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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

O primeiro jogador LGBT da Liga Nacional de Futebol americano apresenta o seu companheiro

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Ryan Russell deu prova de valentia ao revelar a sua bissexualidade de forma pública. Algo tão natural como uma orientação sexual diversa é algo de assinalar na Liga Nacional de Futebol americano, onde Ryan joga. Ele foi a primeira pessoa LGBT a sair do armário dentro das quatro principais ligas desportivas profissionais americanas.

 

Agora, dias depois, Ryan quis dar mais um passo. Corey O´Brien, o seu companheiro, deixou-se ver com ele passeando pela rua com total naturalidade. Juntos e sorridentes deixaram-se fotografar em Santa Mónica, Califórnia, conscientes de que isto suporia dar visibilidade para sempre à sua atual relação. A partir desse momento o casal enviou fotos do seu amor para o Instagram, defendendo o amor em todas as suas formas.

 

O jogador afirma que não tinha sido sinero com a maioria dos seus colegas até agora, assustado por não ter qualquer referência anterior e contido devido ao facto de estar na NFL que tinha sido o sonho de toda a sua vida.

 

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Fonte: Ovejarosa

A Santidade é para todos, incluindo as pessoas LGBT – Parte 1

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No ano passado, o papa Francisco escreveu uma bela carta sobre a santidade. O título é «Alegrai-vos e Exultai», e vem das palavras de Jesus no Sermão da Montanha a respeito dos perseguidos ou humilhados por causa d’Ele. O Senhor pede tudo e oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados. Quer que sejamos santos e não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa. A carta não fala explicitamente das pessoas LGBT, mas pode-se refletir sobre o que a sua mensagem significa para estas pessoas.

 

O papa afirma que Deus, ao pedir tudo, também dá tudo; e não quer entrar na nossa vida para nos mutilar ou enfraquecer, mas para nos levar à perfeição. Por isso é preciso pedir ao Espírito Santo para nos libertar e para expulsar o medo, sem negar ao Senhor a entrada em alguns aspetos da nossa vida (Alegrai-vos e Exultai, n.175). De facto, uma vez que Deus é o nosso criador, ama-nos e quer o nosso bem, não devemos ver n’Ele um rival do ser humano ou alguém que quer castrar-nos. Sobre isto, convém recordar o que disse uma vez o papa Bento XVI: «o cristianismo não é um conjunto de proibições, mas uma opção positiva». E acrescentou que é muito importante evidenciar isto novamente, porque esta consciência hoje quase desapareceu completamente. É muito bom que um papa tenha reconhecido isto, pois há no cristianismo uma história multissecular de insistência na proibição, no pecado, na culpa, na ameaça de condenação e no medo. Historiadores falam de uma «pastoral do medo», que com veemência culpabiliza as pessoas e as ameaça de condenação eterna para obter a sua conversão. Isto não se restringe ao passado. As proibições ligadas à mensagem cristã frequentemente repercutem-se mais do que o seu conteúdo positivo. É fundamental buscar na mensagem cristã a sua componente positiva, para que esta seja sempre boa nova, Evangelho. Deus não quer entrar na nossa vida para nos mutilar.

 

Fonte: Revista Caminhando (Pág. 13).

A Santidade é para todos, incluindo as pessoas LGBT – Parte 2

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Os discípulos de Jesus são chamados à santidade. Tal chamada inclui os jovens e as pessoas LGBT. O Sínodo dos Bispos sobre a juventude, convocado pelo papa Francisco, teve como tema: a fé, os jovens e o discernimento vocacional. O evento ocorreu em Roma, em outubro do ano passado, reunindo bispos católicos de todo o mundo. A sua preparação teve um amplo questionário enviado previamente a todas as dioceses do mundo, tratando não só dos jovens que frequentam a Igreja, mas também daqueles que estão distantes ou alheios. Com as respostas obtidas, foi elaborado um instrumento de trabalho preparatório que diz, entre outras coisas:

 

«Alguns jovens LGBT, através de várias contribuições feitas à Secretaria do Sínodo, desejam beneficiar de maior proximidade e experimentar um maior cuidado da Igreja, enquanto algumas conferências episcopais questionam o que propor aos jovens que em vez de formar uniões heterossexuais decidem formar uniões homossexuais e, acima de tudo, querer estar perto da Igreja».

 

A reunião dos bispos durou quase todo o mês e resultou num Documento Final, aprovado por ampla maioria. Sobre a questão acima, os bispos afirmam:

 

«Em muitas comunidades cristãs, já existem percursos de acompanhamento na fé de pessoas homossexuais: o Sínodo recomenda que se favoreçam tais percursos. Ao longo destes percursos, as pessoas são ajudadas a ler a sua história, aderir livre e responsavelmente à sua chamada batismal, reconhecer o desejo de pertencer e contribuir para a vida da comunidade, discernir as melhores formas para o concretizar. Deste modo, ajudam-se todos os jovens, sem exceção, a integrar cada vez mais a dimensão sexual na própria personalidade, crescendo na qualidade das relações e caminhando para o dom de si» (n.150).

 

Oxalá este acompanhamento na fé prossiga nas comunidades cristãs. Que mais e mais pessoas homossexuais sejam acolhidas, sintam-se amadas e possam contribuir com os seus dons e capacidades para o bem da Igreja e da sociedade.

 

Fonte: Revista Caminhando (Pág. 19).

Não se trata de ética, mas antes do modo como imaginamos Deus

Fotografia CNS/Fordham University/Bruce Gilbert

«Venho para esta conversa enquanto negro, padre gay e teólogo.»

 

Esta foi a linha de abertura da conferência do passado dia 4 de julho de Fr. Bryan Massingale proferida por altura do 50.º aniversário da DignityUSA, grupo irmão da Rumos Novos, nos Estados Unidos.

 

«Não profiro esta conferência porque senti a necessidade de algum anúncio em grande», afirmou ele. «Tal como já afirmei, o título da conferência não é «Padre Sai do Armário» ... Há muitos anos que saí do armário e que sou honesto no que diz respeito à minha sexualidade em relação àquel@s que amo e que me amam. Também, a minha orientação não é «manchete» para muit@s outr@s que me conhecem de forma mais casual».

 

O título de Massingale para a palestra foi «O Desafio da Idolatria no Ministério LGBTQI» e este título contém a chave para a parte mais profunda da sua mensagem. O que é que a idolatria tem a ver com isto? Tanto quanto Deus tem a ver com isto - e que é tudo.

 

Foi durante um retiro inaciano em 1982, imediatamente antes da sua ordenação como diácono, à medida que ele meditava na primeira história da criação no Génesis, que ele «reparou que quando a criação estava concluída, não havia uma única pessoa negra. Nem sequer havia qualquer pessoa gay. À medida que contemplava a humanidade, para tod@s aquel@s criad@s à imagem da Deus, não havia ninguém que se parecesse comigo. Ou que amasse como eu. Não havia nada na criação que fosse um espelho meu». Ou, pelo menos, não como anos de educação católica tinham informado a sua imaginação e a sua compreensão de si próprio e de Deus. «A minha própria oração traia o facto de não acreditar nela. Não acreditava que Deus pudesse ser visualizado como negro. Ou como gay. E certamente que não como ambos simultaneamente».

 

O cerne da sua reflexão merece ser citado na sua totalidade (o sublinhado é de Massingale):

A maior diferença que enfrentamos enquanto pessoas sexualmente minoritárias não é um problema de ética sexual. Temos tendência em pensar, como nos é dito, que os nossos problemas na igreja e na sociedade têm origem na nossa não conformidade com o código moral da igreja.

 

Porém, a igreja tem uma solução para esse tema. Se pecas, podes ir confessar-te. Recebes perdão e absolvição. ... O nosso maior problema — aquele que nos causa a maior dor, alienação e autoisolamento — é que nos foi contado uma história falsa sobre Deus e nos foram dadas imagens falsas de Deus. Este é o nosso problema.

 

Subjacente a todas as lutas que suportamos no mundo e a todas as histórias que escutámos durante este encontro — histórias de sermos expulsos de paróquias, ostracizados nas nossas famílias e, no geral, não sermos bem-vind@s — subjacente a todas estas experiências está uma história que o catolicismo conta sobre si mesmo.

 

No cerne desta história encontra-se o facto de para se ser católicos é necessário ser-se hétero. «Católico» = «hétero». O catolicismo oficial conta uma história onde somente as pessoas heterossexuais, o amor heterossexual, a intimidade heterossexual, as famílias heterossexuais — somente estas podem sem ambiguidades espelhar o Divino. Somente estas pessoas são verdadeiramente sagradas. Genuinamente santas. Somente estas pessoas são dignas de aceitação e respeito sem reservas. Todas as demais pessoas e expressões de amor, vida familiar, intimidade e identidade sexual são sagradas (se alguma vez o são) somente através da tolerância ou da exceção.

 

De facto, é-nos dito que somos «reflexões tardias» na história da criação e não fazemos parte do plano original. Por outras palavras, somos «filh@s de um deus menor» ... Sim, certamente que temos necessidade de repensar a ética sexual oficial da nossa igreja. Mas mais ainda, temos de repensar Deus.

 

Imaginem, aquel@s de nós não sobrecarregados por um Deus tão limitado, como teria sido a vida se a nossa aceitação na comunidade católica estivesse dependente da tolerância de outros seres humanos em vez de residir no pressuposto do amor incondicional de Deus por nós. Imaginem se a imagem de Deus dada pelos responsáveis religiosos excluísse um elemento da nossa identidade humana que é intrínseco a quem somos.

 

A irmã beneditina Joan Chittister, ao falar sobre a evolução do seu pensamento sobre Deus, afirma que aquilo em que acreditamos sobre Deus — o modo como imaginamos Deus — «dá cor a tudo o que fazemos em nome de Deus. Dá forma a tudo o que pensamos sobre o próximo». De facto, sublinha ela, acreditar em Deus não custa muito — aconteceu vezes sem conta ao longo da história. «É o tipo de Deus no qual escolhemos acreditar que, no fim, faz a diferença».

 

As mulheres, compreensivelmente, fornecem algumas das novas e mais profundas ideias para reimaginar o Deus do cristianismo católico que emergiu de séculos de formulações por uma cultura de segredo maioritariamente masculina e celibatária.

 

No seu livro Busca pelo Deus Vivo, São José a irmã Elizabeth Johnson escreve que as lutas para compreender Deus através de formas novas emergiu nas últimas décadas devido à variedade de acontecimentos e forças — tal como tentar compreender o mal do Holocausto, um amplo espectro de temas de justiça social e «do encontro da cristandade com a bondade e a verdade nas tradições religiosas mundiais». Aquilo que outrora era território marcado, o monarca (sempre homem) cujas relações com os humanos eram uma série de transações e de fazer o bem e o mal num balanço cósmico, está a ser novamente escrutinado e reconstruído.

 

«Por idolatria», afirmou Massingale, «quero dizer a crença generalizada de somente as pessoas heterossexuais, os seus amores e relações são o padrão, normativo, universal e verdadeiramente 'católico'. Que somente estas pessoa podem mediar o Divino e conter o sagrado. Que Deus somente pode ser imaginado como hétero».

 

Isto coloca a conversa num novo espaço. Massingale muda a questão de "A que ética aderes?" para "Qual é o Deus no qual acreditas?"

 

Fonte: National Catholic Reporter.