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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

Católicos LGBT enviam as suas experiências aos delegados ao Sínodo dos Bispos

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A Equal Future está a tornar possível a partilha de histórias através do seu sítio na web.

 

O sínodo dos bispos sobre os jovens, que teve o seu início no passado dia 3 de outubro, é "uma oportunidade única para esta geração", de acordo com Tiernan Brady da Equal Future, uma coligação de 100 grupos LGBT e religiosos católicos de mais de 60 países, entre os quais se encontra a Rumos Novos - Católicas e Católicos LGBT (Portugal).

 

Brady acredita que o sínodo pode anunciar a mudança que "será sentida durante os anos futuros por todo o mundo". Mudar as atitudes negativas na Igreja em relação às pessoas LGBT é a razão pela qual ele está a liderar a campanha para ajudar os católicos LGBT a contar as suas histórias aos delegados ao Sínodo sobre o modo em como foram atingidos pelos ensinamentos e atitudes da Igreja. O sítio equalfuture2018.com permite que as pessoas LGBT identifiquem o representante no sínodo do seu país ou região - aqueles que tomam as decisões - e enviem aos delegados um relato das suas experiências enquanto pessoas LGBT Católicas.

 

Brady, de 44 anos, afirmou que o sínodo é a “coisa mais próxima a que a Igreja chega do processo democrático"e que este é uma oportunidade para discutir os desafios reais dos jovens e a exclusão que as pessoas LGBT jovens enfrentam.

 

"É uma oportunidade para destacar os danos e pedir às pessoas para que considerem o que querem fazer quanto a isso", afirmou Brady. "Não se trata em absoluto de uma campanha anti-igreja - não se trata de uma discussão 'gays versus Deus'. É antes sobre a realidade do dano perpetrado às pessoas na sociedade. A igreja, como um grande líder no mundo, pode fazer algo de poderoso para pôr um fim a este estado de coisas."

 

O ativista irlandês, nascido no condado de Donegal, foi diretor das campanhas do referendo sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, na Irlanda e na Austrália que o colocaram em oposição às hierarquias católicas, em ambos os países.

 

"Eu venho de uma família irlandesa muito estereotipada," afirmou Brady. "O meu falecido pai e a minha mãe, uma professora de EMRC, eram pessoas muito religiosas. O meu tio é padre, no Peru - portanto, no que a famílias irlandesas diz respeito, pareço saído de um casting em Hollywood."

 

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Brady nunca “achou que as campanhas anti-Igreja sejam úteis" porque "existe uma grande dissonância" entre a igreja e as pessoas LGBT. "Não devemos escolher um ou outro dos lados," afirmou ainda. Para Brady, a questão é "como é que nós, enquanto sociedade, nos certificamos que todas e todos se sentem acolhidos?".

 

Enquanto fazia campanha a favor dos direitos do casamento entre pessoas do mesmo sexo na Irlanda e na Austrália, ele conheceu "vozes poderosas entre pessoas de fé na área da justiça social." É, afirmou, uma "vergonha clamorosa que as suas vozes não sejam escutadas mais vezes." Uma das razões que o levou a fazer parte da campanha Equal Future foi os "fantásticos defensores católicos em prol da igualdade LGBT que existem" e o seu desejo de ajudarem a "dar-lhes uma plataforma."

 

“Tanto a Igreja como os gays não estão chegando a parte nenhuma; portanto, a questão não é a forma como um lado esmaga o outro - o que não faz qualquer sentido," afirmou. "O vencer não diz respeito a um lado bater o outro. Vencer dirá respeito à forma de persuadir as pessoas e a questão é o modo como conseguimos o tom e o espaço que permita que isso aconteça."

 

No que a Brady diz respeito, ambos os lados deste debate têm "muitas vozes extremas" e o desafio é dar espaço ao meio termo, "as pessoas que ainda têm de mudar de opinião sobre a questão LGBT".

 

Brady espera que esta campanha forneça uma plataforma ao "apoio massivo no seio da igreja" às pessoas LGBT. Sondagens a católicos em países diferentes, afirmou, mostraram que apesar do apoio, há uma falta de uma estrutura onde as pessoas possam expressar os seus pontos de vista.

 

Não se trata em absoluto de uma campanha anti-igreja - não se trata de uma discussão 'gays versus Deus'. É antes sobre a realidade do dano perpetrado às pessoas na sociedade. A igreja, como um grande líder no mundo, pode fazer algo de poderoso para pôr um fim a este estado de coisas. — Tiernan Brady

 

Antes do sínodo, a Igreja consultou, de forma ampla, os jovens católicos que transmitiram claramente que o assunto dos seus amigos LGBT, irmãos e irmãs era importante e algo que queriam ver discutido.

 

"Os jovens católicos querem que este assunto seja efetivamente falado, pelo que o desafio para o sínodo é escutar e comprometer-se com este tema," afirmou. "Tudo o que nós podemos fazer é continuar a realçar a verdade às pessoas no poder e esperar que elas a oiçam como retransmitido através das histórias pessoais. Porém a mudança pode ser difícil e pode ser lenta."

 

Brady acredita que a mudança deve ser mais rápida agora que alguns estudos científicos mostraram que "ser uma pessoa LGBT é uma condição natural".

 

"Agora sabemos que a questão é sobre o modo como mudamos a nossa abordagem e as nossas regras de modo a refletirem a realidade - e isso é o que muitas pessoas na igreja e muitos padres pelo mundo fora entendem -, mas que a hierarquia necessita ainda de compreender isso," afirmou. "Foram precisos 500 anos para que a igreja pedisse desculpa a Galileu - não podemos fazer isso às pessoas LGBT. O sínodo dos jovens é um momento único numa geração onde nos é dado a possibilidade de refletir sobre o nosso conhecimento e para a hierarquia escutar as pessoas da igreja. No final de contas, a hierarquia não pode intencionalmente ignorar os seus membros para sempre."

 

Durante o decorrer do sínodo, a Equal Future está preparada para revelar uma nova sondagem internacional a católicos de todo o mundo sobre o tema LGBT. De acordo com Brady, os números iniciais apontam que por uma margem de 2:1 ou de 3:1 os católicos praticantes afirmam que os ensinamentos da igreja têm de mudar e que as atuais atitudes estão a criar um dano verdadeiro às pessoas LGBT.

 

"As histórias das pessoas são a maneira mais poderosa para permitir que os outros compreendam o dano provocado e a razão pela qual ele precisa ser abordado", afirmou.

 

Brady espera que durante o sínodo haja o reconhecimento que as pessoas LGBT "têm direito ao mesmo respeito e dignidade e às mesmas aspirações na sociedade como acontece com os demais." A igreja ensina que as pessoas LGBT devem ser tratadas com respeito e dignidade, mas Brady questiona se essa é a verdadeira experiência dos católicos e católicas LGBT. A marginalização e o impacto na saúde mental nos católicos e católicas LGBT deveria sugerir que a igreja está "a falhar em atingir os seus próprios baixos padrões." "A pobreza da exclusão é profunda," afirmou, realçando de que algumas pessoas na igreja pintam o quadro de que ser-se LGBT é um azar ou uma deceção.

 

Em última análise, tem de haver "um grande debate" acerca das regras, dos ensinamentos e do tom dos ensinamentos, que Brady enfatiza "são todos, com demasiada frequência, prejudiciais para as pessoas". A hierarquia da Igreja tem que encarar o fato de que, em todo o mundo, os católicos estão liderando a mudança a favor da aceitação das pessoas LGBT.

 

"Eles compreendem que qualquer um pode ser LGBT e que todas as pessoas merecem ser acolhidas. O que vemos é que os católicos são um dos grupos religiosos mais propensos a apoiar a igual dignidade para as pessoas LGBT", afirmou. "As pessoas na igreja já mudaram e continuam em mudança e a hierarquia tem de se pôr a par do seu próprio rebanho, neste tema."

 

Texto original: Sarah Mac Donald

Tradução: José Leote (Rumos Novos)