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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

A Bala

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A homossexualidade é um franco-atirador silencioso que coloca uma bala no coração das crianças que brincam nos pátios, sem se importar que estas sejam filhas de conservadores ou de progressistas, de agnósticos ou de católicos integristas, não lhe falta a pontaria nem nos colégios privados nem nos públicos. Atira com idêntica perícia nas ruas de Chicago, nas aldeias italianas ou nos bairros de Joanesburgo. A homossexualidade é um franco-atirador cego como o amor, generoso como o riso, tolerante e carinhoso como um cão. Quando se cansa de disparar contra as crianças, atira uma rajada de balas perdidas que vão alojar-se nos corações de uma camponesa, de um taxista, de um transeunte num parque... A última bala atingiu uma mulher de oitenta anos, enquanto esta dormia.



A transexualidade é um franco-atirador silencioso que dispara contra o coração das crianças que se veem ao espelho, ou daqueles que contam os passos enquanto caminham. Não sabe se nasceram de PMA (Procriação Medicamente Assistida) ou de um casamento católico. Não lhe importa se vêm de famílias monoparentais, ou se o papá vestia de azul e a mamã de rosa; nem o calor de Sochi nem o calor de Cartagena das Índias o fazem tremer. Abre fogo do mesmo modo em Israel e na Palestina. A transexualidade é um franco-atirador cego como o riso, generoso como o amor, carinhoso e tolerante como uma cadela. De quando em vez dispara sobre um professor de província ou sobre uma mãe de família.



Para @s que têm a valentia de olhar a ferida de frente, a bala converte-se numa chave mestra que abre uma porta em direção a um mundo nunca visto. Caem todos os véus, a matriz desconstrói-se. Contudo, algumas e alguns d@s que levam com uma bala no peito decidem viver como se não a tivessem dentro de si. Há quem tenha sido mort@ por levar com a bala.



Outr@s compensam o peso da bala com grandes gestos de dom joões ou de princesas. Há médicos e igrejas que prometem tirar a bala. Os raios da fé confundem-se com descargas de eletricidade. Porém, ninguém ainda conseguiu tirar a bala. Podem enterrá-la mais fundo no peito, mas não a tirar. A tua bala é como o teu anjo da guarda: estará sempre contigo!

 

 

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Eu tinha três anos quando, pela primeira vez, senti o peso da bala. Senti que a carregava quando ouvi o meu pai tratar por vacas desavergonhadas duas raparigas estrangeiras que caminhavam de mão dada pela aldeia. Nesse momento, senti que o peito me ardia. Nessa noite, sem saber porquê, imaginei, pela primeira vez, que fugia da aldeia para ir para o estrangeiro. Os dias que se seguiram foram os dias do medo, da vergonha.

 

Não é difícil imaginar que entre os adultos que participam na manifestação do Hazte Oír (Faz-te ouvir) há algumas e alguns que carregam, enquistada no peito, uma bala ardendo. Também não é difícil saber, por dedução estatística, conhecendo a boa pontaria dos nossos francoatiradores, que haverá entre os seus filh@s algumas crianças que cresceram com a bala no coração.

 

Quando vejo avançar as famílias nas manifestações neoconservadoras com seus filhos e filhas, não posso deixar de pensar que entre essas crianças há algumas de três, cinco, quem sabe, de apenas oito anos, que já transportam uma bala ardendo no peito.



Ostentam cartazes que dizem «não tocar nos nossos estereótipos de género», «os meninos têm pénis, as meninas têm vaginas. Não te deixes enganar!» e que alguém lhes colocou nas mãos. Porém, eles sabem que não poderão estar à altura do estereotipo.



Os seus pais gritam que meninas lésbicas, os meninos maricas e as crianças trans não frequentam o colégio, mas essas crianças sabem que transportam a bala consigo. Durante a noite, como acontecia quando eu era um menino, vão para a cama com a vergonha de dececionar os progenitores, quem sabe se com medo que os seus progenitores as abandonem ou que desejem a sua morte. E sonham, como acontecia comigo quando era menino, que possam fugir para um lugar no estrangeiro ou para um planeta distante, onde as crianças da bala possam viver. E agora falo-vos a vocês, as crianças da bala, e digo-vos: a vida é maravilhosa, esperamos-vos aqui, tod@s @s caíd@s, @s amantes do peito perfurado. Não estais sós!

 

Fonte: Dissidència constructiva, per Jordi Reviriego 

Dia Internacional da Juventude - 12 de agosto de 2019: O flagelo de ficarem na rua contribui para as dificuldades enfrentadas pela juventude LGBT

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Por ocasião do Dia Internacional da Juventude, o Perito Independente das Nações Unidas contra a violência e discriminação baseadas na orientação sexual e identidade de género, Victor Madrigal-Borloz, e a Relatora Especial sobre o direito à habitação, Leilani Farha, apelam aos Estados para que adotem urgentemente medidas para lidar com as práticas discriminatórias contra @s jovens LGBT no que diz respeito à habitação. Emitiram a seguinte declaração:

 

«Como resultado da intolerância religiosa e cultural que pode incluir a violência sexual, mas não só, @s jovens lésbicas, gays, bissexuais, trans e de género diverso (LGBT) em todo o mundo enfrentam a exclusão sócioeconomica, incluindo no seio dos seus próprios lares e comunidades, e a censura e punição familiares podem forçá-l@s a abandonar o lar, o que os torna mais vulneráveis a ainda mais violência e discriminação, um fator que é agravado em função da idade, dependência económica e da família e redes comunitárias. Isto explica porque @s jovens LGBT se encontram em número desproporcionalmente elevado em populações sem-abrigo e porque, uma vez na rua, enfrentam discriminações adicionais.

 

Ser um@ sem-abrigo pode ser igualmente uma consequência de outras formas de exclusão de direitos humanos fundamentais. Na escola muit@s jovens LGBT sofrem bullying, que resulta em taxas de abandono escolar que são mais elevadas do que a média e que tem consequências a longo-prazo para o seu projeto de vida. @s jovens LGBT têm menor probabilidade de possuírem os níveis educacionais e as competências para encontrar emprego e alcançar a segurança económica, que por seu lado afeta a sua oportunidade de encontrarem alojamento adequado.

 

O impacto de uma situação tão grave de exclusão não pode ser subestimado, com um estudo recente a concluir que praticamente quase dois terços d@s jovens LGBT que são sem-abrigo tinham lutado com problemas de saúde mental e os estudos sugerem que el@s têm maior probabilidade de reportarem depressão, desordem bipolar e intenção e tentativas de suicídio. Ess@s jovens têm igualmente probabilidade de terem acesso a cuidados de saúde e são extremamente vulneráveis ao abuso de álcool e drogas.

 

Ao abrigo da lei internacional dos direitos humanos e na linha dos Objetivos para um Desenvolvimento Sustentável, os Estados têm a obrigação imediata de implementarem o direito à habitação e de eficazmente lidarem com o problema d@s sem-abrigo. Os Estados devem dar passos imediatos para lidar, como questão prioritária, com as causas estruturais subjacentes às situações de sem-abrigo visando a sua eliminação em 2030. Dentro desse contexto, as medidas adotadas pelos governos nacionais e locais devem prevenir que @s jovens LGBT se tornem sem-abrigo, assegurando que as políticas e os programas de habitação sejam inclusivos em relação às pessoas LGBT e que lidam com as necessidades da juventude LGBT.»

A versão integral da declaração pode ser lida aqui [em inglês].

 

Fonte: OHCHR

Ser homossexual numa comunidade pequena: sexualidade sem referentes num ambiente particularmente heteronormativo

Fotografia: Agência EFE

 

Por cada dez casamentos heterossexuais que se celebraram em 2016 em Espanha, pouco mais de 0,25 foram entre pessoas do mesmo sexo, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE). Na Cantábria, este número atinge valores ainda mais baixos e são somente 0,16 os casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Extrapolando para percentagens, a Espanha está quase um ponto acima da Cantábria e, longe de ser um facto casual, partilha parâmetros com os anos anteriores, pelo que, ainda que algumas comunidades aumentem a percentagem global, outras como Cantábria diminuem-na.

No cerne da questão dos casamentos, surge o tema da visibilidade. «Enquanto que Cantábria está acima de outras comunidades como Castela e Leão, também está abaixo de outras e estes dados são disso exemplo», cometam elementos da Associação de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexuais de Cantábria (ALEGA)

 

A presidente da associação, Kiara Brambilla, considera que, ainda que seja «evidente» que a instituição do casamento está a perder importância, «que esta visibilidade seja tão baixa na Cantábria, sem dúvida que afeta na hora de se casar», assinala.

 

Outra das presentes considera que o dado «não é casual». «Todos os meus amigos homossexuais e eu mesma estamos com alguém dentro do armário. Talvez estes dados surjam porque as pessoas não se casam aqui e preferem escolher outro lugar para se sentirem mais livre», indica.

 

Dentro da comunidade autónoma existem diferenças entre viver nas cidades e viver nas aldeias. «Eu sou de Santoña e aí não saí do armário porque toda a gente me conhece e isso implica que toda a gente te vai julgar e o mesmo que acontece comigo, acontece a muitos dos meus amigos», comenta um dos elementos da ALEGA.

 

Essa mesma rapariga admite que já deu o passo em relação à família, ainda que também tenha tido alguns contratempos. «Recordo-me de um dia o meu irmão me ter chamado de lésbica e eu fiquei super ofendida. Para mim, chamarem-me lésbica era um insulto».

 

Os referentes também desempenham um papel importante, já que, assim como nas cidades é mais fácil encontrar exemplos quer no ambiente mais próximo quer na rua, numa comunidade pequena isso é mais complicado. «Não ter exemplos próximos faz-te seres a tua única referência. No meu caso, somente me conhecia a mim como lésbica e assim foi até aos 18 anos», argumenta outra das participantes.

 

Foto: Agência EFE

 

Com o passar dos anos, esses exemplos começaram a aparecer na televisão e deixámos de nos sentir como «os únicos gays, bi, trans e lésbicas do mundo». «Recordo-me de Xena, a princesa guerreira e das lésbicas de Hospital Central», diz uma das raparigas presentes.

 

Apesar disso e da «normalização» que se foi sucedendo à medida que os anos passavam, alguns deles confessam que nalgum momento chegaram a desejar ser heterossexuais «porque a vida é mais fácil», defendem. «O problema é que não podes escolher, mas a heteronormatividade é tão poderosa que, às vezes, faz com que nem te questiones. Eu era super-hetero, ia casar com um homem, ia ter filhos... E se não me chego a apaixonar por uma colega de colégio, provavelmente agora mesmo seria heterossexual», afirmam a partir da ALEGA.

 

Outra das raparigas admite que também pensou em como seria ser «hétero», «mas não mais do que uns minutos». «Estou orgulhosa de ser lésbica e daquilo que construi graças a isso, mas tive momentos em que me sentia mal devido à minha condição sexual e foi assim que pensei que se tivesse nascido heterossexual teria podido evitar estes desgostos», defende a jovem.

 

«Se tivesse podido escolher a minha sexualidade, não teria escolhido ser lésbica», sublinha uma das presentes. Pouco depois retifica «Na realidade, a solução não está em ser heterossexual, mas em que deixe de haver homofobia», conclui.

 

Parece indubitável que essa pressão e esse medo de não encaixar aumenta enormemente à medida que os habitantes da tua aldeia ou cidade diminuem, ainda que, de acordo com outro participante, «também não é algo que se possa generalizar». «Não é o mesmo ser gay em San Roque de Riomiera ou em Santander, estou de acordo. Contudo, tudo depende da experiência pessoal de cada um».

 

Outra das raparigas reitera a afirmação do seu companheiro, ainda que insista que dentro da generalização, os lugares com menos habitantes «acrescentam» essa falta de normalização no que se refere à homossexualidade. «Estás habituado a conhecer a lésbica ou o gay da aldeia e tu não queres ser como eles. Não porque não queiras ser homossexual, porque o és, mas porque queres ser tu, sem que o teu nome surja sempre acompanhado pela palavra «lésbica» atrás».

 

O futuro e a aceitação

Pese embora essa falta de visibilidade à qual aludem constantemente, muitos dos presentes na reunião reconhecem conhecer pessoas com vida dupla por não quererem mostrar a sua condição sexual. «Ainda que a mim me gostasse que se mostrassem como são porque isso contribuiria para a visibilidade, não podemos exigir a alguém que faça algo que não quer fazer. É um caminho complicado e não podemos cair em obrigar alguém a fazê-lo. Por muito que isso nos doa», assinala a presidente.

 

A partir do ponto de vista da bissexualidade, tal como relatam, é mais «simples» já que têm «mais facilidade» para encaixar na sociedade. «Se uma pessoa é bi pode escolher o caminho normativo, enquanto que uma pessoa não deseja ser hétero porque o pode ser», argumentam. Pelo lado contrário, a parte negativa é o «grande estigma» como qual têm de se confrontar. «As pessoas reagem muito mal à bissexualidade e dizem que gostas de tudo, que dás tudo... E não. Tal como acontece contigo, a mim também não me agrada tudo», afirmam.

 

No que tod@s parecem estar de acordo é que este fosso geográfico é cada vez menor. «Se compararmos o ser gay há 20 anos em Madrid e sê-lo na Cantábria, a diferença era enorme. Agora ainda o é, mas cada vez menor», diz um dos veteranos do grupo.

 

Finalmente, tod@s dizem que se há uma conclusão a tirar é a de que @s jovens homossexuais de hoje na Cantábria «sofrem menos» do que el@s sofreram. «Agora estamos no Orgulho e vemos pais que compram bandeiras para @s filh@s com uma total normalidade, coisa que antes era impensável».

 

Fonte: eldiario.es

«Os gays com deficiência também jogam, vão a festas e apaixonam-se»

Foto: Óscar Ibm

 

Gustavo Martínez tem 26anos, vive em San Luis Potosí, México, e é parte de uma minoria entre as minorias: nasceu com uma condição congénita denominada «osteogénese imperfeita», vulgarmente conhecida como doença dos «ossos de vidro», pelo que se desloca numa cadeira de rodas desde os 6 anos. Aos vinte dias após o seu nascimento sofreu uma fratura e os médicos prognosticaram-lhe uma morte inevitável nos primeiros meses de vida.

 

A osteogénese imperfeita, ou osteogenia imperfeita, é uma doença que debilita os ossos até ao ponto de que estes se partem com grande facilidade, ou sem nenhum motivo. Para além disso, em algumas pessoas pode também causar músculos débeis — o que impossibilita a quem padece da doença a realização de atividades quotidianas —, graus diversos de surdez e dentes quebradiços.

 

Gustavo apresenta uma variante de osteogénese imperfeita na qual os genes de ambos os progenitores falharam e por isso o seu padecimento manifestou-se desde muito cedo. Antes de ser diagnosticado, a sua mãe esteve sob suspeita de maus tratos infantis, pois era muitíssimo raro que um bebé com uns quantos dias de vida apresentasse uma fratura. Imediatamente as análises revelaram a presença da «doença dos ossos de vidro» e a sua mãe foi ilibada da suspeita.

 

Ao ver-se impossibilitado de caminhar, Gustavo não teve uma infância típica, mas esta também não foi uma telenovela trágica, como alguns imaginariam. Ele mesmo recorda-se como um diabinho, que andava por todo o lado com a sua cadeira, ou arrastando-se com o ímpeto que a idade lhe dava, sem dar demasiada importância às fraturas que a sua atividade intensa poderia provocar.

 

Mais tarde chegou a participar em jogos de basquetebol e «cachibol» para pessoas que se deslocam em cadeiras de rodas. Ainda que houvesse atividades nas quais não podia participar de forma ativa, também aprendeu a divertir-se vendo as outras crianças jogar. Longe de se sentir excluído desfrutava desses momentos. Encontrou no papel de espectador uma forma de se integrar no mundo.

 

Porém, foi no seu despertar sexual, ao chegar à puberdade, quando um conflito interno começou a apoderar-se dele. Ainda que tivesse sobrevivido a mais de sessenta fraturas antes dos 12 anos e tivesse tido de superar momentos difíceis, teria que superar uma prova adicional: ser um homem atraído por outros homens. Por isso, quando conheci um pouco da sua história fiquei com um enorme desejo de o entrevistar. Soube que ele era a pessoa certa para falar de temas que tocam muito pouco quando se aborda o tema das pessoas com deficiência: a vida sexual, o enamoramento e a loucura.

Foto: Óscar Ibm

 

Sentiste a discriminação típica do Grindr? Porque nos perfis há cada vez mais frases como «nada de feios», «nada de gordos», «somente machos» e um grande etc... Sim, (risos)! Claro que senti, mas não há outra maneira senão aprender a lidar com o modus operandi dessas aplicações. Também por isso já as deixei um pouco de lado e elas não são o meu forte. Porque, para além disso, nas apps passa-se muito algo que até me faz rir, quando as pessoas me dizem: «Ei, mas somente vamos ter relações sexuais; É algo de uma só vez, não te apaixones». Às vezes, para ver o que respondem escrevo: «Sim, aquele que vai acabar bem enamorado és tu». Muitas pessoas acreditam que por ter esta incapacidade estou eternamente necessitado de afeto. Que cansaço!

 

Pois bem, também não és um insensível, suponho que te apaixonas como toda a gente, não é verdade? Claro. Imagina que a primeira vez que me apaixonei por outro homem tinha 17 anos e ele nunca o soube porque nunca me atrevi a dizer-lhe. Mas aos 19 anos tive a minha primeira relação e estava tão emocionado que até saí do armário perante os meus pais e disse-lhes: «Sou gay e para além disso tenho noivo!» E não foi nada difícil com os meus pais, foi mais difícil aceitar-me a mim mesmo como gay portador de deficiência.

 

E a par deste processo também ias à universidade. Que estudaste? Estudei Técnicas de Mercado Internacional e terminei em 2013. Mas antes disso também me envolvi em trabalhos de ativismo e direitos humanos. A minha incapacidade nunca me impediu de voar. Pago as minhas contas, sou uma pessoa independente.

 

Como é ir a um bar sendo uma pessoa portadora de deficiência? Homem, há que mudar essa mentalidade. Não somos crianças, as pessoas portadoras de deficiência também gostam de se divertir. Eu, inclusive, tenho a fama de que sou a destruição em pessoa, porque se já sou intenso na minha vida do dia a dia, agora imagina-me na farra. Não é que fique sempre embriagado, mas divirto-me muito. Qualquer pessoa que me na maluquice há de pensar que estou bêbado, mas não.

 

E aí não houve discriminação? Em coisas bem mais subtis. Por exemplo, quando vou a um bar com um amigo, o meu amigo converte-se no «salvador». Dizem-lhe coisas do tipo como é porreiro que vá comigo; que é a melhor pessoa do mundo. Também não fata o bêbado típico que levou uma tampa e se aproxima de mim no final porque pensa que comigo vai acontecer algo porque me vê de cadeira de rodas.

 

E no bar nunca te colocaram problemas para entrares? É que eu nem pergunto, entro e já está. Ganhando como sempre. Assim como há o bar que me ignora e me deixam passar como o fariam a qualquer outra pessoa, também há os que se desviam e até abrem caminho para que passe. Porém, pessoalmente prefiro que me ignorem. Durante anos houve bares que não me cobravam as entradas e eu queria que cobrassem! Eu não quero favoritismos devido à minha condição e se quero um tratamento igual tenho que dar o exemplo.

 

Qual é a mensagem que queres deixar com esta entrevista? Que todos se atrevam a ser quem são apesar do que os rodeia. Se isso incomoda os outros, «temos pena». Fiquem sabendo que é a primeira vez que falo da minha vida privada desta forma e o objetivo não é ser o centro de atenção, mas antes falar sobre uma realidade da qual se fala muito pouco e se mais pessoas se atrevessem a falar disso, seria muito mais comum. É como derrubar um segundo armário.

 

Saibam que existe a diversidade dentro da diversidade, que as pessoas portadoras de deficiência também se divertem, sentem desejo, têm ereções e desfrutamos da nossa sexualidade. Que nós também saímos, nos divertimos e nos apaixonamos. E ainda que alguns se incomodem com isso — talvez até a minha família se sinta incomodada pelo que leu aqui —, isso não importa. Eu sei quem sou e oxalá isto sirva para que se comece a falar sobre estes temas.

 

Fonte: Vice

Abdelá Taia, o menino pobre que despertou a consciência homossexual em Marrocos

Foto: New York Times

 

O primeiro intelectual a sair do armário no seu país é hoje um narrador sólido e prestigiado cuja obra trata de averiguar como ser marroquino e homossexual sem deixar de ser nenhuma das coisas.

 

Abdelá Taia (Salé, 1973) assegura que quando era criança nunca pensou em tornar-se escritor e ainda menos num motivo de escândalo. O primeiro intelectual marroquino a sair do armário assumiu o seu destino como algo que lhe foi dado. «Ser escritor era um sonho de menino pobre», explica aquando da publicação de «Ele que é digno de ser amado» (Cabaret Voltaire), uma novela que, como grande parte da sua obra, começa com o Marrocos da sua infância. «Os sonhos eram coisas que aconteciam na televisão. Sabia que nunca se cumpririam, porque era verdadeiramente muito pobre. Mesmo quando, mais tarde, conheci um suíço, juntei-me com ele, conclui os meus estudos de literatura francesa em Genebra, fui para Paris e comecei a escrever, continuei empenhado na escrita, mas sem pensar que esta pudesse interessar a alguém».

 

Tudo mudou no verão de 2005. A televisão marroquina produziu uma série sobre artistas marroquinos no estrangeiro e Taia protagonizou um documentário de 30 minutos. «Foi sensacional», recorda. «As pessoas em Marrocos viram que eu era um bom rapaz, humilde, sem arrogância, que falava bem francês e tinha escrito um livro. Eu representava um motivo de orgulho porque no vídeo saía por Paris, no Bairro Latino, passeando pelo Louvre... Isso, para os marroquinos, são coisas importantes. E pensaram que tinha triunfado. É assim que poucos meses depois, em janeiro de 2006, saiu o meu novo livro, fui apresentá-lo em Marrocos e disse que era homossexual». É então que o herói se converte em escândalo.

 

Há mais de três décadas que Taia vive autoexilado em Paris, onde escreveu e publicou uma dezena de novelas. Porém o fosso, assegura, continua intacto. «Quando tornei pública a minha homossexualidade tive bastante medo. Um medo físico, no estômago, na pele, porque na minha cabeça os meios de comunicação social estão sempre ao lado do poder. Nos media somente falam os poderosos, os ricos e alguns intelectuais bem instalados que são evidentemente burgueses», denuncia. «Eu era pobre, falava de homossexualidade, da sociedade marroquina, de sobrevivência e de literatura e de que estava muito só. É certo que a imprensa marroquina se estava a esforçar por falar objetivamente do tema, mas eu continuava estando sozinho».

 

A situação paradoxal da vivência homossexual em Marrocos é um dos temas centrais da sua obra. «Na minha adolescência alguns filmes de Almodóvar eram considerados de porno soft, pelo que podiam ver-se nas salas de cinema erótico às quais toda a gente ia. Foi aí que vi, em sessão contínua, «A Lei do Desejo» e «Amarra-me», que foram muito populares. Recordo mesmo ter visto «A Lei do Mais Forte» de Fassbinder ou «Noites Felinas». Filmes que falavam claramente da homossexualidade. Tudo isto num cinema marroquino, em 1992. Como lá chegaram? É um mistério... mas hoje isso seria impensável».

 

A partir do seu exílio parisiense, Taia seguiu de perto a revolução do movimento LGBT em Marrocos. «Para mim existem dois momentos bem diferenciados», explica. «A partir de 2004 ou 2005, quando eu comecei a falar, houve um período em que se permitiu que as pessoas se exprimissem. Os jornalistas marroquinos faziam autocrítica e começavam a falar de forma objetiva dos homossexuais. A associação LGBT fundou uma revista em árabe e, de certo modo, havia uma brisa de mudança que, quase sempre, vinha da classe média ou baixa, à qual eu pertencia». A mudança chegou após a primavera árabe de 2011, uma época «de imensa consciência política». «Posteriormente a sociedade evoluiu de outra forma, mas lembro-me que em Marrocos, durante o movimento do 20 de fevereiro, uma das coisas que se pediam era a despenalização da homossexualidade. Estava no programa. Hoje estamos noutro período no qual o poder deixou bem claro que, em Marrocos, não quer mudanças. E não falo do governo nem dos islamitas, mas das estruturas do poder em geral. De todos os poderosos. Antes do islamismo já existia uma lei que criminalizava a homossexualidade. Sem ir mais longe, os socialistas marroquinos nada fizeram para a mudar quando estiveram no poder».

 

No entanto, explica ele, a legislação rígida não impede uma certa liberdade que encontrou um canal natural através das redes sociais. «Desde há uns anos há algumas superestrelas do Youtube que são LGBT. Alguns deles são transgéneros. Para os legisladores essas pessoas não existem. Porém, falam a milhões de pessoas». Nos últimos tempos, o ativismo de Taia tornou-se mais intenso. Particularmente desde a publicação, em finais de julho deste ano, de uma coluna no Le Monde onde defendia a despenalização da homossexualidade em Marrocos.

 

Daí não é difícil saltar para outra questão espinhosa: a do mito de Marrocos como paraíso homossexual, fomentado durante boa parte do século XX por ocidentais que chagavam ao país magrebino atraídos pela lenda da extrema liberalidade marroquina, especialmente dentro de portas. «Não sei se Marrocos é um paraíso homossexual, ainda que talvez o tenha sido para Paul Bowles, Tennessee Williams ou Jack Kerouac», responde. «Bowles encanta-me, mas o que diz segue o despertar do orientalismo e do colonialismo e mesmo de uma certa depravação muito anglo-saxónica que consiste em ir em busca de selvagens para experimentar o paraíso primitivo. Porém, essas pessoas nada fizeram para ajudar os marroquinos e muito menos para ajudar os homossexuais marroquinos. Iam para ter sexo barato com jovens marroquinos e fumar haxixe. Tão simples quanto isso». Questionámo-lo acerca de outro ardente defensor da cultura marroquina, Juan Goytisolo, que Taia conheceu. «Bom, Goytisolo era outra coisa. Sempre defendeu a cultura árabe, defendeu-a por escrito, escreveu muitíssimo sobre ela e foi atacado por isso. Os seus livros estão tão impregnados da estrutura e da estética da cultura árabe que creio que conhecia a cultura árabe melhor que eu, por exemplo. Goytisolo não tem nada que ver com Bowles ou Kerouac. Temos de ser justos com ele».

 

Que é, então, feito dessa afirmação de que a homossexualidade, em Marrocos, se pratica, mas não se menciona? «Todo o ser humano tem necessidade de sexo e é indiferente que esteja no Sudão ou na Áustria ou em Marrocos ou no Chile. Assim qualquer um o faz apesar da lei, das proibições e dos tabus. Há tabus em todas as partes, mesmo no mundo literário de Paris, onde há muitos homossexuais casados e dentro do armário. Os tabus estão muito mais arreigados na alma humana do que a lei. Do mesmo modo o estão a lei e o poder e as pessoas de Marrocos não são tontas. Sabem que se falam abertamente vão parar à prisão ou expõem-se às críticas. A lei não as obriga a serem hipócritas, mas a protegerem-se e a protegerem-se dos olhares dos outros, que poderiam denunciá-las ao poder. Então, em vez de falarmos de sociedades muçulmanas homófobas, porque não podemos tratar toda uma sociedade de um modo tão elementar, devemos apontar para a lei e perguntarmo-nos a razão pela qual o poder não quer dar a liberdade às pessoas, pelo que estas devem roubá-la como podem. E não o digo para defender Marrocos. Contudo, um escritor deve aprofundar e entender o contexto no qual as pessoas se movem. Desde as revoluções árabes que muitas coisas se passaram e já não se pode falar destas sociedades da mesma forma que antes, a partir desse orientalismo cómodo».

 

No «O Exército de Salvação» (2006), que o mesmo levou à tela em 2013, Taia narra a sua chegada como imigrante à Suíça. No «Aquele que é digno de ser amado», a voz do protagonista, Ahmed, já não é a do menino marginalizado, mas a de um homem em busca de um enraizamento impossível. «Quando cheguei a Paris, em 1998, não tinha medo. Desejava conquistar a cidade como os heróis das novelas de Balzac ou de Zola. Não temia bem os burgueses nem as editoras. Contactei com toda a gente, não tinha vergonha, era quase um arrivista. Em Marrocos, quando via um marroquino rico, sentia-me pequeno. Porém, em Paris não me sentia pequeno. Desta forma passei ao largo do racismo. O racismo contra os árabes e os muçulmanos não me afetava. A vida não era fácil, frequentemente não tinha que comer, mas isso não era grave, porque estava em Paris, uma cidade onde podia mesmo cruzar-me com Isabelle Adjani”, brinca.

 

«Contudo, chegou um momento em que a solidão e as dificuldades se traduziram em ataques de pânico», lembra. «Se me perguntas, dir-te-ia que não me sinto exilado. Há vezes em que fico deprimido, mas deito-me, durmo, levanto-me e já está. Nunca dura mais de dois dias. Na minha cabeça não sou um exilado, mas o corpo tem outra consciência que acaba impondo a sua verdade ao espírito», sublinha. «A minha cultura e as minhas leituras de Voltaire ou Proust protegem-me, mas só mentalmente. O meu corpo continua vinculado sentimentalmente à lógica de outra terra. E o corpo, curiosamente, pede limites, que não são os do racismo, mas aqueles que experimentavam na terra natal». Esse é o tema central da sua novela mais recente, cujo protagonista, Ahmed, tal como Taia, já passou dos quarenta. «Tem o coração seco», explica. «Foi à universidade, tem cultura, é bem-falante, tem um noivo francês e cumpre todos os requisitos para sentir-se livre no sentido francês do termo. E dá-se conta que para tornar-se livre teve de matar uma parte de si, do mesmo modo que, em Marrocos, teve de sacrificar uma parte de si mesmo para que não o violassem ou matassem por ser homossexual». Neste ponto não é difícil reconhecer no personagem traços do próprio autor. «Eu, por exemplo, tive que deixar de ser efeminado para os rapazes não me insultassem», recorda. «Para existir tive que deixar de existir, de certo modo. É algo muito característico da vivência homossexual, em que às vezes o essencial não deve ser nomeado e a verdade não deve ser dita para sobreviver. Às vezes é preciso inventar um espaço no qual existir sem existir».

 

A literatura mais recente de Taia aborda essas questões num doloroso processo de exame de identidade que, assegura, não mitiga os dilemas internos. «Não é por nos convertermos em artista ou escritor que tudo se resolvo connosco», responde. «Os problemas, as neuroses, as feridas continuam lá. A arte não cura as feridas. Rouba a vida do artista, mas não a cura. Estou convencido disso. Para mim não há efeitos catárticos na escrita».

 


Fonte: El País

 

Foi assim que sobrevivi ao bullying no meu colégio por ser gay

Entrei para um colégio cristão a partir do 6.º ano. A minha mãe gostou muito desta instituição, porque segundo ela eu iria ter bons amigos. Contudo aquilo que verdadeiramente aconteceu foi que essas pessoas me destruíram. Foto: Juan Carlos Soriano.

 

O meu nome é Daniel*, sou advogado, tenho 23 anos e, sendo gay, estudei seis anos num colégio cristão do norte de Bogotá. Como é que o fiz? Antes de responder é necessário que conte a minha história e o que tive de passar por ter tomado a decisão de mostrar o que realmente sou.

 

Quando penso na minha infância as memórias que me chegam são curtas e breves. Lembro-me que quando tinha três anos os meus pais separaram-se. Nessa altura comecei a viver sozinho com a minha mãe, pois o meu irmão e a minha irmã já tinham a vida organizada.

 

Nessa idade a minha vida era como a de qualquer menino: brincava, mas nunca com carros ou bonecos; via televisão; durante a semana ia ao jardim e também ia à igreja ao domingo com a minha mãe.

 

Comecei a ser cristão não por escolha, mas por obrigação. Os meus pais e a minha família pertenceram a essa religião durante vários anos e eu devia continuar a tradição.

 

Os meus 5, 9 e 12 anos são datas que igualmente recordo. Não porque tenham acontecido coisas coo aquelas que normalmente acontecem a uma criança: ter o brinquedo de sonho, ou aprender a andar de bicicleta, mas porque fui violado nessas idades.

 

Em três ocasiões três primos abusaram de mim quando a minha mãe me deixava com eles, sobretudo por ir trabalhar e oferecer-me o que sempre tinha querido pelo natal.

 

Contudo, essa não é exatamente a história que quero contar. O que quero reter é o bullying, a chacota, os desejos de não viver mais, o confronto com a realidade, as forças que tirei de dentro de mim e a felicidade que sinto em estar com um homem.

 

Nono ano

Entrei no colégio cristão a partir do sexto ano. A minha mae gostou daquela instituição, porque segundo ela ia consagrar-me mais a Deus e ia ter bons amigos. Porém, o que verdadeiramente aconteceu foi que essas pessoas me destruíram e acabei afastando-me mais do cristianismo.

 

O sexto, sétimo e oitavo ano foram normais para mim, exceto numa coisa: sempre passei mais tempo com mulheres do que com homens sem saber porquê. Simplesmente sentia-me melhor tendo amigas.

 

No nono ano, quando tinha 14 anos, foi quando tudo começou. Os meus colegas começaram a criticar-me e a julgar-me porque tinha comportamentos femininos e porque nunca convivia com homens.

 

Nos corredores, nas salas, no parque, nos campos de jogos e até na cantina escutava comentários de que era gay. «O Daniel é maricas», «O Daniel é uma mulher», «O Daniel gosta de beijar homens», «O Daniel é um pecador», era o que diziam quando me viam.

 

E não faziam pior porque os professores estavam constantemente a observar-nos, mas faziam questão de se assegurar que eu os ouvia.

 

Eles acreditavam que se eu fosse gay estava a cometer um pecado muito grave e que devido a esse pecado iria para o inferno. Algumas vezes acercavam-se de mim e diziam-me que eu não era cristão, porque não gostava de mulheres. Diziam-me que estava a desobedecer ao que a Bíblia dizia porque não estava a cumprir o desígnio de Deus (o homem estar com uma mulher) e que por isso não ia estar em graça diante dele e não iria poder ter uma boa relação com ele.

 

Não somente diziam estas coisas como também se riam de mim, faziam «cara de mau» e quando tínhamos de fazer trabalhos de grupo ninguém os queria fazer comigo.

 

Em relação a tudo isso eu não dizia nada, atuava frio e sem dar-lhe importância, mas por dentro sentia cada palavra, gesto e olhar que me destruíam. Eles estavam a descrever em mim uma identidade que eu não sabia que tinha ou que, talvez mais correto, não tinha a ousadia de explorar.

 

Após um dia cheio de críticas chegava a casa, fechava-me no quarto e punha-me a chorar. Perguntava-me quem era, pensava por que tinha que ser o gozo dos meus companheiros e questionava-me por que se Deus é amor e todos éramos cristãos, por que tinham que fazer isso comigo.

 

Sofri de ansiedade durante esse tempo todo. Perdi seis quilos e deixei de fazer aquilo que mais gostava que era cantar. No sexto, sétimo e oitavo ano estava no coro, mas no nono saí porque começaram a gozar com a minha voz fina.

 

Encontrei refúgio no álcool e no cigarro, a única coisa que queria era escapar da minha realidade. Não regressei à igreja aos domingos e a minha bíblia que sempre estava em cima da minha mesa de cabeceira, escondi-a.

 

Até esse momento não tinha contado nada à minha mãe, porque não a queria sobrecarregar ainda mais comos meus problemas, tentando ocultá-los o melhor que podia. Contudo, um dia, toda essa dor e raiva acabaram saindo de dentro de mim.

 

Lembro-me que uma tarde havia um evento no colégio e estávamos todos reunidos no campo de futebol. O reitor estava a falar através de um megafone e pediu que só as mulheres parassem. Nesse instante pude escutar um colega que me disse, em frente a toda a gente, para parar porque era mulher.

 

Quando cheguei a casa fiz o que já havia convertido na minha rotina: chorar. No dia seguinte decidi não apanhar o autocarro do colégio e escapar-me, ir para longe e perder-me.

 

A minha mãe encontrou-me durante a tarde e repreendeu-me. Depois de a escutar contei-lhe o que se estava a passar, dizendo-lhe que no colégio estavam a dizer que eu era gay. De início ela ficou irritada, mas depois sentou-se na minha cama, abraçou-me e disse-me que independentemente do que fosse ela não iria permitir que me machucassem.

 

Ela foi falar com o reitor sobre o assunto e considerou mesmo mudar-me de colégio, mas sentia que já não faria diferença fazê-lo, pois o dano já estava feito. Suponho que lhe contei muito tarde sobre o bullying.

 

Décimo ano

No décimo ano, o colégio resolveu não renovar a matrícula à pessoa que tinha publicamente dito que eu era gay.

 

No início desse ano, o reitor entrou na minha sala de aula e pediu aos meus colegas que me pedissem desculpas por qualquer comentário feito. Eles assim o fizeram.

 

Esperei que depois disso o psicólogo ou o padre me chamassem, que falassem comigo, que me perguntassem como me sentia, que me dessem indicações, ou que ao menos me repreendessem porque se fosse gay estava a cometer um pecado. Porém, ninguém o fez.

 

É de supor que se é um colégio totalmente cristão, se deve preocupar com os teus problemas, deve ajudar-te a sentires-te melhor, deve rodear-te do amor de Deus, mas a mim nunca me ajudou.

 

Nunca me falaram sobre identidade de género. As coisas que aprendi e com as quais estava a lidar fi-lo sozinho, com a ajuda dos meus amigos do grupo e da internet.

 

A partir desse dia, no qual me pediram perdão, todos começaram a comportar-se de modo diferente. Os trabalhos de grupo já não eram um martírio, porque de um modo estranho todos queriam fazê-los comigo. Não voltei a escutar nenhum comentário sobre mim e os homens começaram a oferecer-me amizade.

 

Posso afirmar que esse ano foi um tempo de tranquilidade. Graças à ausência das críticas pude concentrar-me em mim e em encontrar a minha identidade. A resposta tive-a quando deixaram de me fazer bullying.

 

Os meus amigos do grupo foram os que me ajudaram a resolver a situação. Eles, muito diferentes daqueles do colégio, explicaram-me muitas coisas que depois ia e comprovava na internet.

 

Não partilhavam comigo a Bíblia, nem me discriminavam porque estava a desobedecer ao que nela se dizia. Eles nunca se interessaram em saber do que eu gostava e ainda menos me julgaram por isso.

 

Com eles percebi que sentia uma atração emocional por homens; entendi que queria escutar um «amo-te» de uma voz masculina; que queria apoiar-me no ombro de um homem e dar-lhe a mão.

 

Sentia que sendo gay estava a fazer aquilo que, desde pequeno, semre tinha querido ser. Porém, agora dizer a verdade à minha mãe era aquilo que me incomodava.

 

Décimo-primeiro ano

Foi num dia 31 de dezembro, pronto para entrar no 11.º ano, quando enfrentei a realidade.

 

Estava a fazer o meu cartão de desejos para o ano seguinte, que tinha quatro áreas: académica, laboral, económica e emocional.

 

Para esta última área tinha recortado um casal heterossexual com filhos e estava-os a colar quando a minha mãe se acercou de mim e me disse ao ouvido: «Deus vai dar-te aquilo que desejas e não o que estás a colar aí.»

 

Fiquei surpreendido, pensei que ela não se tinha apercebido de tantas coisas pelas quais tinha passado e do que urgentemente pedia para sair de mim.

 

Nesse dia não disse nada, mas no dia 1 de janeiro de 2011 decidi falar com ela sobre o assunto e começar a mostrar o que era.

 

Convidei a minha mãe para irmos comer um gelado e no caminho disse-lhe. Antes sequer de pronunciar a palavra «gay», ela disse-me: «Espera! Já sei o que vais dizer e somente quero dizer-te que para mim sempre serás um homem, quer gostes de mulheres ou de homens. Para mim sempre serás homem e apoio os teus gostos».

 

Ao escutar as suas palavras fiquei com lágrimas nos olhos e ela também. Abraçamo-nos em plena rua e pusemo-nos a chorar.

 

Desde esse dia que sou abertamente gay. Depois de sete anos a sê-lo, posso dizer que sobrevivi graças ao valor, à força e à vontade de mostrar ao mundo que não há uma etiqueta no que diz respeito ao amor e que os paradigmas estão concebidos para tornarem @s que são diferentes infelizes.

 

Também me ajudou a meditação. Ajudou-me porque através dela tive tempo de pensar o que quero.

 

Os meus amigos do grupo desempenharam um importante papel neste processo. Sobrevivi graças ao facto de saberem escutar, aconselhar, respeitar e tolerar. Ao facto de terem compreendido que uma pessoa nunca pode machucar alguém devido aos seus gostos.

 

Agradeço ao gozo dos meus colegas do colégio cristão, porque me fizeram mais forte; porque sem o querer ajudaram-me a explorar o que sentia desde que nasci.

 

Hoje em dia, sou cristão por escolha e penso que graças a Deus pude sair e avançar neste processo. A minha relação com ele não se encontra afetada pelo facto de eu ser gay, como sempre me disseram no colégio. Pelo contrário, sinto que se fortaleceu mais.

 

Consegui separar as pessoas e Deus. Durante muito tempo tive raiva dele devido ao que estava fazendo passar, mas acabei por perceber que não era culpa sua.

 

Por último, sobrevivi escutando e seguindo o meu interior. Não foi fácil e não o é, sempre estamos expostos às críticas e ao gozo, mas quando se é feliz nada mais importa, tudo desaparece.

 

Todos os dias digo a mim mesmo: tenho pena de ti sociedade se não gostas, mas este sou eu. Sinto muito, mas estou a seguir aquilo que arde no meu coração: ser gay!

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* DANIEL é um nome fictício que se incluiu a pedido do autor.

 

Fonte: El Tiempo.

Desde 2014 que cerca de 1300 pessoas LGBTI foram assassinadas na América Latina

Manifestação LGBTI em Berlim. EFE/EPA/OMER MESSINGER

 

Os homicídios ocorreram num «cenário de retrocesso» perante «uma onda conservadora que segue um modelo de sociedade desigual, que exclui e reacionário» na região, assinala a nota da Rede Regional de Informação sobre Violências LGBTI na América Latina e Caribe.

 

Cerca de 1300 pessoas da comunidade LGBTI foram assassinadas na América Latina entre janeiro de 2014 e junho de 2019, a maior parte delas na Colômbia, México e Honduras, segundo uma informação regional dada a conhecer no passado dia 8 de agosto em El Salvador.

 

O documento denominado «O preconceito não conhece fronteiras», dá conta de 1292 homicídios de membros do coletivo LGBTI em nove países da América Latina e do Caribe, no referido espaço de tempo.

 

Os assassinatos ocorreram num «cenário de retrocesso» perante «uma onda conservadora que segue um modelo de sociedade desigual, que exclui e reacionário» na região, assinala a nota da Rede Regional de Informação sobre Violências LGBTI na América Latina e Caribe.

 

A maioria das mortes violentas destas pessoas concentram-se na Colômbia, México e Honduras, com 1108 casos, que representam 85,7% do total.

 

As vítimas na sua maioria são homens gays e mulheres trans com idades compreendidas entre os 18 e os 25 anos, mas em países como a República Dominicana registam-se homicídios de jovens com mesmo 13 anos de idade.

 

Na Colômbia, Perú, República Dominicana e Paraguai as vítimas são principalmente assassinadas com um «objeto cortante ou pontiagudo», enquanto que no México, Honduras, Guatemala e El Salvador são utilizadas armas de fogo.

 

«Apesar destes dados tão alarmantes, os Estados da região continuam sem definir linhas claras e efetivas para prevenir, investigar e sancionar adequadamente a violência contra as pessoas LGBTI», adverte-se no documento, elaborado com dados de diversas organizações sociais.

 

Acresce que estas mortes «têm impacto de maneira desproporcionada num grupo tradicionalmente excluído» e muitas delas estão motivadas em preconceitos sociais. «A mensagem destas violências é clara: as pessoas LGBTI devem ocultar a sua sexualidade e identidade em troca de permanecerem vivos», sustenta o estudo.

 

A nota não reflete os dados recolhidos no Brasil, onde as «projeções preliminares» situam em 1650 os assassinatos, com os quais o número de homicídios poderia ultrapassar os 2900.

 

A situação das mortes violentas de pessoas LGBTI do Brasil será dada a conhecer numa nota posterior e em data ainda a revelar.

 

Segundo o documento apresentado em São Salvador, o Brasil «é, provavelmente, um dos países que apresenta, na região, maiores retrocessos» em matéria de direitos humanos relativos a este setor da população.

 

No passado dia 28 de junho, durante a comemoração do 50.º aniversário da Revolta de Stonewall, o governo brasileiro pôs fim ao Conselho Nacional LGBTI.

 

Uma situação semelhante registou-se em El Salvador com a chegada de Nayib Bukele ao executivo no dia 1 de junho passado, ao eliminar a Secretaria de Inclusão Social, sem a qual «não há aplicação» das políticas em prol da comunidade da diversidade sexual deixadas pela anterior Administração.

 

Fonte: Público

Um jogador gay de futebol profissional saiu do armário e somente recebeu amor e apoio

Andy Brennan saiu do armário em maio

 

Andy Brennan tornou-se, no passado mês de maio, no primeiro jogador masculino australiano a sair do armário como gay. Quase três meses depois, ele não lamenta em nada esse passo.

 

«A reação tem sido maravilhosa», disse Brennan ao Daily Telegraph. «Não tive qualquer comentário negativo. Era algo que temia bastante, mas toda as pessoas - colegas de equipa, família, amig@s - têm sido maravilhosas.

 

«Também não tive qualquer oposição por parte dos fãs, todas as pessoas têm sido verdadeiramente solidárias comigo. A maneira como isso afetou a minha vida tem sido somente positiva, tem sido muito melhor assim».

 

É assim que tem sido em todos os casos em que alguém tem saído do armário no desporto como gay, lésbica ou bi desde que tenho vindo a publicar Outsports (as atletas trans, particularmente as mulheres, infelizmente recebem frequentemente reações negativas misturadas com as positivas). E isso faz-nos pensar, desde há muito tempo, a razão porque mais pessoas deem o mergulho.

 

Brennan, de 26 anos, disse que a tentação de ficar no armário resulta da sociedade.

 

«É tudo criado pelo ambiente em que vives», disse. «Eu afastei-o porque não pensava que isso fosse normal e pensei que as pessoas me iriam julgar. E que não iria ser capaz de jogar futebol e ser amigo das mesmas pessoas. Pensei que isso iria mudar completamente a minha vida.»

 

O ponto chave aqui é as pessoas saírem do armário de live vontade; as pessoas cuja homossexualidade é tornada pública enfrentam uma reação muito diferente.

 

Brennan dirigiu-se igualmente à pessoa que criou uma conta no Twitter afirmando que ele era um jogador profissional de futebol gay no armário pronto a sair do armário. No dia anunciado para a saída do armário a pessoa teve medo e apagou a conta, deixando muitas pessoas a pensar se tudo não passaria de um embuste. Brennan afirmou que isso não tem importância.

 

«Pessoalmente espero que não seja um embuste, mas mesmo que o seja acho que nos devemos concentrar no lado positivo», disse. «A energia positiva que criou através de todas as reações de apoio por parte das pessoas foi mais importante do que alguma coisa negativa e é nisso que nos devemos focar - de outra forma deixamos a negatividade ganhar.»

 

É importante sublinhar a história positiva de saída do armário de Brennan porque precisamos de mais como ele.

 

A visibilidade continua vital e somente através de pessoas como Brennan que falem se conseguirá alcançar uma massa crítica de pessoas LGBTQ da área do desporte, fora do armário.

 

Fonte: Outsports

Chegam a Espanha mais de 30 refugiados LGBTI sírios e iranianos

Bandeira LGTBI | EUROPA PRESS

 

Mais de 30 refugiados LGBTI da Síria e do Irão chegaram no passado dia 31 de julho a Madrid, depois de saírem da Turquia, com o apoio da Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR) e da Organização Internacional para as Migrações (OIM), informa a Europa Press.

 

Os recém-chegados são os primeiros refugiados LGBTI a serem recolocados em Espanha, a partir da Turquia e da Jordânia, onde ficaram anteriormente alojados depois de fugirem da perseguição nos seus países de origem, segundo informou num comunicado a Associação de Migrantes e Refugiados LGBTI+, Kifkif.

 

Segundo precisam a partir desta associação, há uns meses, a Espanha pediu referências de refugiados à delegação da ACNUR em Ancara. A ACNUR contactou muitos refugiados que já tinham sido enviados para os Estados Unidos ou para o Canadá para realojamento para ver se estavam interessados em ir para Espanha.

 

Os agentes de migração entrevistaram o primeiro grupo de refugiados na Embaixada de Espanha em Ancara, nas últimas semanas. Estiveram em Istambul nos últimos três dias para receber as orientações exigidas pela Organização Internacional das Migrações (OIM) e receberem os seus visas e documentos de viagem.

 

Atualmente, mais de 2000 refugiados LGBTI de 17 nacionalidades residem na Turquia à espera de realojamento, de acordo com a associação. Nos últimos anos, várias organizações sociais têm encorajado os eurodeputados a prestarem uma atenção especial à situação dos refugiados LGBTI e a protegerem as pessoas que tiveram que fugir devido à sua orientação sexual ou identidade de género.

 

«Estamos felizes que Espana tenha tomado medidas para garantir a estes refugiados uma nova oportunidade de vida. Esperamos que outros governos europeus sigam o exemplo do nossos país e ofereçam apoio e proteção, já que a Turquia é um país seguro para os refugiados LGBTI», sublinham a partir da KifKif.

 

Fonte: infoLibre

 

Porta-voz duma associação LGBT tunisina agredido em Paris

Transportado pelos bombeiros, Nidhal Belarbi passou a noite nas urgências com «numerosas contusões nas costas e no pescoço». Twitter @LGBTphobie_INFO

O porta-voz de SHAMS, uma associação LGBT tunisina foi agredido na noite de quinta-feira no 11.º Bairro parisiense. Em número de quatro, os seus agressores «espancaram» Nidhal Belarbi enquanto «proferiam insultos homofóbicos», de acordo com o comité IDAHO - França.

 

Num comunicado, a associação de luta contra a homofobia explica que um homem, que já o tinha agredido na Tunísia, reconheceu-o na rua e «juntou mais três pessoas para o atacar». De acordo com a AFP, a vítima não tem fraturas, mas sofre de «numerosas contusões nas costas e no pescoço» que exigiram a colocação de um colar cervical.

 

Regressado a casa «em estado de choque», Nidhal Belarbi foi transportado pelos bombeiros. Um homem teria então tentado entrar à força no veículo: «Nidhal ficou imediatamente com medo. Disse «É ele, reconheço-o». Era o seu agressor que vinha «terminar o trabalho». Foi necessário que o bombeiro o empurrasse para trás e trancasse a porta», relata Louis-Georges Tin à AFP.

 

O fundador da Jornada Mundial contra a Homofobia e a Transfobia dá abrigo ao porta-voz de SHAMS à espera que este encontre um alojamento, pois o tunisino obteve asilo político em França depois de ter sido condenado e encarcerado por homossexualidade no seu país em 2017.

 

No seio do SHAMS (sol, em árabe), criado em 2015, ele milita em prol da despenalização da homossexualidade na Tunísia. O cofundador da associação LGBT, o advogado Mounir Baatour, é candidato à eleição presidencial tunisina, prevista para 15 de setembro. Um anúncio que suscitou debates vivos, mesmo na comunidade LGBT.

 

Inquérito aberto

Depois de uma noite passada nas urgências, Nidhal Belarbi apresentou-se da esquadra de polícia para apresentar queixa, de acordo com o IDAHO - França. «A vítima apresentou queixa no dia seguinte tendo declarado a existência de uma intenção homofóbica na sua agressão», confirma uma fonte policial, de acordo com a AFP. De acordo com esta agência, a agressão aconteceu pelas 00h30 e envolve três pessoas.

 

De acordo com o IDAHO - França, para um dos agressores esta não seria «a sua primeira agressão». Tratar-se-ia de um segurança de um bar da rue de Lappe, no bairro da Bastilha, não muito longe do local do ataque. Alexandre Marcel, presidente do comité, exigiu à autarquia parisiense que «suspenda a licença de exploração desse café, uma vez que o seu responsável irá continuar a contratar e financiar agressores homófobos».

 

O Ministério Público de Paris abriu uma investigação por «violência voluntária em função da orientação sexual da vítima».

 

Fonte: Le Parisien