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Associação RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBTQ (Portugal)

Somos católic@s LGBTQ que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

15 de Março, 2019

Católicos LGBT e o Papado de Francisco

Rumos Novos - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

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Jaeynes Childers e Maria Balata, membros do grupo de ajuda a gays e lésbicas da arquidiocese de Chicago, dão as mãos na Igreja de N. Sra. do Monte Carmelo, em 2016. (Fotografia CNS/Karen Callaway, Catholic New World)

 

Ao longo das última semanas tenho estado em Chicago e S. Francisco a conversar com católicos LGBT e escutando teólogos, responsáveis por escolas católicas, pais e outras pessoas sobre o modo como a igreja pode realizar um melhor trabalho indo ao encontro e aprendendo com os católicos LGBT. Uma das mensagens mais poderosas que escutei veio de um bispo católico nomeado pelo Papa Francisco.

 

«Numa igreja que nem sempre valorizou ou acolheu a sua presença, precisamos escutar as suas vozes e levar a sério as suas experiências», afirmou o bispo John Stowe da diocese de Lexington, no Kentucky.

 

Desde a sua eleição em 2013, o Papa Francisco defendeu veementemente o ensinamento tradicional da igreja contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Foi igualmente crítico em relação ao que designa de «colonização ideológica» em relação a algumas formas contemporâneas de compreender o género. Ainda assim, Francisco efetuou uma abordagem dramaticamente diferente ao falar sobre gays e lésbicas mais do que os seus antecessores que sempre se referiram à homossexualidade como um «mal moral intrínseco». Nesta linha, o cardeal Joe Tobin, nomeado por Francisco para responsável da arquidiocese de Newark, acolheu uma peregrinação de católicos LGBT à Basílica do Sagrado Coração. «Estou encantado de que vós e os irmãos e irmãs LGBTQ planeiem visitar a nossa maravilhosa catedral», escreveu Tobin num e-mail endereçado ao responsável pelo grupo. «Sereis muito bem acolhidos.»

 

A abordagem de Francisco está em linha com o seu reconhecimento de que a igreja excluiu com demasiada frequência pessoas devido à sua fixação num legalismo estreito e moral. «Alguém me perguntou um dia, de uma forma provocadora, se eu aprovava a homossexualidade», afirmou o Papa numa entrevista em 2013. «Respondi com outra pergunta: 'Diga-me: quando Deus olha para uma pessoa gay, ele aprova a existência desta pessoa com amor, ou rejeita-a e condena-a? É nosso dever considerar sempre a pessoa. Aqui entramos no mistério do ser humano. Na vida, Deus acompanha pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua situação». Menos de um ano depois, quando questionado sobre os padres gay no Vaticano, a sua resposta tornou-se num soundbite papal viral que alcançou um estatuto quase icónico: «Se uma pessoa é gay e procura o Senhor, quem sou eu para julgar?»

 

Durante uma reflexão espiritual o bispo Stowe sublinhou o modo como Jesus desafiou frequentemente aquilo que denominou da «autoproclamada polícia do Sabá» e fez uma ligação direta entre esse enquadramento mental e aquele com que os católicos LGBT são frequentemente tratados. «Alguns de vós experimentastes o mesmo tipo de abordagem à lei que Jesus tantas vezes corrigiu no Evangelho - uma abordagem que algumas vezes desvaloriza os seres humanos», afirmou.

 

As histórias mais dolorosas que escutei vieram de católicos gay e lésbicas que foram despedidos de escolas católicas ou de outras instituições da igreja depois da divulgação pública dos seus relacionamentos.

 

Os bispos que conseguem citar de cor os ensinamentos sobre a sexualidade também deveriam escutar mais atentamente as histórias cruas e honestas dos pais católicos. «Há dez anos eu era totalmente ignorante sobre todos os assuntos LGBT até a situação tocar a minha família», afirmou Ray Denver, um diácono em St. Petersburg, na Florida. Este pai de cinco filhos, que descreveu a sua família como «uma família fanaticamente católica» - com quatro dos seus cinco filhos frequentando escolas católicas - é atualmente um defensor orgulhoso e público da sua filha transgénero Lexi. «A parte mais difícil é ver-se alguém que amamos viver em auto-ódio», afirmou. «Quando a palavra suicídio entra em jogo, a nossa vida muda. Queríamos que ela acabasse o primeiro ano viva. Há tantas famílias que rejeitam os seus filhos e filhas LGBT e isso é trágico, particularmente quando isso é feito em nome da fé. Não sou perito, mas o que estas famílias precisam de ouvir é que Deus criou estas crianças do modo como são e que Deus as ama».

 

A sua filha Lexi tomou consciência da sua identidade na Universidade de Georgetown, onde trabalhou no centro de recursos LGBTQ no campus universitário. «As pessoas transgéneras apenas querem viver uma vida quotidiana e serem mais uma pessoa na multidão», afirmou. «Lutei com a saída do armário. Estava convencida de que seria abandonada pela família e amigos, porque via isso acontecer a outros e outras». Os e as jovens trans têm taxas de suicídio desproporcionalmente elevadas, afirmou ela, e a esperança média de vida de uma mulher transgénero é de apenas trinta anos.

 

Uma das vozes mais apaixonadas e articuladas pela total inclusão dos católicos LGBT é o teólogo da Universidade de Fordham, Bryan Massingale, um padre afro-americano. Enquanto alguns e algumas puseram de lado as citações frequentes do Papa Francisco como sendo meras mudanças de tom nos assuntos LGBT, Massingale vê nelas um processo mais substantivo em curso neste papado. «Há uma mudança de tom, é certo, mas o tom mascara uma mudança doutrinal definitiva e o desenvolvimento atualmente em curso - uma mudança que é cautelosa, hesitante, tensa, algumas vezes ambígua e contraditória e ainda assim verdadeira», Massingale disse ainda que «aquilo que é nevrálgico para muitos responsáveis da igreja reside não tanto no facto de alguém ser gay, mas em ser honesto, franco e transparente sobre isso», afirmou. «O armário escancarado», como Massingale o chama, é uma dinâmica paradoxal de «tolerância privada e condenação pública», uma posição que ele julga ser problemática. «A justiça é inerentemente pública», disse. «A justiça é a face social do amor. Insistir na aceitação e compaixão particular em relação às pessoas LGBT sem um compromisso eficaz de defender os direitos humanos LGBT e criar uma sociedade de justiça igual para todas e todos não é somente contraditório, é concomitantemente incompreensível e, em última análise, insustentável».

 

Na Universidade de S. Francisco encontrei-me com mais de duas dúzias de professores católicos, administradores escolares, teólogos e mulheres religiosas, mas também com o responsável nomeado pelo presidente da autarquia para as iniciativas transgénero. O grupo reuniu-se para uma conversa sobre a forma como apoiar os estudantes LGBT e auxiliar as instituições católicas a melhor pensarem numa cultura de inclusão fundamental à identidade católica. Michael Duffy, diretor do Instituto McGrath para a Educação Católica Jesuíta na universidade, realizaram o encontro, em parte, devido à sua experiência em alguns workshops e conferências católicos, onde as discussões sobre temas LGBT foram frequentemente inúteis e estreitamente definidas.

 

Theresa Sparks, a conselheira do presidente da autarquia da S. Francisco para as atividades transgénero, disse ao grupo que tem tido pouca ligação com as instituições católicas. «Há um vacum aqui», disse Sparks, que educou todos os filhos em escolas católicas e passou algum tempo como sem abrigo depois de ter efetuado a transição ela mesma. Um em cada cinco pessoas transgénero viveram como sem-abrigo, de acordo com dados do Centro Nacional para a Igualdade Transgénero, nos Estados Unidos.

 

Na última primavera, um professor de inglês na escola secundária de Mercy, em S. Francisco, saiu do armário como transgénero. Gabriel Bodenheimer colocou em perigo o próprio emprego quando decidiu fazer a mudança de mulher para homem - mas as Irmãs da Misericórdia, que tutelam e operam a escola, apoiaram-no. «Sentimos que devido aos nossos valores, a escolha era esta, mas isso não significa que foi fácil», contou a irmã Laura Reicks, responsável da região composta por 16 estados da Comunidade de West Midwest das Irmãs da Misericórdia, ao San Francisco Chronicle. Bodenheimer disse perante a reunião de S. Francisco que a sua experiência tinha sido «angustiante, mas igualmente animadora». Porém «a cultura do medo e do silêncio», disse, ainda é a norma quando se trata do tema transgénero, nas escolas católicas.

 

Um educador de longa data de uma escola católica, que pediu o anonimato, disse-me que uma conferência intitulada «Quebrando o Binário» realizada em março na sua escola causou um alvoroço enorme entre um número expressivo de pais. «Alguns pais ficaram incomodados e sentiram que uma escola católica não devia falar sobre identidade de género», disse. «Nunca tivemos uma resposta destas a nada que tenhamos alguma vez feito». Cerca de cinquenta pais mantiveram os filhos em casa. Os alunos escolheram o tema da conferência, que não se centrava unicamente sobre assuntos transgéneros, mas incluía discussões sobre a mulher no local de trabalho e os estereótipos de género. A conversa transgénero era opcional. Um painel de peritos falou aos estudantes: um advogado especialista em representar clientes transgénero, dois prestadores de cuidados de saúde que trabalham com a comunidade trans e uma assistente social. Um estudante que tinha mudado após se ter licenciado partilhou um vídeo sobre a sua experiência. A escola é gerida por uma ordem de mulheres religiosas.

 

«De facto, utilizámos a missão da nossa escola e a nossa identidade católica para falar sobre as pessoas transgénero, não como tema político, mas em termos de permanência nas margens e da ida às periferias existenciais onde as pessoas se encontram, às vezes, em sofrimento», disse o educador. «Uma escola católica é um espaço onde os miúdos deveriam aprender a pensar de forma crítica de modo a que possam tornar o mundo um lugar mais justo e humano. Ensinamos a posição da igreja sobre a sexualidade e temos igualmente a obrigação de ajudar os alunos e alunas a lutar com assuntos morais mais complexos».

 

Fonte: Commonweal