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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

Carta a um amigo gay...

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 Quando andava no liceu, tive um amigo que ainda lidava com a sua auto-aceitação da homossexualidade, quando eu já o tinha feito e já ía mais à frente no caminho. Basicamente estamos todos no mesmo caminho, mas em diferentes lugares. Aqui deixo a carta que então lhe escrevi. Talvez também te ajude a ti...

 

«Algumas vezes na vida, acontecem-nos coisas que realmente não queríamos que acontecessem. Talvez sejas um pouco diferente do que parece a todos. Talvez sejas canhoto, talvez tenhas o pé chato, ou talvez sejas homossexual. É verdade que ser canhoto já não é nada de especial, mas já foi. Mesmo na geração dos nossos pais, as pessoas eram obrigadas a escrever com a mão direita porque com a esquerda era considerada coisa do diabo. Agora, contudo, escreveres com a mão esquerda talvez te atrase um pouco, talvez tenhas algumas dificuldades, alguns obstáculos, mas consegues ultrapassá-los. Ser homossexual é o mesmo, terás algumas dificuldades e obstáculos, mas podes contorná-los.

 

Podes ser feliz, verdadeiramente feliz! Podes ter amigos que saibam que és homossexual e não te incomodem por isso. Podes ter montes de amigos que te aceitarão pelo que és. Acredita ou não, um dia os teus pais irão aceitar-te. Contudo, tudo o que consegues ver é o lado negativo de ser homossexual. Piadas sobre maricas, comentários negativos de toda a gente, incluindo dos teus pais.

 

Por isso, pensas que podes enganar as pessoas aos saires com raparigas. Porém, de cada vez que tens medo algo vai acontecer no teu encontro que te deixa desconfortável. Lá no fundo sabes quem és, mas não o consegues admitir para ninguém. Portanto sais com raparigas, mas isso não funciona. Estabeleces então o objetivo inatingível para que todos pensem que és heterossexual e parem de te incomodar com os encontros: ninguém é suficientemente bom para ti. Comigo foi que ninguém tinha moral suficiente. Ninguém era suficientemente puro. Contudo, com o passar do tempo isso não funciona. A única pessoa que enganas é a ti próprio. Eu já lá estive!

 

Contudo o mentires a toda a gente, faz-te sentir metido numa armadilha. É como se a sociedade te forçasse para um molde onde não encaixas. Porém, não precisas de mudar para encaixar no molde. Há outras pessoas por aí que também não se encaixam no molde. Estás somente muito assustado de que todo o mundo se volte contra ti. Mas não o farão, eu não o farei e outros não o farão. De facto, de todas as pessoas a quem contei, nenhuma me rejeitou.

 

Sou homossexual. Levei tanto tempo para conseguir dizer isto. Mas agora consigo dizê-lo. Consigo brincar sobre isso. Porém, agora tenho a certeza de quem sou!

 

Mas já estive onde tu estás agora. Toda a gente, os filmes, a televisão, mostram os homossexuais como sendo amaricados, molestadores de crianças ou tendo comportamentos sexualmente desviantes. Mas tu não és assim, és um tipo normal que, por acaso, é homossexual. Mas de tudo o que viste e ouviste, essas pessoas não existem. Mas é claro que existem e nem tu nem as outras pessoas reparam que elas são diferentes. Soube que eras homossexual no 10.º ano, quando te contei que eu era homossexual. Deve ser o nosso sexto sentido que nos diz quem é homossexual e quem não é. Se ainda não o tens, tê-lo-ás mais tarde!

 

Somente queres ir para os grandes centros. Qualquer sítio onde os homossexuais sejam aceites, qualquer sítio onde não te sentisses como um marginal. Para mim, foi um grande centro, disse aos meus pais que queria ir estudar para lá, mas somente queria ir para lá para poder ser quem sou. Por que pensas que fui aceite na universidade um ano mais cedo? Não foi porque quisesse apressar a minha aprendizagem por um ano. Foi por querer sair dali. Ser livre daquelas mentes fechadas da minha terra. Então eu e o João tornamo-nos amigos e eu centrei todas as minhas energias nele. Não me precoupei com a sexualidade. Fazia com ele as coisas que os melhores amigos fazem e isso era suficiente. Tinha medo de ir para a universidade numa terra diferente, tinha medo porque a universidade era católica e eu queria ficar por causa do Carlos e, por isso, não fui.

 

Mas daqui a duas semanas e meia, vou para outra Universidade e é como ouro sobre azul. Depois de duas semanas de aconselhamento sei que serei absolutamente feliz lá. Por exemplo, depois de somente ter conhecido estas pessoas há quatro horas, sentei-me e disse "Sou homossexual". Eles disseram "Tudo bem" e durante o dia e meio seguinte nada mais dissemos. Nem ligaram ao facto de eu ser homossexual. Ainda se preocupavam comigo, ainda falavam comigo, não fez qualquer diferença. Antes de ter ido para o aconselhamento, troquei correspondência com um conselheiro homossexual, pelo que já todos sabiam que eu era homossexual. Mais uma vez não me preocupei com isso. Sei que ainda vais ficar por cá, mas não tens de te esconder. Mesmo aqui ainda podes ser feliz!

 

Já te pensaste em matar, mas na realidade não o queres fazer. Somente queres fazer parecer que te queres matar. Somente queres chamar as atenções sobre ti. Tens de te encher de esperanças de poderes viver uma vida feliz. Acredita-me, já aí estive. Pensei em espatifar o carro, mas isso teria sido muito caro.

 

Já pensaste em fugir, mas não sabes para onde ir. Não sabes para onde ir, onde não sejas descoberto. Já pensaste em deixar uma mensagem aos teus pais e a não regressares até eles te darem um sinal de que tudo estava bem a respeito de seres homossexual. Sei que já pensaste nisto tudo. Eu também o fiz, mas por uma razão ou outra algo me puxou para outro lado.

 

Não posso saber tudo o que pensaste ou o que fizeste, eu e tu não somos a mesma pessoa. Sei que já estás para além de algumas destas reflexões, mas sei que já pensaste nelas. Escrevo-te para te dizer que não estás sózinho, que tudo se irá recompor.

 

Não te peço uma resposta. Somente te quero ajudar.

 

Teu amigo, JC»

 

Tradução e adaptação: José Leote (Rumos Novos)