seus membros enfrentaram a perseguição e a rejeição da sociedade. Contudo, levado ao extremo, uma insularidade pode fazer com que os padres heterossexuais se sintam marginalizados nas suas próprias reitorias e comunidades religiosas. Um padre heterossexual entrevistado queixava-se acerca da atmosfera de uma comunidade religiosa na qual vivia, onde se sentia posto de lado pelo resto da comunidade. Quando exprimiu os seus sentimentos ao resto da comunidade, foi acusado de intolerância e homofobia. Acabou por se decidir a mudar para outra residência. Tal insularidade pode igualmente desencorajar as vocações heterossexuais de se sentirem bem-vindas na reitorias, seminários e comunidades religiosas.

 

Abordando a subcultura gay. Aqui enfrentamos um tópico difícil. Por um lado, foge-se dos estereótipos (p. e.: todos os homens homossexuais são...). Por outro lado, muitos homens gay afirmam que a comunidade gay tem uma ampla variedade de características distintas. Estas características ajudam a defini-la como uma subcultura distinta dentro da cultura social mais vasta, na qual os homens gay sentem orgulho. (Livros, revistas e entrevistas a padres homossexuais apontam igualmente traços similares.) Alguns dos aspetos desta subcultura gay podem ser saudáveis para o padre homossexual, como por exemplo o aceitar-se como um membro valioso da sociedade, ou o realçar da sensibilidade e da comunidade. Outros são menos assim. Por exemplo, Michelangelo Signorile, um autor gay, escreveu sobre o que o ele classifica como aspetismo, a tendência que alguns homens gay têm de julgar os outros somente tendo como base a sua aparência física. Obviamente que isto não ajuda em nada um ministro da igreja.

 

Uma analogia pode ser útil. Se uma pessoa é um padre nascido e criado na América, essa pessoa pode sentir orgulho nalguns valores tipicamente americanos (autoconfiança, otimismo, uma visão democrática do mundo) sem ter de subscrever os valores menos saudáveis (materialismo, individualismo). Resumindo, como é que um padre homossexual resiste à importação por atacado daqueles valores da subcultura gay que podem ser prejudiciais na vida sacerdotal? Dito de uma forma mais positiva, que valores e características da subcultura gay são saudáveis para um padre e quais é que não são?

 

Enfrentar a homofobia. Apesar dos avanços feitos em termos daquilo que o catecismo pede, ou seja, a aceitação de gays e lésbicas com respeito, compaixão e sensibilidade, a cultura americana é amplamente hostil para com os homossexuais. Pode ainda ser difícil para os homossexuais aceitarem a sua sexualidade como um dom, devido à existência de preconceitos culturais em relação à sua orientação. A violência é recorrente; e espancamento e assassinato do jovem Matthew Shepard, no Wyoming (EUA) é um caso que merece referência.

 

Portanto, qualquer padre que seja honesto para com os paroquianos ou os seus superiores diocesanos ou religiosos acerca da sua sexualidade enfrenta a forte possibilidade de reações negativas. Embora possa ser saudado com respeito, compaixão e delicadeza, pode igualmente ser acolhido com ódio e rejeição, particularmente por parte daquelas e daqueles que erradamente assumem que todos os padres homossexuais são sexualmente ativos ou, pior ainda, aquelas e aqueles que erradamente associam a homossexualidade à pedofilia. Os superiores podem ficar preocupados com o escândalo. (A dificuldade de um padre homossexual responder de forma pública a situações de homofobia é igualmente óbvia.) Para além disto, a igreja institucional, através de uma grande variedade de meios, reforça a regra não escrita de que um padre homossexual nunca deve falar publicamente sobre a sua orientação. Todos estes fatores estão na origem do véu de silêncio que encobre o tema do padre homossexual.

 

 

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Os Dons do Padre Homossexual

 

A teologia tradicional católica conforme sumarizado no catecismo (n.º 1578) afirma que os homens são chamados ao sacerdócio por Deus. Portanto, apesar das afirmações de que os padres homossexuais são quer um escândalo quer um embaraço, a crença católica é a de que todos os homens chamados às ordens religiosas respondem a um chamamento divino. (Como um aparte, é provavelmente sem qualquer surpresa de que numa igreja que impõe o celibato aos homossexuais, alguns homens gay escolham a vida celibatária de um padre.) Alguns argumentaram de que a ordenação de homossexuais é representa de alguma forma um erro da igreja. Porém, os padres homossexuais, tal como os heterossexuais, são ordenados através da autoridade divina da igreja, que tem essa responsabilidade e caráter espiritual (n.º 1578) e, de acordo com a teologia tradicional católica, que imprime no padre um caráter espiritual indelével (n.º 1582).

 

Portanto, podemos afirmar que Deus chamou, e continua a chamar, os homossexuais a servirem como padres na igreja e que a igreja confirma esta chamada através da ordenação. A questão não é se Deus chama os homens homossexuais ao sacerdócio, mas porquê. Teologicamente, como é que podemos entender estes sinais dos tempos?

 

A escola do sofrimento. A vasta maioria dos homossexuais nos Estados Unidos estão familizarizados com o sofrimento que vem do facto de serem uma minoria incompreendida e frequentemente perseguida. Isto começa no início da adolescência e pode continuar para o resto da vida. Os homossexuais são frequentemente alvo de preconceito, ridicularizados, rejeitados pelas próprias famílias e, algumas vezes, violência. Portanto, aqui temos homens que compreendem o sofrimento, o estigma e a frustração sobre os mesmos tipos de experiências que a teologia cristã ensina poderem colocar a pessoa mais perto da companhia do Cristo que sofre. Para usar as palavras escutadas durante a Quaresma, o homossexual é frequentemente desprezado e rejeitado pelo próximo, um homem do sofrimento... um de quem os outros escondem as suas faces (Is 53, 3).

 

Ser educado nesta experiência única de sofrimento pode resultar num profundo sentimento de misericórdia e dientificação com os mais marginalizados na sociedade: os doentes, os que estão sós, os refugiados, os materialmente pobres, os proscritos, o mais pequeno dos meus irmãos e irmãs (Mt 25). Um padre homossexual entrevistado, que trabalhava com imigrantes na sua paróquia, disse que a sua experiência pessoal ajudou-o a melhor compreender a experiência dos imigrantes de serem tratados como proscritos no seu novo país. Ele sentiu que o seu passado tinha ampliado a sua compaixão e o tinha ajudado a ministrar a um grupo de pessoas com as quais, pelo menos inicialmente, tinha pouco em comum. Do mesmo modo, as experiências de marginalização significam que o padre homossexual podia ser naturalmente sensível aos outros que se sentem marginalizados na igreja, tal como é o caso dos católicos divorciados e recasados, para referir apenas um exemplo. Poderia Deus estar a chamar os homossexuais para servirem como ministros ordenados precisamente por esta razão? Não poderiam eles exemplificar de forma poderosa a imagem de servo sofredor de Cristo?

 

Vida espiritual. Para o homossexual, o caminho para viver o amor e a aceitação pelos outros, para encontrar a autoaceitação e para descobrir o amor de Deus por toda a pessoa pode ser algo de árduo. Devido ao isolamento que muito homossexuais sentem, particularmente no início da adolescência, estes são levados a desenvolver vidas interiores profundas. A solidão e anomia de se crescer homossexual (particularmente no passado) força muitos homossexuais a se voltarem para dentro de si mesmos, para um nível de autocompreensão e consciência que é o fundamento de uma espiritualidade saudável. Será possível que numa era de aumento do interesse na espiritualidade Deus chama estes homens, particularmente, para conduzirem as pessoas para mais perto de Deus, em oração? Para além disso, será que a sua experiência de autoaceitação, conquistada a ferros, os ajuda a melhor aconselharem aquelas e aqueles que procuram viver o amor e a aceitação de Deus na sua vida?

 

Criatividade. Será um esterotipo afirmar que muitos homens homossexuais se inclinam mais para a criatividaded? Sim, embora não seja provavelmente um esterotipo pejorativo ou negativo. Enquanto os homossexuais trabalham agora em todos os tipos de profissões, devido a uma variedade de razões muitos têm historicamente gravitado em torno de profissões que realçam a criatividade, tal como acontece nas belas-artes e no teatro. Como John Boswell sublinhou no seu livro Cristianismo, Tolerância Social e Homossexualidade (1980), a igreja católica tem durante séculos dado aos padres homossexuais a oportunidade de usarem os seus dons únicos ao serviço da igreja. Nesta era pós-Vaticano II de interesse na liturgia, na arte de pregar, no lugar da arte, da dança e da música na igreja e naquilo que Andrew Greeley chamou de apologética da beleza, será que Deus pode estar a chamar os padres homossexuais, de uma modo especial, para contribuirem com os seus próprios dons nestas áreas?

 

 

Honestidade e Caridade

 

Olhando para a alta incidência de padres homossexuais nos Estados Unidos, o Pe. Cozzens afirma sucintamente: «Claramente que é uma questão.» Obviamente, não é uma situação que possa ser negada ou ignorada. E aquilo que é pedido não é as polémicas a quente e algumas vezes desinformadas que caracterizaram a discussão, mas antes uma conversa que admite quer os desafios ocasionados pelos dons quer os dons oferecidos pelos padres homossexuais, homens que procuram servir Deus e a igreja com todo o seu ser. Somente a honestidade e a caridade ajudarão os católicos a melhor apreciarem a situação atual e permitir à igreja discernir os sussuros do Espírito Santo.

 

Fonte: America - The Jesuit Review

Bispo alemão afirma que o ensinamento católico sobre a homossexualidade precisa ser repensado

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Excluir determinados grupos é uma expressão de preconceito e conduz a uma discriminação em relação a esses grupos, afirma o bispo alemão Franz-Josef Overbeck

 

Um bispo católico na Alemanha que em tempos teve uma postura dura contra os homossexuais "praticantes" pediu agora para uma reapreciação minuciosa do ensinamento da igreja sobre a sexualidade, afirmando que este causou especialmente um «sofrimento» e uma «repressão psicologicamente pouco saudável» entre as pessoas gays.

 

«A questão é se conteúdos específicos da teologia católica sobre o corpo levaram a um tabu desastroso no que concerne ao fenómeno da sexualidade humana,» afirmou o bispo Bishop Franz-Josef Overbeck de Essen.

 

«Isto aplica-se particularmente à homossexualidade porque - de acordo com esta premissa - uma visão tão negativa por parte da igreja (tal como a que se encontra expressa no ensinamento da Igreja) promoveu e encorajou uma repressão psicológica e institucional pouco saudável, ou mesmo a negação desta manifestação da sexualidade,» disse ainda o bispo de 54 anos.

 

O bispo Overbeck, que é igualmente o responsável da Arquidiocese Militar Alemã e vice-presidente da COMECE (Comissão dos Bispos Delegados das Conferências Episcopais da União Europeia) expõe cuidadosamente os seus pontos de vista no número de fevereiro de 2019 do prestigiado semanário teológico alemão Herder Korrespondenz.

 

«Uma coisa é certa: Todo o ser humano pode de forma respeitosa e com amor entrar em relacionamentos interpessoais. Excluir determinados grupos é, pois, uma expressão de preconceito, difícil de suportar para aqueles e aquelas que são excluídos e, em última análise, leva a uma discriminação contra esses grupos ou mesmo à sua criminalização,» escreveu o bispo, num ensaio intitulado «Ultrapassar preconceitos: a igreja católica deve mudar a sua visão sobre a homossexualidade.»

 

 

Uma mudança de perspetiva sobre a homossexualidade

 

Overbeck, que foi ordenado no sacerdócio em 1989 em Roma pelo então cardeal Joseph Ratzinger e tornado bispo por Bento XVI em 2007, nem sempre questionou o ensinamento da igreja sobre a homossexualidade. Em 2010 ele era defensor inflexível de que a «homossexualidade vivida» era um pecado mortal.

 

Neste ensaio ele próprio reconhece a sua mudança de pensamento.

 

«Nos últimos anos, as muitas conversas que tive com pessoas gays tocaram-me profundamente, alimentaram o meu pensamento e alargaram a minha perspetiva sobre o tema da homossexualidade,» afirmou.

 

«É chegada a hora para a igreja realizar o debate sobre a sua perceção e avaliação da homossexualidade de tal forma a que as feridas ainda mal cicatrizadas de feridas passadas não sejam novamente abertas,» disse.

 

«Quando discutimos a homossexualidade, devemos, de qualquer forma, sempre ter presente as palavras confiantes da constituição pastoral sobre a igreja no mundo atual, Gaudium et Spes (GS 36),» acrescentou o bispo.

 

No documento do Vaticano II pode ler-se: «quem se esforça com humildade e constância por perscrutar os segredos da natureza, é, mesmo quando disso não tem consciência, como que conduzido pela mão de Deus, o qual sustenta as coisas e as faz ser o que são.»

 

O bispo Overbeck escreveu que não há, neste momento, quase nenhum outro assunto tão capaz de provocar tanta agitação na igreja católica como a questão da homossexualidade. Torna-se, portanto, crucial e urgente que a igreja lide com este assunto de uma forma mais profunda, afirmou.

 

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A homossexualidade não pode ser associada ao escândalo sexual

 

O bispo Overbeck rejeitou igualmente as alegações de que a presença de homossexuais no sacerdócio era a causa do escândalo de abuso sexual no seio da igreja.

 

«Nem a orientação heterosexual nem a homossexual podem ser vistas como causa para o abuso sexual. E, conforme os peritos nos asseguram, não existe igualmente qualquer relação entre pedofilia e homossexualidade,» disse o bispo.

 

Acrescentou ser «francamente absurdo» pensar que o abuso sexual do clero se resolveria ao permitir somente a admissão de homens heterossexuais nos seminários.

 

«Não foi precisamente o persistir dessa visão e o fortalecimento dessa atitude que conduziu a repressões problemáticas no interior da igreja - e, além disso, alimentou a ilusão perigosa de que uma receita mágica tinha sido encontrada para a solução de um problema tão complexo como é o abuso sexual?» questionou.

 

 

A credibilidade do ensinamento da igreja à luz da experiência humana

 

O bispo Overbeck, que é um sobrevivente de um câncro, disse que a igreja não pode evitar discutir as experiências das pessoas com a sexualidade e as ciências humanas que se preocupam com ela. Avisou de que evitar essas experiências marginalizaria o ensinamento moral da igreja. Em vez disso, o diálogo sobre os conhecimentos exegéticos e teológico-morais que surgiram nas útimas décas devem ser abertos de modo a permitirem o progresso.

 

«Esta é a única forma da tradição permanecer um processo vivo, tal como tem sido desde os começos do Cristianismo,» disse.

 

O bispo pediu ainda um reexame das perceções condicionadas pelo tempo e pela era contidas na Bíblia e referentes à moralidade sexual e à homossexualidade.

 

«É aqui que entra a 'arte do discernimento' através da qual podemos descobrir aquilo que da complexidade das tradições bíblica e da igreja pode ser exercido hoje e em que medida o deve ser.»

 

 

Homens homossexuais bem-vindos aos seminários

 

Entretanto, a arquidiocese de Paderborn deixou bem claro que homens com uma orientação homossexual não estão excluídos do sacerdócio católico.

 

«Os candidatos homossexuais ao sacerdócio serão aceites desde que se comprometam a viver pela regra do celibato,» disse o Pe. Michael Menke-Peitzmeyer, reitor do seminário arquidiocesano.

 

«Temos de distinguir entre a orientação homossexual de uma pessoa e a prática homossexual.», afirmou o sacerdote de 54 anos ao cana da televisão alemã WDR, a 28 de janeiro.

 

O Pe. Menke-Peitzmeyer, que é o reitor do seminário de Paderborn desde 2013, disse que a orientação sexual e as práticas pessoais são discutidas abertamente com os futuros seminaristas.

 

 

'Tendências homossexuais profundamente enraízadas'

 

Contudo, o reitor da Conferência dos Reitores Alemães sugeriram que o Vaticano turvou as águas com a sua instrução de 2005 sobre a admissão de candidatos gay ao sacerdócio.

 

A exigência da Congregação para a Educação Católica de que «homens com tendências homossexuais profundamente enraízadas» deviam ser excluídos do sacerdócio católico «necessita de uma explicação», afirmou o Pe. Hartmut Niehues, que é igualmente reitor do seminário diocesano em Münster.

 

Numa entrevista á rádio domradio.de a 30 de janeiro, o sacerdote afirmou que as discussões acerca da orientação sexual e da sexualidade em geral «não eram um tema taboo», mas antes uma parte formal da formação para o sacerdócio em toda a Alemanha.

 

O reitor de 47 anos disse que a questão decisiva para os candidatos, independentemente da sua orientação sexual, era se podiam ou não levar vidas de celibato.

 

Fonte:  La Croix International

A nossa presença na Jornada Mundial da Juventude disse às e aos católic@s LGBT que não estão sozinh@s

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Foto: Breanna Mekuly

 

Toda a minha vida a única coisa que sempre quis fazer foi trabalhar para a igreja. E durante oito anos foi o que fiz. Ao trabalhar na pastoral juvenil acabei por ser diretora da educação religiosa de uma paróquia com um baixo rendimento em Indianápolis (EUA) que servia uma comunidade de emigrantes latinos. Pensava que iria fazer isto para o resto da minha vida.

 

Entretanto conheci a mulher que é atualmente a minha esposa. Não planeei conhece-la. Não me esforcei por conhece-la. Quando nos conhecemos, eu tinha uma regra de nada de encontros. Apaixonei-me por ela apesar dos meus esforços para não o fazer. Por causa dela, sou uma pessoa melhor e há muito mais alegria na minha vida do que antes de nos termos conhecido. Encorajamo-nos mutuamente e sacrificamo-nos profundamente uma pela outra. A minha esposa faz-me estar mais perto do céu e espero estar a fazer o mesmo por ela.

 

Contudo, a partir do momento em que me apercebi que a amava sabia que tinha de escolher entre ela e o meu trabalho vocacional na igreja. Nos últimos anos, dezenas de trabalhadores em instituições católicas foram despedidos por serem abertamente pessoas LGBT ou por iniciarem um casamento entre pessoas do mesmo sexo.

 

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Jovens do Panamá oferecem uma cruz arco-íris ao Papa Francisco durante a JMJ 2019.

 

Em dezembro de 2015 despedi-me do emprego porque sabia que seria impossível para a minha esposa e eu termos a vida que queríamos e para, no meu caso, poder continuar a trabalhar como diretora da educação religiosa e da pastoral juvenil. Aceitei um trabalho como assistente social, recrutando e autorizando famílias adotivas para uma agência nacional sem fins lucrativos.

 

Recentemente, de 22 a 27 de janeiro, estive na Jornada Mundial da Juventude no Panamá enquanto testemunha da igualdade LGBT porque essa é uma escolha que eu nunca deveria ter tido que fazer.

 

Estive presente na Jornada Mundial da Juventude enquanto membro do grupo de seis peregrinos da Equally Blessed. Somos católicos comprometidos com a igualdade completa para as pessoas LGBT. Viemos para falar, para escutar, para sermos vistos e para sermos ouvidos. Os pins que oferecemos diziam: «Também é a nossa igreja.»

 

No nosso primeiro dia, estava ansiosa sobre a forma como iríamos ser recebidos. Envergávamos faixas arco-íris, carregávamos uma bandeira enorme e enchemos as mochilas com pins para darmos a quem encontrássemos. Quase de imediato o meu medo desapareceu. Fomos acolhidos calorosa e entusiasticamente e saudados praticamente em todos os lugares onde estivemos. Na nossa primeira paragem (o almoço antes da Missa de abertura), fomos abordados por dezenas de peregrinos de todo o mundo em procura dos pins, fotografias e conversa.

 

Nessa mesma tarde conhecemos uma jovem que estava na JMJ com o seu grupo FOCUS (grupo de estudantes universitários católicos nos EUA). Quando ela viu o nosso grupo começou a chorar. Disse-nos que tinha estado a escutar um sacerdote durante toda a manhã e que ele tinha feito alguns comentários homofóbicos: «Vocês não sabem como estou contente em vos ver», disse ela. «Esta foi uma manhã verdadeiramente má». Ela tinha trazido uma pequena bandeira arco-íris que tirou da mochila antes de tirar uma fotografia connosco.

 

Numa outra manhã conheci o responsável por um grupo do Togo, na África ocidental, que me agradeceu por ser uma testemunha visível. Abraçou-me apertadamente e sussurrou-me ao ouvido que também era gay. «Não estás sozinho», sussurrei-lhe ao ouvido e ofereci-lhe um dos nossos pins. Ele aceitou-o e colocou-o no interior da roupa, onde não podia ser visto.

 

Recebemos tantas mensagens no Instagram, vindas de pessoas que nos queriam conhecer e tivemos de dar um almoço para as conseguir conhecer a todas. Esperávamos que somente os peregrinos estivessem presentes, mas ficámos surpreendidos porque muitos panamenhos se juntaram a nós.

 

Uma das mulheres presentes tinha sido educada na igreja e abandonou-a quando saiu do armário. Disse-nos que chorou quando viu os nossos posts pela primeira vez. «A pergunta que verdadeiramente quero colocar é: como é que não estás sempre zangada?»

 

Escutei-a e falei-lhe abertamente sobre a hierarquia que me magoou, mas que houve uma fé e uma pessoa que me apoiaram.

 

Uma imagem de marca da JMJ é a catequese matinal, onde os bispos dissertam, em diversas línguas, pela cidade. Na quinta-feira de manhã fomos a um dos locais de língua inglesa. No final da dissertação do bispo houve um período de perguntas e respostas. Desloquei-me para a parte da frente da sala para me colocar na fila. O meu nervosismo aumentou com a espera. Com apenas duas pessoas à minha frente na fila, foi anunciado que aceitariam apenas mais uma questão final.

 

Quando regressava ao meu lugar, um jovem interpelou-me e perguntou-me o que é que eu ia dizer. Quando partilhei com ele a minha pergunta, ele respondeu-me: «Gostaria de ter ouvido a resposta».

 

A resposta dele renovou-me a confiança. Regressei à parte da frente da sala e pedi que me fosse dada a oportunidade para falar. O moderador disse-me que devido aos constrangimentos do tempo, ele poderia fazer a pergunta por mim.

 

«Não,» respondi-lhe enfaticamente, «penso ser importante para mim que eu faça esta pergunta. Irei fazê-la de forma sucinta. Posso ser breve, mas é importante que a faça eu mesma.»

 

Tremia enquanto falava. «Uma das coisas que mais amo na igreja católica é a ênfase na dignidade de todas as pessoas. Enquanto católica LGBT sinto que a minha dignidade e a dignidade da minha família e da minha comunidade não são respeitadas. Somos despedidos dos nossos empregos. São-nos negados os sacramentos e é-nos feito sentir que não somos bem-vindos à igreja. O que é que tem a dizer sobre isto?»

 

O bispo respondeu que não podia falar sobre a forma com alguém me tinha tratado, mas disse que somos todos filhos e filhas de Deus e a sua função é amar e ser fiel ao Jesus da Escritura. Ele foi simpático e não incluiu quaisquer proclamações de pecado, mas não respondeu completamente à minha questão.

 

Na verdade, não a coloquei na expectativa de que ele tivesse uma resposta que me pudesse satisfazer. Coloquei-lhe a questão para que a minha voz e a voz da minha comunidade pudessem ser escutadas. Coloquei-lhe a questão para que outros peregrinos LGBT pudessem saber que não estavam sozinhos.

 

A resposta do bispo e a resposta do católico comum ao longo da semana esclarecem aquilo que sempre soube: as pessoas encontram-se sempre anos-luz à frente da instituição.

 

Fonte: National Catholic Reporter.

 

Cardeal Schönborn: «Os casamentos gays testemunham que o matrimónio é um bem importante»

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O cardeal Christoph Schönborn sente-se comovido que «no momento em que o matrimónio está a perder o seu atrativo», haja casais do mesmo sexo que pretendem casar-se «e ter, deste modo, a forma mais elevada de relação». Assim se expressou o arcebispo de Viena, numa entrevista dada à revista alemã «Stern» na qual afirmou igualmente que os casamentos homossexuais «testemunham que o matrimónio é um bem importante».

 

O cardeal não somente elogiou os casais e casamentos entre pessoas do mesmo sexo, como revelou ainda que a igreja austríaca já aceitou que o Estado possa decidir que outras formas de relação merecem um reconhecimento legal.

 

«Para sermos honestos, já aceitámos desde há bastante tempo que o Estado permita outra forma de casamento», declarou o purpurado, tendo acrescentado que «se uma maioria parlamentar assim o entender, então o Estado deve fazê-lo». Contudo, o cardeal ressalvou o direito de a Igreja poder definir o casamento de outra forma, de acordo com as suas doutrinas e de «erguer a sua voz quando acreditarmos que este caminho para toda a sociedade não é correto».

 

O casamento gay não foi a única polémica que o cardeal Schönborn abordou com a «Stern». Também se referiu à discussão na Igreja universal sobre o celibato obrigatório do clero. Quando lhe foi perguntado se Jesus Cristo realmente fez assim tanto finca-pé no celibato, o purpurado respondeu: «Pergunto-lhe isso frequentemente».

 

«Não recebo nenhuma resposta clara» sobre a necessidade do celibato, respondeu honestamente Schönborn. «Contudo Jesus disse claramente: 'Não tenhas medo!' Nos seus discursos realçou que não devemos colocar as tradições acima da sua frase crucial: 'ama o teu próximo como a ti mesmo'». «Ainda que as tradições sejam mais importantes que a alegria do Evangelho, Ele diria que não temos um equilíbrio correto», explicou o cardeal.

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Outro assunto da atualidade eclesial que o arcebispo de Viena discutiu com a «Stern» foi a conferência antiabusos convocada pelo Papa Francisco para finais deste mês. O cardeal advertiu que «não se pode esperar milagres» desta reunião entre o pontífice e os bispos de todo o mundo, tendo acrescentado que o tão esperado fim da crise da pedofilia «será um processo dolorosamente longo» e que o importante por agora é «desenvolver uma consciência» acerca dos danos que os abusos produzem nas vítimas e juntos «encontrar um caminho» para as sarar.

 

Fonte: Periodista Digital