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Associação RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBTQ (Portugal)

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12 de Fevereiro, 2019

Bispo alemão afirma que o ensinamento católico sobre a homossexualidade precisa ser repensado

Rumos Novos - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

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Excluir determinados grupos é uma expressão de preconceito e conduz a uma discriminação em relação a esses grupos, afirma o bispo alemão Franz-Josef Overbeck

 

Um bispo católico na Alemanha que em tempos teve uma postura dura contra os homossexuais "praticantes" pediu agora para uma reapreciação minuciosa do ensinamento da igreja sobre a sexualidade, afirmando que este causou especialmente um «sofrimento» e uma «repressão psicologicamente pouco saudável» entre as pessoas gays.

 

«A questão é se conteúdos específicos da teologia católica sobre o corpo levaram a um tabu desastroso no que concerne ao fenómeno da sexualidade humana,» afirmou o bispo Bishop Franz-Josef Overbeck de Essen.

 

«Isto aplica-se particularmente à homossexualidade porque - de acordo com esta premissa - uma visão tão negativa por parte da igreja (tal como a que se encontra expressa no ensinamento da Igreja) promoveu e encorajou uma repressão psicológica e institucional pouco saudável, ou mesmo a negação desta manifestação da sexualidade,» disse ainda o bispo de 54 anos.

 

O bispo Overbeck, que é igualmente o responsável da Arquidiocese Militar Alemã e vice-presidente da COMECE (Comissão dos Bispos Delegados das Conferências Episcopais da União Europeia) expõe cuidadosamente os seus pontos de vista no número de fevereiro de 2019 do prestigiado semanário teológico alemão Herder Korrespondenz.

 

«Uma coisa é certa: Todo o ser humano pode de forma respeitosa e com amor entrar em relacionamentos interpessoais. Excluir determinados grupos é, pois, uma expressão de preconceito, difícil de suportar para aqueles e aquelas que são excluídos e, em última análise, leva a uma discriminação contra esses grupos ou mesmo à sua criminalização,» escreveu o bispo, num ensaio intitulado «Ultrapassar preconceitos: a igreja católica deve mudar a sua visão sobre a homossexualidade.»

 

 

Uma mudança de perspetiva sobre a homossexualidade

 

Overbeck, que foi ordenado no sacerdócio em 1989 em Roma pelo então cardeal Joseph Ratzinger e tornado bispo por Bento XVI em 2007, nem sempre questionou o ensinamento da igreja sobre a homossexualidade. Em 2010 ele era defensor inflexível de que a «homossexualidade vivida» era um pecado mortal.

 

Neste ensaio ele próprio reconhece a sua mudança de pensamento.

 

«Nos últimos anos, as muitas conversas que tive com pessoas gays tocaram-me profundamente, alimentaram o meu pensamento e alargaram a minha perspetiva sobre o tema da homossexualidade,» afirmou.

 

«É chegada a hora para a igreja realizar o debate sobre a sua perceção e avaliação da homossexualidade de tal forma a que as feridas ainda mal cicatrizadas de feridas passadas não sejam novamente abertas,» disse.

 

«Quando discutimos a homossexualidade, devemos, de qualquer forma, sempre ter presente as palavras confiantes da constituição pastoral sobre a igreja no mundo atual, Gaudium et Spes (GS 36),» acrescentou o bispo.

 

No documento do Vaticano II pode ler-se: «quem se esforça com humildade e constância por perscrutar os segredos da natureza, é, mesmo quando disso não tem consciência, como que conduzido pela mão de Deus, o qual sustenta as coisas e as faz ser o que são.»

 

O bispo Overbeck escreveu que não há, neste momento, quase nenhum outro assunto tão capaz de provocar tanta agitação na igreja católica como a questão da homossexualidade. Torna-se, portanto, crucial e urgente que a igreja lide com este assunto de uma forma mais profunda, afirmou.

 

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A homossexualidade não pode ser associada ao escândalo sexual

 

O bispo Overbeck rejeitou igualmente as alegações de que a presença de homossexuais no sacerdócio era a causa do escândalo de abuso sexual no seio da igreja.

 

«Nem a orientação heterosexual nem a homossexual podem ser vistas como causa para o abuso sexual. E, conforme os peritos nos asseguram, não existe igualmente qualquer relação entre pedofilia e homossexualidade,» disse o bispo.

 

Acrescentou ser «francamente absurdo» pensar que o abuso sexual do clero se resolveria ao permitir somente a admissão de homens heterossexuais nos seminários.

 

«Não foi precisamente o persistir dessa visão e o fortalecimento dessa atitude que conduziu a repressões problemáticas no interior da igreja - e, além disso, alimentou a ilusão perigosa de que uma receita mágica tinha sido encontrada para a solução de um problema tão complexo como é o abuso sexual?» questionou.

 

 

A credibilidade do ensinamento da igreja à luz da experiência humana

 

O bispo Overbeck, que é um sobrevivente de um câncro, disse que a igreja não pode evitar discutir as experiências das pessoas com a sexualidade e as ciências humanas que se preocupam com ela. Avisou de que evitar essas experiências marginalizaria o ensinamento moral da igreja. Em vez disso, o diálogo sobre os conhecimentos exegéticos e teológico-morais que surgiram nas útimas décas devem ser abertos de modo a permitirem o progresso.

 

«Esta é a única forma da tradição permanecer um processo vivo, tal como tem sido desde os começos do Cristianismo,» disse.

 

O bispo pediu ainda um reexame das perceções condicionadas pelo tempo e pela era contidas na Bíblia e referentes à moralidade sexual e à homossexualidade.

 

«É aqui que entra a 'arte do discernimento' através da qual podemos descobrir aquilo que da complexidade das tradições bíblica e da igreja pode ser exercido hoje e em que medida o deve ser.»

 

 

Homens homossexuais bem-vindos aos seminários

 

Entretanto, a arquidiocese de Paderborn deixou bem claro que homens com uma orientação homossexual não estão excluídos do sacerdócio católico.

 

«Os candidatos homossexuais ao sacerdócio serão aceites desde que se comprometam a viver pela regra do celibato,» disse o Pe. Michael Menke-Peitzmeyer, reitor do seminário arquidiocesano.

 

«Temos de distinguir entre a orientação homossexual de uma pessoa e a prática homossexual.», afirmou o sacerdote de 54 anos ao cana da televisão alemã WDR, a 28 de janeiro.

 

O Pe. Menke-Peitzmeyer, que é o reitor do seminário de Paderborn desde 2013, disse que a orientação sexual e as práticas pessoais são discutidas abertamente com os futuros seminaristas.

 

 

'Tendências homossexuais profundamente enraízadas'

 

Contudo, o reitor da Conferência dos Reitores Alemães sugeriram que o Vaticano turvou as águas com a sua instrução de 2005 sobre a admissão de candidatos gay ao sacerdócio.

 

A exigência da Congregação para a Educação Católica de que «homens com tendências homossexuais profundamente enraízadas» deviam ser excluídos do sacerdócio católico «necessita de uma explicação», afirmou o Pe. Hartmut Niehues, que é igualmente reitor do seminário diocesano em Münster.

 

Numa entrevista á rádio domradio.de a 30 de janeiro, o sacerdote afirmou que as discussões acerca da orientação sexual e da sexualidade em geral «não eram um tema taboo», mas antes uma parte formal da formação para o sacerdócio em toda a Alemanha.

 

O reitor de 47 anos disse que a questão decisiva para os candidatos, independentemente da sua orientação sexual, era se podiam ou não levar vidas de celibato.

 

Fonte:  La Croix International