Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBTQ (Portugal)

Somos católic@s LGBTQ que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

A nossa presença na Jornada Mundial da Juventude disse às e aos católic@s LGBT que não estão sozinh@s

Credit Breanna MekulyCROP.jpg

Foto: Breanna Mekuly

 

Toda a minha vida a única coisa que sempre quis fazer foi trabalhar para a igreja. E durante oito anos foi o que fiz. Ao trabalhar na pastoral juvenil acabei por ser diretora da educação religiosa de uma paróquia com um baixo rendimento em Indianápolis (EUA) que servia uma comunidade de emigrantes latinos. Pensava que iria fazer isto para o resto da minha vida.

 

Entretanto conheci a mulher que é atualmente a minha esposa. Não planeei conhece-la. Não me esforcei por conhece-la. Quando nos conhecemos, eu tinha uma regra de nada de encontros. Apaixonei-me por ela apesar dos meus esforços para não o fazer. Por causa dela, sou uma pessoa melhor e há muito mais alegria na minha vida do que antes de nos termos conhecido. Encorajamo-nos mutuamente e sacrificamo-nos profundamente uma pela outra. A minha esposa faz-me estar mais perto do céu e espero estar a fazer o mesmo por ela.

 

Contudo, a partir do momento em que me apercebi que a amava sabia que tinha de escolher entre ela e o meu trabalho vocacional na igreja. Nos últimos anos, dezenas de trabalhadores em instituições católicas foram despedidos por serem abertamente pessoas LGBT ou por iniciarem um casamento entre pessoas do mesmo sexo.

 

Pope_Francis_rainbow_cross_810_500_75_s_c1.jpg

Jovens do Panamá oferecem uma cruz arco-íris ao Papa Francisco durante a JMJ 2019.

 

Em dezembro de 2015 despedi-me do emprego porque sabia que seria impossível para a minha esposa e eu termos a vida que queríamos e para, no meu caso, poder continuar a trabalhar como diretora da educação religiosa e da pastoral juvenil. Aceitei um trabalho como assistente social, recrutando e autorizando famílias adotivas para uma agência nacional sem fins lucrativos.

 

Recentemente, de 22 a 27 de janeiro, estive na Jornada Mundial da Juventude no Panamá enquanto testemunha da igualdade LGBT porque essa é uma escolha que eu nunca deveria ter tido que fazer.

 

Estive presente na Jornada Mundial da Juventude enquanto membro do grupo de seis peregrinos da Equally Blessed. Somos católicos comprometidos com a igualdade completa para as pessoas LGBT. Viemos para falar, para escutar, para sermos vistos e para sermos ouvidos. Os pins que oferecemos diziam: «Também é a nossa igreja.»

 

No nosso primeiro dia, estava ansiosa sobre a forma como iríamos ser recebidos. Envergávamos faixas arco-íris, carregávamos uma bandeira enorme e enchemos as mochilas com pins para darmos a quem encontrássemos. Quase de imediato o meu medo desapareceu. Fomos acolhidos calorosa e entusiasticamente e saudados praticamente em todos os lugares onde estivemos. Na nossa primeira paragem (o almoço antes da Missa de abertura), fomos abordados por dezenas de peregrinos de todo o mundo em procura dos pins, fotografias e conversa.

 

Nessa mesma tarde conhecemos uma jovem que estava na JMJ com o seu grupo FOCUS (grupo de estudantes universitários católicos nos EUA). Quando ela viu o nosso grupo começou a chorar. Disse-nos que tinha estado a escutar um sacerdote durante toda a manhã e que ele tinha feito alguns comentários homofóbicos: «Vocês não sabem como estou contente em vos ver», disse ela. «Esta foi uma manhã verdadeiramente má». Ela tinha trazido uma pequena bandeira arco-íris que tirou da mochila antes de tirar uma fotografia connosco.

 

Numa outra manhã conheci o responsável por um grupo do Togo, na África ocidental, que me agradeceu por ser uma testemunha visível. Abraçou-me apertadamente e sussurrou-me ao ouvido que também era gay. «Não estás sozinho», sussurrei-lhe ao ouvido e ofereci-lhe um dos nossos pins. Ele aceitou-o e colocou-o no interior da roupa, onde não podia ser visto.

 

Recebemos tantas mensagens no Instagram, vindas de pessoas que nos queriam conhecer e tivemos de dar um almoço para as conseguir conhecer a todas. Esperávamos que somente os peregrinos estivessem presentes, mas ficámos surpreendidos porque muitos panamenhos se juntaram a nós.

 

Uma das mulheres presentes tinha sido educada na igreja e abandonou-a quando saiu do armário. Disse-nos que chorou quando viu os nossos posts pela primeira vez. «A pergunta que verdadeiramente quero colocar é: como é que não estás sempre zangada?»

 

Escutei-a e falei-lhe abertamente sobre a hierarquia que me magoou, mas que houve uma fé e uma pessoa que me apoiaram.

 

Uma imagem de marca da JMJ é a catequese matinal, onde os bispos dissertam, em diversas línguas, pela cidade. Na quinta-feira de manhã fomos a um dos locais de língua inglesa. No final da dissertação do bispo houve um período de perguntas e respostas. Desloquei-me para a parte da frente da sala para me colocar na fila. O meu nervosismo aumentou com a espera. Com apenas duas pessoas à minha frente na fila, foi anunciado que aceitariam apenas mais uma questão final.

 

Quando regressava ao meu lugar, um jovem interpelou-me e perguntou-me o que é que eu ia dizer. Quando partilhei com ele a minha pergunta, ele respondeu-me: «Gostaria de ter ouvido a resposta».

 

A resposta dele renovou-me a confiança. Regressei à parte da frente da sala e pedi que me fosse dada a oportunidade para falar. O moderador disse-me que devido aos constrangimentos do tempo, ele poderia fazer a pergunta por mim.

 

«Não,» respondi-lhe enfaticamente, «penso ser importante para mim que eu faça esta pergunta. Irei fazê-la de forma sucinta. Posso ser breve, mas é importante que a faça eu mesma.»

 

Tremia enquanto falava. «Uma das coisas que mais amo na igreja católica é a ênfase na dignidade de todas as pessoas. Enquanto católica LGBT sinto que a minha dignidade e a dignidade da minha família e da minha comunidade não são respeitadas. Somos despedidos dos nossos empregos. São-nos negados os sacramentos e é-nos feito sentir que não somos bem-vindos à igreja. O que é que tem a dizer sobre isto?»

 

O bispo respondeu que não podia falar sobre a forma com alguém me tinha tratado, mas disse que somos todos filhos e filhas de Deus e a sua função é amar e ser fiel ao Jesus da Escritura. Ele foi simpático e não incluiu quaisquer proclamações de pecado, mas não respondeu completamente à minha questão.

 

Na verdade, não a coloquei na expectativa de que ele tivesse uma resposta que me pudesse satisfazer. Coloquei-lhe a questão para que a minha voz e a voz da minha comunidade pudessem ser escutadas. Coloquei-lhe a questão para que outros peregrinos LGBT pudessem saber que não estavam sozinhos.

 

A resposta do bispo e a resposta do católico comum ao longo da semana esclarecem aquilo que sempre soube: as pessoas encontram-se sempre anos-luz à frente da instituição.

 

Fonte: National Catholic Reporter.