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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

As conversas com as pessoas LGBT são sinal de nova vida na igreja

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«Quem sou eu para julgar?»

Estas cinco palavras, ditas pelo Papa Francisco em julho de 2013, foram um momento de separação das águas para a igreja. Tratou-se de um momento de contraste gritante em relação ao tom do seu predecessor, o Papa Bento XVI, que se tinha referido ao «mal moral intrínseco» e à «desordem objetiva» da «atração pelo mesmo sexo».

 

O comentário do Papa Francisco é um momento influenciador numa história de uma aceitação mais ampla das pessoas LGBT através da sociedade nos últimos cinco anos. Por exemplo, 63% dos americanos pensa que a homossexualidade deveria ser aceite pela sociedade e 70% dos católicos estão igualmente de acordo. Dois anos após a afirmação do Papa Francisco, o Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos garantiu o direito ao casamento para os casais do mesmo sexo. Como é que a hierarquia da igreja católica respondeu?

 

Apesar do tom compassivo do Papa, muitas pessoas tanto gays como héteros acham difícil conciliar uma atitude acolhedora com os ensinamentos oficiais da igreja que condena os atos homossexuais e com afirmações de bispos e padres que refletem uma atitude mais beligerante em relação à comunidade LGBT. Embora muitos passos tenham sido dados para atravessar o fosso entre católic@s LGBT e a sua igreja, a maioria concorda que: ainda há muito trabalho pela frente.

 

 

Uma mudança de tom

A compaixão do Papa Francisco imita o tom pastoral que tem sido infundido a todo o seu papado, criando um ambiente que é mais aberto ao diálogo. Ele utiliza a palavra gay e fez passar mensagens de apoio e acolhimento às pessoas LGBT. Encontrou-se com um antigo estudante gay na sua visita aos Estados Unidos em 2015. Pediu aos cristãos que pedissem desculpa às pessoas gays pelas ofensas cometidas ao longo da história.

 

«O Papa Francisco não está a criar uma revolução, mas o que ele está a fazer está a criar o espaço no qual o Espírito Santo pode falar e ser escutado,» explica o Pe. Bryan Massingale, professor de ética teológica e social na Universidade de Fordham e uma voz sincera em prol do acolhimento das pessoas LGBT, particularmente a comunidade transgénera. «Embora não tenha havido qualquer mudança oficial na doutrina da igreja, sob o papado do Papa Francisco há uma maior liberdade em lidar com assuntos do domínio da ética e da moral sexuais de uma forma mais aberta do que houve durante os papados anteriores.»

 

O Papa Francisco nomeou igualmente bispos, que partilham a sua ênfase do cuidado pastoral, para cargos importantes, incluindo o Cardeal Joseph Tobin, arcebispo de Newark. Em maio de 2017 Tobin realizou uma missa de acolhimento para @s católic@s LGBT na Basílica do Sagrado Coração em Newark. (Tobin não celebrou a Missa e saiu antes do serviço devido a um compromisso anterior.) O cardeal Blase Cupich, arcebispo nomeado de Chicago pelo Papa Francisco em novembro de 2014, convocou sessões de escuta com católicos LGBT para fomentar o diálogo e limitar os sentimentos de alienação.

 

O padre jesuíta James Martin encontra-se entre os defensores mais audíveis, na hierarquia da igreja, para um diálogo compassivo entre @s católic@s LGBT e a igreja. Em 2017 publicou Construindo uma Ponte para desencadear a conversa entre os dois lados. Ele acredita que os encontros de Francisco demonstram uma mudança notável por parte da igreja nos últimos cinco anos. «[A Missa de acolhimento] não teria acontecido há cinco anos simplesmente porque o Cardeal Tobin não estava em Newark,» afirma Martin. «O Cardeal Cupich pretende ter audições com @s católic@s LGBT. Isso não teria acontecido porque ele não era o arcebispo de Chicago há cinco anos atrás.»

 

 

A inconsistência abunda

Embora as palavras e ações de certos bispos tenham sido uma mudança acolhedora para muit@s católic@s LGBT, a hierarquia da igreja não está unida em assuntos LGBT. «Ainda que a influência dos bispos tenha ajudado a criar espaços seguros e a capacidade para o diálogo onde esta não existia há 5 ou 10 anos atrás, a igreja institucional não parece estar a par com o que se passa na sociedade,» diz Arthur Fitzmaurice, um católico leigo que vive em Atlanta e que dá palestras e workshops sobre o ministério com pessoas LGBT. «O Papa Francisco fez muitos comentários sobre ser pastoral primeiro, mas há padres e bispos que não estão a ser pastorais com as pessoas nas suas paróquias e dioceses.»

 

Em contraste com as ações de acolhimento por parte do arcebispo Tobin ou Cupich, outros bispos e padres afinam por um diapasão bem diferente. Há novas diretrizes de que os funerais podiam ser negados a pessoas LGBT, bem como a Eucaristia. Um bispo chegou mesmo a realizar um exorcismo em resposta à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, em 2013.

 

Massingale vê duas formas de olharmos para esta inconsistência dentro da igreja. A primeira oferece um ponto de vista mais positivo e olha para as experiências de outros grupos cristãos que tiveram uma posição de maior aceitação em relação às pessoas LGBT, tal como as igrejas Episcopal, Presbiteriana, Metodista e Luterana. «Todas elas passaram por um período de muita confusão marcado por uma divergência de opinião e desentendimento aberto sobre a abordagem da questão,» afirma ele. «Não podemos esperar que a experiência católica seja diferente. As diferenças que vemos entre os responsáveis da igreja fazem parte de um processo normal de chegada a um sítio diferente.»

 

Ele reconhece igualmente que a discordância pode ser desconcertante para as pessoas sentadas nos bancos da igreja. «Estamos habituados a vivermos com a ideia de que os responsáveis da igreja agem todos da mesma forma ou usam a mesma voz,» afirma Massingale. «Penso que isto é um chamamento para que nós católicos aceitemos a realidade na qual vivemos numa igreja que se encontra no meio de uma mudança e desenvolvimento hesitantes, mas reais. De que forma ajudamos os fiéis a compreenderem que isto não é algo que seja inteiramente novo na história da igreja?»

 

Estas mensagens do púlpito têm efetivamente uma influência real nas pessoas sentadas nos bancos da igreja. Javier e Martha Plascencia tornaram-se ativos no ministério LGBT depois de o seu filho ter saído do armário como gay e abriram a sua casa como forma de apoiarem grupos para pais e familiares na zona de Los Angeles. Especialmente para a comunidade latina, explicam, as palavras vindas dos padres e bispos têm uma verdadeira autoridade. «Vimos pais a chorar dizendo "Tive um padre a dizer-me que o meu filho ia para o inferno",» diz a Martha. «As pessoas estavam muito gratas que estivéssemos a falar sobre amar e abraçar os seus filhos.»

 

 

Outros tipos de exclusão

Kristen Ostendorf ensinou na Totino-Grace High School em Fridley, Minnesota durante 18 anos, como professor de inglês, ministro do campus e leitor. Em 2013 a direção da escola descobriu que o diretor da escola estava num relacionamento com uma pessoa do mesmo sexo e ele demitiu-se. Como resposta, Ostendorf, que tinha saído há cerca de sete anos para a família e amigos, disse à faculdade que estava num relacionamento com outra mulher. Foi despedida no dia seguinte.

 

«É difícil para mim acreditar que a igreja mudou, principalmente porque as pessoas que conheço estão muito temerosas em relação ao futuro das crianças LGBT que ensinam ou exercem o seu ministério,» afirma Ostendorf, que ensina agora numa escola pública em St. Paul, no Minnesota. «Têm muito medo pelos colegas que são gays. Estão bem conscientes de que os seus empregos podem terminar imediatamente se alguém descobrir quem eles são e quem amam.»

 

Nos Estados Unidos, aproximadamente 70 pessoas foram despedidas de instituições católicas desde 2007 por razões relacionadas com a sua orientação sexual. Os despedimentos de lugares católicos realçam ainda mais a inconsistência da mensagem. Certamente que nem todos os professores gays são despedidos e as decisões, frequentemente, não refletem os pontos de vista dos estudantes ou da comunidade local.

 

À medida que os responsáveis mudam, também o pode fazer o tom para o diálogo com as pessoas LGBT, em certas áreas. Marco Cipolletti tem estado ativo no ministério com as pessoas LGBT na paróquia de St. Peter, em Carlotte, Carolina do Norte (EUA) durante várias administrações. O falecido bispo William Curlin serviu a diocese de Carlotte de 1994 a 2002 e parte deste trabalho incluiu o realizar audições para pais com filh@s LGBT.

 

O seu sucessor não deu continuidade às audições. «Estas experiências são danosas e algumas pessoas dizem 'Esqueçam a igreja' e vão-se embora,» diz Cipolletti.

 

Quanto as retiradas de convites e os despedimentos são filtrados através da imprensa, isso não somente causa dano às relações no interior da igreja, mas pode igualmente ser prejudicial ao modo como aquel@s fora da igreja entendem os católicos e o catolicismo. «Quando os bispos dizem coisas intolerantes e estes erros chegam aos escaparates, isso dá aos não católicos uma razão para não se envolverem com a igreja,» afirma Fitzmaurice. «Muitas vezes as pessoas dentro da igreja já se decidiram. Muit@s católic@s praticantes ficarão na igreja independentemente daquilo que qualquer bispo diga. Se o bispo concorda com el@s, sentir-se-ão reforçados; mas se discordarem sentirão que o bispo está fora do alcance.»

 

 

De baixo para cima

De acordo com o Pew Research Center sobre Religião e Vida Pública, 70% dos católicos acreditam que a homossexualidade deve ser aceite, incluindo 85% dos católicos com idades compreendidas dos 18 aos 29 anos. Esta aceitação parece estar a crescer e a iniciar-se a partir dos bancos da igreja, em vez de descer a partir do topo da igreja (apesar do exemplo pastoral do Papa Francisco).

 

Yunuen Trujillo foi voluntário para o ministério católico com as pessoas lésbicas e gays (CMLGP) na arquidiocese de Los Angeles, nos últimos quatro anos e acredita que uma mudança significativa é mais frequentemente originada nos leigos.  «Está a acontecer de baixo para cima,» diz ela. «A minha paróquia começou um ministério LGBT e a comunidade tem feito perguntas. Algumas pessoas não estão contentes com isso e outras estão, mas só o facto de estarem a começar a fazer perguntas já é uma coisa boa, pois é assim que se começa o diálogo.»

 

Parte da razão para as mudanças na atitude nos bancos da igreja é porque a sociedade criou uma atmosfera mais acolhedora, mais pessoas saíram do armário, o que significa que é provável que cada vez mais pessoas conheçam alguém que se identifica como sendo LGBT. Em 2013, 75% dos americanos afirmaram ter um amigo, familiar ou colega de trabalho que lhes tinha dito ser gay.

 

Para além disso, 92% dos americanos LGBT estão de acordo que ao longo dos últimos 10 anos a sociedade tornou-se mais tolerante em relação a essas pessoas. «À medida que cada vez mais católicos LGBT tornam pública a sua sexualidade e a sua identidade, mais famílias são afetadas, mais padres e agentes da pastoral são afetados e, por sua vez, mais bispos são afetados.»

 

Ostendorf concorda com esta firmação, explicando que ela cresceu nos anos 70 do século passado quando era menos aceitável ser-se quem se era em público. «É minha perceção de que há uma maior faixa de católicos praticantes que estão mais sensibilizados quando falamos de pessoas LGBT e mais dispostos a estar nessas áreas cinzentas e a falar com essas pessoas, provavelmente porque há mais pessoas que são gays e que dizem: 'OK, est@ sou eu',» diz ela. «Há muitas comunidades que dizem 'Aqui estão os nossos irmãos gays e as nossas irmãs lésbicas, aqui estão os seus companheiros e companheiras e filh@s e estamos nisto tod@s junt@s'.»

 

 

Encontrar o diálogo verdadeiro

O que atravessa muitas conversas com católi@s LGBT e a premissa do livro Contruir uma Ponte do Pe. Martin é um chamamento consistente ao diálogo entre católic@s LGBT e a igreja institucional. Cipolletti descreve uma trégua instável em Charlotte (EUA) entre o ministério com pessoas LGBT e o bispo. «Não nos encontramos regularmente. Temos esperança que no futuro ambos os lados da ponte se possam abrir.» diz ele.

 

Trujillo acredita que o diálogo deveria olhar para além das pessoas LGBT como tópico e centrar-se na pessoa no seu todo. «Temos tendência em esquecer que a sexualidade ou a orientação é somente uma pequena parte de quem é a comunidade LGBT,» diz ela. «As pessoas LGBT têm testemunhos maravilhosos de fé e penso que quem quer que seja que oiça as suas histórias concordará que estas não são pessoas a quem negássemos os sacramentos ou outras coisas.»

 

Uma razão pela qual a frase do Papa Francisco «Quem sou eu para julgar?» foi tão inovadora foi porque ele usou a palavra gay. O diálogo beneficiará com o uso das palavras que as pessoas LGBT usam para se referirem a si mesmas. «Penso que é importante chamar um grupo por aquilo que ele pede para ser chamado,» afirma Martin. «Se o Papa Francisco pode usar o termo gay, o mesmo podem fazer as outras pessoas.»

 

Fitzmaurice cita uma vez em que um bispo o convidou para falar na diocese, mas pediu-lhe que intitulasse a palestra «atração pelo mesmo sexo» como oposto a LGBT ou gay. «Antes da palestra ele saiu e perguntou-me 'Por que razão quer dizer gay?'» recorda-se Fitzmaurice. «Quando conversámos sobre isso, isso fez uma grande diferença para ele, porque quando me apresentou no workshop, utilizou as palavras gay e lésbica.»

 

Diálogo e abertura são importantes não somente entre os católicos leigos e os responsáveis ordenados, mas igualmente nos relacionamentos entre amigos e família. Massingale recorda-se de uma interação que teve com um pai: «Lembro-me de uma história maravilhosa na qual um pai disse-me, com lágrimas nos olhos, 'tinha tanto medo que tivesse que escolher entre ser católico e amar o meu filho. Mostrou-me que posso ser ambas as coisas. Estava preparado para abandonar a igreja católica, porque nem por sombras iria deixar de amar o meu filho'. Este é o tipo de vozes que precisamos de escutar mais vezes. Se ouvíssemos estas vozes de pessoas católicas sinceras, comprometidas e leais, então penso que a nossa igreja teria encontrado um caminho para uma posição que, de forma mais adequada, reflita a vida e o ministério de Jesus.»

 

 

Uma 'primavera antecipada'

Embora não seja provável que o ensino oficial sobre ética sexual ou matrimónio venha a mudar a breve trecho, existe a esperança que os católicos continuem a falar sobre o assunto.

 

«Penso que seria um grande passo para a igreja afirmar 'Reconhecemos que existe amor entre muitas pessoas na igreja, não somente entre as pessoas heterossexualmente casadas, que é o reflexo do tipo de amor que Jesus proclama',» afirma Fitzmaurice.

 

Uma leitura atenta do evangelho de Jesus revela o seu exemplo em alcançar @s que estão nas margens. «Algumas vezes esquecemo-nos do evangelho quando falamos sobre este tópico,» diz Trujillo. «Esquecemo-nos que Jesus encontrou as pessoas exatamente onde elas se encontravam e não disse, 'Dai algum peixe a estas pessoas, mas não àquelas',»

 

Porém a mensagem de amor nem sempre chega aos jovens, especialmente à medida em que educadores e outros funcionários continuam a ser despedidos devido à sua orientação sexual. «Isto diz a esses jovens, 'Vocês não têm futuro nesta igreja. Não digam em voz alto quem são e, se o fizerem, vamos correr com vocês.' Esta não é uma igreja de Cristo, não pode ser,» afirma Ostendorf. «Existem muitos de nós que permanecem numa igreja que realmente não nos quer. Portanto, tem de haver uma mensagem de Jesus que seja apelativa. Tem de haver uma verdade nessa história cristã que continuamos a apregoar. As pessoas LGBT continuam a estar presentes, porque têm esperança na verdade dessa mensagem.»

 

O Pe. Massingale acredita que, embora possa não ser uma jornada fácil, eventualmente a igreja católica irá celebrar as expressões de compromisso de amor entre pessoas LGBT. «Não penso que o nosso compromisso para com a igual sacralidade das pessoas nos dê qualquer outra escolha,» afirma. «A metáfora que usei para me referir ao local onde estamos enquanto igreja é a de que estamos numa primavera antecipada.  Particularmente no centro-oeste (EUA) na primavera antecipada os campos estão lamacentos e podemos ter grandes tempestades de neve e episódios de frio ártico enquanto dura a mudança de estação. Encontramo-nos neste tempo de transição onde saímos de um paradigma de compreensão da sexualidade humana para outro. Tudo isto faz parte da confusão na qual nos encontramos, mas é nossa fé como católic@s que toda esta confusão contenha os alicerces de uma nova vida e de um novo nascimento.»

 

Fonte: US Catholic