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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

4 problemas com as declarações do Papa sobre a homossexualidade

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Quando se iniciou o pontificado de Francisco parecia que a Igreja católica teria como responsável alguém conciliador com setores que tradicionalmente tinham sido marginalizados pela Igreja católica. Os comentários sobre «quem sou eu para julgar» respeitantes aos homossexuais que decidem aproximar-se de Deus, o apelo da Amoris Laetitia em não discriminar os homossexuais e o apelo à reintegração dos divorciados na vida eucarística pareciam dar sinais de uma mudança.

 

Contudo, com o passar dos anos ficou claro que Francisco não era o «papa progressista» que alguns meios de comunicação elogiavam. Em particular, os seus comentários sobre a comunidade LGBT nunca se afastaram daquilo que a doutrina católica assinala no Catecismo: «a Tradição sempre declarou que "os atos homossexuais são intrinsecamente desordenados"... [os atos homossexuais] não podem, em caso algum, ser aprovados ... [os homossexuais] Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido à sua condição... As pessoas homossexuais são chamadas à castidade... podem e devem aproximar-se, gradual e resolutamente, da perfeição cristã».

 

Esta semana o tema da comunidade LGBT e a sua relação com a Igreja Católica volta a estar nos meios de comunicação social graças às palavras que o Papa Francisco transmitiu a Fernando Prado Ayuso, missionário claretiano, para um livro entrevista sobre o Pontífice. As declarações feitas pelo líder da igreja são bastante problemáticas já que, ainda que se centrem na situação específica de sacerdotes homossexuais, podem ter consequências negativas na comunidade católica LGBT e particularmente nos jovens que estão em processo de sair do armário perante as suas famílias.

 

 

1. Perpétua a ideia de que ser homossexual é estar doente...

Na entrevista o papa afirma que «quando há candidatos com neuroses ou desequilíbrios fortes, difíceis de poderem ser ultrapassados, mesmo com ajuda terapêutica, não há que os aceitar, nem no sacerdócio nem na vida consagrada». Para acrescentar de seguida que «temos de cuidar que sejam psicológica e afetivamente sãos. A questão da homossexualidade é muito séria. Há que discernir adequadamente desde o início, com os candidatos, se for esse o caso».

 

O modo como Francisco se refere às pessoas homossexuais parece sugerir que acredita que estes estão doentes e, inclusivamente, que tal «doença» é provocada por um forte desequilíbrio e, em alguns casos, está para além de qualquer ajuda terapêutica.

 

Este último ponto é o mais grave, já que ao equiparar a orientação sexual com uma doença mental corre-se o risco de incentivar que pais de família procurem «corrigir» os seus filhos através das terapias de reconversão, as quais já se demonstrou podem ter graves repercussões na saúde mental das pessoas. Num enquadramento em que o sair do armário continua a ser um processo difícil, as declarações do Papa podem dificultar ainda mais a situação em sociedades predominantemente católicas.

 

 

2. ... é sinónimo de promiscuidade...

«Aos padres, religiosos e religiosas homossexuais, há que exortá-los a viver o celibato de forma integra e, sobretudo, que sejam completamente responsáveis... É melhor que abandonem o ministério ou a sua vida consagrada em vez de viverem uma vida dupla», afirma. Esta é uma frase que poderia bem referir-se às referências ocasionais a orgias gay nas quais participam membros do clero; às revelações que o próprio clero faz sobre situações que se apresentam nas suas dioceses (e que menciona na entrevista), mas poderia igualmente referir-se à ideia que se tem da promiscuidade e devassidão que, algumas vezes, se associa à comunidade LGBT.

 

 

3. ... e que não se é verdadeiramente gay, mas que é antes uma moda

«Nas nossas sociedades parece inclusivamente que a homossexualidade está na moda e essa mentalidade, de algum modo, também influencia a vida da Igreja», declara algumas linhas mais abaixo o Pontífice. Esta frase, conjuntamente com o que afirmou acerca da «ideologia de género» mostra o medo que existe dentro da Igreja de que as ideias liberais tenham influência, a longo prazo, na doutrina.

 

Para além disso, falta referir o ridículo que é afirmar que uma pessoa se identifica, devido à moda, como sendo LGBT. Como se «para andar na moda» uma pessoa decida correr o risco de ser discriminada pela sociedade, rejeitado pela família e inclusive ser agredido.

 

 

4. Afasta parte dos fiéis

Há pessoas que são criadas na religião católica e tentam conciliar a sua vida espiritual com a sua orientação sexual nas suas várias formas. Há quem não deixe de acreditar no que a religião ensina, mas não pretenda participar na instituição; outros que aceitam ficar, mas não deixam de viver a sua vida com autenticidade; e alguns procuram honrar o que a doutrina indica, ser castos e dedicar a sua vida a Deus.

 

Para estes últimos, as declarações do Pontífice e a petição de não aceitar no ministério pessoas homossexuais são, a todos os títulos, prejudiciais, discriminatórias e injustas para o seu plano de vida e possível vocação. Quantos não sentirão, com estas palavras, que são discriminados e não são bem-vindos na Igreja?

 

Esta é a leitura que, para mim, se pode tirar das palavras do Papa Francisco, que sou um jovem homossexual criado na religião católica. Quer tenha sido ou não intenção da entrevista soar desta forma tão dura e caustica com os homossexuais que procuram servir a sua religião a partir do interior, a realidade é que os fragmentos do livro publicado e recolhidos pelos meios de comunicação social mostram uma clara homofobia e um tom muito menos conciliador e misericordioso do que aquele que se havia tido no passado.

 

Autoria: Marco Gómez
Tradução (do espanhol): José Leote (Rumos Novos)