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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

Bíblia e Homossexualidade: Conversa franca sobre Romanos 1

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Quando um católico conservador quer acusar um católico ou uma católica LGBT, o repertório é sempre o mesmo: uma pequena lista de textos bíblicos em que os atos homogenitais (entre homens, apenas) são condenados: Levítico 18,22; 20,13; 1 Coríntios 6,9 e 1 Timóteo 1,10. Entretanto, os acusadores cometeram um grave erro ao aplicar tais textos às mulheres, pois nenhum deles faz referência ao sexo entre elas. Nem mesmo Romanos 1,26.

 

Bom, a clareza depende de como lemos e interpretamos determinado texto. Uma das regras da Hermenêutica é comparar versículos paralelos – ou seja, que tratem do mesmo assunto – para esclarecer termos obscuros. É aqui que os acusadores ficam encurralados! A condenação do sexo entre homens ainda encontra certo número de textos para respaldá-la. Mas o que dizer do sexo entre mulheres? Além de Romanos 1,26, nada mais há nas Escrituras que se refira a ele. Se Paulo condena aí a orientação homossexual, comum a homens e mulheres, por que não fez o mesmo nos outros textos? Uma coisa, porém deve ficar muito clara: as razões do sexo homogenital masculino condenado na Bíblia não são as mesmas de hoje.

 

É interessante notar como os acusadores se esquecem por completo do contexto dos versículos que utilizam! Ignoram as regras da hermenêutica e da exegese e depois acusam-nos de manipular as Escrituras! Bom, mas vamos ao texto em questão (NOTA: Nas citações foi utilizada a Bíblia dos Capuchinhos):

 

26 - Foi por isso que Deus os entregou a paixões degradantes. Assim, as suas mulheres trocaram as relações naturais por outras que são contra a natureza.

 

27 - E o mesmo acontece com os homens: deixando as relações naturais com a mulher, inflamaram-se em desejos de uns pelos outros, praticando, homens com homens, o que é vergonhoso, e recebendo em si mesmos a paga devida ao seu desregramento.

 

Para analisar corretamente este texto, precisamos de dois princípios da hermenêutica e da exegese: o contexto textual e sociocultural.

 

Quando analisamos o contexto textual, percebemos que os versículos 26 e 27 de Romanos 1 não são independentes, mas têm o seu conteúdo específico iniciado a partir do versículo 18: a impiedade dos homens e a supremacia de Deus em relação à Criação. A idolatria é um dos temas centrais, o que fica evidente nos versículos 23 a 25 (Foram esses que trocaram a verdade de Deus pela mentira, e que veneraram as criaturas e lhes prestaram culto, em vez de o fazerem ao Criador, que é bendito pelos séculos! Ámen). O Versículo 26 inicia-se com a expressão por isso, ou seja, explica porque aqueles atos antinaturais foram cometidos.

 

A idólatra Roma servia muitos deuses, bem como cultivava o hedonismo - o prazer como bem supremo. Paulo faz uma análise das consequências dessa realidade tão abominável diante de Deus. Uma das práticas comuns aos cultos romanos era a prostituição cultual. Ali, homens heterossexuais envolviam-se em rituais homossexuais, o que justifica a expressão: deixaram a relação natural com a mulher. Ou seja, homens heterossexuais, trocaram uma conduta sexual que lhes era natural por outra, contrária à sua natureza, ou seja, uma prática homossexual, simplesmente como fonte de prazer e de expressão ritualística.


Quanto ao sexo entre mulheres, o texto de Paulo não é definitivo em afirmá-lo, havendo, inclusive, quem acredite que o Apóstolo mencionava o sexo anal heterossexual. Esta interpretação perdurou durante toda a Idade Média. Tudo indica, porém, que o texto faz referência a duas cerimónias comuns entre os romanos daquela época: o culto a Bona Dea – restrito às mulheres, inclusive com a prática de cópula com animais; e o culto a Baco, ou bacanais, em que o incesto era parte dos ritos de iniciação. Todas essas práticas eram contrárias à natureza segundo o pensamento judaico, para o qual a função principal do sexo era a procriação.

 

O texto faz menção a relações contrárias à natureza praticadas num contexto bastante específico: a adoração de ídolos. Nenhuma ideia há que reflita as relações homoafetivas e monogâmicas da sociedade atual.

 

O texto fala de homens e mulheres que praticaram perversões sexuais específicas, contrárias à sua natureza. Homens de orientação homossexual nunca deixaram a relação natural com a mulher (v.27), simplesmente porque isso nunca lhes foi natural! O sexo entre mulheres não está em questão visto que a penetração e a semente (exclusiva dos machos, segundo a visão da época) eram necessárias para que um ato fosse considerado de natureza sexual.


Alguns leitores podem estar pensando: “ora essa, esta interpretação é forçada! Vocês estão deturpando a Bíblia para ajustá-la às vossas práticas homossexuais!” Bom, para provar que esta análise não é invenção de teólogos gays, por exemplo, vejamos o que diz o comentário da Bíblia de Estudo Dake (ministro da igreja pentecostal americana), CPAD, sobre este texto:

“... Este tipo de idolatria tem sido a raiz de toda imoralidade abominável dos pagãos. Os ídolos têm sido os padroeiros da licenciosidade (vv. 23-32). Quando davam forma humana aos seus deuses, eles dotavam-nos de paixões e desejos e representavam-nos como escravos de infames perversões sexuais e como possuidores de poderes ilimitados de satisfação sexual. Deus permitiu que eles se entregassem a pecados homossexuais e perversões desse tipo.”[Bíblia de Estudo Dake, CPAD, 2009, pág. 1799].

 

Entretanto, não faltam tentativas para alterar o que Paulo escreveu. Vejamos, por exemplo, como a Nova Bíblia Viva, Editora Mundo Cristão, Edição 2011, traduziu Romanos 1,26:

 

Esta é a razão pela qual Deus os entregou a paixões pecaminosas, a tal ponto que até suas mulheres se voltaram contra o plano natural que Deus tinha para elas e cederam aos pecados sexuais entre elas mesmas.

 

Bom, diante de tudo o que expusemos, deixo uma pergunta aos nossos acusadores: Quem está deturpando a Bíblia para ajustá-la às suas crenças?

 

Texto original: Alexandre Feitosa

Adaptação: José Leote