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Associação RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBTQ (Portugal)

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15 de Agosto, 2019

Abdelá Taia, o menino pobre que despertou a consciência homossexual em Marrocos

Rumos Novos - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Foto: New York Times

 

O primeiro intelectual a sair do armário no seu país é hoje um narrador sólido e prestigiado cuja obra trata de averiguar como ser marroquino e homossexual sem deixar de ser nenhuma das coisas.

 

Abdelá Taia (Salé, 1973) assegura que quando era criança nunca pensou em tornar-se escritor e ainda menos num motivo de escândalo. O primeiro intelectual marroquino a sair do armário assumiu o seu destino como algo que lhe foi dado. «Ser escritor era um sonho de menino pobre», explica aquando da publicação de «Ele que é digno de ser amado» (Cabaret Voltaire), uma novela que, como grande parte da sua obra, começa com o Marrocos da sua infância. «Os sonhos eram coisas que aconteciam na televisão. Sabia que nunca se cumpririam, porque era verdadeiramente muito pobre. Mesmo quando, mais tarde, conheci um suíço, juntei-me com ele, conclui os meus estudos de literatura francesa em Genebra, fui para Paris e comecei a escrever, continuei empenhado na escrita, mas sem pensar que esta pudesse interessar a alguém».

 

Tudo mudou no verão de 2005. A televisão marroquina produziu uma série sobre artistas marroquinos no estrangeiro e Taia protagonizou um documentário de 30 minutos. «Foi sensacional», recorda. «As pessoas em Marrocos viram que eu era um bom rapaz, humilde, sem arrogância, que falava bem francês e tinha escrito um livro. Eu representava um motivo de orgulho porque no vídeo saía por Paris, no Bairro Latino, passeando pelo Louvre... Isso, para os marroquinos, são coisas importantes. E pensaram que tinha triunfado. É assim que poucos meses depois, em janeiro de 2006, saiu o meu novo livro, fui apresentá-lo em Marrocos e disse que era homossexual». É então que o herói se converte em escândalo.

 

Há mais de três décadas que Taia vive autoexilado em Paris, onde escreveu e publicou uma dezena de novelas. Porém o fosso, assegura, continua intacto. «Quando tornei pública a minha homossexualidade tive bastante medo. Um medo físico, no estômago, na pele, porque na minha cabeça os meios de comunicação social estão sempre ao lado do poder. Nos media somente falam os poderosos, os ricos e alguns intelectuais bem instalados que são evidentemente burgueses», denuncia. «Eu era pobre, falava de homossexualidade, da sociedade marroquina, de sobrevivência e de literatura e de que estava muito só. É certo que a imprensa marroquina se estava a esforçar por falar objetivamente do tema, mas eu continuava estando sozinho».

 

A situação paradoxal da vivência homossexual em Marrocos é um dos temas centrais da sua obra. «Na minha adolescência alguns filmes de Almodóvar eram considerados de porno soft, pelo que podiam ver-se nas salas de cinema erótico às quais toda a gente ia. Foi aí que vi, em sessão contínua, «A Lei do Desejo» e «Amarra-me», que foram muito populares. Recordo mesmo ter visto «A Lei do Mais Forte» de Fassbinder ou «Noites Felinas». Filmes que falavam claramente da homossexualidade. Tudo isto num cinema marroquino, em 1992. Como lá chegaram? É um mistério... mas hoje isso seria impensável».

 

A partir do seu exílio parisiense, Taia seguiu de perto a revolução do movimento LGBT em Marrocos. «Para mim existem dois momentos bem diferenciados», explica. «A partir de 2004 ou 2005, quando eu comecei a falar, houve um período em que se permitiu que as pessoas se exprimissem. Os jornalistas marroquinos faziam autocrítica e começavam a falar de forma objetiva dos homossexuais. A associação LGBT fundou uma revista em árabe e, de certo modo, havia uma brisa de mudança que, quase sempre, vinha da classe média ou baixa, à qual eu pertencia». A mudança chegou após a primavera árabe de 2011, uma época «de imensa consciência política». «Posteriormente a sociedade evoluiu de outra forma, mas lembro-me que em Marrocos, durante o movimento do 20 de fevereiro, uma das coisas que se pediam era a despenalização da homossexualidade. Estava no programa. Hoje estamos noutro período no qual o poder deixou bem claro que, em Marrocos, não quer mudanças. E não falo do governo nem dos islamitas, mas das estruturas do poder em geral. De todos os poderosos. Antes do islamismo já existia uma lei que criminalizava a homossexualidade. Sem ir mais longe, os socialistas marroquinos nada fizeram para a mudar quando estiveram no poder».

 

No entanto, explica ele, a legislação rígida não impede uma certa liberdade que encontrou um canal natural através das redes sociais. «Desde há uns anos há algumas superestrelas do Youtube que são LGBT. Alguns deles são transgéneros. Para os legisladores essas pessoas não existem. Porém, falam a milhões de pessoas». Nos últimos tempos, o ativismo de Taia tornou-se mais intenso. Particularmente desde a publicação, em finais de julho deste ano, de uma coluna no Le Monde onde defendia a despenalização da homossexualidade em Marrocos.

 

Daí não é difícil saltar para outra questão espinhosa: a do mito de Marrocos como paraíso homossexual, fomentado durante boa parte do século XX por ocidentais que chagavam ao país magrebino atraídos pela lenda da extrema liberalidade marroquina, especialmente dentro de portas. «Não sei se Marrocos é um paraíso homossexual, ainda que talvez o tenha sido para Paul Bowles, Tennessee Williams ou Jack Kerouac», responde. «Bowles encanta-me, mas o que diz segue o despertar do orientalismo e do colonialismo e mesmo de uma certa depravação muito anglo-saxónica que consiste em ir em busca de selvagens para experimentar o paraíso primitivo. Porém, essas pessoas nada fizeram para ajudar os marroquinos e muito menos para ajudar os homossexuais marroquinos. Iam para ter sexo barato com jovens marroquinos e fumar haxixe. Tão simples quanto isso». Questionámo-lo acerca de outro ardente defensor da cultura marroquina, Juan Goytisolo, que Taia conheceu. «Bom, Goytisolo era outra coisa. Sempre defendeu a cultura árabe, defendeu-a por escrito, escreveu muitíssimo sobre ela e foi atacado por isso. Os seus livros estão tão impregnados da estrutura e da estética da cultura árabe que creio que conhecia a cultura árabe melhor que eu, por exemplo. Goytisolo não tem nada que ver com Bowles ou Kerouac. Temos de ser justos com ele».

 

Que é, então, feito dessa afirmação de que a homossexualidade, em Marrocos, se pratica, mas não se menciona? «Todo o ser humano tem necessidade de sexo e é indiferente que esteja no Sudão ou na Áustria ou em Marrocos ou no Chile. Assim qualquer um o faz apesar da lei, das proibições e dos tabus. Há tabus em todas as partes, mesmo no mundo literário de Paris, onde há muitos homossexuais casados e dentro do armário. Os tabus estão muito mais arreigados na alma humana do que a lei. Do mesmo modo o estão a lei e o poder e as pessoas de Marrocos não são tontas. Sabem que se falam abertamente vão parar à prisão ou expõem-se às críticas. A lei não as obriga a serem hipócritas, mas a protegerem-se e a protegerem-se dos olhares dos outros, que poderiam denunciá-las ao poder. Então, em vez de falarmos de sociedades muçulmanas homófobas, porque não podemos tratar toda uma sociedade de um modo tão elementar, devemos apontar para a lei e perguntarmo-nos a razão pela qual o poder não quer dar a liberdade às pessoas, pelo que estas devem roubá-la como podem. E não o digo para defender Marrocos. Contudo, um escritor deve aprofundar e entender o contexto no qual as pessoas se movem. Desde as revoluções árabes que muitas coisas se passaram e já não se pode falar destas sociedades da mesma forma que antes, a partir desse orientalismo cómodo».

 

No «O Exército de Salvação» (2006), que o mesmo levou à tela em 2013, Taia narra a sua chegada como imigrante à Suíça. No «Aquele que é digno de ser amado», a voz do protagonista, Ahmed, já não é a do menino marginalizado, mas a de um homem em busca de um enraizamento impossível. «Quando cheguei a Paris, em 1998, não tinha medo. Desejava conquistar a cidade como os heróis das novelas de Balzac ou de Zola. Não temia bem os burgueses nem as editoras. Contactei com toda a gente, não tinha vergonha, era quase um arrivista. Em Marrocos, quando via um marroquino rico, sentia-me pequeno. Porém, em Paris não me sentia pequeno. Desta forma passei ao largo do racismo. O racismo contra os árabes e os muçulmanos não me afetava. A vida não era fácil, frequentemente não tinha que comer, mas isso não era grave, porque estava em Paris, uma cidade onde podia mesmo cruzar-me com Isabelle Adjani”, brinca.

 

«Contudo, chegou um momento em que a solidão e as dificuldades se traduziram em ataques de pânico», lembra. «Se me perguntas, dir-te-ia que não me sinto exilado. Há vezes em que fico deprimido, mas deito-me, durmo, levanto-me e já está. Nunca dura mais de dois dias. Na minha cabeça não sou um exilado, mas o corpo tem outra consciência que acaba impondo a sua verdade ao espírito», sublinha. «A minha cultura e as minhas leituras de Voltaire ou Proust protegem-me, mas só mentalmente. O meu corpo continua vinculado sentimentalmente à lógica de outra terra. E o corpo, curiosamente, pede limites, que não são os do racismo, mas aqueles que experimentavam na terra natal». Esse é o tema central da sua novela mais recente, cujo protagonista, Ahmed, tal como Taia, já passou dos quarenta. «Tem o coração seco», explica. «Foi à universidade, tem cultura, é bem-falante, tem um noivo francês e cumpre todos os requisitos para sentir-se livre no sentido francês do termo. E dá-se conta que para tornar-se livre teve de matar uma parte de si, do mesmo modo que, em Marrocos, teve de sacrificar uma parte de si mesmo para que não o violassem ou matassem por ser homossexual». Neste ponto não é difícil reconhecer no personagem traços do próprio autor. «Eu, por exemplo, tive que deixar de ser efeminado para os rapazes não me insultassem», recorda. «Para existir tive que deixar de existir, de certo modo. É algo muito característico da vivência homossexual, em que às vezes o essencial não deve ser nomeado e a verdade não deve ser dita para sobreviver. Às vezes é preciso inventar um espaço no qual existir sem existir».

 

A literatura mais recente de Taia aborda essas questões num doloroso processo de exame de identidade que, assegura, não mitiga os dilemas internos. «Não é por nos convertermos em artista ou escritor que tudo se resolvo connosco», responde. «Os problemas, as neuroses, as feridas continuam lá. A arte não cura as feridas. Rouba a vida do artista, mas não a cura. Estou convencido disso. Para mim não há efeitos catárticos na escrita».

 


Fonte: El País