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Associação RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBTQ (Portugal)

Somos católic@s LGBTQ que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

A "versão simplificada de um velho argumento" do Vaticano sobre género não pode impedir as mudanças no catolicismo

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Os últimos dois Papas insistiram, contra as evidências mais esmagadoras, que o género binário, homem e mulher, é dado pela natureza e abençoado por Deus. Deus, afinal de contas um homem, criou-os Homem e Mulher. O relato do Génesis desconfortavelmente deixa de fora os detalhes sobre os cobertores e macacões azuis e rosa.

 

Mesmo a tempo do Orgulho, a Congregação para a Educação Católica do Vaticano publicou a sua instrução, datada de 2 de fevereiro, «Ele os criou Homem e Mulher: Em Direção a um Caminho de Diálogo na Questão da Teoria de Género na Educação». O tempo é tudo. O documento, que não acrescenta nada de novo à conversa com décadas de idade sobre o género, fez correr muito mais tinta do que é costume em relatos emanados de tais cantos obscuros de Roma.

 

O meu melhor palpite é o de que este reafirmar da rejeição por parte da igreja católica de meio século de desenvolvimento ao nível da antropologia humana é simplesmente um balão de ensaio. A coisa verdadeira está alegadamente para vir da Congregação para a Doutrina da Fé, um local com maior peso e que tentará, mais uma vez, apresentar um baluarte contra a evolução do entendimento de género, sexo e como as pessoas boas vivem as suas vidas.

 

A especialista em assuntos jurídicos da Universidade de Chicago, Mary Anne Case, explica os contornos da campanha longa e cada vez mais prejudicial do Vaticano num artigo bem documentado, complexo e convincente denominado «Trans Formações na Guerra do Vaticano contra a 'Ideologia de Género'».

 

Ela analisa «... a guerra do Vaticano com décadas de existência, à escala mundial, em várias frentes àquilo que acabou por apelidar de 'ideologia de género' desde a sua mais recente encarnação com os Estados Unidos de Donald Trump de volta às suas origens do século passado, realçando o papel central, no que diz respeito aos direitos das pessoas transgénero, para os dois Papas que mais diretamente moldaram os contornos desta guerra: Bento XVI e Francisco».

 

A professora Case conclui:

 

A história... revela um intercâmbio complicado entre a constelação dos movimentos de libertação castigados pelo Vaticano como «ideologia de género» e a constelação de movimentos reacionários que o Vaticano e outros conservadores religiosos desenvolveram para lhes fazer frente. Motivados por desenvolvimentos legais na Alemanha e nas Nações Unidas e pelo trabalho teórico das feministas na Alemanha e nos Estados Unidos para conseguir uma oposição mais coerente e formidável do que alguma que ele jamais tinha enfrentado, Ratzinger foi o primeiro a declarar guerra ao «género». Francisco forneceu táticas e estratégias poderosas para esta guerra, através da sua retórica de anticolonialismo e a sua combinação de acolhimento caloroso às pessoas com uma oposição continuada aos seus direitos. Mais recentemente, a oposição à ideologia de género uniu católicos conservadores com pessoas de outros credos em todo o mundo com as quais estavam de acordo em pouco mais do que a necessidade de lutar contra a «ideologia de género».

 

 

Dito de uma forma mais simples, a pequena peça da Congregação para a Educação Católica é uma versão muito simplificada de um velho argumento. O cardeal Joseph Ratzinger e depois o Papa Francisco insistiram, contra evidências cada vez mais esmagadoras, que o género binário, homem e mulher, é dado pela natureza e abençoado por Deus. Deus, afinal de contas um homem, criou-os Homem e Mulher. O relato do Génesis desconfortavelmente deixa de fora os detalhes sobre os cobertores e macacões azuis e rosa. Os estudiosos da Bíblia são simplesmente ignorados. Estes dois Papas ainda estão convencidos de que um bebé nascido com um pénis é um homem e um bebé nascido com uma vagina é uma mulher, apesar das provas avassaladoras referentes às complexidades da vida humana que, justiça seja feita, já não admitem tais simplificações. Bento XVI construiu os argumentos; Francisco entrega-os com um sorriso. Os dados sociais e biológicos são simplesmente deixados de lado.

 

O Vaticano deveria deixar as decisões sobre as pessoas intersexo para serem tomadas pelos profissionais de saúde. A comunidade intersexo manifestou o seu veemente protesto: «Estamos profundamente perturbados pela reprodução de uma linguagem patologizante como forma de referência aos nossos corpos e o reafirmar da autoridade médica sobre eles... A ideia de que intervenções médicas coercivas são necessárias como forma de construir uma identidade saudável nunca foi apoiada pela evidência científica». As redes coligadas de pessoas intersexo e seus aliados «exigiram um diálogo que reconheça a nossa existência, que afirme os nossos direitos sobre o que acontece com os nossos corpos, o nosso direito a saber a verdade sobre os nossos tratamentos médicos e que ponha um fim à estigmatização e à violação dos direitos humanos». O documento do Vaticano não faz nada disto.

 

O que faz é assinalar um patamar novo e potencialmente mais perigoso num debate cultural antigo. A posição do Vaticano contra o amor do mesmo sexo não precisa de ensaio. Porém, de um modo pernicioso tudo isso parece esbater-se um pouco neste documento que se centra principalmente nas pessoas transgénero e intersexo. O argumento encontra-se alicerçado na mesma oposição geral a tudo o que não seja rosa claro e azul bebé juntos para formar um casal. Desta vez é uma perceção nascente de que estas categorias já não se aplicam.

 

Existe um certo desespero no tom e no conteúdo da peça da Educação Católica. Esta sugere o reconhecimento que os esforços para parar o amor do mesmo sexo falharam miseravelmente a começar com o clero masculino maioritariamente gay. Afinal de contas, o que são uns quantos gays, lésbicas e pessoas bi, parece estar a querer dizer-nos a igreja institucional. Pelo menos conhecem os jogadores sem ser necessário recorrer a um marcador de pontos. O verdadeiro ponto de viragem do jogo é que esta pretende que o sexo/ género são fixos, definidos e palidamente limitados antes da realidade da mudança, fluida, sexo/ género variados como sendo a norma humana.

 

As três sugestões utilizadas pelas pessoas da Educação no documento para enquadrar a sua repetição da mensagem muito elogiada - Escuta, Razão, Objetivo - são as mesmas dinâmicas que violam. Não existe qualquer indício de escuta das vozes das pessoas trans e intersexo, menos ainda das suas famílias e educadores. Ainda há menor indício de qualquer raciocínio que inclua citar estudos, pesar argumentos, delinear a história. O único objetivo é que os programas educativos comecem com o Génesis como se este fosse literalmente verdadeiro com um filme para o provar.

 

Entretanto, de volta ao mundo real, a irmã Mary Berchmans, VSM, da Escola Preparatória da Visitação de Georgetown, em Washington, deixou bem clara a sua mensagem quando confrontada com notícias das núpcias de alunas lésbicas na revista da escola. Ela escreveu: «Enquanto rezava sobre esta contradição, continuamente regressei a esta escolha: podemos centrar-nos no ensinamento da igreja sobre o casamento gay ou podemos centrar-nos co ensinamento da igreja sobre o mandamento de amor do evangelho. Sabemos da história - incluindo da mais recente - que a igreja, na sua humanidade, comete erros. Contudo, através da graça de Deus e do poder do Espírito Santo, ela aprende e cresce. Portanto, escolhemos o mandamento do amor do evangelho». Assim falou uma freira octogenária que professa religiosamente há sessenta e sete anos. Uma reação esmagadoramente positiva para ela, apesar de algumas reações contra, que mostra que a face do catolicismo está a mudar rapidamente. Os responsáveis diocesanos exprimiram desapontamento por não terem sido consultados, mas aquiesceram.

 

Da mesma forma, os responsáveis da Escola Preparatória Jesuita Brebeuf em Indianapolis (EUA), rejeitaram recentemente a exigência da arquidiocese para que despedissem um professor do quadro que é civilmente casado com uma pessoa do mesmo sexo. A arquidiocese respondeu afirmando que Brebeuf já não é por eles considerada como sendo uma escola católica. Mais uma vez, a face do catolicismo está a mudar e novamente a favor da inclusão e da justiça.

 

Isto é o que a Congregação do Vaticano para a Educação Católica é impotente para travar. Duvido que a Congregação da Doutrina da Fé tenha mais sorte. Feliz Orgulho nas mudanças católicas.

 

Fonte: Rewire.News