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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

Num testemunho comovente, católicas e católicos gays reiteram a sua fé na igreja

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Entre as celebrações em torno do mês do Orgulho, um painel de católicos LGBTQ+, realizado no passado dia 26 de junho, lembrou a uma plateia de cerca de 100 pessoas que o preconceito e a violência ainda confrontam as suas comunidades um pouco por todo o mundo. O painel, patrocinado pelo Departamento de Teologia da Universidade de Fordham e pela Igreja de São Francisco Xavier, prestou homenagem ao 50.º aniversário do levantamento de Stonewall através de lembretes resolutos de que a violência e o isolamento ainda ameaçam globalmente as católicas e os católicos LGBTQ+, mas frequentemente a sua fé permanece firme. Cada um dos elementos do painel da noite era proveniente de países onde os católicos são a maioria. Todas e todos disseram que desejavam escutar mais por parte dos responsáveis da igreja dos seus países que explicitamente condenasse tal preconceito.

 

Paroquianos da Igreja de São Francisco Xavier encheram o Centro de Conferências Corrigan

 

Dando Testemunhos por Outras e Outros

 

SSenfuka Joanita Warry, diretora executiva do Freedom and Roam Uganda, disse que se sentia obrigada a contar a história de SSenfuka Joanita Warryoutras e outros e não a sua, uma vez que ela tinha tido a oportunidade de viajar para o estrangeiro enquanto a maioria das suas compatriotas lésbicas tinham visto os seus vistos de saída negados.

 

«Enquanto olho para a multidão contarei o número de mulheres, porque isso é um tema na igreja católica: o facto de as mulheres estarem sempre no banco de trás», disse ela. «Se nos afastarmos dos assuntos as nossas vozes não serão escutadas, mas sempre que aparecemos as nossas vozes são ouvidas».

 

Ela contou a história da sua companheira, que foi forçada num casamento do qual nasceram três crianças. A sua companheira divorciou-se do marido e começou a namorar com a Warry. As duas estão juntas há sete anos. Embora a Warry ajude a criar as crianças, ela admitiu que é virtualmente impossível para ela estar presente nas atividades escolares ou mostrar-lhes afeto em público, por temer ser chantageada. Ela disse que, apesar das suas discrições, o ex-marido da companheira foi à escola das crianças e falou com os professores sobre a sua relação lésbica. Ela disse que isso não é uma tática rara, o usar as crianças dessa forma.

 

Jamie Manson, colunista do National Catholic Reporter, moderou o painél.

«No Uganda, uma pessoa não quer que os filhos saibam que se é gay», disse ela. «Não é que mantenhamos, de livre vontade, a nossa relação afastada deles. Mantemos a nossa relação longe deles para os proteger.»

 

A sua companheira é agora conselheira dessas crianças. Ela mencionou o caso de um filho de uma mulher lésbica que foi descoberta na escola católica da família. O rapazinho sofreu um esgotamento. Noutro caso, uma mulher foi espancada pelo marido depois deste ter descoberto que ela era lésbica. Ela disse que encontrou um refúgio no Freedom and Roam Uganda.

 

«Eu comecei esta associação para pessoas que nunca quiseram afastar-se da igreja, mas permanecer na igreja», disse ela. «Também acredito no facto de que somos criados à imagem de Deus».

 

 

Discernimento como Refúgio

 

O irmão Argel Tuason, OSB, é um monge oblato beneditino do Mosteiro Sem Muros. Ele falou sobre o seu crescimento nas Filipinas e o facto de antever um sentido de comunidade na igreja católica que sentiu não poder encontrar em qualquer outro lugar. Contudo, recordou igualmente um episódio doloroso de uma tentativa de conversão forçada através de um exorcismo, no qual foi pressionado a renunciar à sua sexualidade.

 

Irmão Argel Tuason

O irmão Tuason disse que acabou por encontrar consolo através de um «caminho contemplativo» e lendo a obra de John McNeill, SJ, um jesuíta que se destacou como paladino dos direitos dos gays e que ensinou em Fordham. O Pe. McNeill foi autor do livro, publicado em 1976, «A Igreja e o Homossexual», para o qual foi entrevistado por Tom Brokaw, entre outros eminentes protagonistas dos media americanos. Conjuntamente com o Pe. Mychal Judge (o capelão dos bombeiros de Nova Iorque, que se identificou como gay e morreu nos atentados às torres gémeas, em 11 de setembro), o Pe. McNeill criou um centro de ajuda à SIDA, em Harlem. De acordo com o seu obituário no The New York Times, ainda que o Vaticano tenha considerado o livro como teologicamente correto, o Pe. McNeill acabou brigando com o então cardeal Joseph Ratzinger (que viria a ser o Papa Bento XVI) e acabou por ser forçado a abandonar, em 1986, a Sociedade de Jesus.

 

Encolhendo as lágrimas, o irmão Tuason disse que o acontecimento daquela noite se realizava em «solo sagrado» uma vez que o Pe. McNeill tinha ali ensinado. Ele recorda-se de regressar repetidamente à mesma livraria para ler o seu livro na totalidade, quando se mudou para os Estados Unidos, em 2009, e o dinheiro não abundava. Acabou mesmo por se corresponder com o padre por e-mail.

 

«Estou verdadeiramente grato por ter tido o privilégio de comunicar com ele e agradecia por aquele livro», disse ele. «Sei que a sua presença está connosco e talvez esteja a sorrir e a celebrar com todas e todos nós.»

 

Craig A. Ford, Jr., professor de pós-doutoramento em Fordham, ajudou a organizar o painel.

 

Vivendo a Missão

 

Carlos Navarro, um analista político da Cidade do México, que vive agora em Puerto Vallarta, teve uma jornada comparativamente mais suave em relação aos seus colegas de painel. Ele mantém também uma fé inabalável de que as pessoas são a igreja, não a sua liderança. Citou grupos de jovens junto dos Missionários Espiritanos como sendo a sua fundação espiritual, onde o serviço se funde com a escritura.

 

Carlos Navarro

«Tive uma experiência maravilhosa com os grupos de jovens», disse ele. «Quando estava no colégio e via aqueles jovens fazer o que faziam e dizer o que diziam por isso era o que Jesus tinha feito e dito».

 

Agora, depois de mais de 20 anos numa relação, ele casou com o seu parceiro em 2016, quando as uniões entre pessoas do mesmo sexo «ainda estavam frescas na imprensa» devido à sua legalização pelo supremo tribunal do México. Continuou, contando aquilo que observou na sua juventude num grupo LGBT. Tal como os primeiros cristãos, reuniam-se na casa uns dos outros, disse ele. Liam a Escritura e formaram um coro. Um padre local acabou por os convidar para celebrarem a última missa de cada mês. Sem muito alarido o grupo acabou por se juntar à paróquia. Ele disse que não havia grandes dúvidas de que a maioria do coro masculino era gay, mas a paróquia ficou encantada.

 

«Pensamos que se a igreja católica vai mudar, irá fazê-lo por convicção não por decreto», disse.

 

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Fonte: Fordham News

A "versão simplificada de um velho argumento" do Vaticano sobre género não pode impedir as mudanças no catolicismo

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Os últimos dois Papas insistiram, contra as evidências mais esmagadoras, que o género binário, homem e mulher, é dado pela natureza e abençoado por Deus. Deus, afinal de contas um homem, criou-os Homem e Mulher. O relato do Génesis desconfortavelmente deixa de fora os detalhes sobre os cobertores e macacões azuis e rosa.

 

Mesmo a tempo do Orgulho, a Congregação para a Educação Católica do Vaticano publicou a sua instrução, datada de 2 de fevereiro, «Ele os criou Homem e Mulher: Em Direção a um Caminho de Diálogo na Questão da Teoria de Género na Educação». O tempo é tudo. O documento, que não acrescenta nada de novo à conversa com décadas de idade sobre o género, fez correr muito mais tinta do que é costume em relatos emanados de tais cantos obscuros de Roma.

 

O meu melhor palpite é o de que este reafirmar da rejeição por parte da igreja católica de meio século de desenvolvimento ao nível da antropologia humana é simplesmente um balão de ensaio. A coisa verdadeira está alegadamente para vir da Congregação para a Doutrina da Fé, um local com maior peso e que tentará, mais uma vez, apresentar um baluarte contra a evolução do entendimento de género, sexo e como as pessoas boas vivem as suas vidas.

 

A especialista em assuntos jurídicos da Universidade de Chicago, Mary Anne Case, explica os contornos da campanha longa e cada vez mais prejudicial do Vaticano num artigo bem documentado, complexo e convincente denominado «Trans Formações na Guerra do Vaticano contra a 'Ideologia de Género'».

 

Ela analisa «... a guerra do Vaticano com décadas de existência, à escala mundial, em várias frentes àquilo que acabou por apelidar de 'ideologia de género' desde a sua mais recente encarnação com os Estados Unidos de Donald Trump de volta às suas origens do século passado, realçando o papel central, no que diz respeito aos direitos das pessoas transgénero, para os dois Papas que mais diretamente moldaram os contornos desta guerra: Bento XVI e Francisco».

 

A professora Case conclui:

 

A história... revela um intercâmbio complicado entre a constelação dos movimentos de libertação castigados pelo Vaticano como «ideologia de género» e a constelação de movimentos reacionários que o Vaticano e outros conservadores religiosos desenvolveram para lhes fazer frente. Motivados por desenvolvimentos legais na Alemanha e nas Nações Unidas e pelo trabalho teórico das feministas na Alemanha e nos Estados Unidos para conseguir uma oposição mais coerente e formidável do que alguma que ele jamais tinha enfrentado, Ratzinger foi o primeiro a declarar guerra ao «género». Francisco forneceu táticas e estratégias poderosas para esta guerra, através da sua retórica de anticolonialismo e a sua combinação de acolhimento caloroso às pessoas com uma oposição continuada aos seus direitos. Mais recentemente, a oposição à ideologia de género uniu católicos conservadores com pessoas de outros credos em todo o mundo com as quais estavam de acordo em pouco mais do que a necessidade de lutar contra a «ideologia de género».

 

 

Dito de uma forma mais simples, a pequena peça da Congregação para a Educação Católica é uma versão muito simplificada de um velho argumento. O cardeal Joseph Ratzinger e depois o Papa Francisco insistiram, contra evidências cada vez mais esmagadoras, que o género binário, homem e mulher, é dado pela natureza e abençoado por Deus. Deus, afinal de contas um homem, criou-os Homem e Mulher. O relato do Génesis desconfortavelmente deixa de fora os detalhes sobre os cobertores e macacões azuis e rosa. Os estudiosos da Bíblia são simplesmente ignorados. Estes dois Papas ainda estão convencidos de que um bebé nascido com um pénis é um homem e um bebé nascido com uma vagina é uma mulher, apesar das provas avassaladoras referentes às complexidades da vida humana que, justiça seja feita, já não admitem tais simplificações. Bento XVI construiu os argumentos; Francisco entrega-os com um sorriso. Os dados sociais e biológicos são simplesmente deixados de lado.

 

O Vaticano deveria deixar as decisões sobre as pessoas intersexo para serem tomadas pelos profissionais de saúde. A comunidade intersexo manifestou o seu veemente protesto: «Estamos profundamente perturbados pela reprodução de uma linguagem patologizante como forma de referência aos nossos corpos e o reafirmar da autoridade médica sobre eles... A ideia de que intervenções médicas coercivas são necessárias como forma de construir uma identidade saudável nunca foi apoiada pela evidência científica». As redes coligadas de pessoas intersexo e seus aliados «exigiram um diálogo que reconheça a nossa existência, que afirme os nossos direitos sobre o que acontece com os nossos corpos, o nosso direito a saber a verdade sobre os nossos tratamentos médicos e que ponha um fim à estigmatização e à violação dos direitos humanos». O documento do Vaticano não faz nada disto.

 

O que faz é assinalar um patamar novo e potencialmente mais perigoso num debate cultural antigo. A posição do Vaticano contra o amor do mesmo sexo não precisa de ensaio. Porém, de um modo pernicioso tudo isso parece esbater-se um pouco neste documento que se centra principalmente nas pessoas transgénero e intersexo. O argumento encontra-se alicerçado na mesma oposição geral a tudo o que não seja rosa claro e azul bebé juntos para formar um casal. Desta vez é uma perceção nascente de que estas categorias já não se aplicam.

 

Existe um certo desespero no tom e no conteúdo da peça da Educação Católica. Esta sugere o reconhecimento que os esforços para parar o amor do mesmo sexo falharam miseravelmente a começar com o clero masculino maioritariamente gay. Afinal de contas, o que são uns quantos gays, lésbicas e pessoas bi, parece estar a querer dizer-nos a igreja institucional. Pelo menos conhecem os jogadores sem ser necessário recorrer a um marcador de pontos. O verdadeiro ponto de viragem do jogo é que esta pretende que o sexo/ género são fixos, definidos e palidamente limitados antes da realidade da mudança, fluida, sexo/ género variados como sendo a norma humana.

 

As três sugestões utilizadas pelas pessoas da Educação no documento para enquadrar a sua repetição da mensagem muito elogiada - Escuta, Razão, Objetivo - são as mesmas dinâmicas que violam. Não existe qualquer indício de escuta das vozes das pessoas trans e intersexo, menos ainda das suas famílias e educadores. Ainda há menor indício de qualquer raciocínio que inclua citar estudos, pesar argumentos, delinear a história. O único objetivo é que os programas educativos comecem com o Génesis como se este fosse literalmente verdadeiro com um filme para o provar.

 

Entretanto, de volta ao mundo real, a irmã Mary Berchmans, VSM, da Escola Preparatória da Visitação de Georgetown, em Washington, deixou bem clara a sua mensagem quando confrontada com notícias das núpcias de alunas lésbicas na revista da escola. Ela escreveu: «Enquanto rezava sobre esta contradição, continuamente regressei a esta escolha: podemos centrar-nos no ensinamento da igreja sobre o casamento gay ou podemos centrar-nos co ensinamento da igreja sobre o mandamento de amor do evangelho. Sabemos da história - incluindo da mais recente - que a igreja, na sua humanidade, comete erros. Contudo, através da graça de Deus e do poder do Espírito Santo, ela aprende e cresce. Portanto, escolhemos o mandamento do amor do evangelho». Assim falou uma freira octogenária que professa religiosamente há sessenta e sete anos. Uma reação esmagadoramente positiva para ela, apesar de algumas reações contra, que mostra que a face do catolicismo está a mudar rapidamente. Os responsáveis diocesanos exprimiram desapontamento por não terem sido consultados, mas aquiesceram.

 

Da mesma forma, os responsáveis da Escola Preparatória Jesuita Brebeuf em Indianapolis (EUA), rejeitaram recentemente a exigência da arquidiocese para que despedissem um professor do quadro que é civilmente casado com uma pessoa do mesmo sexo. A arquidiocese respondeu afirmando que Brebeuf já não é por eles considerada como sendo uma escola católica. Mais uma vez, a face do catolicismo está a mudar e novamente a favor da inclusão e da justiça.

 

Isto é o que a Congregação do Vaticano para a Educação Católica é impotente para travar. Duvido que a Congregação da Doutrina da Fé tenha mais sorte. Feliz Orgulho nas mudanças católicas.

 

Fonte: Rewire.News

Uma Resposta ao Documento do Vaticano: Ele os criou Homem e Mulher

Unsplash/Jordan McDonald

 

Há quase oito anos, quando estava a tirar o mestrado na Universidade de Fordham, conheci uma pessoa transgénero pela primeira vez na vida. Fordham estava a realizar uma conferência intitulada «Mais do que um Monólogo: Diversidade Sexual e a Igreja Católica». A ativista católica Hilary Howes abriu a conferência com um relato tocante da sua história enquanto mulher nascida «com genitais masculinos e cérebro feminino». Depois da conferência tive oportunidade de conversar mais um pouco com Hilary, na receção e saí nessa noite convencido da autenticidade da sua experiência.

 

Antes de escutar a intervenção da Hilary, nunca tinha encontrado uma pessoa trans - e, para ser honesto, nunca tinha pensado sobre a experiência trans, que aposto é o caso da maioria dos católicos e católicas. O relato de sofrimento da Hilary e a luta com a sua autocompreensão numa igreja que não encara a sua experiência como válida ou autêntica foi, para mim, uma verdadeira experiência de conversão, na qual escutar e dialogar com uma pessoa que ama a sua igreja apesar de tudo, abriu a minha mente e coração a novas formas de entender o sexo, o género e a sexualidade.

 

Apesar do seu compromisso afirmado com o escutar e com o diálogo, a instrução da Congregação para a Educação Católica «Ele os criou Homem e Mulher: Em Direção a um Caminho de Diálogo sobre a Questão da Teoria de Género na Educação» nega a experiência de pessoas como Hilary Howes para acabar por impor, de cima para baixo, a «complementaridade» antropológica tradicionalmente encontrada nos documentos do Vaticano, como na «Teologia do Corpo» de João Paulo II. A complementaridade necessita de relações sexuais binárias homem-mulher - «Ele os criou Homem e Mulher» - como medida do que significa ser humano.

 

Como alguém que colheu os benefícios e suportou os desafios da educação católica e enquanto professor numa instituição jesuíta, estou muito preocupado com a instrução - e sobre o que ela pode pressagiar para declarações futuras do Vaticano sobre o género. Neste apontamento gostaria de realçar três áreas de preocupação acerca da instrução - uma científica, uma bíblica e uma pastoral - na esperança de desafiar católicos e católicas de todos os tipos a celebrar a diversidade da expressão de género dada por Deus com atenção compassiva à experiência de pessoas como Hilary Howes.

 

Primeiro, como um estudioso que trabalha na interseção da teologia, ecologia e ciência, tenho sérias preocupações acerca dos apelos da instrução em relação à biologia. A instrução descreve as expressões não-binárias ou transgéneras como aspetos de uma teoria de género «estritamente sociológica». Para apoiar esta pretensão, socorre-se de uma biologia binária baseada na distribuição dos cromossomas XX/XY: as crianças nascem macho ou fêmea e as pretensões de que as pessoas intersexo ou transgéneras existem são manifestações falsas da «ideologia de género».

 

Porém a medicina e a biologia contradizem as pretensões da instrução. Em 2017, a Associação Americana de Medicina, ou AMA (American Medical Association), afirmou que o género se encontra «incompletamente compreendido como seleção binária». Do mesmo modo apoia as terapias e cirúrgias de «conformação de género» que afirmam a identidade de género de uma pessoa como vivida - muito para além das terapias de realinhamento para as quais a instrução apela. Em 2013, a Associação Americana de Psiquiatria, ou APA (American Psychiatric Association), renomeou as «perturbações de identidade de género» como «disforia de género» no seu Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, interpretando a experiência de pessoas como Hilary Howes não como uma doença a ser curada, mas como uma condição genuína a ser acompanhada e tratada com terapias de acordo com o autoconhecimento da pessoa.

 

O apelo da instrução à ciência do género binário não está de acordo com o consenso científico contemporâneo. Este ponto parece especialmente problemático dado que a AMA e a APA são organizações de peritos científicos com o treino para tratarem estes assuntos de forma correta. Confiar na ciência do género do Vaticano é o mesmo que confiar no diagnóstico de diabetes efetuado por um padre.

 

Segundo, como o título indica, a instrução vê modelos não-binários de género como contrários à natureza, pelas narrativas da criação do Génesis. Porém, esta pretensão está com conflito direto com o apelo de João Paulo II para um «diálogo intenso» entre fé e ciência e a sua declaração de 1996 de que não há «qualquer conflito entre a evolução e a doutrina da fé no que diz respeito ao homem e à sua vocação». Pois, se a teoria da evolução limita a influência do Génesis como explicação das origens cósmicas - aceitando que o universo não foi criado em sete dias - então o magistério não pode pretender que o mesmo texto é determinante para o género quando o consenso científico diz outra coisa. Somente este facto deveria ter o peso suficiente para levantar preocupações sobre as garantias bíblicas da complementaridade, mas a instrução continua sem qualquer referência a estas preocupações. Talvez o género seja uma área na qual, como João Paulo II afirma «a ciência pode purificar a religião do erro e da superstição».

 

Terceiro, quando a instrução explicitamente se opõe à violência - incluindo o bullying nas escolas - contra as pessoas LGBTQ+, a caracterização das expressões de género não binárias como uma escolha rebelde baseada em «sentimentos e desejos» origina a injustiça em relação àquelas e àqueles que, tal como Hilary Howes, têm procurado o reconhecimento numa igreja que recusa reconhecer a sua existência. A instrução parece cega às lutas diárias sociais e eclesiais que as pessoas LGBTQ+ enfrentam diariamente - lutas inimagináveis para as pessoas cisgénero e heterossexuais que detêm o poder na igreja e no mundo.

 

Estatísticas surpreendentes desafiam a pretensão da instrução de que as experiências trans e não-binárias são questões de escolha e indicam a cumplicidade da igreja na violência contra as pessoas LGBTQ+, particularmente dada a sua presença em países que criminalizam a expressão trans e os atos entre pessoas do mesmo sexo.

 

Por exemplo, de 2007 a 2014, uma média de 250 pessoas trans foram assassinadas por ano e 369 pessoas trans ou não-binárias foram mortas entre outubro de 2017 e setembro de 2018. A maioria é mulheres trans de cor e muitas morreram por processos violentos. Para além disso, quase 80% dos e das adolescentes trans e não-binários relatam ter tentado o suicídio enquanto lutavam para encontrar as suas identidades de género. Dadas estas estatísticas, as expressões de género trans e não-binárias são, de forma clara, não «somente uma manifestação 'provocadora' contra a chamada 'moldura tradicional'». Parece que a rejeição por parte do magistério das experiências trans e não-binárias como sendo uma rebelião contra a natureza serve somente para por um ponto final nas conversas sobre o género, mesmo antes destas começarem e encontra na comunidade LGBTQ+ o seu bode expiatório como forma de manter a complementaridade, negando a necessidade de acompanhamento pastoral verdadeiramente comprometido com as lutas que as pessoas LGBTQ+ enfrentam diariamente.

 

Porém a complementaridade não é bíblica nem biológica. A igreja tem de ter presente a experiência das pessoas LGBTQ+ e não pode simplesmente ignorar as descobertas científicas que se revelam inconvenientes para a preservação e transmissão da doutrina. Em nome do amor proclamado por Jesus - um amor vivido diariamente pelos católicos e católicas trans como a Hilary Howes, que procuram justiça para aquelas e aqueles marginalizados na igreja e na sociedade - é nosso dever abraçar a diversidade maravilhosamente selvagem de todas as criaturas maravilhosas que o nosso Deus criou.

 

Fonte: National Catholic Reporter

A Cidade de Nova Iorque Iluminará 12 Edifícios Icónicos com as Cores do Arco-Íris para o Orgulho Mundial

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No próximo dia 30 de junho a cidade de Nova Iorque irá iluminar o icónico Empire State Building com as cores do arco-íris m reconhecimento do Orgulho Mundial (World Pride). Para além disso, 11 outros edifícios da cidade serão iluminados do mesmo modo como forma de mostrar solidariedade com a comunidade LGBTQ mundial.

 

A cidade de Nova Iorque será palco do World Pride deste ano e comemora igualmente o 50.º aniversário do motim de Stonewall. São esperadas mais de quatro milhões de visitantes estrangeiros, inúmeros filmes relacionados com o Orgulho, debates, festas, eventos da comunidade e a 26 de junho a cerimónia de abertura do World Pride que terá como destaque Cyndi Lauper, Chaka Khan, Ciara, Billy Porter entre outras e outros.

 

São os seguintes os edifícios que serão iluminados com as cores do arco-íris (e quando):

 

Barclays Center (24-26 de junho), Madison Square Garden (30 de junho), One Bryant Park (28-30 de junho), One World Trade Center (Base: 26-30 de junho; Pináculo: 28-30 de junho), Câmara Municipal (10-30 de junho), sede da Bloomberg (30 de junho) e um punhado de outros.

 

Para honrar o World Pride, a cidade de Nova Iorque renomeou a Rua Gay (Gay Street) de Greenwich Village. Durante duas semanas, a Gay Street será chamada de «Rua Gay, Lésbica, Bissexual, Trans, Queer, Intersexo, Assexual, Não-binária, Pansexual, Dois Espíritos, + .” O nome da rua surge num sinal de um maravilhoso espetro de cores.

 

Durante o World Pride, haverá um desfile principal organizado pela Herança do Orgulho (HOP, Heritage of Pride) com a participação de mais de 600 grupos e 120 carros alegóricos. Haverá igualmente um segundo desfile: a Marcha da Libertação Queer organizada pela Coligação Reclamar o Orgulho (RPC, Reclaim Pride Coalition).

 

O desfile da RPC não deverá apresentar carros alegóricos, políticos a fazer campanha, polícias fardados, ou limitações como barricadas de metal e pede aos participantes que usem uma pulseira.

 

 

Fonte: LGBTQ Nation.

Como é que a religião encaixa debaixo da bandeira arco-íris? A fé é importante.

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Participantes católicos na Marcha do Orgulho de Lambertville-New Hope em 18 de maio de 2019.

 

No filme «Rocketman» há uma cena de cortar a alma quando Elton John (protagonizado por Taron Egerton) liga à mãe a partir de uma cabine telefónica. Num discurso hesitante, ele diz à mãe: «Eu sou um ho-mo-ssex-u-al, queer, uma bicha.» As lágrimas caiem-lhe pela face.

 

Ela responde-lhe que é a sua mãe e que sempre o soube. Então, na sua maneira fria e distante, ela diz ao filho: «Nunca serás amado devidamente.»

 

Uma notícia aparecida no UK Daily Express revelou que os atores e a equipa de filmagem filmaram a cena rapidamente porque esta era emocionalmente difícil.

 

O reconhecimento por parte de Elton John da sua sexualidade corresponde praticamente ao motim de Stonewall há 50 anos, quando os homossexuais presentes num bar que sofreu uma rusga por parte da polícia de Nova Iorque ripostaram, despoletando um conjunto de motins nas ruas.

 

Este momento chave galvanizou a comunidade LGBT a se opor à opressão e ao preconceito rotineiros e deu origem ao movimento de Libertação Gay.

 

«Os Motins de Stonewall: Uma História Documental», por Marc Stein, oferece testemunhos em primeira mão antes, durante e depois de Stonewall do tratamento brutal de homossexuais e lésbicas. A polícia fazia rusgas a bares gay, batia nos clientes, prendia indiscriminadamente os clientes através de acusações falsas e depois publicitava as prisões, colocando frequentemente em perigo o emprego desses clientes.

 

No próximo domingo, 30 de junho, o Dia Mundial do Orgulho será celebrado em Nova Iorque pela primeira vez e milhões de pessoas pelo mundo poderão testemunhar a Parada do Orgulho Gay.

 

Cinquenta anos de orgulho significam muitas coisas para pessoas diferentes. Há muitas agendas e as denominações religiosas estão a reclamar o orgulho nos seus próprios termos.

 

Algumas igrejas, como a igreja episcopal, têm sido muito acolhedoras, mas com um custo. Encontram-se agora estilhaçadas em campos ideológicos.

 

Os metodistas unidos podem brevemente vir a separar-se devido a uma declaração de fevereiro de que os clérigos em relações do mesmo sexo e a bênção de uniões do mesmo sexo violam as políticas da igreja.

 

A igreja da comunidade metropolitana foi fundada por gay e para gays, mas os seus números são minúsculos.

 

A igreja católica defende a dignidade das pessoas LGBT enquanto condena a atividade genital homossexual. Sondagens revelam que a maioria dos católicos apoiam mudanças ao nível do ensinamento da igreja, mas as coisas ainda estão longe de um consenso nos assuntos éticos.

 

O Papa Francisco pareceu mudar o tom em 2013 quando foi questionado sobre este tema por um jornalista e respondeu: «Quem sou eu para julgar?» Numa entrevista ao Papa Francisco, o jornalista italiano Andrea Tornielli perguntou-lhe como é que ele podia agir como confessor de uma pessoa gay à luz das suas agora famosas palavras. Francisco respondeu pastoralmente.

 

No seu livro «O Nome de Deus é Misericórdia», referindo-se à sua, agora clássica, afirmação, Francisco afirmou: «Estava a parafrasear de cor o Catecismo da Igreja Católica onde afirma que estas pessoas devem ser tratadas com delicadeza e não devem ser marginalizadas». Faz, então, uma distinção importante: «As pessoas não devem ser somente definidas pelas suas tendências sexuais: não nos esqueçamos que Deus ama todas as suas criaturas e estamos destinados a receber o seu amor infinito».

 

Para mim, este é o coração do orgulho católico. Aceitar as pessoas LGBT como indivíduos com o espetro total de emoções e sentimentos.

 

O dogma não deve ser usado como um martelo e Francisco organizou mesmo a Cúria do Vaticano de modo a tornar a evangelização a sua prioridade. Ele acredita que a igreja, a exemplo de Jesus, tem de ir onde as pessoas estão. Neste momento, muitas pessoas católicas LGBT sentem-se privadas de direitos na igreja e não acolhidas. Francisco encoraja: Acompanhai-as.

 

Robert Ellsberg, um hagiógrafo contemporâneo, estabelece como a santidade está disponível para todas e todos, mesmo para as pessoas comuns. Não nos esqueçamos que Jesus ergueu pessoas que eram rejeitadas ou exiladas devido à visão religiosa e permitiu-lhes serem um todo. Isto é acompanhamento.

 

No ano passado, a minha paróquia, Nossa Senhora da Graça em Hoboken (EUA), atraiu pessoas de todo o estado para a nossa Missa do Orgulho inaugural. Depois, soube através de progenitores cujos filhos e filhas não frequentavam a igreja há décadas e que ficaram felizes em receber hospitalidade em vez de condenação. Iremos celebrar a segunda missa anual no próximo domingo.

 

Francisco deu à igreja global um estilo que pode ser imolado, particularmente quando o «Orgulho» assume relevância neste mês de junho.

 

O filme sobre Elton John mostrou como ele trabalhou os seus muitos demónios em terapia de grupo e finalmente vemos o seu corpo registar um avanço. Ele já não iria permitir que os pontos de vista dos seus progenitores ditassem quem ele era. Ele perdoá-los-ia.

 

James O'Neill, o comissário de polícia da cidade de Nova Iorque, pediu recentemente desculpa pela forma como a polícia agiu em Stonewall.

 

Alcançar a totalidade é uma demanda para toda uma vida. Com o apoio da igreja, as católicas e os católicos LGBT podem descobrir que a espiritualidade e a identidade sexual são complementares e de que isso é razão suficiente para um Orgulho Católico.

 

Fonte: NJ.com

Psicanalistas americanos pedem desculpa por terem rotulado a homossexualidade como doença

© REUTERS/Mike Segar

A Associação Americana de Psicanálise (APsaA) pediu desculpa na passada sexta-feira por ter anteriormente tratado a homossexualidade como uma doença mental, tendo afirmado que os seus erros no passado contribuíram para a discriminação e trauma das pessoas LGBT.

 

É a primeira organização de saúde mental ou médica dos EUA a emitir tal tipo de desculpa. Ainda que os psiquiatras tenham desclassificado a homossexualidade como desordem em 1973, foram precisos mais vinte anos para que os psicanalistas fizessem o mesmo. A APsaA afirma que desconhece se qualquer outro grupo profissional da área tenha alguma vez pedido desculpa. «Já não é sem tempo para reconhecer e pedir desculpa pelo nosso papel na discriminação e trauma causados pelos nossos profissionais e dizer 'Lamentamos', afirmou numa declaração o Dr. Lee Jaffe, presidente da APsaA. O grupo usa este acrónimo como forma de o distinguir da Associação Americana de Psiquiatria (APA).

 

Jaffe anunciou o pedido de desculpa na passada sexta-feira na sessão de abertura do 109.º encontro anual do grupo, em San Diego (EUA), recebendo uma ovação de pé das cerca de 200 pessoas presentes, afirmaram testemunhas. Jaffe afirmou que o seu grupo desde há muito tempo que promove os direitos das pessoas LGBT, mas faltava-lhe colocar a sua contrição em palavras.

 

«É difícil admitir que estivemos tão errados,» afirmou Jaffe.

 

Um analista sediado em Los Angeles afirmou que a assistência interpretou o momento como significativo.

 

«Como alguém que vem de uma longa linha de analistas que têm lutado em prol das pessoas LGBT, este pareceu ser um momento decisivo,» disse o Dr. Justin Shubert.

 

 

O MOTIM DE STONEWALL

 

A mudança no pensamento da comunidade médica acerca da homossexualidade e da desculpa da passada sexta-feira ambos têm a sua origem num acontecimento muito importante da história LGBTQ ocorrido há 50 anos: o motim de Stonewall.

 

Clientes de um bar gay da cidade de Nova Iorque chamado Stonewall Inn responderam a uma perseguição policial ocorrida nas primeiras horas do dia 28 de junho de1969, despoletando o começo do movimento moderno em prol dos direitos das pessoas LGBTQ.

 

Recentemente a polícia de Nova Iorque pediu desculpa pela incursão e pelas leis discriminatórias da época, que levaram a que a APsaA apresentasse também o seu pedido de desculpa, disse o Dr. Jack Drescher, um membro da APsaA e principal autoridade na história do tratamento psiquiátrico e psicológico das pessoas LGBTQ.

 

A cidade de Nova Iorque espera qualquer coisa como 4 milhões de pessoas para a celebração do 50.º aniversário de Stonewall e desfiles do Pride serão realizados um pouco por todo o mundo a 30 de junho.

 

Ativistas LGBTQ irromperam pelo encontro anual da Associação Americana de Psiquiatria, em 1970, em São Francisco. Os protestos deram uma tal reviravolta na conferência, afirmou Drescher, que em dezembro de 1973 a direção da APA removeu a homossexualidade do Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM).

 

Porém, a APsaA somente alterou a sua posição em 1991 quando, sob ameaça de um processo antidiscriminação, permitiu a formação de psicanalistas gays e lésbicas, afirmou Drescher.

 

A APsaA acabou por se tornar num dos primeiros apoiantes do casamento entre pessoas do mesmo sexo e opositora das «terapias de conversão» destinadas a mudar a orientação sexual de uma pessoa.

 

Em 2012, o psicanalista Dr. Robert Spitzer, de moto próprio, pediu desculpa pela autoria de um estudo influente realizado havia 11 anos que afirmava que a terapia de reconversão «curava» a homossexualidade.

 

Hoje, a APsaA e outras organizações profissionais encaram o ser-se gay como uma variante normal da sexualidade humana, mas até agora têm ainda que exprimir o quão erradas estavam antes, afirmou Drescher.

 

«Essas organizações fizeram o trabalho de pedir desculpa, mas não disseram as palavras,» afirmou Drescher. «Se o comissário da polícia da cidade de Nova Iorque o pode fazer, por que razão não poderíamos nós fazer algo de semelhante?»

 

Fonte: U. S. News

 

Ian McKellen cria um programa de apoio para as pessoas LGBT com mais de 50 anos

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O lendário ator do Senhor dos Anéis e dos X-Men, Ian McKellen, acaba de criar um programa de apoio para as pessoas LGBT com mais de 50 anos.

 

O ator inglês uniu-se à fundação benemérita britânica LGBT Foundation para criar o Pride in Ageing (Orgulho em Envelhecer). O programa foi apresentado no passado dia 5 de junho no Barclays Eagle Lab, em Manchester (Reino Unido).

 

«Ninguém nasce com preconceitos, isso é algo que se aprende», afirmou McKellen no evento.

 

«Agitar a bandiera pela igualdade total e pelo amor é algo que tem o meu apoio absoluto», acrescentou ainda.

 

Pride in Aging trabalhará para por um fim às desigualdades que enfrentam as pessoas LGBT com mais de 50 anos e garantir que estas tenham acesso a uma habitação e cuidados inclusivos mais à frente nas suas vidas.

 

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O programa abordará igualmente o isolamento social que enfrentam as pessoas LGBT com mais de 50 anos [no Reino Unido], que acaba tendo um impacto significativo na sua saúde, felicidade e bem-estar.

 

Para além disso, celebrará igualmente os aspetos positivos de ser uma pessoa LGBT na terceira idade. O objetivo é reunir as pessoas para partilhar as suas histórias e experiências e construir uma comunidade ativa e empoderada.

 

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«Estamos incrivelmente agradecidos a Sir Ian por lançar esta nova iniciativa incrivelmente importante», afirmou Martin OBE, Diretor Executivo da Fundação LGBT.

 

«Sabemos que as pessoas LGBT com mais de 50 anos têm um risco muito maior de isolamento e são pouco reconhecidas nos serviços de saúde e assistência social e podem enfrentar discriminação devido à sua orientação sexual ou identidade de género. Cremos que todas as pessoas LGBT com mais de 50 anos têm o direito a uma excelente qualidade de vida nos seus últimos anos e esperamos trabalhar para por fim às muitas desigualdades que enfrentam as pessoas LGBT na vida da metade das suas vidas.»

 

Fonte: Oveja Rosa

Escutar a pessoa LGBT: uma resposta ao documento do Vaticano sobre a teoria do género

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Participantes na marcha transportam uma bandeira arco-íris ao longo da 5.ª Avenida durante a Parada do Orgulho LGBT em Nova Iorque no dia 24 de junho de 2018. (Foto AP/Andres Kudacki)

 

Nos últimos anos o Vaticano (incluindo papas, congregações e dicastérios) têm expressado preocupação em relação à «teoria do género» e «ideologia do género». O último documento da Congregação para a Educação Católica, intitulado «Homem e Mulher Ele Criou-os», é o tratamento do tópico mais abrangente até hoje produzido. O documento vem de uma Congregação do Vaticano e não está assinado pelo Papa Francisco, pelo que não é a palavra final sobre o assunto.

 

A teoria do género é uma terminologia muito escorregadia. De uma maneira ampla, refere-se a um estudo sobre o género e a sexualidade e a forma como estas duas realidades são naturalmente determinadas (isto é, biologicamente) e/ ou socialmente (ou seja, culturalmente). Normalmente inclui o estudo das experiências das pessoas LGBT, e de todas as que se identificam como «queer», outro termo frequentemente ambíguo que pode significar (mas nem sempre o significa) uma decisão da pessoa se identificar fora das categorias de homem ou mulher, ou gay ou hétero.

 

O novo documento da congregação é um apelo explícito ao diálogo, que todas e todos deveriam acolher.

 

Para alguns críticos, a teoria do género também representa uma «ideologia» que procura impor-se aos outros, «encorajando» ou «forçando» algumas pessoas, particularmente os jovens, a questionarem e a reafirmarem a sua própria sexualidade e género. Nalguns círculos da igreja, particularmente nos países em vias de desenvolvimento, é frequentemente ligada a uma forma de «colonialismo ideológico» que procura impor as ideias ocidentais de sexualidade e género às nações em desenvolvimento. O Papa Francisco tem várias vezes advertido para esta crença.

 

O novo documento da congregação deveria ser louvado pelo seu apelo à «escuta» e ao «diálogo». O subtítulo é importante: «Em direção a um Caminho de Diálogo na Questão da Teoria do Género na Educação.» É um apelo explícito ao diálogo, que todas e todos deveriam acolher. Fala de um «caminho», o que significa que a igreja ainda não alcançou o destino. Centra-se na «questão» da teoria do género na educação, o que deixa algum grau de abertura, e é, portanto, principalmente dirigido aos educadores e «formadores», incluindo aquelas e aqueles responsáveis pela formação dos padres e membros das ordens religiosas.

 

Outro aspeto positivo deste documento é o seu apelo claro ao «respeito para com cada pessoa na sua particularidade e diferença» e a sua oposição ao «bullying, violência, insultos ou discriminação injusta.» Louva igualmente «a capacidade para acolher com respeito todas as manifestações legítimas da personalidade.»

 

A conclusão do documento fala do caminho do diálogo, que inclui «escutar, raciocinar e propor». Assim, deixa aberto espaço para mais desenvolvimentos e evita igualmente alguma da linguagem mais dura de outros pronunciamentos do Vaticano sobre a sexualidade e, particularmente, sobre a homossexualidade.

 

Esta visão tradicionalista é, contudo, contraditada por aquilo que muitos biólogos e psicólogos compreendem agora sobre a sexualidade e o género.

 

Deixem-me, pois, comprometer-me no diálogo respeitoso a que se faz apelo, na qualidade de alguém que ministra para as pessoas LGBT.

 

O que propõe a congregação? Essencialmente, e sem qualquer surpresa, o seu documento reafirma a visão tradicional católica sobre a sexualidade: o homem e a mulher são criados (como heterossexuais) com papéis sexuais e de género fixos. Esta visão tradicionalista é, contudo, contraditada por aquilo que muitos biólogos e psicólogos compreendem agora sobre a sexualidade e o género. Estes avanços contemporâneos na compreensão da sexualidade e do género humanos foram colocados de lado pela congregação em prol de uma compreensão binária da sexualidade. Mesmo o termo «orientação sexual» é colocado entre aspas no documento, como se para colocar essa mesma noção em causa.

 

O cerne do argumento da congregação encontra-se nesta compreensão do género. «Esta separação [do sexo a partir do género] está na raiz das distinções propostas por 'orientações sexuais' diferentes que já não são definidas pela diferença sexual entre homem e mulher e podem, então, assumir outras formas determinadas somente pelo indivíduo, que é visto como radicalmente autónomo.»

 

Uma objeção a essa proposta é a de que ela ignora a experiência de vida real das pessoas LGBT. De facto, os principais parceiros do documento para a conversa parecem ser filósofos, teólogos e documentos antigos da igreja e pronunciamentos papais, em vez de biólogos ou cientistas; em vez de psiquiatras ou psicólogos e em vez das pessoas LGBT e das suas famílias. Se mais pessoas tivessem sido incluídas no diálogo, a congregação teria provavelmente encontrado espaço para o atual entendimento comum de que a sexualidade não é escolhida pela pessoa, mas é antes parte da forma como esta é criada.

 

Se mais pessoas tivessem sido incluídas no diálogo, a congregação teria provavelmente encontrado espaço para o atual entendimento comum de que a sexualidade não é escolhida pela pessoa, mas é antes parte da forma como esta é criada.

 

De facto, para um documento que confia de forma tão pesada (embora implicitamente) na lei natural, este ignora aquilo que nós cada vez mais compreendemos sobre o mundo natural, onde observamos homens e mulheres atraídos para pessoas do mesmo sexo, homens e mulheres sentido uma variedade de sentimentos sexuais ao longo das suas vidas e homens e mulheres que se encontram mais num espectro do que num lugar fixo quando se trata da sexualidade e, ocasionalmente, mesmo do género.

 

A congregação sugere igualmente que as discussões sobre a identidade de género envolvem uma escolha intencional do género por uma pessoa. Porém, as pessoas que são transgéneras relatam que não escolheram a sua identidade, mas que a descobriram através das suas vivências enquanto seres humanos num mundo social.

 

Novamente, o documento negligencia amplamente comprometer-se em discussões sobre os novos pronunciamentos e descobertas científicos sobre o género. Assenta principalmente na crença de que o género é determinado somente pelos genitais visíveis, o que a ciência contemporânea mostrou ser uma forma incorreta (e algumas vezes mesmo prejudicial) de categorizar as pessoas. O género também é biologicamente determinado pela genética, hormonas e química cerebral - coisas que não são visíveis à nascença. O documento da congregação assenta fortemente em categorias de «homem» e «mulher» que foram definidas há séculos atrás e, nem sempre, através dos métodos científicos mais precisos.

 

O documento assenta principalmente na crença de que o género é determinado somente pelos genitais visíveis, o que a ciência contemporânea mostrou ser uma forma incorreta (e algumas vezes mesmo prejudicial) de categorizar as pessoas.

 

O documento é igualmente reforçado pela noção de «complementaridade», o que significa que baseado no seu género (homem e mulher), homens e mulheres têm papéis separados. Numa frase, feita certamente para causar algum espanto, a congregação escreve: «As mulheres têm um entendimento único da realidade. Possuem uma capacidade para suportar a adversidade...» E os homens não? Tais ideias reforçam o estereotipo e impedem que tanto homens e mulheres se elevem acima dessas construções culturais que o Vaticano muitas vezes, com razão, lamenta.

 

O aspeto mais infeliz deste documento é a forma como a congregação entende as pessoas transgéneros. (Estranhamente, num documento sobre género e sexualidade, as palavras «homossexual» ou «homossexualidade» estão ausentes). Consideremos esta passagem: «Esta oscilação entre homem e mulher torna-se, no final de contas, somente uma manifestação 'provocadora' contra as chamadas 'molduras tradicionais' e ignora-se, de facto, o sofrimento daquelas e daqueles que têm de viver situações de indeterminação sexual. Tais teorias têm por objetivo aniquilar o conceito de 'natureza' (isto é, tudo aquilo que nos foi dado a uma fundação pré-existente do nossos ser e ação no mundo), enquanto em simultâneo reafirma, de forma implícita, a sua existência.»

 

Na sua formulação, as pessoas transgéneros estão a ser «provocadoras» e estão, consciente ou inconscientemente, a tentar «aniquilar o conceito de 'natureza'» Amigos e membros da família que acompanharam uma pessoa transgénero através das suas tentativas de suicídio, do seu desespero em encaixar na sociedade, ou a sua aceitação de que Deus as ama, acharão esta afirmação desconcertante e mesmo ofensiva.

 

Provavelmenet a resposta mais ponderada a esta abordagem venha de um diácono católico, Ray Dever, que tem uma filha transgénero e que escreveu sobre a sua experiência familiar na US Catholic. Escreve ele: «Qualquer pessoa com uma experiência em primeira mão com pessoas transgénero ficaria incomodada pela sugestão de que as pessoas trans são, de alguma forma, o resultado de uma ideologia. É um facto histórico que muito antes de existirem estudos de género em qualquer universidade ou a expressão ideologia de género ser mesmo pronunciada, as pessoas transgénero já existiam, eram reconhecidas e mesmo valorizadas em algumas culturas pelo mundo fora.»

 

O resultado a curto prazo do «Homem e Mulher Ele os Criou» será fornecer munições aos católicos que negam a realidade da experiência das pessoas transgénero, que rotularão estas pessoas como meros ideólogos e que negarão as suas experiências de vida. Contribuirá, com quase toda a certeza, para um maior sentimento de isolamento, um maior sentimento de vergonha e uma maior marginalização daquelas e daqueles que já são marginalizados na sua própria igreja: as pessoas transgénero.

 

Regressemos ao aspeto mais positivo deste documento, que poderá ser o resultado a longo prazo: o apelo para a escuta e para o diálogo. A congregação parece ser sincera neste convite. A igreja, como o resto da sociedade, ainda se encontra a aprender sobre as complexidades da sexualidade e do género humanos. O passo seguinte pode ser a igreja escutar as respostas daquelas e daqueles que este documento afeta mais diretamente: as próprias pessoas LGBT.

 

Que o diálogo comece.

 

Fonte: America - The Jesuit Review

Tribunal Constitucional do Equador autoriza o Casamento Entre Pessoas do Mesmo Sexo

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O Tribunal Constitucional do Equador autorizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo no Equador desde a passada quarta-feira, 12 de junho, ao dar parecer favorável a dois pedidos de verificação da constitucionalidade apresentados pelo Tribunal de Círculo de Pichincha referentes ao casal:  Xavier Benalcázar-Efraín Soria e Rubén Salazar-Carlos Verdesoto.

 

Com cinco votos a favor o Tribunal Constitucional equatorenho deu parecer favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, o que permite que os casais do mesmo sexo possam contrair casamento no Equador.

 

Segundo fontes do Tribunal a decisão é de aplicação imediata. Após o período de três dias e desde que não hajam pedidos de ampliação ou de aclaração esta entrará em vigor e será publicada na Gaceta Constitucional.

 

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Votação Prévia

Na semana passada, o Tribunal Constitucional do Equador já tinha votado esta questão, tendo a votação resultado num empate de 4 a 4.

 

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) apoiou esta decisão, através de nota publicada na sua conta do Twitter, tendo afirmado que ela vem «no seguimento dos padrões da CIDH e daqueles estabelecidos pelo Tribunal Interamericano dos Direitos Humanos, baseados nos princípios de igualdade e da não discriminação».

 

Fonte: El Universo

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