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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

Enfrentar a homofobia na nossa igreja

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Fotografia de Sharon McCutcheon from Pexels

 

Jesus nunca disse nada acerca das pessoas LGBT. Porém, não é essa a mensagem que muitos cristãos - incluindo alguns bispos católicos - proclamam quando se trata de pessoas que se identificam como LGBT. Recentemente (no passado dia 1 de junho), o Bispo Thomas Tobin de Providence, nos Estados Unidos, tweetou um aviso aos católicos para «não apoiarem ou assistirem a eventos do Mês do Orgulho LGBT durante o mês de junho.» Explicou que estes eventos «promovem uma cultura e encorajam atividades que são contrárias à fé e moral católicas. São particularmente danosas para as crianças.» O Bispo Strickland de Tyler, Texas (EUA), rapidamente confirmou esta afirmação e, mais tarde, tweetou uma objeção em relação ao rótulo de homofobia colocado nos bispos «que falam a verdade acerca do evangelho.»

 

Há vários problemas teológicos e éticos em relação a estas afirmações. A primeira é a de que o Bispo Strickland deturpa o conteúdo dos evangelhos: Jesus não menciona uma só vez as pessoas LGBT em Marcos, Mateus, Lucas ou João. Nem tão pouco ensina Jesus - como erroneamente proclama o bispo Strickland - que a sexualidade humana esteja orientada exclusivamente para a procriação e para a unidade dos esposos (heterossexuais).

 

Outro - e provavelmente mais perturbador - problema é que o Bispo Tobin culpa os eventos do «Mês do Orgulho» por serem «particularmente danosos para as crianças» quando ele, enquanto bispo auxiliar de Pittsburgh (EUA) entre 1992 e 1996 alega que não tinha qualquer responsabilidade em agir para proteger as crianças (e os adultos) quando chegaram ao seu conhecimento os casos de abuso sexual. À luz das 900 páginas do relatório do Grande Júri da Pensilvânia, publicado em agosto de 2018, e outros relatórios subsequentes sobre o abuso generalizado de menores (e adultos) que foram encobertos ao longo das últimas décadas, o Bispo Tobin deveria estar a pedir mais desculpas e perdão do que a julgar. Os nossos bispos ainda têm muito trabalho a fazer na escuta dos sobreviventes de abuso, na cura do seu trauma (bem como daquele da família e amigos) e no lidar com o que é necessário para uma maior transparência, responsabilização e prevenção. Os nossos bispos ainda não responderam à carta aberta assinada por mais de 5000 teólogos, educadores, leigos e paroquianos católicos a pedir por penitência, cura e solidariedade com tod@s vítimas destas falhas clericais ao serviço da igreja. Eles não podem continuar a fingir que nada aconteceu depois de um abuso de poder tão horrível.

 

Um terceiro problema com este tipo de declarações é que elas contribuem para a homofobia nas nossas igrejas. O Catecismo da Igreja Católica afirma, de forma clara, que as pessoas LGBT «Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta.» (n.º 2358). Quando os bispos atacam as pessoas LGBT ou os seus eventos, contribuem para uma «discriminação injusta», dando origem a estigma e vergonha. É profundamente perturbador que 40% dos jovens sem-abrigo, nos EUA, sejam LGBT, muitos dos quais foram rejeitados, renegados, abandonados (e algumas vezes abusados) pela família e amigos. As pessoas LGBT são mais suscetíveis de ser vítimas de violência doméstica e menos suscetíveis de a denunciar à polícia. Como o Pe. James Martin, SJ, referiu, as pessoas LGBT têm cerca de cinco vezes maior probabilidade de tentarem o suicídio. Os assuntos LGBT são assuntos que lidam com vidas. Ser Pró-vida é estar ao lado da dignidade e dos direitos de cada ser humano. Obviamente que isto inclui as pessoas LGBT, feitas à «imagem e semelhança» de Deus (Génesis 1, 26). As pessoas LGBT são filhos amados e filhas amadas de Deus - tal como o somos todos e todas - «maravilhosamente» feitos por Deus (Salmo 139, 14).

 

Ainda que Jesus nunca se tenha referido às pessoas LGBT, o núcleo moral dos evangelhos é claro: misericórdia e solidariedade com todos e todas, particularmente com os e as que se encontram nas franjas da sociedade. Esta mensagem é afirmada nas Beatitudes, no ministério reparador de Jesus junto dos proscritos sociais (como leprosos e outros considerados impuros e, como tal, não merecedores de pertencerem à comunidade) e, particularmente, em Mateus 25, 31-46, onde Jesus apresenta o «julgamento das nações» como contingente em relação ao tratamento daqueles e daquelas em maior aflição. É difícil enquadrar as afirmações dos Bispos Tobin e Strickland com o repetido sublinhar por Jesus sobre o acolhimento, cuidado e apoio aos mais vulneráveis entre nós, a base do princípio da «opção preferencial pelos pobres» no Ensinamento Social da Igreja. A propósito, outro princípio central do Ensinamento Social Católico é a primazia da família como o núcleo basilar da igreja e da sociedade. Imagine-se a dor causada pelos Bispos Tobin e Strickland - e outros bispos e padres que possam dar ressonância a estas afirmações - às famílias e amig@s das pessoas LGBT. As pessoas LGBT são membros das nossas famílias, são amigos e amigas e colegas de trabalho e fazem parte das nossas igrejas. Deveriamos ver essas pessoas como parte de nós, membros do Corpo de Cristo (Gálatas 3, 28), certamente não um «outro» ou uma «outra» para ser julgad@, afastad@, ou denegrid@.

 

Muit@s católic@s veem e acreditam nisto. De facto, uma maioria dos católicos e das católicas batizados e praticantes acreditam que a igreja deveria reconsiderar os seus ensinamentos sobre as pessoas LGBT e sobre as relações, particularmente à luz da saúde mental e bem-estar d@s jovens. Nalguns caos, a percentagem de católicos que apoiam as pessoas LGBT é maior do que na população em geral. O Centro de Pesquisas Pew relata que 61% dos católicos (e 66% dos protestantes) apoiam o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

 

Alguns podem (com razão) assinalar que o ensinamento da igreja não é democrático. Embora o ensinamento da igreja possa mudar e mude ao longo do tempo, deve ser sublinhado que o ensinamento do catecismo de que os atos entre pessoas do mesmo sexo são «intrinsecamente desordenados» (n.º 2357) foi escrito quando a «génese psicológica permanecia amplamente não explicada.» Atualmente, esse já não é o caso. Sabemos hoje que a orientação sexual é uma predisposição genética, tal como a cor dos olhos ou se somos destros ou canhotos. Na verdade, a sexualidade humana é mais complicada do que simples binários e temos de avançar com cuidado quando falamos sobre o significado de sermos humanos.

 

À medida que sabemos mais sobre a complexidade da experiência humana, a partir da psicologia e de outras ciências sociais, deveriamos reconsiderar a nossa abordagem à Escritura e à Tradição, dado que a principal suposição para a maioria da cristandade é que as pessoas LGBT estavam a agir contrariamente à ordem natural (de que o sexo está orientado para a procriação). Por outras palavras, os atos entre pessoas do mesmo sexo eram julgados de forma errada devido à suposição de que estas pessoas estavam a agir contra a sua natureza dada por Deus. Essa é parte da razão porque, nos raros momentos em que os atos entre pessoas do mesmo sexo são mencionados na Escritura, os autores bíblicos condenavam estes atos como pecaminosos. (Deve, contudo, realçar-se que estas referências condenam a prostituição masculina e a violação anal. Os autores bíblicos não consideram os atos sexuais entre pessoas do mesmo sexo agindo de acordo com a sua natureza dada por Deus de amar outra pessoa num respeito mútuo e livre consentimento.)

 

Finalmente, as afirmações dos bispos Tobin e Strickland são problemáticas porque não deixam espaço para a liberdade de consciência daqueles e daquelas que possam pretender assistir aos eventos do Mês do Orgulho ou possam querer mostrar o seu apoio explícito às pessoas LGBT. O Catecismo deixa bem claro que a consciência é o «santuário» para escutar a voz de Deus como o «Vigário de Cristo» (n.ºs. 1776 e 1778). Embora a consciência deva ser informada através do ensinamento da igreja, ela é igualmente uma atividade e um processo que tem a sua origem na razão e na experiência humana - incluindo as experiências do próximo - de modo a procurar o que está certo, verdadeiro, bom e justo. Não compete aos bispos dizer aos católicos leigos e às católicas leigas se deveriam apoiar ou estar presentes nos eventos do Mês do Orgulho, porque os bispos não conseguem antecipar a ação, intenção e circunstâncias daqueles e daquelas que neles irão participar, especialmente aqueles e aquelas que o fazem em consciência, por respeito e amor por um progenitor, filho ou filha, irmão ou irmã, qualquer outro membro de família ou amig@.

 

Cada um ou uma de nós - hétero ou LGBT, leigo, leiga, ordenado ou consagrado - tem a responsabilidade de promover o respeito, a compaixão e a delicadeza para com todas as pessoas, particularmente em relação àqueles e àquelas que mais precisam deles. Os nossos bispos podem e deveriam líderes estes esforços, em particular como resposta ao apelo do Papa Francisco de serem mais como «pastores que cheiram como as suas ovelhas», através do acompanhamento pastoral, da misericórdia e da solidariedade. Contudo, não podemos esperar que os nossos bispos sejam pessoas que imitam Cristo através do respeito mútuo, do convite à inclusão e agentes de uma «cultura do encontro». Uma verdadeira «cultura do encontro» significa ir até às margens - às ruas e aos abrigos, aos lugares de luto e aos de celebração - estar ao lado do próximo e partilhar com ele a vida.

 

De que melhor forma poderemos promover a «revolução da ternura» (Evangelii Gaudium, n.º 88) que nos ajude a construir uma cultura de solidariedade?

 

De que melhor forma poderemos ser o «reparador de bre­­chas» (Isaías 58, 12) no nosso mundo destroçado, ferido e dividido?

 

De que melhor forma poderemos ser testemunhas da «verdade do Evangelho» de que o amor, a misericórdia e a solidariedade deveriam ser alargadas a cada um@ e a tod@s?

 

Fonte: Daily Theology

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