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Associação RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBTQ (Portugal)

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Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto: Como o Triângulo Rosa se Transformou num Símbolo dos Direitos dos Gays

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Homens Gay usando o triângulo rosa num campo de concentração nazi.

 

 

Quando o mundo assinala o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto (neste domingo, 27 de janeiro), queremos recordar todas e todos aqueles que na comunidade LGBT foram perseguidos pelo regime nazi - e como o triângulo cor de rosa, utilizado para identificar os homens gay ou bissexuais nos campos de concentração, se tornou num símbolo a favor dos direitos dos gays.

 

Quando Adolfo Hitler e o seu Partido Nazi tomou o poder na Alemanha em junho de 1933, a ditadura avançou para a perseguição e assassínio de grupos minoritários, incluindo judeus, pessoas LGBT, o povo cigano e os prisioneiros políticos.

 

Com início em 1933, os nazis construíram uma rede de campos de concentração através da Alemanha, onde os grupos «indesejáveis» eram detidos, incluindo judeus e homens gay.

 

Esta perseguição continuou após o eclodir da Segunda Guerra Mundial em 1939 e, entre 1941 e 1945, o Partido Nazi assassinou sistematicamente seis milhões de judeus europeus - como parte de um plano conhecido como «A Solução Final para o Problema dos Judeus» - em campos de extermínio e fuzilamentos em massa. Este genocídio é conhecido como Holocausto, ou a Shoah em hebraico.

 

Ao todo, cerca de 17 milhões de pessoas, incluindo milhares de homens gays e bissexuais, foram sistematicamente mortos às mãos dos nazis.

 

O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto é anualmente celebrado a 27 de janeiro - assinalando o aniversário da libertação de Auschwitz-Birkenau, o maior campo de morte nazi - e recorda os milhões de pessoas mortas pelos nazis e posteriormente os genocídios no Camboja, Ruanda, Bosnia e Darfur.

 

 

O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto: a perseguição nazi de homens gays e a comunidade LGBT

 

Sob o domínio nazi, as perseguições aos homens homossexuais intensificou-se, embora o sexo gay entre homens fosse já ilegal desde 1871.

 

Estima-se que os nazis aprisionaram mais de 50.000 homens gay, incluindo uma estimativa de entre 5.000 e 15.000 homens que foram enviados para campos de concentração, de acordo com uma pesquisa do historiador Rüdiger Lautmann.

 

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O sistema de classificação utilizado para os uniformes dos detidos - incluindo o triângulo rosa para os homossexuais - no campo de concentração de Dachau, Alta Baviera, no sul da Alemanha.

 

Ainda que o sexo entre mulheres não fosse oficialmente ilegal na Alemanha nazi, as lésbicas foram igualmente perseguidas. Benno Gammerl, leitora em História Queer em Goldsmiths, Universidade de Londres refere que a perseguição às lésbicas é «mais difícil de rastrear» porque elas não estavam incluídas no código penal e não havia categorização específica para as lésbicas nos campos de concentração (embora algumas fossem obrigadas a utilizar um triângulo negro utilizado para mostrar prisioneiros «associais».

 

Do mesmo modo, as pessoas trans também foram perseguidas sob o domínio nazi, incluindo o facto de terem sido enviadas para os campos de concentração. De acordo com o Dia da Memória Transgénero, em 1938 o Instituto de Medicina Legal recomendou que o «fenómeno do travestismo» fosse «exterminado da vida pública.»

 

Mais uma vez, Gammerl reconhece que houve pedidos para uma maior investigação sobre a situação difícil das pessoas trans sob os nazis, afirmando: «Neste momento, simplesmente ainda não sabemos o suficiente.»

 

 

O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto: O triângulo rosa nos campos de concentração nazis

 

Nos campos de concentração nazis, um triângulo rosa era usado para identificar alguns homens gays. Gammerl, que descreve o triângulo rosa como uma «invenção nazi», afirma que «não é perfeitamente clara» a razão pela qual os nazis usaram a cor rosa para esta finalidade.

 

Nos campos de concentração, os reclusos LGBT eram sujeitos a passar fome e a trabalho forçado, bem como a enfrentar discriminação quer dos guardas das SS quer dos outros reclusos.

 

Pierre Seel, um sobrevivente gay do campo de concentração Schirmeck-Vorbrück, perto de Estrasburgo, que faleceu em 2005, lembrava-se de um incidente traumatizante nas suas memórias. Seel escreveu que um grupo de guardas das SS despiram o seu namorado de 18 anos antes de libertarem uma matilha de pastores alemães que o atacaram até à morte.

 

«Não havia solidariedade para com os prisioneiros homossexuais. Eles pertenciam à casta mais baixa,» escreveu Steel no seu livro de 1995 «Eu, Pierre Seel, Homossexual Deportado: Uma Memória do Terror Nazi.»

 

«Outros prisioneiros, mesmo entre si, costumavam fazer-lhes mira.»

 

Os homens gays eram também submetidos a tortura - incluindo a sodomia forçado utilizando madeira - e experiências em seres humanos às mãos dos nazis. Há registos de homens gays a serem obrigados a dormir com escravas sexuais e lésbicas a serem obrigadas a realizar atos sexuais com homens, como uma forma de terapia de conversão.

 

«Não havia solidariedade para com os prisioneiros homossexuais. Eles pertenciam à casta mais baixa.»

— Pierre Seel, um sobrevivente gay de um campo de concentração nazi

 

Ainda assim, argumenta Gammerl que embora «haja uma evidência de que os homossexuais recebiam um tratamento pior,» os registos disponíveis tornam difícil concluir sem margem de dúvida que as pessoas gays eram tratadas, de forma consistente, pior do que os demais reclusos.

 

«É difícil tirar conclusões definitivas sobre o facto de os homossexuais estarem no «fundo» da hierarquia do campo,» afirma.

 

«Todos os reclusos viviam sob a ameaça permanente de serem agredidos ou violados ou ainda mortos pelos guardas e havia ainda a violência gerada entre reclusos, alguns deles sendo certamente homofóbicos.»

 

«Portanto, diria, todos os reclusos viviam vidas horríveis muito para além do que posso imaginar.»

 

Ele realça que, dado que os judeus eram a população predominante dos campos de concentração, «certamente que não podemos afirmar que os homossexuais eram tratados de forma pior do que de facto eram.»

 

«Todos os reclusos viviam sob a ameaça permanente de serem agredidos ou violados ou ainda mortos pelos guardas e havia ainda a violência gerada entre reclusos, alguns deles sendo certamente homofóbicos.»

— Benno Gammerl, leitor na cadeira de História Queer em Goldsmiths, Universidade de Londres

 

Acredita-se que milhares de pessoas LGBT foram assassinadas pelos nazis. Contudo, a documentação nazi muito pobre no que diz respeito às pessoas LGBT tem como resultado que os historiadores têm sido incapazes de calcular uma estimativa exata. Lautmann argumentou que a taxa de morte em relação aos homens gay pode ser tão elevada como 60 por cento daqueles detidos em campos de concentração.

 

Gammerl realça igualmente que alguns judeus e ciganos mortos pelos nazis podem igualmente ter sido identificados como uma minoria sexual ou de género.

 

«Quando falamos em números, é importante não nos esquecermos que parte das pessoas que foram perseguidas por serem judeus, comunistas, sinti e ciganos, ou como membros de outros grupos que os nazis enviaram para os campos de concentração, que um certo número dessas pessoas pode igualmente ter sido de pessoas LGBT,» acrescenta.

 

 

O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto: os homens gays após a Segunda Guerra Mundial e como o triângulo rosa foi reclamado como um símbolo dos direitos dos gays

 

Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, a perseguição aos gays e bissexuais continuou. A atividade sexual entre homens permaneceu ilegal na Alemanha Oriental (ex-RDA) e Ocidental (ex-RFA) até 1968 e 1969, respetivamente.

 

Gammerl destaca que, enquanto as autoridades da Alemanha Oriental eram «mais clementes» em relação aos homens gays, depois da Segunda Guerra Mundial, a perseguição aos homens gays na Alemanha Ocidental era «bastante intensa» nas décadas seguintes com «amplas vagas» de detenções em cidades como Frankfurt.

 

«Homens e mulheres com desejos pelo mesmo sexo tinham de se certificar que viviam as suas vidas de uma forma pouco pública e, para os homens, havia o medo permanente de serem enviados para a cadeia,» explica.

 

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O Parque do Triângulo Rosa em São Francisco (EUA), onde o triângulo rosa foi usado para recordar as vítimas LGBT do Holocausto.

 

Existem também relatos de homens gays a voltarem a ser detidos usando provas obtidas pelos nazis. Durante décadas após a Segunda Guerra Mundial, o tratamento dado pelos nazis às pessoas LGBT passou despercebido em muitos países.

 

Foi preciso chegarmos a 2002 para que o governo alemão tenha pedido desculpa à comunidade gay e anulado as condenações de homens gays e bissexuais sob o regime nazi. Em 2005, o Parlamento Europeu fez passar uma resolução incluindo os homossexuais como parte dos que foram perseguidos durante o Holocausto.

 

De forma incisiva, à medida que o movimento dos direitos dos gays ganhava impulso na Alemanha ocidental, nos anos 70 do século passado, o triângulo rosa começou a ser utilizado como um símbolo para assinalar a história da violência contra os gays.

 

Como gesto de desafio, o triângulo rosa foi reclamado - e frequentemente invertido, com a ponta apontando para cima - como sinal de ativismo gay. Tornou-se conhecido à escala internacional durante os anos 80 do século passado, quando um coletivo de seis pessoas, denominado o Silêncio=Projeto de Morte, usou uma versão invertida do triângulo em posters que o grupo afixou em Nova Iorque para aumentar a consciencialização em relação à crise da SIDA.

 

A ponta do triângulo rosa a apontar para cima foi, mais tarde, utilizada pela AIDS Coalition to Unleash Power (ACT UP) nas suas campanhas durante a epidemia da SIDA. Foi igualmente utilizado em serviços fúnebres para lembrar as vítimas LGBT do Holocausto em São Francisco, Amesterdão e Sydney.

 

Fonte: PinkNews